Impact de la réforme et des mesures
GAIN DE LA RÉFORME PAR TYPES DE MÉNAGES Nombre de
O AnteCanto é esse tempo/lugar, narrativa que precede, frente ao canto. Como uma antecâmara, uma sacristia, antessala ou camarim, o AnteCanto da tese surge como espaço íntimo, onde inspirações transbordam na linguagem, memórias brotam em detalhes, ações encontram motivações e impulsos identificam estímulos que convergem para o estudo do canto em Prometheus - a tragédia do fogo. O significado da palavra “canto” não é único; ao contrário, o termo apresenta variáveis semânticas e transita em plurais combinações. Acolho e submeto o canto como um propósito, uma deliberação que incide de formas diferentes sobre a obra polifônica da Cia. Teatro Balagan. Aceitemos o canto como nossa65 matéria de estudo, sentido66 que coloca em relação os diversos significados.
O canto, em suas múltiplas designações, comporta o tema da tese: o canto como ação vocal (física) verbal e não verbal – voz/palavra/discurso/ato narrativo; o canto como palavra cantada, em seu princípio poético, em sua oralidade, vocalidade e performance na cena teatral; o canto como composição musical apreendida através da experiência direta com os
cantos de tradição, na particularidade dos cantos sagrados, na exploração dos cantos polifônicos. O canto é o cruzamento das muitas vozes na cena polifônica da Cia. Teatro
Balagan. O canto é a própria poesia. Enquanto gênero, é lírico, épico e dramático. O canto é a narrativa. O canto é a ação, é o mito/história/conteúdo narrativo. O canto é veículo, entrada no mundo possível da ficção, passagem para o universo mítico, acesso ao imaginário. O canto é linguagem e encanto, e traz em si sua própria transcendência.
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Utilizo o pronome “nossa” como um convite ao leitor. O que escrevemos ou lemos passa, de forma subjetiva, a nos pertencer. Nesta narrativa, primeiramente me apresento na primeira pessoa do singular, mas, também, na primeira pessoa do plural, conforme enunciado nas considerações iniciais e explorado na sequência. Transito entre vozes, intencionalmente.
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Louis Hjelmslev entende por “sentido”, a matéria ou a substância, na medida em que são assumidos pela forma semiótica com vistas à significação (GREIMAS, A. J. e COURTÉS, J.. Dicionário de semiótica. São Paulo: Cultrix, 1979, p. 443).
O estudo do sentido da palavra, feito pela semântica, comporta os aspectos cognitivo e afetivo. Nossa compreensão também passa pelas experiências e sentimentos, e a significação de uma palavra implica sua conotação, relativizando-se ao que ela pode sugerir, implicar, ampliar, surpreender, desdobrar. Se, por um lado, o léxico da obra e seus significados poderiam denotar um arranjo rígido e estático, fechado em seu sistema, por outro, é na aceitação e abrangência plurissignificante das palavras no discurso da arte, do teatro, do mito posto em cena em seus processos dinâmicos, revelando possibilidades metafóricas, potencialmente infinitas na linguagem poética da cena teatral, que busco descobrir e construir sentidos na escrita em seu devir.
Como em uma introdução, estou me preparando para entrar, concatenando ideias, abrindo livros, limpando mesas, estudando, sobrepondo teorias, fazendo escolhas em todos os níveis, recorrendo aos conhecimentos e sabedorias do caminho, visualizando territórios, encadeando pensamentos, estruturando formas e conteúdos, mas, também, deixando as lembranças chegarem até mim, todas essas que passam pela experiência do corpo, essas sensações e impressões tão físicas e tão espirituais. O espaço desta narrativa está sendo preparado. É preciso respirar e deixar fluir energias. A linguagem apresenta-se. Para assegurar continuidade, progressão e coesão dos enunciados, procuro trazer comigo agulha e linha imaginárias67, para suturar rasgos de conexão e performatizar fragmentos.
Além do material subjetivo de costura, evidencio, neste AnteCanto, aspectos prefaciais: apresentações, desenvolvimento dos processos de criação – o entorno do espetáculo e da companhia –, o passado desse teatro, formulações entre os limiares das áreas, aproximações, justificativas, objetivos, abordagem de alguns conceitos68, concepções, modos de ver e outros devaneios69. Direciono meu foco para o corpus; entretanto, melhor seria falar em visão multifocal, devido ao fato de que é a partir do canto, que incide de modos diversos sobre o corpus, que encaminho e desenvolvo a tese. Por outro lado, o espetáculo – obra de arte – também se revela multifacetado, e cada uma de suas faces tem seu canto70. Este
AnteCanto é o lugar propício para chamar à presença. Apresento a tese:
67 Convido o leitor a coser comigo os textos/tecidos e a jogar com as metáforas que nos “poetizam” no caminho. 68
Para a construção de uma teoria, há que se respeitar a fase conceitual. Aporto os termos “concepções e modos de ver” lembrando o sentido conotado, que se opõe ao conceito denotado. Ambos são aspectos do sistema de significação. É pela conotação da palavra que o sentido varia segundo os valores contextuais.
69 Utilizo a expressão no sentido em que Gaston Bachelard a compreende. O autor segue comigo, e tem seus
momentos de fala. BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
70 O canto aqui pode ter ainda outros significados: o canto como um ângulo ou, uma “pedra de cantaria” – assim
Palavra encena ato em canto; palavra em cena, ato encanto:
uma leitura da poética da Cia. Teatro Balagan em Prometheus - a Tragédia do fogo.
Com o título, dou o ponto de partida para escritura e leitura. No sintagma de identificação da tese, evidencio o objeto de análise: a obra teatral Prometheus - a Tragédia do
fogo; o objetivo a que me proponho: uma leitura da poética da Cia. Teatro Balagan; e, no jogo
fônico-semântico, brinco com as palavras ao expor os elementos que aponto como chaves de leitura e indicadores de conteúdo – palavra, encena (verbo encenar), ato, canto, cena, encanto. A composição de termos por afinidade de sons é intencional, e implica reação sensorial. A combinação por analogia dos acidentes gramaticais – figura de dicção chamada calambur, que agrupa as palavras de modos diferentes, mudando-lhes o significado – implica regularidade de sons e certo estranhamento semântico: Palavra encena ato em canto; palavra em cena, ato
encanto. Estando as sentenças incorporadas ao entendimento, passo às apresentações.
Apresentar é tornar presente, é trazer à presença. Para este encontro – escrita da tese – chamo a presença da equipe de criação de Prometheus - a tragédia do fogo. O espetáculo é orquestrado pela diretora Maria Thaís Lima Santos, que assina a encenação. A dramaturgia é de Leonardo Moreira; cenografia, Márcio Medina; direção musical, Gregory Slivar. Assinam o figurino: Carol Badra e Márcio Medina; iluminação: Fábio Retti; adereços: César Santana; produção executiva e administração: Deborah Penafiel; diretor técnico e operação de luz: Bruno Garcia; direção técnica: Maurício Coronado; produção executiva Norma-Lyds. Chamo toda a equipe de criação, juntamente com os artesãos, criadores dos instrumentos musicais, ceramistas, costureiras e demais envolvidos, todo um coletivo que está dentro e fora de cena com um super objetivo em comum: a construção da cena teatral. Este “lugar do poético” passa a ser um “mundo possível” através do elemento vivo em ação na cena: o ator/autor/criador. Ao nomear, invoco: Ana Chiesa Yokoyama, Antonio Salvador, Gisele Petty, Gustavo Xella, Hilda Gil, Jean Pierre Kaletrianos, Leonardo Antunes, Martha Travassos, Natacha Dias, Wellington Campos e Vera Monteiro71.
71 Chamo para a escrita desta tese todos os atores, cada um em especial, cada membro da equipe de criação, e
todos os envolvidos dentro e fora da cena da Cia. Teatro Balagan. Convido cada um, a quem nomeio, a estar presente comigo. E nesta chegada, recebam minha admiração, meu respeito e abraço amigo. Os agradecimentos vêm a contento e com muito afeto.
Na criação de Prometheus - a tragédia do fogo, as funções da equipe encontram espaços de transição, ora os atores são propositores de materiais para a dramaturgia, ora a direção provoca-os à pesquisa de composição do espaço, ora pessoas de fora da cena dialogam com os estudos, apontando escolhas que interferem na composição. Nesta obra, o entendimento sobre os saberes, as maestrias que atuam no trabalho cênico (direção, dramaturgia, atuação, iluminação, música, etc.) dizem respeito não tão somente ao autor designado, mas à especificidade de sua arte na composição de um trabalho que é múltiplo e comum72.
O texto acima mostra como se configuram as relações artísticas no processo de criação da companhia; expõe quão longa e profunda é a pesquisa das matérias e quão fundamental é o diálogo de todos os envolvidos na criação do trabalho que compreende a reelaboração contínua dos elementos que geram a cena. A multiplicidade de vozes, no processo de criação, revela os muitos autores da cena, que é regida73 pela encenadora pedagoga Maria Thaís. Os diversos enfoques do mito de Prometeu, as plurais questões que concernem ao âmbito do trágico, as diferentes linguagens que se cruzam no teatro, recebem encaminhamento à cena teatral, respeitando a arte da composição, conduzida pela arte da pesquisa, e governada pela arte das estruturas cênicas.
As abordagens evidenciadas nos ensaios em publicação do Teatro da Universidade de São Paulo - TUSP, no primeiro semestre de 2013, e dedicadas ao espetáculo – Cadernos
aParte 1, Dossiê tragédia74 –, focalizam temas e processos da criação, garantindo espaço teatral em espaço de escrita. O livro-dossiê apresenta textos que tratam da temática e princípios norteadores do processo criativo do espetáculo Prometheus, assim como questões que giram em torno do tema do mito, da tragédia e do trágico. Os distintos enfoques dos autores convidados apontam a riqueza de leituras possíveis sobre o mito e a peça teatral. Para o fácil ingresso aos conteúdos e documentos, contamos com a funcional arquitetura do site da Balagan75, onde a companhia apresenta seu trabalho, história, casa, integrantes, pesquisas, espetáculos, publicações e agenda. Nos registros, encontramos relatos dos processos e procedimentos, matérias e ações empreendidas. Neste domínio, temos entrada nos hipertextos e acesso aos cadernos pedagógicos.
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A citação é um texto parateatral que se encontra no programa do espetáculo.
73 Tomo emprestado do ambiente musical o verbo “reger”, visualizando uma orquestração de vozes.
74 FRATESCHI, Celso (Coordenador editorial); SANTOS, Maria Thaís; RODRIGUES, Antônio, COELHO,
Maria Cecília, et al.. Cadernos à parte. Dossiê Tragédia. São Paulo: PRCEU/TUSP, 2013. No intuito de facilitar a identificação em nota de rodapé, apresento comoDOSSIÊ TRAGÉDIA. São Paulo: PRCEU/TUSP, 2013.
Inumano-Trágico – Do Inumano ao mais-Humano é o caderno pedagógico
concernente a Prometheus - a tragédia do fogo, o qual será abordado no próximo capítulo. Outro caderno também referente ao espetáculo chama-se Itinerância, um caderno de viagem76. A Cia. Teatro Balagan77 viaja por várias cidades do sudeste e nordeste do Brasil, apresentando o espetáculo, ministrando oficinas e realizando trocas com importantes companhias, como o Bando Teatro Olodum (Salvador), o Grupo Imbuaça (Aracaju), o Grupo Piollin (João Pessoa), Clowns de Shakespeare (Natal), entre outros. Escrita por seis mãos, três atores balagans – Antônio Salvador, Natacha Dias e Gustavo Xella – entregam em escrita os seus olhares para nossa escuta. As perspectivas se complementam em diferentes enquadramentos e percepções, em cuja composição nos permite ouvir as distintas vozes, e, através delas, visualizar espaços físicos e artísticos, encontros, experiências e vivências de cada cidade, cada lugar, cada teatro narrado. Os relatos esclarecem aspectos e detalhes que reconhecemos na cena. Contudo, o caderno de viagem vai muito além do simples registro para conferência de dados. As histórias das viagens se mantêm vivas graças a essas narrativas, próprias para serem lembradas nesse AnteCanto, nesta sala de encontros, pois, referenciando, dou a conhecer, ou mesmo, indico o entorno itinerante e poético de Prometheus.
Um aspecto que distingo diz respeito às camadas textuais a que me refiro ainda nas considerações iniciais. Mesmo após a estreia, há textos que ainda se sobrepõem, mesmo que sejam ajustes, novos dados, elementos revistos junto aos atores, técnicos e direção. Após as apresentações, há quase sempre um acordo, uma adaptação, aspectos a serem revistos ou retomados para a apresentação seguinte. Na narrativa dos atores, escutamos de suas letras sobre os elementos que se incorporam a partir da experiência. A matéria do teatro é viva e o espaço é revelador de como o ator lida com a sua voz em dimensões espaciais diversas, de como o corpo do ator reage em espaços novos e suas condições, mas, sobretudo, o como se dá esse encontro com o espectador. Seguidamente, têm-se um ajuste, um bordado, uma costura, dobradura nova nesse tecido/texto78 da encenação. Mesmo que não aja nenhuma mudança direta no texto espetacular, sabemos que vivências e conhecimentos em processos itinerantes continuam a estofar, nutrir, aprofundar, sustentar outros textos e subtextos.
76 Disponível em::< http://www.ciateatrobalagan.com.br/cadernos-pedagogicos>. Acesso em: 10 maio 2014. 77
Contemplada pelo Prêmio Procultura de Estímulo à Dança, Circo e Teatro 2010, entre julho de 2012 e fevereiro de 2013, a Cia Teatro Balagan viajou e se apresentou por sete cidades de seis estados diferentes – duas cidades do Sudeste (Belo Horizonte e São João Del Rey) e cinco capitais do Nordeste (Salvador, Aracajú, Maceió, João Pessoa e Natal).
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A palavra “texto” deriva do termo em latim textum, que significa “tecido”. A metáfora do bordado, costura e dobradura faz referência ao cuidadoso trabalho artesanal, delicado e pontual, consagrado aos tecidos/textos nesse tear da encenação da Cia. Teatro Balagan.
A Itinerância expressa condição e ato daquele que é viajor, e evidencia, com propriedade, o talento genuíno da Balagan para as viagens, andanças, deslocamentos, mudanças de lugares e de caminhos. A companhia privilegia as trocas artísticas, e apresenta seu teatro balagan por outras feiras79, levando seus cantos e aprendendo outros por esses cantos do Brasil80. Efetiva, em forma movente, uma ação poética por onde passa.
Outros dois cadernos pedagógicos, diretamente ligados à Prometheus, também abrem suas portas/páginas para livre entrada: Do Inumano ao mais-Humano – inumano-Natureza81 e
Trágico-animal82. Esses cadernos/estudos, reflexões de uma prática, registros de criação, aportam sustentação para a tese, também como documentos descritivos83. No entanto, é preciso considerar que os discursos, seguidamente, reelaboram esteticamente as experiências artísticas dentro e fora de cena, método, ao mesmo tempo, empírico e reflexivo.
Na sequência, temos a criativa e desassossegada84 publicação do livro Balagan:
companhia de teatro85, lançado em 2014. O livro-objeto não tem páginas numeradas e não define ordenação de leitura86. Como um mapa, o livro da Balagan se dá a conhecer em representação espacial, através de uma cartografia (do grego: "mapa" + "escrita"). Não há hierarquia de autores e conteúdos. As coordenadas são dadas, mas o percurso de leitura é apenas sugerido, pois se abre a caminhos próprios. Maria Thaís, organizadora desse “Sonho”, apresenta o livro como um balaio de plicas – um balaio de mapas.
Um mapa constrói um território e sugere uma exploração física e conceitual por parte de quem lê, análoga à condição de um artista-caçador que, ao adentrar novas veredas criativas, necessita de guia e de mapa87.
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Lembro que a palavra “balagan”, em russo, também significa “feira de rua” e “teatro de feira”.
80 A Cia. Balagan viajou por outros cantos (estados) do Brasil. Contemplada no programa de circulação da
Petrobrás (2012), a companhia realiza em janeiro e fevereiro de 2014, uma turnê pelos estados de Santa Catarina (em Itajaí, Joinville e Blumenau) e Paraná (Londrina e Paranaguá).
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Disponível em: < http://www.ciateatrobalagan.com.br/cadernos/cadernos-inumano/> Acesso em: 15 maio 2015.
82 Disponível em: <http://www.ciateatrobalagan.com.br/cadernos/cadernos-o-tragico-e-o-animal/>. Acesso em:
15 maio 2015.
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Os cadernos pedagógicos não têm numeração de páginas. No uso de citações, dou o número da página referente em sua sequência.
84 A adjetivação encontra ressonância no livro de Fernando pessoa, O Livro do desassossego. 85
BALAGAN, Cia. de Teatro, SANTOS, Maria Thaís Lima (Org.) e MACHADO, Alvaro. Balagan: companhia
de teatro. São Paulo: Cia Teatro Balagan, 2014. s/p. O livro tem o patrocínio da WheatonBrasil, com recursos
aprovados no Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, pela Lei Proac-icms, e do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo.
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O projeto visual do livro-objeto é de Luciana Facchini.
87 BALAGAN, 2014, loc. cit., [Sonhos]. A citação encontra-se no mapa Sonhos. Na sequência da tese, sigo o
O livro-mapa é subdividido por cores e seis temas: Espaço, Narrativa, Figurino e
Objeto, Voz e Verbo, Ator e Sonhos, além de um último mapa, Percursos, contendo as fichas
técnicas dos espetáculos e projetos. O livro-mapa, livro-objeto88, criado para celebrar os quinze anos da companhia, é também um livro-corpo, enquanto “lugar privilegiado de experimentação do mundo, como campo relacional, lugar de encontros, de existências”89. Os artistas/criadores/autores, em relações dinâmicas com diversas matérias, conectando diferentes áreas de conhecimento aos processos de criação, revelam as múltiplas vozes criativas que compõem a cena polifônica Balagan.
Na companhia vislumbramos cada artista e cada matéria de trabalho como um corpo particular, uma perspectiva que, na diferença, compõe a polifonia de corpos chamada Balagan. E almejamos que nossas criações se estruturem do encontro desses corpos, da polifonia gerada pelas diversas vozes criativas (MT)90.
Por meio das plicas91, mapas que se dobram e desdobram sobre si, somos convidados, nós, leitores, a desvendar os caminhos possíveis de leitura. A experiência é inquietante e passa, obrigatoriamente, pelo corpo, exigindo mobilidade na manipulação do material. Uma dinâmica é requerida, não somente pela apresentação em plicas e pela diagramação que responde, tanto em dimensões horizontais, como verticais, mas, também, pela pluralidade de enfoques e perspectivas, diversidade de conteúdos, amplitude e abrangência das histórias e vivências balagans, desde suas concepções e origens. Quase todos os textos têm autoria múltipla, e os autores são identificados por siglas. Soam, quase que anônimos, nesse território híbrido de conteúdos, imagens, cores e texturas. Os temas são complexos, e diferentes áreas de conhecimento dialogam com as criações. Os projetos de pesquisa se imbricam, assim como as peças teatrais, de modo que se sobrepõem em parte umas às outras. Como se um espetáculo contivesse o outro, como se um texto pudesse entrever outro, de forma que as encenações reverberam entre si, e em seus processos se reconhecem em seu conjunto, mesmo tendo seus princípios redefinidos a cada obra. Entre os mapas, assim como entre os espetáculos, podem- se reconhecer as redes – e os cantos desta rede – que estruturam a poética do Teatro Balagan.
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O livro-objeto extrapola o conceito de livro, e adquire o estatuto de objeto de arte. O livro da Balagan apresenta-se como objeto de percepção, como obra artística visual. O livro-objeto é um espécime único, pois rompe com os formatos conhecidos, buscando sua identidade na produção imagética.
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BALAGAN. Balagan: companhia de teatro. São Paulo: Cia. Teatro Balagan, 2014, [Sonhos].
90 Idem, ibidem, [Sonhos]. MT é a sigla de Maria Thaís, que assina o texto Um balaio de plicas. 91 O termo procede do latim, do verbo plicare. Plicas seriam, então, dobras, dobraduras.
Os mapas-livros imbricam-se92, assomando uma poética que cobre o conjunto da obra da Cia. Teatro Balagan. Uma poética que se reconhece, também, nas imagens que se desdobram em “sanfonas”. A correlação imagética com o instrumento musical dilata percepções e ativa combustão. Estamos diante de um artefato, que se contrai e expande, um fole, um sopro que fricciona cordas, que fricciona vozes, que fricciona imagens. O material fotográfico é sempre um olhar em perspectiva e se mostra amplo e profundo ao focalizar múltiplas extensões que abrangem da cena ao campo, das aldeias aos igarapés, que se imiscui em detalhe de peles e olhos para se projetar em cenários e paisagens. Muito são os artistas que compõem e/ou colaboram com a obra. Tantos estão presentes no Balagan: companhia de
teatro. E são vozes, em suas diferenças sonoras, verbais, rítmicas, melódicas, tônicas, em suas
distintas cadências, timbres e potências. E são vozes93, em seus diferentes discursos, pontos de vista, ideologias. Enfim, diferentes linguagens, gêneros, fazeres.
O “fazer” revela o modo de ver, compreender e agir na vida, no mundo e na criação artística. No livro, temos muitas narrativas, múltiplas perspectivas e focalizações, mas a presença dos narradores é uma constante. Artistas, atores, criadores narram o seu fazer, suas produções, sua práxis, processos de criação, narram juntos e separados. O importante é esse narrar/contar/cantar histórias, andanças, experiências de viagens e descobertas, como alguém que vem de longe, mas também esse contar/cantar os seus fazeres e artesanias, como alguém