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Concurrent CP/M-86 Command Concepts

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Uma vez compreendido o conceito de processo em sua dinâmica whiteheadiana, vejamos agora como Hannah Arendt descreve a origem do conceito de processo enquanto desdobramento histórico mais nítido do princípio do verum factum de Giambattista Vico:

O conceito central das duas ciências inteiramente novas da era moderna, tanto da ciência natural como da ciência histórica, é o conceito de processo, e a efetiva experiência humana em que esse conceito se baseia é a ação. Só podemos conceber a natureza e a história como sistemas de processos porque somos capazes de agir, de iniciar nossos próprios processos. É verdade que esse caráter do pensamento moderno veio à luz pela primeira vez na ciência da história, que, desde Vico, vem sendo conscientemente apresentada como ―ciência nova‖ (Arendt, 2011, p.289).

119 Sob esta lógica do fabrico, própria da ciência nova, os processos do social engendram uma novilíngua, isto é, o vocabulário do ―desenvolvimento‖, do ―progresso‖ e da ―evolução‖ (Arendt, 2005, 93), palavras que provêm do cruzamento e interpenetração dos domínios da Natureza e da História, isto é, são próprias à linguagem da Tecnologia. Eis então a terceira característica dos processos sociais: por ser um experimento, o social é a expressão da linguagem tecnológica aplicada aos assuntos humanos, sobretudo no que diz respeito à constituição ou fundação de uma dada ordem. A imagem do processo oriunda destes experimentos tecnológicos deseja substituir uma ―metafísica da substância por uma metafísica da fluência‖ (Mora, 2003, v.3, p.2380-81), assim como almeja substituir, igualmente, a busca do ―que é o ser‖ pela investigação acerca do ―como se faz‖ algo. O processo, como tal, é um permanente devir cujo fabrico prometeico se ramifica indeterminadamente no tempo histórico. Por isso, Arendt assinala que ―desde o século XVII, a preocupação dominante da investigação científica, tanto natural como histórica, tem sido os processos‖, isto é, ―a investigação do como‖ (Arendt, 2005, p.88-89). Tanto as ciências humanas quanto as ciências da natureza produzem tecnologias (ou ―produtos finais‖) cuja atividade de fabricação se converte em processo que ―sobrevive à [própria] atividade de fabricação‖ e passa a ter ―uma espécie de vida própria‖:

A Tecnologia, o campo em que os domínios da História e da natureza se cruzaram e interpenetraram em nossos dias, aponta de volta para a conexão entre os conceitos de natureza e de história, tal como apareceram com o ascenso da época moderna nos séculos XVI e XVII. A conexão jaz no conceito de processo: ambos implicam que pensamos e consideramos tudo em termos de processos, não nos interessando por entidades singulares ou ocorrências individuais e suas causas distintas e específicas. As palavras-chave da Historiografia moderna — ―desenvolvimento‖ e ―progresso‖ — foram também, no século XIX, as palavras-chaves dos novos ramos da Ciência Natural, em particular a Biologia e a Geologia, uma tratando da vida animal e a outra até mesmo de assuntos não-orgânicos em termos de processos históricos (Arendt, BPF, p.93, 2005; 1993, p.61).

Portanto, o conceito de processo próprio da metafísica moderna revela-nos que os domínios da Natureza e da História têm não apenas uma mesma origem, mas são igualmente regidos por este denominador comum cuja imagem é representada pelo eterno devir (ou devenir) desdobrável a partir de um experimento inicial. O mundo do social, assim criado, é um fabrico das tecnologias experimentais aplicadas aos assuntos humanos, assim como a energia nuclear é um fabrico ou artifício das tecnologias do

120 mundo natural. A consequência imediata desta imagem do social enquanto processo e experimento — isto é, enquanto uma metafísica da fluência e do eterno devir fabricado pelo artifício humano — é a dissociação entre o ―concreto e o geral, a coisa ou evento singulares e o significado universal‖:

O conceito moderno de processo, ao permear igualmente tanto a história quanto a natureza, separa a época moderna do passado mais profundamente que qualquer outra ideia individualmente considerada. Para nossa moderna maneira de pensar, nada é significativo em si mesmo e por si mesmo, nem mesmo a história e a natureza tomadas como um todo, tampouco, decerto, as ocorrências particulares de ordem física ou os eventos históricos específicos. Há uma fatídica monstruosidade nesse estado de coisas. Processos invisíveis engolfaram todas as coisas tangíveis e todas as entidades individuais visíveis para nós, degradando-as a funções de um processo global (over-all). A monstruosidade dessa mudança tende a nos escapar se nos deixamos desnortear por generalidades tais como o desencantamento do mundo ou a alienação do homem, generalidades que amiúde envolvem uma noção romantizada do passado. O que o conceito de processo implica é que se dissociaram o concreto e o geral, a coisa ou evento singulares e o significado universal. O processo, que por si só torna significativo tudo o que em si contém, adquiriu assim um monopólio de universalidade e significação (Arendt, ―History and Immortality‖, Partisan Review,

vol.24, n.1, 1957).53

Esta é a quarta característica dos processos sociais: a dissociação entre o concreto e o geral, bem como entre o singular e o universal. Por ser um processo que dissocia os eventos singulares e os subsume à dinâmica do movimento global, o social converte a ordem pública e o mundo comum dos homens em um système, isto é, um conjunto de entidades interativas e interdependentes cujo funcionamento se dá segundo modos impessoais e hierárquicos de processamento. O mundo vivido é esvaziado da ação e da vontade dos homens para ser povoado por órgãos, organismos, instituições, comportamentos socializados e automáticos. O homem social mimetiza os movimentos automáticos de funcionamento dos processos laborais do corpo. Engendra-se, assim, um sistema povoado por autômatos. A imagem de tal système como processo global fora descrita por Arendt nos seguintes termos:

A natureza, pelo fato de só poder ser conhecida em processos em que o engenho humano, a engenhosidade do homo faber, podia repetir e reproduzir no experimento, tornou-se um processo, e o significado e a importância de todas as coisas naturais particulares decorriam unicamente das funções que elas exerciam no processo global. No lugar do conceito do Ser, encontramos agora o conceito de Processo. E já que é da natureza do Ser aparecer assim e se desvelar, é da natureza do Processo permanecer invisível, ser algo cuja existência pode apenas ser inferida da presença de certos fenômenos. Esse processo foi originalmente o processo de fabricação [...] (Arendt, 2011, pp.370-371)

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Este parágrafo reaparece no capítulo intitulado ―O Conceito de História — Antigo e Moderno‖ in Entre

121 O caráter proteiforme e rizomático do social, deve-se, portanto, não apenas à dinâmica das experimentações com assuntos humanos, a qual se desdobra em inúmeros processos autopoiéticos, incontroláveis e metastáticos; para além deste caractere experimental, os rizomas do social provêm também desta analogia biológico-processual que compreende a ordem de funcionamento do mundo público como uma réplica da ordem de funcionamento dos organismos vivos. A autonomia e automaticidade próprias às atividades laborais dos corpos animais, nesta lógica, deve ser mimetizada pela autonomia e automaticidade da ordem social. É o que Hannah Arendt enfatiza na seguinte passagem quando se refere aos processos como réplicas da atividade vegetativa dos corpos animais:

O conceito de processo veio a ser o termo chave da nova era, bem como das ciências históricas e naturais que ela desenvolveu. Desde os primórdios, esse processo, dada sua aparente interminabilidade, foi concebido como um processo natural, e, mais especificamente, à imagem do processo vital (Arendt, 2011, p.130).

Daí surgem as imagens sociológicas dos princípios da interdependência orgânica e mecânica, da anomia e das patologias do social; daí, também, a crença de que o mundo social é regido por leis a serem apreendidas pelos cientistas do social. Uma vez descobertas e aplicadas tais leis, os governantes poderiam abolir completamente as atividades políticas e as discussões públicas; instituiriam, assim, uma ordem social puramente científica e previsível regida por tecnocratas. Portanto, as metáforas do social nada mais seriam que ardis da razão com vistas à completa despolitização do domínio público. Afinal, o homem comum não poderia participar de uma ordem de governo a qual lhe é opaca e ininteligível.

É desta imagem biológica e orgânica da sociedade, bem como do imperativo da neutralidade axiológica das ciências do social, que se desdobra a quinta característica do social enquanto processo: a concepção estritamente naturalista do homem, reduzido teórica e tecnicamente a uma coisa, similar aos objetos investigados pelas ciências da natureza, sejam animais, plantas ou elementos químicos. Em razão da crença na unidade do método científico surgiu o imperativo segundo o qual os cientistas do social deveriam estudar o comportamento e as instituições humanas tal como se fossem ―coisas‖. Ao conceber o fato social como coisa, pressupôs-se, igualmente, o homem como coisa. E esta objetividade científica aparentemente desinteressada (em verdade, demasiadamente interessada em servir aos interesses do Soberano) uniu-se ao otimismo

122 do evolucionismo rumo à humanidade futura. Sabemos que o realismo e o naturalismo do século XIX volviam-se para o homem natural, submetido às leis do meio natural. E esta visão do homem perpassava não só as ciências naturais, mas também a sociologia positivista (Durkheim e seus diversos discípulos) e a própria literatura novecentista. Um exemplo esclarecedor está na obra referencial de Claude Bernard intitulada Introduction

a l‘etude de la medicine experimentale. É sabido que Émile Zola tinha esta obra como

um manual de criação literária, ao que recomendava: ―Estudar os homens como simples elementos e notar as reações. O que me importa mais é ser puramente naturalista, puramente fisiológico. Em vez de ter princípios (realismo, catolicismo) eu terei leis (hereditariedade, atavismo)‖54

. Hannah Arendt esclarece-nos acerca da coisificação e naturalização do homem pelo imperativo da neutralidade axiológica e pela imagem biológica dos processos sociais no seguinte passo:

As relativamente novas Ciências Sociais, que rapidamente se tornaram para a História aquilo que a Tecnologia fora para a Física, podem utilizar o experimento de uma forma muito mais grosseira e bem menos segura do que o fazem as Ciências Naturais, porém o método é o mesmo: também elas prescrevem condições, condições ao comportamento humano55, assim como a Física moderna prescreve condições a processos naturais. Se o seu vocabulário é repulsivo e se sua esperança de acabar com a pretensa lacuna entre nosso domínio científico da natureza e nossa deplorada impotência para ―administrar‖ questões humanas através de uma engenharia de relações humanas soa assustadoramente, é somente por terem decidido tratar o homem como um ser inteiramente natural, cujo processo de vida pode ser manipulado da mesma maneira que todos os outros processos (Arendt, BPF, 2005, p.90).

Para Arendt, como podemos depreender deste fragmento, as ciências do social, desde o início, postularam a unidade metodológica da ciência na esperança de realizar conquistas tão grandiosas e visíveis quanto aquelas das ciências da natureza. Portanto, as ciências processuais do social nasceram do sentimento de impotência dos homens quanto à capacidade de resolverem os problemas decorrentes do processo de urbanização e industrialização da Europa. Mais do que isso, afirma Arendt, na origem da concepção processual do social está a sensação de impotência humana quanto às possibilidades de conhecer os artefatos produzidos pelo próprio homem, assim como o

54 Cf. William K. Wimsatt & Cleanth Brooks, Crítica Literária: Breve História. Calouste Gulbenkian, p. 549.

55 Quando Arendt se refere às Ciências do Social como ciências que ―prescrevem condições‖, ela não apenas se refere às ciências que promovem a engenharia comportamental, como também alude implicitamente à cláusula coeteris paribus, comum a todas as ciências sociais, sobretudo à Economia, à Sociologia empírica e à Ciência Política.

123 desespero diante das tentativas falhas de compreendê-los mediante exercícios de contemplação. A visão do social como processo surgiu como um lugar-tenente da contemplação mística e filosófica; por conseguinte, passou-se a compreender tais exercícios contemplativos como mero ―devaneio‖, ―histeria‖ ou exercício inútil para fins de conhecimento e domínio prático da natureza.

Assim, a sexta característica da concepção processual do social é que a dinâmica moderna de tais processos surge como uma expressão do desespero e da impotência ante a constatação de que o homem não pode conhecer adequadamente o que ele mesmo produz, mas tão somente o que lhe é dado. Ao perceber que os exercícios de contemplação mística ou filosófica não eram capazes de explicar o que o homem produz, o homem moderno fez uma escolha pelo prometeísmo da ação como experimento desencadeador de processos. Como assinala Arendt, desde a antiguidade sabia-se que o homem era o único agente capaz de dar início a processos, como sempre ocorrera na história antiga e medieval. Contudo, os antigos o faziam para buscar a imortalidade de seus próprios feitos; na era moderna, a ação processual social deixou de ser um meio para a busca da imortalidade para tornar-se um fim em si mesma. Quer dizer, a iniciativa dos processos, hodiernamente, tornou-se um artifício ou técnica cuja finalidade é controlar os acontecimentos e abolir as possibilidades difusas da ação no mundo público. Vejamos o que nos diz Arendt sobre esta característica:

A experiência que subjaz à noção de processo da época moderna, diferentemente da experiência subjacente à noção antiga de imortalidade, não é de modo algum primariamente uma experiência feita pelo homem no mundo que o circunda; pelo contrário, ela brota do desespero de sempre experienciar e conhecer adequadamente tudo aquilo que é dado ao homem e não feito por ele. Contra esse desespero o homem moderno arregimentou a totalidade de suas próprias capacidades; desesperando de encontrar um dia a verdade através de mera contemplação, começou a experimentar suas capacidades para a ação e, ao fazê-lo, não podia deixar de se tornar consciente de que, onde quer que exista, o homem inicia processos. A noção de processo não denota uma qualidade objetiva, quer da história, quer da natureza; ela é o resultado inevitável da ação humana. O primeiro resultado do agir dos homens na história foi a história tornar-se um processo, e o argumento mais convincente para o agir dos homens sobre a natureza à guisa de investigação científica é que, hoje em dia, na formulação de Whitehead, ―a natureza é um processo‖ (Arendt, BPF, 2005, pp.93-94).

Ao perceber-se capaz de experienciar e conhecer os fenômenos da natureza, ao mesmo tempo em que se viu incapaz de controlar e conhecer os fenômenos e

124 instituições próprios aos assuntos humanos, o homem moderno se deixou levar pelo desespero. E é deste desespero que surgiu a metafísica do processo a qual negou a ordem estática das substâncias e as concebeu como estados transitórios, como devir ou fluência permanente. A autopercepção de incapacidade e de impotência deu lugar ao prometeísmo da engenharia social, ao fabrico das instituições e à crença no progresso e na evolução da ordem social fabricada. A história moderna, em razão desta experimentação do social, tornou-se ―um processo feito pelo homem, o único processo global cuja existência se deveu exclusivamente à raça humana‖ (Arendt, BPF, 2005, p.89).

Portanto, a história destes experimentos desencadeadores de processos sociais, da origem até a explosão da bomba atômica, constituiu-se numa série histórica de tentativas de replicar o processo criador da natureza nos assuntos humanos. O social, como experimento, introduz a natureza nos assuntos humanos e formula perguntas acerca destes assuntos da mesma forma que o experimento de Galileu formulava perguntas à natureza. Daí que as técnicas do social tenham surgido a partir do estudo das paixões e condutas universais do homem. E esta arché conferiu ao social, desde sempre, o estatuto de uma ciência universal da experimentação do humano.

Deste caractere prometeico dos processos sociais desdobra-se a sétima característica: a assimetria entre espécies na relação que se institui entre governantes e governados. A dinâmica dos processos produz a máxima assimetria possível entre os artífices, demiurgos da experimentação a qual dará início aos processos cujas consequências e efeitos vindouros os próprios agentes desconhecem, e os homens-coisa, objetos pavlovianos do experimento. Tal assimetria não é apenas política, mas almeja instituir-se, como queria Platão n‘O Político, na forma de uma assimetria entre espécies, tendo em vista que as cobaias são concebidas como animais a serem adestrados e domesticados segundo os interesses do Soberano. Além disso, como dissemos, os artífices se autocompreendem como deuses criadores da ordem e do mundo social. O domínio público, nesta lógica, passa a estratificar-se binariamente entre deuses e bestas. Não obstante, tal concepção do social como experimento desencadeador de processos representa uma modalidade de ação, ainda que tal agir seja uma tentativa de transformar a ação em atividade mecânica, experimental e teórica. Assim concebida, a ação viola a dignidade dos homens e do próprio viver junto que constitui sua condição política.

Por fim, a oitava e última característica dos processos sociais. A compreensão moderna da ordem social como resultante do fabrico de instituições produzidas por

125 artífices dotados de uma consciência superior ao homem comum no que diz respeito aos assuntos públicos tornou-se a responsável direta pelo surgimento da autoconsciência histórica do homem moderno. Quer dizer, a consciência histórica acerca do poder dos processos sociais sobre os assuntos humanos se difundiu pela imaginação política dos homens comuns e passou a estimular não apenas as diversas tentativas de refundação dos corpos políticos mediante a promulgação de constituições, mas também através da deflagração de diversas revoluções. A mecânica dos processos sociais, uma vez assimilada pela imaginação política dos cidadãos de diversas comunidades, fora determinante para a formação da autoconsciência histórica do homem ordinário. O paradoxo desta reiterada atividade de experimentação social, portanto, é que tal processo deu origem à autoconsciência histórica na modernidade, de modo que o homem comum decidiu também experimentar ―suas capacidades para a ação‖ e assim dar início às revoluções e às fundações político-constitucionais que marcam a era moderna. Em razão desta autoconsciência é que os constitucionalistas e os revolucionários passaram a tomar a história como objeto a ser feito, isto é, passaram a concebê-la pela imagem do fabrico e pela hybris daqueles que se vangloriam de ―fazer história‖. É o que Arendt nos explica no seguinte passo:

[...] Se se toma a história como o objeto de um processo de fabricação ou elaboração, deve sobrevir um momento em que esse ―objeto‖ é completado, e que, desde que se imagina ser possível ―fazer a história‖, não se pode escapar à consequência de que haverá um fim para a história. Sempre que ouvimos grandiosos designíos em política, tais como o estabelecimento de uma nova sociedade na qual a justiça será garantida para sempre, ou uma guerra para acabar com todas as guerras, ou salvar o mundo inteiro para a democracia, estamos nos movendo no domínio desse tipo de pensamento (BPF, 2005, p.114).

O fim da história se torna completo, segundo tal concepção da ordem social como fabrico, com a fundação dos regimes totalitários e seus campos de concentração, lugares onde os princípios de operação processual e experimental atingem sua forma de realização mais perfeita e acabada. Assim, as ideias e seus ―grandiosos desígnios‖, messiânicos e bem-intencionados, realizam-se materialmente como o inverso do que propunham enquanto pura ideia. Se almejavam abolir a ação da vida ordinária, contrariamente, difundiram o ímpeto de agir entre os homens comuns; se almejavam abolir a imaginação política e a capacidade de iniciar algo novo, contrariamente, deram azo às revoluções e inúmeras tentativas de refundação constitucional das comunidades políticas; se almejavam findar as guerras e as injustiças, instituíram não apenas regimes

126 totalitários, mas fizeram dos campos de concentração a ―instituição central dos governos‖ modernos. O ímpeto que move o sentido experimental dos processos sociais na história moderna não se limita a maximizar o poder do soberano e abolir a ação mediante intervenções técnicas sobre os assuntos humanos. Tal ímpeto é também de natureza messiânica e salvacionista, tendo em vista que os agentes-demiurgos creem cegamente na capacidade da atividade experimental para resolver os problemas práticos das associações humanas.

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