Probl´ ematique et orientations
2.2.2 La gestion des biens en propri´ et´ e commune
O documentário biográfico Cora Coralina: Todas as Vidas (2015)26, de Renato Barbieri, foi livremente baseado no poema Todas as Vidas, de Cora Coralina e no livro Cora Coralina: raízes de Aninha, de Clóvis Carvalho Britto e Rita Elisa Seda (2009). O filme tem como proposta cruzar a fronteira entre a realidade e a ficção na trajetória de vida e obra da poeta brasileira Cora Coralina, mulher que trabalhou como doceira durante vários anos de sua
26 CORA Coralina: Todas as vidas. Direção: Renato Barbieri. Elenco: Camila de Queiroga Salles Camila
Márdila Maju Souza Tereza Seiblitz Walderez de Barros. Roteiro: Renato Barbieri. [S. l.]: Asacine Produções, 2015. 1 vídeo (74 min), son., color. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=NBqBVoBT-4I. Acesso em: 19 jan. 2019, às 19h.
vida, mas nunca desistiu do sonho de publicar seus versos em forma de livros. O longametragem de Barbieri dá ênfase na realização pessoal de Cora, que mesmo com idade já avançada, e após muitos anos de espera, conseguiu se tornar uma das autoras brasileiras mais importantes da sua geração.
O diretor Barbieri recorreu a várias atrizes como Zezé Motta, Beth Goulart, Camila Márdila, Teresa Seiblitz, Walderez de Barros e Maju Souza, para trazer à tela as múltiplas vozes dos poemas e prosas poéticas de Cora Coralina, bem como histórias e momentos da vida da poeta. A roteirista Regina Pessoa reúne momentos documentais e fictícios que combinam encenações e declamações de poemas, entrevistas dos familiares de Cora, estudiosos, críticos e até mesmo declamações de poemas e uma entrevista com a própria Cora Coralina, gravada há vários anos. O longametragem tem uma proposta poética e faz uma viagem na vida e na obra de Cora por meio de recriações imaginárias de sua trajetória literária e de vida.
Um dos entrevistados do filme, o neto de Cora, o Professor Paulo Brêtas Salles, diz: Cora é uma pessoa que traz dentro dela, como ela mesma diz no poema, todas as vidas, e todas as vozes, todas as vozes humanas e vozes da natureza. Todas as vozes da atualidade, todas as vozes do passado, e aquilo que ainda vai nascer. Cora é uma visionária. Cora é uma pessoa que viu muito mais do que está visível pra todo mundo27.
Cora Coralina aborda em sua obra temas sociais que ela defendia e nos quais acreditava. Sua poesia visionária foi direcionada para os excluídos, marginalizados, para os desvalidos - os sem fala, os sem voz. Cora abria as portas de sua casa para acolher a todos, sem discriminações e preconceitos, a exemplo de Maria Grampinho, analisado no próximo capítulo.
A poesia foi a porta de entrada do documentário Cora Coralina – Todas as Vidas, desse modo, a produção artística de Cora foi valorizada. Enquanto a crítica se preocupa com o estilo e a estética dos escritos da poeta, bem como com a sua aceitação e posicionamento entre os cânones da literatura brasileira, este longametragem procurou mostrar por meio de entrevistas e (re)leituras profundas e lúdicas, a essência dos escritos de Cora, seu lirismo e oralidade que trazem registros do passado de um povo, associados à realidade de fatos presentes na sociedade contemporânea. Cora possui uma espécie de faces líricas que, de um
27 SALLES, Paulo B. CORA Coralina: Todas as vidas. Direção: Renato Barbieri. Elenco: Camila de Queiroga
Salles Camila Márdila Maju Souza Tereza Seiblitz Walderez de Barros. Roteiro: Renato Barbieri. [S. l.]: Asacine
Produções, 2015. 1 vídeo (74 min), son., color. Disponível em:
lado são autobiográficas e, do outro, são a representatividade das múltiplas vozes da sociedade, como pode-se atestar no poema Todas as Vidas, do livro Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais (2006, p. 31-33).
Vive dentro de mim uma cabocla velha [...] Vive dentro de mim a lavadeira do Rio Vermelho. [...] Vive dentro de mim A mulher cozinheira. [...] Vive dentro de mim A mulher do povo. [...] Vive dentro de mim A mulher roceira. [...] Vive dentro de mim a mulher da vida.
[...] Todas as vidas dentro de mim: Na minha vida –
A vida mera das obscuras.
A voz que Cora Coralina dá aos seus poemas apresenta, de forma crítica, as diferentes vozes da sociedade. Desse modo, a poética de Cora está vinculada à lírica, porém, isso não a impede de dialogar também com o épico e o dramático. Cora despersonaliza a lírica moderna, e aproxima o seu eu lírico daquele ser excluído e posicionado às margens da sociedade moderna, promovendo, dessa forma, uma multiplicação de “eus”.
Continuando nessa proposta que mostra a atenção e a voz que Cora dispensa às minorias e aos fragilizados, quero destacar outra fala. Desta vez o entrevistado foi o memorialista da cidade de Jaboticabal, Dorival Martins, que ressalta uma campanha social que Cora fez na cidade a favor da proteção dos pobres e necessitados. Segundo o memorialista, essa campanha tomou grandes proporções que chegou a culminar na construção de um asilo chamado São Vicente de Paula. Na oportunidade, a poeta ajudou não apenas com serviços braçais, mas, também, financeiramente e, por vários anos, recolhia roupas e alimentos para eles.
Apesar dos estudiosos entrevistados no documentário não terem usado em nenhum momento o termo “ecocrítica”, é possível observar no longametragem a ênfase dada à natureza e seus elementos presentes nos escritos de Cora. A entrevistada Rita Elisa Seda, que
é uma das autoras do livro Cora Coralina: raízes de Aninha, destacou em sua fala a reverência de Cora à natureza por meio da crônica O Lixo, escrita e publicada pela poeta em jornais de Jaboticabal, no interior de São Paulo. A crônica traz a seguinte mensagem: “Converse você poeta desses tempos novos, converse com as sementes e as folhas caídas que pisas distraído. Você vai sobre rodas e caminhas sobre vidas que o asfalto recobriu. Quem fala essa mensagem é uma mulher muito antiga, que entende a fala e a vida de um monte de lixo”28. Segundo Seda, na oportunidade, Cora havia encontrado um bulbo de uma planta no
lixo, e decidiu levá-lo para casa e cuidar dele para ver que espécie de planta nasceria, e eis que nasceu um belo lírio, que foi sua inspiração.