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Application of AutoClass to the FCC Process

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6 Unsupervised Learning for Operational State

6.6 Application of AutoClass to the FCC Process

Os Avá-Canoeiro, povo tupi-guarani do Brasil Central, foram considerados “índios arredios” pelos funcionários do SPI e da FUNAI da década de 40 a 80 do século XX. A temá- tica do seu contato vem sendo amplamente abordada por in- digenistas e estudiosos com distintas orientações teóricas e formações profissionais (ver Silva, 2010). As primeiras publi- cações indigenistas apareceram na forma de breves notícias nos boletins informativos da FUNAI em 1971, 1973 e 1974. Entretanto, deve-se lembrar que relatórios de funcionários que trabalhavam nas frentes de atração já vinham sendo ela- borados desde a década de 40 e que as primeiras informa- ções sobre os Avá-Canoeiro datam da segunda metade do século XVIII quando foram reportados os sucessivos ataques desses índios às vilas implantadas por colonizadores portu- gueses e brasileiros no interior dos territórios indígenas.

O caso Avá-Canoeiro é ilustrativo da perenidade do posi- tivismo como moldura ideológica das ações e políticas indi- genistas no Brasil contemporâneo precisamente pela inter- pretação evolucionista dada à sua situação interétnica nos termos concebidos por Ribeiro. Essa interpretação ampara-se no modo como os Avá-Canoeiro foram descritos por um con- junto de atribuições depreciativas que vêm se perpetuando entre a população regional, em alguns meios de informação e mesmo em textos acadêmicos. Dentre estas, registram-se os termos: “nómades”, “bandidos”, “ladrões de gado”, “im- piedosos”, “saqueadores”, “rapiñadores”, “seqüestradores”, “arredios”, “ferozes”, “obstinados”, “belicosos”, “selvagens”, “cruéis”, “implacáveis”, “aguerridos e inteligentes”, “ariscos”, “errantes”, “bandos”, “ambulantes”, “desconfiados” etc.

Estes não foram termos atribuídos exclusivamente aos Avá-Canoeiro, tendo sido empregados contra incontáveis

outros povos indígenas durante os processos de expansão sócio-econômica no Brasil. O que é digno de nota é a forma particular como estes termos serviram, um século após as guerras punitivas perpetradas contra eles, à implantação de ações indigenistas durante diferentes gestões do SPI e da FUNAI que se mostraram excepcionalmente eficazes para assegurar sua desorganização social e posterior submissão política ao regime tutelar que os classificou legalmente como “isolados”. É a partir dessa categorização que, não por coincidência, os Avá-Canoeiro passam a ser caracterizados pelo que não são e pelo que não possuem.

Os indigenistas Apoena e Denise Meireles, por exemplo, escrevem: “(...) consideramos os Canoeiro um povo em cujo meio a preocupação constante com a obtenção de alimen- tos retardou o desenvolvimento de outros aspectos da cul-

tura”, ou então, “Os Canoeiro não possuem indumentária.

Entre eles não existe uma nítida divisão sexual do traba-

lho” (Meireles e Meireles, 1973-1974, negritos adicionados).

Representações como essas sentenciaram em um tom de denúncia-programática: “...os Canoeiros não podem ser autónomos (…)”, “Os Canoeiro serão transferidos para um local que desconhecem, se tornarão sedentários, quando estavam acostumados a uma mobilidade constante. Eram

caçadores nômades, serão transformados em agricultores ou criadores” (idem, s/p, negritos adicionados).

Na verdade, o termo “nômade”13 para designar a mobili-

dade espacial dos índios diz muito pouco sobre esta em ter- mos etnográficos (Meireles e Meireles, 1973-1974: 38). Nem a percepção, um tanto quanto tardia, de que os Avá-Canoei- ro teriam sido “levados ao nomadismo” pelas vicissitudes do contato interétnico (Pedroso et al., 1990) foi suficiente para reverter a imagem de que, como “caçadores-coletores”, sem

paradeiro fixo e destino incerto, os Avá-Canoeiro deveriam, conforme a cartilha positivista anteriormente vista, ser se- dentarizados e disciplinados pela via de sua transformação em agricultores e criadores. Esta foi a mensagem simples e direta de indigenistas, endossada por antropólogos e res- paldada pela lei, sobre o futuro dos Avá-Canoeiro inferida a partir de sua caracterização como “isolados”.

Na prática, após o contato de pequenos grupos de sobre- viventes Avá-Canoeiro na Ilha do Bananal (anos 70) e no rio Tocantins (anos 80), a vida dos Avá-Canoeiro a partir de seu encontro com os regionais se viu convulsionada não só pela intensificação do convívio junto a sociedades distin- tas, demográfica e culturalmente falando. Para proporcio- nar assistência indigenista aos Avá-Canoeiro foram desig- nados pela administração indigenista moradores regionais ou ex-funcionários das frentes de atração na qualidade de trabalhadores braçais dos Postos Indígenas em cada área e demarcado um território de 38.000 ha na região do alto rio Tocantins em Goiás. A função dos indigenistas seria au- xiliar os índios na abertura de roçados, plantio, colheita e na observação de seu estado de saúde e movimentação, en- quanto a proteção territorial visava assegurar o contato com grupos ainda “isolados” além de servir de base para experi- mentações indigenistas de reunião de grupos Avá-Canoeiro contatados, mas que viviam distantes entre si.

Na verdade, a nomeação de funcionários dos Postos In- dígenas denotava a transição de uma política de “atração” para uma política de “proteção” aos Avá-Canoeiro. Acom- panha essa transição uma reclassificação dos Avá-Canoeiro que deixam de ser “isolados” passando à categoria de “con- tatados”. Conforme esclarece Dominique Gallois:

A passagem para a situação de contactados manifesta-se pela simplificação e banalização dos serviços assistenciais,

dispensando-se ações que se relacionam tradicionalmente com a estratégia da pacificação: diminuição do número de agentes, menor sistematização e menor especificidade dos serviços de saúde e, sobretudo, interrupção da distribui- ção de bens para fins de sedução. Também diminui o con- trole do órgão estatal sobre a presença de agentes externos nas áreas indígenas. (Gallois, 1992: 121)

Sendo assim:

De arredios a isolados, de puros a aculturados, os índios são submetidos a atitudes protecionistas que se transfi- guram rapidamente em intervenções reeducativas. As concepções relativas à fragilidade de sua cultura e à sua marginalidade política orientam uma seqüência de inter- venções cujo objetivo (...) era abertamente “civilizador” e visava eliminar por completo as características do ser indígena. (Gallois, 1992: 130)

Veremos, a seguir, de que modo o sistema classificatório opera no caso dos Tapuios.

A moldura positivista na administração dos

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