5 Supervised Learning for Operational
5.1 Feedforward Neural Networks
Trata-se portanto de fazer do teatro, no sentido próprio da palavra, uma função; algo tão localizado e preciso quanto a circulação do sangue nas artérias, ou o desenvolvimento, aparentemente caótico, das imagens do sonho no cérebro, e isso através de um encadeamento eficaz, uma verdadeira escravização da atenção. […] o teatro deve procurar, por todos os meios, recolocar em questão não apenas todos os aspectos do mundo objetivo e descritivo externo, mas também do mundo interno, ou seja, do homem, considerado metafisicamente. ANTONIN ARTAUD O Teatro e seu Duplo
O ator Eduardo Okamoto, criador do monólogo Agora e na Hora de Nossa Hora, de Campinas/SP, é um intérprete que causa atenção redobrada de quem lhe assiste em sua intensa e fervorosa entrega ao trabalho, que em sua pesquisa chama de Dramaturgia de Ator58.
Minha experiência de ator se mesclava com a de um dramaturgo iniciante e, nesse trânsito, ainda sem definição por uma linha preferida de trabalho, reencontro Eduardo Okamoto, que havia conhecido ainda durante o período de minha graduação, durante a apresentação de Agora e na Hora de Nossa Hora em Atibaia/SP, no ano de 2006. O reencontro se deu pela participação na oficina Dramaturgia do Ator em 2011 e assistindo aos espetáculos Eldorado (2009) e Agora e na Hora, ambos assistidos pela segunda vez.
O conceito de Dramaturgia do Ator se evidenciou em meu corpo como espectador e também ator. Assim, como narrado no espetáculo Sclavi, o sentimento de
58 Na Dramaturgia de Ator, Eduardo Okamoto propõe uma leitura sobre as criações corporais do ator,
segundo ele, “[...] o trabalho não foi escrito por um autor teatral e somente depois levado à cena. Ao contrário, esta dramaturgia se cria no corpo e pelo corpo do ator, na própria cena”. (OKAMOTO, 2007, p.103.)
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contágio foi um dos ângulos que justificam minha escolha como um dos espetáculos excepcionais.
Se em espetáculos anteriores apresentados até o momento nesta lista, havia uma grande conexão entre o grande acontecimento da encenação com o jogo de cena proposto pelos atores, aqui evidencio a grandeza artística e poética na criação de um ator e seu solo.
Talvez, na primeira vez em que assisti a essa peça tenha tomado a consciência do trabalhodo ator de modo integral e sua potência de relação com o público. Recordo ainda, que essa primeira representação assistida ocorreu num contexto de apresentação do projeto Teatro de Tábuas59, como alternativa de ação cultural aos coletivos teatrais de Atibaia. Após a apresentação, um dos responsáveis pelo projeto apresentou a metodologia de trabalho e se mostrou aberto às relações com grupos da cidade e como o impacto do projeto se articularia com o público da cidade e da região.
Figura 4. Agora e na Hora de Nossa Hora. Crédito de Jordana Barale
59 O Teatro de Tábuas “é uma ONG (Organização Não-Governamental) fundada em 29 de julho de 1999,
que atua em todo o território nacional criando e realizando projetos de democratização do acesso à cultura, descentralizando a produção e apresentação de bens culturais.” Disponível em: <http://www.teatrodetabuas.com.br/new/quem-somos/> Acesso em: 20 Ago. 2018.
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Eis que, dentre os relatos dos produtores culturais presentes, um deles afirmou que era inconsistente apoiar peças teatrais como aquela, afinal, um ator seminu e que usa meia dúzia de pedrinhas para uma cena não era condizente com a qualidade do teatro que ele produzia.
O ponto de vista desse produtor cultural era o de alguém que se dedicava a trazer espetáculos comerciais para a cidade, sem artistas locais em sua equipe, promovendo artistas reconhecidos pelo grande teatro ou pela TV, evidenciando as produções do gênero cômico ou peças com temática religiosa.
Aproveito este momento para realizar uma autoanálise de minha experiência com o espetáculo de Okamoto e, sobretudo, evidenciar porque não compartilhava das palavras do produtor citado anteriormente.
Dentre as questões que Dubatti nos coloca para uma autoanálise acerca do espetáculo, ele mostra a importância de ser ancorada na autoconfiança e numa argumentação:
[...] por que esse espetáculo me pareceu excepcional? O que eu vi nele, o que senti? Por que os outros não experimentaram essa excepcionalidade? Tiveram influência, em mim, estímulos externos anteriores? Como explicar onde está a excepcionalidade a quem não a percebeu? (DUBATTI, 2016, p.164).
Com essas questões respondo em larga escala com o ângulo de observação, pelo sentimento de altruísmo60, quais foram as sensações reverberadas em minha percepção como artista e espectador do trabalho sincero e humano de um ator, que utilizava do recurso total de seu corpo e as extensões criativas que o compõem, toda uma complexidade narrativa e, ao mesmo tempo, potente ao máximo, para identificar a nós, sujeitos da recepção, com as figuras representadas por ele na ação.
Em Agora e na Hora de Nossa Hora, Eduardo Okamoto traz o cotidiano de meninos de rua e sua luta interna e externa de sobrevivência. Quando atuava com o
60 Sobre o sentimento de altruísmo, Jorge Dubatti aponta para a “consciência de intransferibilidade da
experiência teatral (uma vez que, se não se participa da zona de experiência, se não se assiste corporalmente ao convívio, não há maneira de compartilhar/transmitir a experiência teatral como acontecimento), sentimos alegria pela companhia dos presentes e dor pela ausência daqueles que gostaríamos que estivessem ali conosco, no convívio [...]” (2016, p. 170).
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corpo seminu – vestindo apenas uma bermuda, um tênis velho e uma camiseta, que também tinha função de máscara – e utilizava a “meia dúzia de pedrinhas”, buscava com signos simples, e muito claros, trazer ao público o cotidiano das ruas e das noites nas quais jovens trocavam suas vidas por pedras de crack, em busca de um reduzido conforto para sua exclusão social.
Na coluna Recortes de Cena, quando escrevi para a ocasião da estreia de Okamoto com o espetáculo OE (2015), observei como a poesia de seus trabalhos “se sustenta na base de um ator criador que é crítico sem ser presunçoso; brilhante com extrema generosidade; um grande pintor que a cada representação desenha imagens surpreendentes e impactantes.”61.