As proposições originais de Moscovici têm sido desdobradas em três correntes, que têm sido colocadas como complementares à Teoria das Representações Sociais - RS: a de Denise Jodelet, mais fiel à teoria original das RS, a de Doise com uma perspectiva mais sociológica e a de Abric que enfatiza uma dimensão cognitivo-estrutural das representações. No entanto, “não se trata por certo; de abordagens incompatíveis entre si, na medida em que provêm todas de uma mesma matriz básica e de modo algum a desautorizam” (Sá, 1998, p.65).
Segundo Sá (1998) das correntes complementares à Teoria das Representações Sociais que já apresentamos, a de Abric foi a única que se chegou a se formalizar como uma teoria, a chamada teoria do núcleo central:
Ela se ocupa mais especificamente do conteúdo cognitivo das representações, mas concebendo-o como um conjunto organizado ou estruturado, não como uma simples coleção de ideias e valores. A proposição de que o conteúdo da representação se organiza em um sistema central e um sistema periférico, com características e funções distintas, é certamente a sua principal contribuição (SÁ, 1998, pp.76-77).
A abordagem estrutural - a Teoria do Núcleo Central foi proposta em 1976, na forma de uma hipótese explicativa da organização interna das representações sociais, proposta por Jean Claude Abric e coletivamente desenvolvida pelo chamado
“Grupo do Midi”, composto por pesquisadores do sul da França. Para Maia (1999), o modelo estrutural é, na realidade, um prolongamento do modelo processual, proposto por Moscovici. Não há dúvida que ele vem contribuir, de maneira fundamental, para a compreensão do processo pelo qual se forma, e, sobretudo, por serem essas representações modificadas, uma dimensão pouco explorada por Moscovici.
Segundo Abric (1994) apud Almeida (2005, p.132): “A organização de uma representação apresenta uma modalidade particular, específica: não apenas os elementos da representação são hierarquizados, mas ainda, toda representação é organizada em torno de um núcleo central, constituído de um ou de alguns elementos que dão à representação sua significação”.
Para Almeida (2005, p.132) a ideia essencial desta teoria é que toda representação é organizada em torno de um núcleo, entendido como o elemento fundante, porque determina sua significação e organização interna. O núcleo central seria composto de um ou mais elementos, mais estáveis, coerentes, consensuais, e historicamente definidos, “cuja ausência destruiria a representação ou lhe daria uma significação completamente diferente” (Abric, 1994 b, p.73).
Mazzotti (2000) aponta que o núcleo central determina ao mesmo tempo a significação e a organização interna das representações sociais, enquanto, os elementos periféricos, constituem a parte operatória da representação, desempenhando um papel essencial no funcionamento e dinâmica das representações.
A representação recebe uma normatização através do sistema central, enquanto o sistema periférico relaciona-a a sua funcionalidade. “O sistema periférico ancora a representação na realidade sócio-histórica do momento, fazendo a adaptação do objeto ao contexto e protegendo o núcleo central de transformações” (CRUZ, 2006, p. 125).
Ocorre o duplo sistema, “central” numa abordagem mais social do contexto e “periférico” com características mais individuais de inserção dos indivíduos em seu meio. Segundo Maia (1999), são três as funções dos elementos periféricos:
Concretização: trazendo para a representação elementos ligados ao contexto; os elementos periféricos dão à representação sua dimensão concreta de acordo com os valores existentes.
Regulação: os elementos periféricos são mais maleáveis que os elementos centrais. Eles contribuem, dessa forma, com a adaptação das representações às novas situações sem que haja, entretanto, uma mudança radical do núcleo central, ou seja, da representação. Mas ao mesmo tempo vão, num dado momento, abrir caminho para a transformação da representação.
Defesa: os elementos periféricos vão proteger o núcleo central de uma perturbação demasiadamente intensa, provocada por situações internas ou externas (MAIA, 1999, p.14).
Mazzotti (2000) apresenta características do núcleo central e do sistema periférico das representações sociais, distinguindo-as entre si. Para a autora: o núcleo central está ligado à memória coletiva e a história do grupo, enquanto o sistema periférico permite a integração das experiências e histórias individuais.O núcleo central é consensual, define a homogeneidade do grupo, é estável, coerente e rígido, resiste à mudança e é pouco sensível ao contexto imediato, enquanto o sistema periférico suporta a heterogeneidade do grupo, é flexível, suporta contradições, se transforma e é sensível ao contexto imediato (p.61).
A teoria do núcleo central tem como hipótese geral para seu estudo experimental das RS, que toda representação se organiza em torno de um núcleo central (elemento fundamental da representação), que, por ser estruturante da representação, tem função geradora (cria ou transforma a significação dos outros elementos da representação) e organizadora (determina a natureza dos vínculos que unem entre si os demais elementos da representação).
O núcleo central é um subconjunto da representação cuja ausência desestruturaria ou daria uma significação radicalmente diferente à representação em seu conjunto. Por outro lado, é o elemento mais estável da representação, o que mais resiste à mudança. Uma representação é suscetível de evoluir e de se transformar superficialmente por uma mudança no sentido ou da natureza de seus elementos periféricos. Mas ele só muda de significação quando o próprio núcleo central é posto em questão.
Entre as características distintas entre o núcleo central e o sistema periférico, destacamos as funções de cada um desses elementos. O núcleo central gera a significação da representação e determina sua organização, enquanto o sistema periférico permite a adaptação à realidade concreta e a diferenciação de conteúdo, protegendo o sistema central (Mazzotti, 2000, p.65).
periféricos é um requisito para compreender a organização das representações sociais, assim como o conteúdo, o significado em termos de campo semântico, como se organizam e em que elas se diferenciam em função de algumas características dos sujeitos.
Ao pretendermos identificar as representações sociais dos estudantes de licenciatura e dos professores em exercício docente na disciplina matemática sobre a “profissão professor”, buscamos ampliar a compreensão de fatos que têm permeado a docência em matemática, através do dizer/falar dos educandos e educadores, mediante o que circula no senso comum, considerando que a marca social das representações sociais expressa-se “nos contextos em que elas emergem, nas comunicações pelas quais circulam”, na interação dos sujeitos com o mundo e com os outros (Jodelet, 1985, p.361 apud Weber, 1996, p. 44).
4.4 Representações sociais sobre a profissão docente e o professor de