ET MOTIVATIONS DES MARCHANDS FRONTALIERS Ce chapitre décrit les trajets suivis par les commerçants de notre enquête. Depuis les régions
5.2. Le commerce de la friperie
5.2.4. La friperie exemplaire
Fonte: Museu de Arte do Rio (2014).
Quando comecei a trabalhar na Fundação Roberto Marinho, em março de 2014, as práticas do Vizinhos do MAR acima descritas estavam começando a se constituir. Uma das minhas atividades profissionais consistia em planejar e realizar ações de comunicação para os diversos públicos dos museus concebidos e criados em parceria com a Fundação, entre eles o MAR e o Museu do Amanhã60. Como parte do processo de imersão, passei a frequentar, pelo menos uma vez por semana, o MAR e a Praça Mauá (ainda tomada pelas obras do Porto Maravilha) e a participar de encontros com as comunidades do entorno promovidos pelos dois museus61 e pela CDURP. Nesse período, instigaram-me especialmente a dinâmica e as tensões desses encontros que muitas vezes começavam pacíficos a partir de propostas de realização de atividades culturais e terminavam em cobranças contra as remoções e oferta de empregos para as populações daquele território, por exemplo.
A partir do segundo semestre de 2014 passei a frequentar os cafés da manhã com os vizinhos no MAR com o intuito de encontrar e registrar boas histórias que pudessem ser visibilizadas na imprensa, como meio para atrair mais visitantes para o Museu (prioritariamente pessoas em situação econômica menos favorável ou que não tivessem desenvolvido o hábito de frequentar instituições culturais62). Mas quase nunca conseguia realizar entrevistas com pessoas !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
60 O Museu do Amanhã foi inaugurado em dezembro de 2015.
61 As ações do Museu do Amanhã com as comunidades do entorno começaram antes da inauguração do museu,
assim como no MAR, tendo como base o cadastro e relação já estabelecidos pelo MAR e pela CDURP.
62 Estes públicos foram prioritários no planejamento estratégico do MAR e nos planos de comunicação para a área
de Patrimônio e Cultura da Fundação Roberto Marinho. Com o objetivo de mapear os hábitos de visitação nos Museus (inclusive e especialmente de pessoas em situação econômica menos favorável, seguindo diretrizes de educação e cultura da instituição) a Fundação Roberto Marinho apoiou a pesquisa “Cultura nas Capitais”, realizada pela JLeiva, e que incluiu o MAR e o Museu da Amanhã entre as instituições pesquisadas (Cf. “Cultura nas capitais”. Distribuição de material de pesquisa. Disponível em: https://www.jleiva.co/cultura-nas-capitais. Acesso em: 22 abr. 2019).
com esse perfil e, quando conseguia acesso a elas, as demandas por melhorias em seus locais de moradia e oportunidades de emprego na região se sobrepunham ao interesse em falar sobre suas experiências anteriores em museus, sobre o hábito de visitar as exposições no MAR ou mesmo de participar do programa de relacionamento comunitário.
Percebi, por outro lado, a predisposição de alguns vizinhos fotógrafos, artistas plásticos e escultores em falar sobre a experiência vivida quando informava que poderiam ter sua imagem associada ao novo museu na imprensa. Notei também, a partir de meados de 2015, uma maior presença dos vizinhos (que só costumava encontrar nos cafés do primeiro sábado do mês) no pavilhão de exposições e nos pilotis, bem como participações mais frequentes (como público e, em alguns casos, como realizadores) da programação cultural do MAR. Nesse período, a intenção em ouvir os vizinhos para visibilizar se transformou em interesse de ouvir para buscar compreender as dinâmicas dessa relação e os processos de criação de novas possibilidades de relação entre os moradores da região portuária e o MAR. Em outras palavras, percebi no
Vizinhos do MAR a possibilidade de observação das relações entre museus e moradores do
território onde estão instalados, bem como as experiências e práticas que derivam dessas experiências como parte da Nova Museologia: fui movida pelo desejo de colaborar com a produção de conhecimentos – ou, ao menos, levantar novas questões – sobre os desafios da prática de um museologia socialmente responsável.
Para além de pensar a atuação comunitária do Museu, os debates e métodos de educação que observava também nas outras experiências que faziam parte da minha prática profissional na Fundação Roberto Marinho63, me instigaram a investigar “o potencial pedagógico do patrimônio e das instituições museológicas, como complemento importante da educação formal” (MENDES, 2013: 10) presente na experiência do Vizinhos do MAR. Considerando que “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção” (FREIRE, 1996: 47), e entendendo o processo museológico como “resultado da ação e da reflexão dos sujeitos sociais, em determinado contexto, passível de ser repensado, modificado e adaptado em interação, contribuindo para a construção e reconstrução !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
63 Minha atividade profissional contempla também o acompanhamento dos projetos da área de Educação da
Fundação Roberto Marinho – dentre eles, o Telecurso: antes constituído como um programa de televisão, a partir dos anos 90 foi atualizado conforme uma metodologia, estruturada a partir das teorias e práticas de Paulo Freire, Jean Piaget, Célestin Freinet, para implementação em escolas públicas em parceria com governos, com foco em aceleração da aprendizagem e correção da defasagem idade-série. Desde 2014, acompanho a implementação do projeto. Apresento essas informações com o propósito de contextualizar meu interesse particular por investigar as práticas de educação em curso no MAR – e especialmente no seu programa de relacionamento comunitário. Não é objetivo desta pesquisa abordar as razões, os processos ou a eficácia das ações realizadas pela Fundação Roberto Marinho: tenho ciência dos riscos do meu envolvimento com a referida instituição para o distanciamento crítico exigido em qualquer pesquisa. Essa consciência foi determinante para a escolha da metodologia proposta e definição dos objetivos do trabalho, conforme apresentarei nesta introdução.
do mundo” (SANTOS, 2001: 8), restava claro que o Vizinhos do MAR deveria ser percebido também como meio para potencializar a face educativa do Museu junto aos seus participantes – especialmente tendo em vista a provocação de o MAR se constituir como um “museu-escola” e por ser parte da Escola do Olhar.
Na busca por caminhos que me permitissem pensar as questões com as quais estava lidando, encontrei o CPDOC e este Mestrado, e fui provocada por professores, colegas de turma e leituras a questionar o que julgava saber sobre o objeto escolhido (o Vizinhos do MAR), a repensar a metodologia e os caminhos da pesquisa, bem como os resultados esperados. Fui confrontada e cobrada diversas vezes durante esta trajetória acadêmica pelos impactos do Porto Maravilha na região portuária, pela pertinência de construção de um museu de arte e de um museu de ciências no maior porto de chegada de pessoas escravizadas da História, pelo simbolismo de serem obras construídas pela Prefeitura, em parceria com a Fundação Roberto Marinho, instituição ligada ao Grupo Globo onde trabalho. Nesse processo, identifiquei claramente os riscos da minha interferência no desenvolvimento da pesquisa – agravados pela prática profissional e o envolvimento emocional com gestores do Museu e com os vizinhos64. Diante disso, não quero negar minha interferência nessa pesquisa: minha intenção é a de evidenciar o esforço, a partir da consciência adquirida, de controlar meus atos. Pois, como lembra Bourdieu:
Ainda que a relação de pesquisa se distinga da maioria das trocas da existência comum, já que tem por fim o mero conhecimento, ela continua, apesar de tudo, uma
relação social que exerce efeitos (variáveis segundo os diferentes parâmetros que
podem a afetar) sobre os resultados obtidos (...) a diferença não é entre uma ciência que realiza uma construção e aquela que não o faz, mas entre aquela que o faz sem o saber e aquela que, sabendo, se esforça para conhecer e dominar o mais completamente possível seus atos, inevitáveis, de construção, e os efeitos que eles produzem também inevitavelmente (BOURDIEU: 1999: 694-5).
Assim, neste processo, busquei compreender o sentido das relações estabelecidas com o MAR, o Vizinhos do MAR e meus entrevistados, além de realizar uma necessária mudança de postura diante do campo, problematizando o que julgava como certeza, tentando “reduzir as distorções”, “compreender o que pode ser dito e o que não pode”, as “censuras” e as “incitações que encorajam a acentuar outras” (Ibidem: 695).
No segundo semestre deste Mestrado, ao cursar a disciplina de História Oral, conhecendo estudos que adotaram essa metodologia e a partir dos diálogos com a orientadora !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
64 Mirian Goldenberg observa que Cientistas sociais como Max Weber, Pierre Bourdieu e Howard Becker propõem
que o pesquisador tenha consciência da interferência de seus valores na seleção e no encaminhamento do problema estudado. A tarefa do pesquisador seria então a de “reconhecer o bias para poder prevenir sua interferência nas conclusões” (GOLDENBERG, 1997: 1).
desta pesquisa, percebi o quanto ouvir as narrativas dos próprios vizinhos sobre a experiência no Vizinhos do MAR – e, para além disso, das suas trajetórias de vida – poderiam me levar a ampliar a compreensão sobre as relações estabelecidas no âmbito desse programa, uma vez que esta metodologia permite “tornar a vivenciar as experiências do outro, a que se tem acesso sabendo compreender as expressões de sua vivência” (ALBERTI, 2004: 19). Se por um lado o meu envolvimento emocional com o objeto apresentava riscos a essa pesquisa, por outro me havia permitido conhecer e estabelecer diálogos com gestores e participantes do Vizinhos do
MAR – ou seja, de quem “efetivamente viveu – e, por isso, dá vida – as conjunturas e estruturas
que de outro modo parecem tão distantes” (Ibidem: 14).
Havia, no entanto, o desafio de também lidar com o que Bourdieu classificou como “ilusão biográfica”: para ele, “produzir uma história de vida, tratar a vida como uma história, isto é, como o relato coerente de uma sequência de acontecimentos com significado e direção, talvez seja conformar-se com uma ilusão retórica, uma representação comum da existência” (BOURDIEU, 2005: 185). O paradigma existe, mas é preciso considerar que também está contida na biografia a “capacidade de transcender a história pessoal e de revelar as relações entre indivíduos e sociedades”: sob essa ótica, as entrevistas de história de vida podem ser também “o campo ideal para verificar os espaços de liberdade de que dispõem os homens e para observar como os sistemas normativos condicionam suas ações ou são por elas rompidos” (FERREIRA apud CONSTANT, 2007: 84).
Nesse sentido, recorri à entrevista de História Oral por entendê-la e tomá-la como “fonte – a ser trabalhada, analisada e comparada com outras fontes” e não como “história”, que pretende dar “conta de forma definitiva e completa daquilo que aconteceu no passado” (ALBERTI, 2004: 46). Ainda seguindo o pensamento de Verena Alberti:
Tomar a entrevista como resíduo de ação, e não apenas como relato de ações passadas, é chamar a atenção para a possibilidade de ela documentar as ações de constituição de memórias – as ações que tanto o entrevistado quanto o entrevistador pretendem estar desencadeando ao construir o passado de uma forma e não de outra (Ibidem: 35).
A escolha dos entrevistados foi outro desafio de pesquisa. Ao longo de dois anos de atuação em campo65, estabeleci contatos com cerca de 30 vizinhos e selecionei 8 para realização de entrevistas exploratórias para fins dessa pesquisa. Sabendo que cada entrevista é singular e que cada uma delas carrega a singularidade do pesquisador e do pesquisado – bem como suas !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
65 Entre 2016 e 2018 participei das agendas do Vizinhos do MAR, conheci espaços de trabalho e participei de
atividades realizadas por vizinhos dentro e fora do espaço do museu; visitei todas as exposições realizadas, percorri o MAR em diferentes dias e horários, fiz pesquisas no acervo, nos relatórios de gestão e materiais de divulgação e entrevistei profissionais contratados pelo Instituto Odeon ligados à educação, comunicação e curadoria.
respectivas visões de mundo, escolhas, intencionalidades e expectativas – as seleções foram resultado do sucesso e do fracasso dos contatos mantidos durante a pesquisa de campo.
Como o objetivo geral deste estudo é analisar as relações entre museus e moradores do território onde estão instalados, bem como as experiências e práticas que derivam dessas relações a partir do programa Vizinhos do MAR, estabeleci como primeira premissa a escolha de vizinhos que tivessem realizado ações artístico-culturais que integraram a programação do Museu no período analisado. Outro orientador para este trabalho, diante do contexto já apresentado, foi o local de moradia: selecionei vizinhos que residissem em favelas que sofreram ou que ainda estivessem sofrendo o impacto das remoções decorrentes do Porto Maravilha – como é o caso do Morro da Providência – ou bairros da região historicamente excluídos e “invisibilizados”, como a Saúde e a Gamboa. Também considerando o contexto histórico e cultural da região, e as tensões advindas das disputas de memória neste território, priorizei vizinhos de identidade negra. E, por fim, fui movida pela inovação da ação realizada – mesmo sabendo que não poderia apurar o ineditismo da experiência66 realizada no âmbito do Vizinhos
do MAR, priorizei o que me pareceu inédito e peculiar, considerando minha trajetória
profissional com a comunicação de museus, bem como as leituras, pesquisas e entrevistas realizadas com profissionais da área.
A partir desses critérios, e da generosidade dos entrevistados em compartilhar suas trajetórias, selecionei (e fui selecionada) por Hugo Oliveira, Eliana Rosa e Aline Mendes67. São as narrativas de histórias de vida e das relações estabelecidas no âmbito do Vizinhos do MAR que apresento nos três capítulos a seguir, constitutivos dessa dissertação.
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66 De acordo com o IBRAM – Instituto Brasileiro de Museus, o Brasil tem hoje 3,8 mil museus. Na plataforma
MuseusBR estão disponíveis informações sobre os mesmos (Cf. MUSEUSBR. Página oficial dos museus. Disponível em: http://museus.cultura.gov.br/. Acesso em: 22 abr. 2019).
67 Durante essa pesquisa, perdemos Lúcia Maria dos Santos, a “Tia Lúcia”, que faleceu em 9 de setembro de 2018,
aos 76 anos. Baiana, criou uma particular linguagem artística que incluía as artes visuais, canto, dança, performance e História Oral: realizou exposições e performances na região portuária, incluindo Instituto dos Pretos Novos e o MAR, que frequentava desde a inauguração, em 2013. Participava, com assiduidade, do café do primeiro sábado do mês, realizou conversas de galeria e performances no pavilhão de exposição e no pilotis. Após a sua morte, o MAR realizou a exposição “A Pequena África e o MAR de Tia Lúcia – Homenagem à Lúcia Maria dos Santos”, que reunia pinturas, desenhos e objetos, além de vídeos, documentos, fotografias e itens pessoais. A homenagem foi desenhada em parceria com os Vizinhos do MAR, durante um Café com Vizinhos. Realizei uma primeira entrevista com Tia Lúcia para essa pesquisa, mas não me foi permitido realizar a entrevista de História Oral. MUSEU DE ARTE DO RIO. 4 Anos MAR - Depoimento de Tia Lúcia. 2017. (1m15s). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=mEXuaVYAdHM&t=3s. Acesso em: 23 mar. 2019. MUSEU DE ARTE DO RIO. Abertura da exposição “A Pequena África e o MAR de Tia Lucia”. 2018. (3m16s). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=S2hV9tqenQc. Acesso em: 23 abr. 2019.
Capítulo 1. Hugo Oliveira: O corpo negro como memória e a legitimação da dança