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dos regimes totalitários, forma esta expressa no adestramento dos comportamentos e na padronização do pensamento coletivo tornado uno e majoritário. Arendt denomina este ímpeto totalitário do social por ―conformismo‖, isto é, o nivelamento e a padronização do comportamento dos súditos associado à homogeneização das opiniões e do pensamento. Para ela, o social almeja que todos os membros de uma sociedade convirjam para ―o interesse comum e a opinião unânime‖. Em razão deste ímpeto de padronização, a sociedade e o social excluem a possibilidade de ação de modo que o comportamento possa substituir e eliminar a ação como forma singular das relações humanas. Assim os homens tornam-se seres sociais, isto é, comportam-se. Sobre este caractere do social Arendt enfatiza que:
O decisivo é que a sociedade, em todos os seus níveis, exclui a possibilidade de ação, a qual outrora era excluída do lar doméstico. Ao invés da ação, a sociedade espera de cada um dos seus membros certo tipo de comportamento, impondo inúmeras e variadas regras, todas elas tendentes a ‗normalizar‘ os seus membros, a fazê-los comportarem-se, a excluir a ação espontânea ou a realização extraordinária. [...] [Com] o surgimento da sociedade de massas [...] vários grupos sociais sofreram a mesma absorção pela sociedade que as unidades familiares haviam sofrido antes; com o surgimento da sociedade de massas o reino do social atingiu finalmente, após séculos de desenvolvimento, o ponto em que abrange e controla, igualmente e com igual força, todos os membros de uma determinada comunidade. (Arendt, 1998, p.41; 2011, p.49)
Ambos, a sociedade e o social, exigem o comportamento dos membros, a normalização das condutas, e assim excluem a ―ação espontânea e a realização extraordinárias‖. As convenções comportamentais, por sua vez, equacionam os indivíduos ao comportamento conforme a posição na estrutura social. Por todas estas razões — a imposição do comportamento, o nivelamento das opiniões e a abolição da ação — o social atinge sua perfeita realização na sociedade de massas quando vários
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grupos sociais são dissolvidos numa unidade de vozes, de interesses comuns e numa visão unicista de mundo. Nesta sociedade de massas, o comportamento pressupõe o adestramento animal do homem como animal laborans mediante a mobilização das estruturas psíquicas primitivas da obediência. Com a imposição da obediência comportamental o social almeja o ideal político da uniformidade estatística e científica de uma sociedade ―inteiramente submersa na rotina da vida cotidiana‖, de modo que os súditos aceitem ―pacificamente a concepção científica inerente à sua própria existência‖. Por ter este ímpeto totalitário, o social não tolera o não-comportamento, a desobediência excêntrica, o desvio social, sobretudo porque almeja a uniformidade estatística como ideal científico-político. Segundo Hannah Arendt, quanto maior for a população de um corpo político maior é a possibilidade de que o conformismo do social e suas demandas se imponham sobre o público. Daí que o social seja um fenômeno próprio dos grandes corpos políticos. Em resumo, o caráter totalitário do social pode ser testemunhado no triunfo da sociedade que se organiza a partir de uma engenharia social do comportamento uniformemente adestrado; tal adestramento se dá pela instrumentalização das necessidades laborais, entre os pobres, e pela conspicuidade do consumo, entre os ricos (o que Arendt denominará em On Revolution por ―paixão por distinção‖). De todo modo, o adestramento mais visível e passível de predição é a obediência ao dinheiro, definido na economia política como o comportamento racional do homo oeconomicus, aquele ser social que cultua ―a religião do capitalismo‖ (Benjamin, 2013). Finalmente, o social, a despeito de aparecer aos seus beneficiários com o discurso da igualdade social, impõe, com suas técnicas de adestramento comportamental e experimentação pública, a máxima assimetria possível entre governantes e governados. E o pináculo de tal assimetria é o Estado totalitário. É o que Arendt assinala no seguinte passo:
O objetivo último de todos os governos totalitários não consiste apenas na ambição ostensiva de confiscarem a longo prazo um poder global, mas também na tentativa nunca confessada e contudo realizada no campo de dominarem completamente o homem. Os campos de concentração são os laboratórios de uma experiência de dominação total e, sendo a natureza humana o que é, semelhante objectivo só pode ser atingido nas circunstâncias extremas de um inferno de fabrico humano. A dominação completa consuma-se quando a pessoa humana, que é sempre uma mistura particular de espontaneidade e de condicionamento, é transformada num ser inteiramente condicionado cujas reações se podem calcular, ainda quando esteja a ser conduzido a uma morte certa. Esta desintegração da personalidade efectua-se em várias etapas: a primeira situa-se no momento da prisão arbitrária com
135 a destruição da pessoa jurídica e isso, não devido à injustiça constituída pela detenção, mas porque a detenção não tem qualquer relação que seja com as acções ou as opiniões da pessoa detida. A segunda etapa da destruição diz respeito à pessoa moral e opera-se por meio da separação entre a pessoa e o resto do mundo, uma separação que torna o martírio desprovido de sentido, vazio e ridículo. A última etapa é a destruição da própria individualidade e efectua-se por meio da permanência e da institucionalização da tortura. O resultado final é a redução dos seres humanos ao denominador comum mais baixo possível das «reacções idênticas» (Arendt, Compreensão e Política e
Outros Ensaios, 2001, p.156-157).65
O social atinge sua perfeita realização não apenas na sociedade de massas, mas também nos campos de extermínio e concentração. Para Arendt, a instituição destes é um fenômeno inesperado e sem precedentes o qual nos permite compreender adequadamente a política e a sociedade contemporâneas tendo em vista que, tantos os campos quanto a ordem social moderna, desenvolveram-se e realizaram-se segundo uma perspectiva experimental da condição humana, perspectiva esta cuja finalidade é fabricar instituições e impor sobre os homens a dominação absoluta de suas ações transformadas em comportamento adestrado. Embora os campos não tenham lugar na memória da história humana, a experiência social que neles se encerrou é reveladora do modo animalitas como a modernidade concebe a condição humana.
Arendt analisa a instituição dos campos de concentração e extermínio a partir de duas perspectivas: (i) a perspectiva interna que examina as condições sociais em vigor no interior dos campos; (ii) a perspectiva externa que examina a função dos campos no quadro maior do aparelho de terror dos regimes totalitários. Da perspectiva interna, os campos não são instituições penais povoadas por indivíduos acusados de cometer crimes, tampouco são lugares para punir opositores políticos e inimigos dos regimes totalitários. Contrariamente, os prisioneiros preferenciais dos campos são as pessoas inocentes, em geral, completamente subjugadas pelo regime de terror instituído. Arendt assinala que, quanto mais inocentes eram as vítimas (judeus, polacos e ucranianos), mais passíveis de assassinato elas se tornavam, ao passo em que os criminosos se demonstravam mais resistentes e adaptáveis à sanha assassina dos carrascos e à vida miserável nos campos. Quer dizer, os campos não são instituições que visam neutralizar a oposição ou purgar os crimes políticos dos inimigos do regime.
Por outro lado, internamente os campos não tinham fins produtivos. Prova disso é que os ―trabalhadores‖ eram assassinados sem que tivessem qualquer utilidade
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Parte da descrição dos campos de concentração e extermínio, assim como esta citação, foi extraída da
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produtiva. A fome e os maus tratos sistemáticos impossibilitavam que tais prisioneiros trabalhassem em algo útil ou produtivo para benefício do regime ou da economia de guerra. Neste aspecto, a instituição dos campos pelo regime totalitário nazista revela que o objetivo do governo não era ganhar a guerra, tampouco explorar o trabalho dos prisioneiros, mas tão somente instituir uma política de extermínio, ainda que a execução desta incorresse em dispêndios desnecessários ou em prejuízos para a economia de guerra alemã.
Daí a perspectiva externa que examina a função dos campos para o aparelho terrorista totalitário. A instituição dos campos não trazia benefícios de qualquer ordem para o governo nazi, contrariamente, resultavam em deseconomia e gastos com a manutenção das fábricas de extermínio. O caráter antiutilitário destas instituições revela-se também no fato de que as políticas de morte ali executadas transcendem os motivos políticos, econômicos e sociais publicamente expostos pela propaganda antissemita alemã e europeia. Para Arendt, o antissemitismo não explica a instituição dos campos porque as políticas antissemitas jamais haviam instituído fábricas de morte. Somente os regimes totalitários o fizeram.
Os campos de concentração são laboratórios de experimentação da condição humana e visam à dominação total; levam às últimas consequências a ideia de que é possível fabricar instituições sociais em experimentos laboratoriais, ideia esta oriunda das Ciências da Natureza e incorporada às Ciências do Social. Realizam, plena e perfeitamente, a lógica do fabrico no qual seres humanos são transformados em seres ―inteiramente condicionados‖, previsíveis, bovinos, a tal ponto que não reagem se levados a um matadouro. Daí que, nos campos, o bem e o mal não têm sentido.
Por outro lado, o caráter insular dos campos, isto é, o isolamento total destas instituições em relação ao mundo comum dos homens, comprova tratarem-se de laboratórios próprios para experiências — médicas e sociais — com humanos. Por isso, todas as ações e intervenções ali experimentadas escapavam às leis e ao controle legal. Os prisioneiros eram cobaias, logo, segregados de suas famílias, radicalmente apartados do mundo, sem qualquer possibilidade de coexistência ou pertença a uma coletividade, e completamente disponíveis para as autoridades do experimento.
Os campos provam que é possível adestrar e programar o comportamento humano até mesmo para que os agentes matem mecanicamente seus supostos inimigos sem qualquer culpa ou repreensão da consciência moral. São laboratórios que levam estas técnicas comportamentais ao limite moral e científico de suas possibilidades. A
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execução das vítimas pelos carrascos não é levada a cabo pela paixão, interesse ou utilidade, mas pela pura mecanicidade da execução programada. A ordem mecânica suspende a lógica da responsabilidade pessoal e a substitui pela lógica da execução automática numa ordem burocrática. O objetivo dos campos, portanto, é abolir os limites cientificamente reconhecidos da psicologia humana, de modo tal que os assassinatos ali cometidos, seja pelos soldados, seja pelos prisioneiros colaboradores, é um ato banal e facilmente esquecido. É o que afirma Hannah Arendt neste excerto:
Ainda que saibamos que o objectivo dos campos de concentração era servirem de laboratórios visando reduzir os indivíduos a feixes de reações, quer dizer, suscitar comportamentos do tipo dos do cão de Pavlov, eliminando da psicologia humana qualquer rasto de espontaneidade, podemos adivinhar até onde é efectivamente possível avançar por tal caminho — e a docilidade aterradora que conduzia todos os prisioneiros do campo até à morte, bem como a percentagem surpreendentemente fraca de suicídios, são provas assustadoras. E podemos também adivinhar o que se passa com o comportamento social e individual, quando um processo semelhante é levado até os limites do possível. (Arendt, Compreensão e Política e Outros
Ensaios, 2001, p.159-160)
A imagem que Arendt faz dos campos de concentração e extermínio equivale à de uma sociedade organizada, estratificada numa hierarquia social, dotada de uma divisão das competências e responsabilidades entre seus membros, rotinizada pela mecanização das ordens e execuções, pautada pela atribuição de tarefas. Por isso ela refere-se à condição social interna dos campos com termos como ―institucionalização do sistema‖ de morticínio e ―mecanização‖ da morte, além de apontar para a existência de uma ―aristocracia incontestada‖ de criminosos promovidos a líderes. Os campos são sociedades para os homens fadados à morte. Constituem-se, em sua lógica de funcionamento interno, na perfeita mecanicidade e automatismo quanto ao cumprimento de ordens, de modo tal que os indivíduos se tornam autômatos. Esta lógica de funcionamento é o ideal da burocracia enquanto ―governo de ninguém‖, tanto quanto o ideal da sociedade de massas como uma coletividade de membros perfeitamente adestrados para a obediência impensada.
É em razão deste comportamento antiutilitário dos agentes dos campos, isto é, do fato de que suas vítimas e colaboradores passam a viver segundo a lógica do absurdo, que as ciências do social não podem compreender o fenômeno a partir das premissas canônicas de investigação social, tampouco a partir dos critérios habituais de julgamento, dos axiomas do comportamento interessado e racional ou mesmo dos juízos
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simples do bom senso. Os conceitos, técnicas e métodos das ciências do social não conseguem compreender as condições sociais que vigoram nos campos de extermínio. Como afirma Arendt, os campos não funcionam segundo as regras das ―necessidades objetivas‖; logo, não são dotados de sentido quando investigados da perspectiva de um observador ―normal‖ ou ―comum‖. São, como já dissemos, laboratórios que experimentam e executam as políticas de dominação total, subjugação e adestramento.
Tanto da perspectiva interna quanto externa todas as ações levadas a cabo nos campos ou em função da manutenção deles só são compreensíveis se isolarmos as reivindicações ideológicas do racismo enquanto lógica pura, inflexível e sem qualquer correspondência com a realidade. Veremos que estas ideologias produzem para os seus seguidores um ―supersentido‖ de pertença. Por se tratar de uma ideologia, tal supersentido cria um simulacro de realidade que dá a seus adeptos a certeza de serem porta-vozes da verdade científica e das ―leis da vida‖. A lógica destes sistemas, portanto, desenvolve-se ―independentemente de todos os fatos sem levar em conta a realidade‖ (2001, p.147). É a lógica da necessidade absoluta e encadeada a partir deste ponto de partida.