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Le mod` ele d’exploitation et

6.3.4 Les ´ etats de nature

ergativos ou inacusativos, nomeadamente nascer, morrer, partir, chegar (Mattos e Silva 1989: 444). Estas construções tinham valor activo e indicavam um evento perfectivo (Mattos e Silva 1989, 1994, 2008; Silva Dias 1970; Said Ali 1971). Esta perífrase deu lugar, em Português, a uma outra, agora construída com os auxiliares ter e haver. Mattos e Silva regista que a perífrase ser + PtP permaneceu na língua “pelo menos” até ao século XVI (Mattos e Silva 1994: 62), mas Ribeiro (1996) já tem menos certezas quanto à

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cronologia desta mudança. Por sua vez, Posner (1996) adianta o início da Idade Moderna como o período da língua em que a construção de ser + PtP de inacusativos deixou de ocorrer. A mudança começou a desenhar-se a partir do século XV porque, segundo Ribeiro (1996), verbos que costumavam ser acompanhados pelo auxiliar seer passam a co-ocorrer com teer e aver (Ribeiro 1996: 375). Atente-se em dois exemplos oferecidos pela autora:

(34) onde o Prior com seus irmaãos aviam estomçe chegado (CDJII, Cap. XXXIII). (35) que ja era partido caminho de Samtarem (CDJI, 383 A.D.).

Esta construção perifrástica já existia em Latim Clássico e tinha dois valores: o valor passivo e o valor perfectivo (Vincent 1982: 86). Vincent (1982) observa que o verbo esse era auxiliar perfectivo junto de verbos depoentes de movimento, de localização e posição e de mudança de estado. De acordo com Vincent (1982), estes verbos têm sintacticamente e semanticamente uma semelhança: são verbos de um lugar, i.e., seleccionam um sujeito que recebe o caso “Neutro” (Vincent 1982: 86). Aliás, Vincent (1982) defende que a selecção do auxiliar habere ou esse está intimamente relacionada com a estrutura argumental do verbo. Isto é, para o autor, os verbos que seleccionam um sujeito Neutro, como os de movimento, posição e localização, escolhem esse como auxiliar, e os verbos que seleccionam um sujeito Agente têm habere como auxiliar. Esta relação ainda se pode verificar em Italiano (Vincent 1982: 87,88). O autor entende a evolução das formas perifrásticas entre o latim e os diferentes romances como um

continuum em que o Italiano é o mais conservador e o Português o mais inovador

(Vincent 1982: 96). Este autor também sublinha o século XVI como data para o desaparecimento de ser desta construção (Vincent 1982:96).

Mattos e Silva a partir de uma sua comunicação intitulada A Emergência do «Tempo

Composto» na História da Língua Portuguesa (1996) e apoiada num corpus constituído

por textos do século XIII (O testamento de Afonso II, Cantigas de Santa Maria e o Foro

Real e documentos notariais desse período editados por Clarinda Maia), concluiu o

seguinte a propósito da utilização de ser, estar, haver, ter + PtP (Mattos e Silva 2008: 439):

(i) Selecção prioritária de ser + PP [-transitivo], mas já a possibilidade de haver + PP [-transitivo], documentados nessas últimas estruturas os verbos jazer, dormir, aparecer, e

A perífrase Ser + Particípio Passado

(ii) Concordância do PP com objecto directo nas estruturas haver/ter [+transitivo], mas já a possibilidade de não concordância, documentada no Foro Real e nas Cantigas de

Santa Maria;

(iii) Predominância de haver nas estruturas com PP [+ transitivo], mas já a presença de ter nessa estrutura, no Foro Real, nas Cantigas de Santa Maria e na documentação editada por Clarinda Maia.

Esta conclusões demonstram que a perífrase ser + PtP era predominante em Português Antigo com verbos inacusativos, embora se desenhasse já a formação dos tempos compostos com os auxiliares haver e ter, mesmo junto de verbos inacusativos. Ambar (1996) e Duarte (2003: 513) também reiteram a ideia de que na construção perifrástica em causa, em Português Antigo, ser era um auxiliar de tempo composto de verbos inacusativos, e assumem que frases contemporâneas como Era chegada a

ocasião tão esperada são ecos dessa remota perífrase.

Sobre o desaparecimento da perífrase em causa, que levou à exclusão de ser em construções perfectivas activas, Ribeiro (1996) avança com a hipótese de que ele pode estar relacionado com a perda do traço Locativo nas frases existenciais e locativas (Ribeiro 1990). Nestas, o verbo ser foi sendo substituído por estar; naquelas, foi substituído por haver. A perda do traço Locativo levou à exclusão do verbo ser em frases existenciais, “que requerem um operador Locativo”, o que, consequentemente, abriu caminho para a exclusão do verbo ser como auxiliar temporal nas estruturas perifrásticas (Ribeiro 1996: 376). Relembre-se que, segundo Ribeiro (1996), o verbo seer nas estruturas existenciais e locativas é já um auxiliar temporal.

Marquilhas (2009), acrescentando uma nova proposta à de Ribeiro (1996), sugere que a elisão do constituinte locativo nas estruturas de tempo composto, por não ser obrigatória, poderá ter provocado uma reanálise do verbo auxiliar ser. Isto porque as construções em que o locativo é omitido se tornam estruturas muito vulneráveis a uma reanálise. As novas construções são inovações linguísticas que a criança absorve no processo de aquisição e, neste sentido, está-se perante um cenário típico propício à mudança na gramática: a criança está exposta a dados primários diferentes dos da geração anterior, potenciando uma mudança no parâmetro. Assim, Marquilhas (2009) defende que a frequente elisão desse constituinte terá sido determinante para as crianças entenderem as estruturas sem o constituinte locativo como copulativas, e não como construções de tempos compostos.

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Em suma, o desenvolvimento diacrónico da expressão de existência parece estar intimamente associado com o desenvolvimento do verbo ser como auxiliar de tempo composto. A evolução deste verbo poderá estar relacionada com a perda do traço locativo nessas construções. Todavia, tal como observa Rosa V. Mattos e Silva, ainda hoje a problemática do verbo auxiliar não é consensual, e muito menos o é em relação a tempos pretéritos da língua “sobretudo por ter sido pouco explorado” (Mattos e Silva 1994: 62).

Na sequência desta revisão de estudos, pretende-se analisar os dados recolhidos em Português Antigo. No entanto, embora esta tese tenha predominantemente um carácter descritivo, tentará não perder de vista alguma abordagem explicativa. Neste sentido, pretende-se responder essencialmente a duas questões: (i) até quando é que a perífrase ser + PtP inacusativo se manteve na língua; (ii) terá sido a perda do traço Locativo que provocou a reanálise destas estruturas ou outras causas também conduziram a uma mudança na gramática?

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