2.3 Réponses à des sollicitations inter-plis
2.3.1 Glissement inter-pli
CATEGORIA 4 - VALOR DO TRABALHO
Esta categoria abordou o significado do trabalho e do não trabalho, suas implicações em âmbito pessoal, familiar e social.
Questões como: conhecer os motivos que os fizeram continuar ou não trabalhando, conhecimento da representação do trabalho para a auto-imagem de uma pessoa, segundo a visão dos participantes, bem como a gratificação obtida por meio dele, foram todas abordadas com subcategorias.
Subcategoria 4.1 - Motivo (s) que os fizeram continuar ou não trabalhando
Nosso intuito foi conhecer as razões dos participantes em continuar ou em parar de trabalhar.
Aposentados que continuaram trabalhando
“Ainda porque eu preciso de dinheiro, satisfação pessoal é que não...” ((PM)
O mesmo intensifica o seu real motivo de continuar trabalhando mesmo em uma função que não lhe dá satisfação, o motivo foi financeiro.
“...como você pode ver eu não parei, me aposentei pela SABESP logo depois que voltei da licença e das férias, e continuei trabalhando, parar por quê e pra quê?...” (RG)
O aposentado apesar de aposentado não parou de trabalhar, estava em uma empresa e lá ficou, não havia motivo para que parasse de trabalhar.
Aposentados que pararam de trabalhar
“...Então eu sempre falava, e aí eu falava quando sair a complementação eu paro de trabalhar, eu trabalhando ganhando X e não trabalhando vou ganhar o mesmo X eu pensei o que eu continuarei fazendo aqui, bom fiquei até sair a minha complementação, mas se eu
continuasse naquele depto que eu trabalhava antes, talvez eu não tivesse me aposentado, mas na diretoria o clima era muito ruim...” (A)
O motivo do aposentado ter parado foi o descontentamento com a nova função, motivo este, intensificado pela complementação que passaria a receber, e assim financeiramente o trabalho não mais se mostrou viável.
“ Olha, eu fui meio obrigada, eu não queria parar, mas acontece que o caso da Sabesp é um caso especial, ficou estabelecido que quem era aposentado não podia continuar a trabalhar na Sabesp, eu até tentei ... Eu morria de medo da minha vida se transformar em um tédio” (ML)
A aposentada queria continuar trabalhando mas não lhe foi permitido, senão ela poderia perder sua aposentadoria, pois em sua empresa isso não era permitido.
“Me aposentei porque queria ter uma melhor qualidade de vida, ter mais tempo para cuidar de mim, de minha esposa, eu percebi que deveria ter mais tempo ao lazer, não me dedicar demais aos compromissos, e pensei também trabalhar pra quê? pra quem? Se meu único filho havia morrido, não tinha mais pra quem ser referência de homem sério, trabalhador...” (S)
O aposentado resolveu não mais trabalhar para ter uma vida mais tranqüila e saudável, e também devido ao fato de seu único filho ter morrido, e não existir mais uma pessoa para quem ele pudesse ser uma referência.
Aposentados que pararam e voltaram a trabalhar
“...eu pensei, vou ficar o resto da minha vida só nessa rotina, cuidando de neto, não, não, não, vou fazer alguma coisa, já sei, vou voltar a estudar... eu resolvi fazer direito pela minha inconformação diante de tanta injustiça... eu quis ter meu próprio escritório” (M.A)
A mesma se aposentou e foi fazer faculdade de advocacia, pois queria fazer algo que pudesse ajudar as pessoas com menores condições sócio-econômicas.
“Trabalho é tudo na vida de uma pessoa, é sua essência, a pessoa não deveria parar nunca, parar significa um desperdício, morrer em vida, para que soltar um aposentado? Só se for para morrer mais cedo!” (JRG)
Trabalho para o aposentado significa razão de vida, por isso ele voltou a trabalhar.
“...não dava pra ficar em casa, minha esposa e eu nos damos bem exatamente por isso: cada um tem a sua vida, o seu trabalho, as suas coisas, se eu ficasse em casa o dia todo eu me tornaria um cara tão rabujento e insuportável, com certeza meu casamento acabaria...” (I)
O mesmo voltou para que suas relações fossem preservadas, pois seu casamento poderia ser desfeito caso tanto ele quanto sua esposa não tivessem suas vidas profissionais.
Subcategoria 4.2 - Representação do trabalho para a auto-imagem de uma pessoa
Esta subcategoria buscou conhecer a percepção do aposentado quanto à importância do trabalho para a auto-imagem de uma pessoa.
Aposentados que continuaram trabalhando
“...como o trabalho te ocupa de alguma forma te realiza...”(PM)
A realização é sentida por meio da utilidade obtida através do trabalho, percebida na fala do aposentado PM.
“O trabalho eu acho que é importante na vida de uma pessoa, você precisa dele para atingir alguns objetivos, através dele você consegue coisas fundamentais e a sociedade te reconhece como cidadão.”(A.C.J)
Atualmente o aposentado encara o trabalho como um instrumento para se obter coisas importantes.
“O trabalho é tudo na vida de uma pessoa. Sei de alguns amigos meus que se aposentaram, as vezes a gente se encontra para jogar futebol, lá na Consolação, amigos de mais de 40 anos, uma vez por mês nos reunimos, alguns lá do Brás onde eu morava, a maioria não tem nada pra fazer na vida, acho triste isso...”(RG)
O aposentado atribui sentido à vida através do trabalho, acha a vida sem o trabalho muito triste, compara a sua vida trabalhando com a de seus amigos que não trabalham, acha a vida sem trabalho uma vida vazia.
Aposentados que pararam de trabalhar
“... acho o trabalho um aspecto importante para a vida de uma pessoa, mas não o mais importante, minha auto-imagem não ficou prejudicada após a aposentadoria, me adaptei muito bem a esta vida de não trabalho, pude me dedicar mais a família...” (A)
O fato de ter parado de trabalhar não prejudicou sua auto-imagem, pois o mesmo pode se dedicar à sua família, aspecto da vida bastante valorizado pelo aposentado.
“..., você tem vários ramos de realização e o trabalho é um deles e muito importante, é uma contribuição grande para o mundo, quando eu parei eu senti que minha retribuição eu tinha dado para o mundo...” (ML)
A importância do trabalho para a aposentada é imensa, pois significa uma contribuição para o mundo.
“... pra mim o trabalho dá ao homem uma coisa fundamental a sua existência: dignidade. Confesso que fiquei perdido quando parei de trabalhar, tanto é que até hoje para as pessoas que não me conhecem, se me perguntam se eu trabalho, eu digo que presto serviço de consultoria, eu não digo que sou aposentado, fico constrangido com isso, acho vergonhoso, humilhante mesmo...”(S)
O aposentado pensa que o trabalho oferece dignidade, o não trabalho é sinônimo de humilhação, e de ultraje para sua vida, a ponto de esconder sua não atividade.
Segundo Bauman (1989), no passado não muito distante, o trabalho ocupava um lugar central. O status social do indivíduo dependia do tipo de trabalho que exercia. No início do capitalismo, o trabalho ocupava uma posição essencial, pois ligava a motivação individual, a integração social e administração do sistema. Assim o valor e a dignidade da vida eram aferidos por critérios relacionados ao trabalho e à atitude positiva para com o trabalho. O descrédito moral estava ligado à abstenção do trabalho, que era denegrida e ultrajada como: ociosidade, indolência, preguiça.
Aposentados que pararam e voltaram a trabalhar
“Pra mim é tudo, é minha força de vida, meu estímulo, poder ajudar as pessoas com ele, faz eu me sentir capaz, mais forte ainda...”(M.A)
Para a aposentada o trabalho representa gratificação, fortificação e valorização profissional, mas, sobretudo pessoal.
As diferentes formas pelas quais os sujeitos idosos percebem o trabalho, podem ser ressaltadas pela história de vida de cada um. Entender a história de uma pessoa é também compreender o valor atribuído por ela ao trabalho.
Para algumas pessoas o trabalho é o grande norteador de suas vidas, uma maneira de sentir vivo, participante, para outras diz respeito a um aspecto, a um papel que desempenha assim como tantos outros. Dependendo do sentido atribuído ao trabalho, o período da aposentadoria poderá ser vivido como um período de crise existencial, ou como um momento de libertação. Sentir-se livre das obrigações, dos compromissos com os outros, hora de voltar-se para si próprio.
Segundo Scalon; Araújo (2005) o significado do trabalho na sociedade contemporânea pode ser pensado por três ângulos, não necessariamente antagônicos: como fonte de realização pessoal que pode conferir status e constituir elemento de afirmação econômica, em sua dimensão instrumental, como elemento de apropriação da autonomia das pessoas, na qual a realização se torna secundária, e a necessidade econômica, fundamental, sendo o tempo dedicado ao trabalho ampliado na proporção inversa às possibilidades de ganho para a realização pessoal e como elemento que permanece central na constituição das identidades.