9 La formation des formateurs
9.2 Genèse instrumentale, pour qui, pour quoi ?
Obviamente que estas implicações para o jornalismo desportivo trazem também implicações ao nível das rotinas dos jornalistas. “Temos que fazer um trabalho muito mais cirúrgico do que o que fazíamos antes, face à abertura que também havia” é o mote dado por José Manuel Ribeiro acerca deste tema.
No meio deste “trabalho cirúrgico” os jornalistas têm os clubes, através do seu departamento de comunicação, como observadores interessados no trabalho produzido. Os clubes estão atentos aos desenvolvimentos da comunicação social e às notícias publicadas pelo que a resposta é unânime por parte dos entrevistados. Os jornais sentem-se avaliados pelos clubes, até porque os clubes demonstram esse tipo de ação. “Muitas vezes ligam poucos minutos depois das notícias estarem online” confirma o diretor do Maisfutebol Luís Sobral. Sem se alongar Vítor Serpa também confirma esta situação enquanto que António Magalhães certifica este cenário afirmando que o jornal Record também recebe “telefonemas a demonstrar o desacordo com as notícias publicadas”. O director adjunto daquele jornal admite que este seguimento ao trabalho dos jornais acontece “diariamente”. José Manuel Ribeiro, diretor do jornal O Jogo, afirma que “é notório que avaliam e acompanham o nosso trabalho”, complementando o seu raciocínio dizendo que “uma boa parte do departamento dos clubes é criar um sentimento de culpa, um sentimento de dívida nos órgãos de comunicação social”.
Uma vez mais socorrendo-me da experiência do estágio, tive oportunidade de presenciar uma situação que se insere no âmbito das descritas. Depois de uma declaração prestada por um jogador num evento promovido pelo seu clube e nas suas instalações foi feita a notícia das respectivas declarações. Ao longo das declarações aos jornalistas o jogador referiu várias vezes que caso existisse alguma proposta queria sair do clube. Tais palavras merecerem destaque de título e foram mesmo à capa do Maisfutebol, ou seja, durante algumas horas foi a notícia principal do jornal online.
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Poucas minutos depois da notícia ser publicada, sensivelmente meia hora, o editor de serviço trocou vários telefonemas com um dos responsáveis pela comunicação do clube em causa. Numa primeira instância o clube alegava que as palavras do jogador estavam deturpadas na notícia visto que não tinha proferido tais declarações. O editor, em Lisboa, contactou o jornalista da redação do Porto responsável pela notícia para se inteirar da situação. Responsável máximo pela redação, o editor voltou a contactar o clube afirmando que as declarações estavam corretamente transcritas e publicadas de acordo com a gravação áudio da declaração do jogador. A estrutura comunicativa do clube tentou persuadir o Maisfutebol, sem sucesso, a alterar a notícia alegando que o jogador não queria ter dito exatamente aquilo que disse.
Para além do acompanhamento feito ao trabalho dos jornais, os clubes vão mais longe e não se ficam com os telefonemas a dar conta da sua satisfação usando, por vezes, de outros argumentos e atitudes por forma a tentar impor os objectivos da sua comunicação.
Retaliação devido a notícias publicadas é algo que os entrevistados confirmam. “Sentimos retaliações por parte dos clubes” diz António Magalhães complementando a sua ideia dando como exemplo o “barramento de acesso a conferências de imprensa”. Da parte do Maisfutebol o diretor Luís Sobral atesta este panorama recordando: “Já estivemos proibidos de entrar em conferências de imprensa e treinos”. José Manuel Ribeiro não vai tão longe mas ainda assim confirma pressões “muito frequentes de todos os lados de todas as maneiras”. Uma vez mais sem se alongar o diretor do jornal A Bola responde afirmativamente quando questionado sobre esta questão e sobre este tipo de ocorrências.
Como já foi referido, José Manuel Ribeiro acredita que com a profissionalização dos clubes enquanto fonte de informação, o trabalho dos jornalistas tem de ser “muito mais cirúrgico”. No dia-a-dia e no quotidiano de um jornalista desportivo a sua ação junto dos clubes é obrigatoriamente mais pensada e ponderada. Um dos indicadores apontados a este tipo de movimentação dos jornalistas no meio que retratam é o recurso a mecanismos como o “off the record” ou o anonimato das fontes.
Luís Sobral e Vítor Serpa não concordam que os jornalistas estejam mais sujeitos a este tipo de jornalismo pelo facto dos clubes profissionalizarem a sua comunicação. Luís Sobral diz que sempre existiram esses mecanismos não vendo qualquer alteração do seu uso relacionado com a profissionalização dos clubes, enquanto que Vítor Serpa considera “impublicável” aquilo
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que é considerado “off the record”, não escondendo, no entanto, que a informação é “um bem preciso dos jornalistas”. Por sua vez os diretores do Record e de O Jogo são da opinião que estes recursos se tornam uma inevitabilidade face à postura dos clubes. “É natural que, com os clubes fechados ao exterior se use o anonimato das fontes”, diz o diretor adjunto do jornal Record António Magalhães explicando o seu ponto de vista: “os próprios responsáveis pela comunicação dos clubes passam e transmitem informação, mas não se assumem como fonte nem querem ser identificados.” O ponto de vista de José Manuel Ribeiro, do jornal O Jogo, é em tudo semelhante. A dificuldade em obter confirmações oficiais impulsiona este tipo de recursos. “Há uma grande dificuldade, que é obter confirmações oficiais. Há sempre um combate, e por isso é óbvio que somos obrigados a este tipo de recursos.”
Concluindo a análise desta variável, uma declaração de José Manuel Ribeiro é elucidativa do que foi sendo dito. O jornalista e diretor do jornal O Jogo compara o trabalho do jornalista com uma “corrida de obstáculos”. A movimentação do jornalista no meio que retrata e no seu relacionamento com as fontes de informação, ou seja os clubes, é para o diretor de O Jogo “quase uma corrida de obstáculos em que é extraordinariamente difícil, às vezes, ser rigorosos mesmo com pessoas em que confiamos muitíssimo”, nomeadamente quando “nem nas fontes oficiais se pode confiar”.