F/oss Process Reference Model
5.1. FOSS-PRM MODEL 57
Outra etapa importante da pesquisa é mensurar quem são as fontes das notícias sobre violência sexual infanto-juvenil e como esses atores sociais autorizados a falar têm seus discursos divulgados nos veículos de comunicação. O discurso das vítimas e dos veículos são elementos importantes de análise do posicionamento discursivo das fontes e dos veículos em estudo.
Para classificar as fontes utilizamos a segmentação proposta por Guerra (2006. p 92), na qual as fontes precisam ter suas “declarações consideradas de acordo com a posição na qual se encontram, no momento do recorte factual feito pelo jornalista”.
Tipo de fonte Conceito Subtipo
Envolvida Participa diretamente do fato Tipo 1: causadora da atividade geradora do fato
Tipo 2: condição passiva ou sofre as consequências da ação Autorizada Pessoas com função institucional
ou organizacional
Tipo 1 (reativas): quando sua vinculação ao fato se dá mediante uma solicitação
por qualquer outro tipo de fonte implicada na matéria
Tipo 2 (ativas): quando se caracterizam por serem os promotores das atividades que resultam no fato objeto de cobertura Testemunhal São aquelas que presenciam o
fato (contam o que viram)
- Qualificada Possuem conhecimentos
especializados sobre um dos aspectos que caracteriza o
acontecido
-
Tabela 3: tipificação das fontes (GUERRA, 2006. p 92).
As fontes (suspeito/agressor; criança/adolescente; família; representantes da justiça e outras fontes – ex. conselheiros, médicos etc.) localizadas nas notícias dos veículos Folha.com e G1, foram segmentadas de acordo com a tipologia de Guerra (2006. p 96). A intenção é mensurar de forma qualitativa e quantitativa como as fontes surgem nas notícias e quais lugares de fala elas ocupam na estratégia enunciativa dos veículos.
As fontes de informação jornalística são essenciais no processo de elaboração da notícia, elas estão autorizadas a falar, seja por que participou do acontecimento ou por que é especialista em determinada área e tem domínio para comentar o assunto.
Lage (2001. p 62-63) classifica as fontes em três tipos: oficial (mantidas ou autorizadas pelo Estado); oficiosas (são aquelas não autorizadas a falar, mas que pela proximidade com alguma pessoa ou instituição pode fornecer informações que por não serem seguras podem ser desmentidas) e as fontes independentes (que estão desvinculadas de alguma relação de poder ou interesse).
Outros tipos de fontes propostos por Lage (2001. p 65-67) são as fontes primárias: aquelas em que o jornalista se baseia para colher o essencial de uma matéria (fatos, versões, números). Fontes secundárias são consultadas para a preparação de uma pauta ou a construção de premissas genéricas ou contextos ambientais. Existem também as testemunhas e experts: “o testemunho é normalmente colorido pela emotividade e
modificado pela perspectiva”. As fontes do tipo experts são geralmente fontes secundárias que o jornalista procura em busca de versões ou interpretações de eventos.
De toda sorte, é conveniente ouvir mais de um especialista e variar os especialistas que se ouve [...]. Um dos truques dos assessores de imprensa para influir na linha editorial dos jornais é indicar experts – sempre simpáticos e disponíveis -, que darão a quaisquer fatos a interpretação conveniente à instituição assessorada (LAGE, 2001. p 68).
Lage (2001. p 66-67) recomenda que o testemunho seja coletado enquanto o fato está recente, pois ele acredita que o “testemunho mais confiável é o mais imediato”, já que a memória em curto prazo é mais fidedigna, mesmo que fragmentada.
Como o nosso objeto de estudo é o jornalismo online, é preciso lembrar que os webjornalistas, utilizam também o ciberespaço como fonte. Elias Machado, em seu artigo intitulado “O ciberespaço como fonte para os jornalistas”, defende a perspectiva de que o jornalismo em suporte digital ainda está muito vinculado às práticas produtivas dos meios tradicionais. O autor direciona a discussão para a adoção de “técnicas de pesquisa e apuração adequadas ao jornalismo praticado nas redes telemáticas” (MACHADO, 2003. p 1).
Na medida que a arquitetura descentralizada do ciberespaço desarticula o modelo clássico, o exercício do jornalismo nas redes telemáticas depende do estabelecimento de critérios capazes de garantir a confiabilidade do sistema de apuração dentro de um entorno com as especificidades do mundo digital (MACHADO, 2003. p 4).
Machado (2003. p 4) faz uma crítica sobre o uso preferencial de fontes oficiais. Para o autor, os jornalistas acreditam que podem obter “dados fidedignos de personalidades reconhecidas, respaldadas pelo exercício de uma função pública”. No entanto, a eleição desse critério para a definição de pautas “arrisca a credibilidade da publicação pelo tom oficialista dos conteúdos”.
O equilíbrio na utilização de fontes e dados são elementos que podem colaborar para a qualificação do conteúdo publicado nos jornais online. Algumas notícias online sobre violência sexual contra crianças e adolescentes utilizam exclusivamente fontes policiais, o que desfavorece a cobertura sobre o tema.
Segundo pesquisa da ANDI (2003), revelada no livro “O Grito dos Inocentes”, que analisa através da pesquisa “Infância na Mídia”, o que foi publicado nos 49 maiores jornais do país sobre a violência sexual contra meninos e meninas, constatou que as
instituições mais mencionadas na cobertura da exploração e abuso sexual de crianças e adolescentes no período de 2001 e 2002, eram a polícia com 61,42% das fontes citadas, em segundo lugar ficou o judiciário com 28,69% e em terceiro o executivo com 20.48%.
Figura 6: Gráfico com a representação das fontes no período de 2001 e 2002 em notícias sobre a temática da violência sexual contra meninos e meninas (ANDI, 2003).
De acordo com o gráfico acima referente à pesquisa “Infância na Mídia”, os Conselhos Tutelares e de Direitos são consultadas como fonte em apenas 9.89% das matérias em 2001 e 2002. Em pesquisa realizada em 2003 e publicada no livro “Ouvindo conselhos: democracia participativa e direitos da infância na pauta das redações brasileiras”, da ANDI, é possível perceber uma redução drástica da presença dos Conselhos Tutelares, pois eles são mencionados em apenas 3% das 115.149 matérias publicadas sobre infância e adolescência, em 54 jornais brasileiros. Um contraponto interessante é que os Conselhos Tutelares são destaque em apenas 10% do material analisado, e o órgão aparece como foco em apenas 12,3% das matérias (CONANDA, 2005).
A criança ou adolescente vítima de violência sexual também aparece como fonte em notícias sobre o tema e o ideal é que não ocorra a exposição das vítimas e que os jornalistas não entrevistem essas fontes diretamente, para evitar a revitimização. Uma alternativa para ter o depoimento da criança é conversar com o psicólogo ou outro profissional que tenha realizado atendimento e que tenha tido contato direto com a criança, para que ele repasse as informações para a construção da matéria.
É claro que as crianças devem ter o direito de fala, mas nessa situação deve-se optar em saber a versão da criança por outras fontes. Alguns veículos acreditam que colocando tarjas pretas ou distorções nas imagens e no áudio da voz das crianças e
adolescentes estejam “protegendo-as” da exposição, no entanto, esses artifícios criam estereótipos negativos para a imagem desses que já estão sensibilizados pela vitimização. Esse cuidado também deve estender-se no caso em que a criança ou adolescente é o autor de algum ato infracional.
O sigilo relativo à identidade de criança ou adolescente em notícia sobre ato infracional é uma imposição – exatamente para evitar uma exposição que pode estigmatizar, esteriotipar e levantar preconceitos que tenham impactos sobre a imagem e a reputação presente e futura desses cidadãos. Compreendido assim o sentido do que é proposto pela lei, percebe-se que a mesma proteção e cuidado são práticas desejáveis nos casos de crianças e adolescentes em situação de grave exclusão social, de exploração sexual ou de outras formas de violência, nos quais o processo de revitimização – seja por entrevista, seja por exposição da imagem – surge como mais uma consequência a ser evitada (ANDI, 2006. p 58).
O ECA apresenta dois artigos que versam sobre a proteção da imagem da infância: o Artigo 17, “o direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, ideias e crenças, dos espaços e objetos pessoais” e o Artigo 18, que reforça: “é dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor”.
A ANDI (2006. p 63) recomenda alguns cuidados com o tratamento da imagem de crianças e adolescentes durante a cobertura sobre violência sexual.
• Não se deve retratar crianças e adolescentes de forma vulgar ou erotizada, mesmo sem mostrar os rostos deles;
• Tarjas e quadriculados nos rostos são recursos que os associam à marginalidade e ao crime. Por isso, são desaconselháveis por darem conotação incorreta à situação;
• Deve-se evitar imagens banalizadas e lugares-comuns, como a da bonequinha ou a do urso de pelúcia. Fotografar ou filmar mãos, pés e outros detalhes do corpo (desde que não sejam associados a situações eróticas) pode ser um recurso válido. Cuidado: objetos (como celulares, mochilas, agendas e algum pertence do entrevistado) podem igualmente sugerir a idade e indiretamente permitir a identificação da fonte;
• Sombras são perigosas porque podem ajudar a identificar a pessoa. Neste caso, elas precisam ser distorcidas na água, por exemplo, ou em parede ou vidro irregulares;
• As silhuetas de uma pessoa também são facilmente identificáveis. Podem ser usadas, mas com todo cuidado, pra que de fato tenham o resultado almejado de proteção à identidade;
• Locais também são facilmente reconhecidos. Por isso, quando se registrar a imagem, é recomendável que isso seja feito em um lugar neutro, longe da casa ou de locais frequentados pelo personagem da matéria;
• Vozes, se gravadas, devem obrigatoriamente ser distorcida quando o programa for ao ar, seja no rádio ou na televisão (ANDI, 2006. p 63).
Os Observatórios de Mídia34 são ferramentas importantes para acompanhar a cobertura sobre os temas alusivos a meninos e meninas em situação de vulnerabilidade social e familiar. O Observatório de Mídia e Direitos Humanos da Bahia tem realizado pesquisas que colaboram para um diagnóstico da cobertura no Estado. Um exemplo disso foi a análise35 em 2010, de dois programas televisivos policialescos no qual aferiu violações contra os direitos infanto-juvenis, que eram observados predominantemente em crianças e adolescentes de classe popular.
Em algumas notícias sobre a temática da violência sexual infanto-juvenil, nota- se a presença do discurso do agressor ou suspeito, especialmente nesse tipo de crime. Os suspeitos são condenados antes da investigação, seja pela construção da notícia, pelos repórteres ou pelos leitores. No entanto, é preciso lembrar que suspeito é diferente de agressor. O primeiro não foi autuado em flagrante e existe apenas uma suspeita de que ele cometeu o crime, ao contrário do agressor, que é autuado em flagrante.