Analisar a cobertura sobre violência sexual contra crianças e adolescentes em veículos online de conteúdo jornalístico, por intermédio do estudo de caso do G1 e Folha.com foi o objetivo principal dessa pesquisa. Mas para chegar nesse resultado, foi preciso articular vários elementos constituintes das teorias da comunicação, do jornalismo, do webjornalismo e de análise de conteúdo e discursos.
Descobrimos que a disposição das vozes dos atores sociais constituem em si um elemento de construção do posicionamento discursivo, além disso, a articulação entre os dados utilizados para a elaboração da notícia e o direcionamento, permitem construir uma cena enunciativa que possibilita a produção de efeitos de sentido sobre o assunto abordado.
Essa pesquisa foi inspirada nos trabalhos da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI) que acompanha e analisa a cobertura da infância na impressa no Brasil e em outros países, almejando a qualificação da infância como cidadãos de direitos. No entanto, nada ainda tinha sido realizadas pesquisas no universo online, e é nesse ponto que essa pesquisa pode colaborar como proposta inicial para se pensar a cobertura online sobre temas alusivos à infância, especificamente a violência sexual.
O tema principal de análise foi a cobertura sobre a violência sexual contra meninos e meninas. Entre todos os tipos de violência possíveis, essa foi escolhida em razão de carregar na sua concepção elementos que denunciam a desestrutura família (violência sexual intra-familiar) e a saúde pública no Brasil.
Além disso, é um tema que provoca repulsa e precisa ser divulgado de forma qualificada para informar a sociedade como identificar casos de violência, como se proteger legalmente dos delitos e como tratar as vítimas que tem suas vidas marcadas por esse ato.
O objetivo não é concluir sobre qual veículo tem mais qualidade na cobertura, mas sim perceber as nuances da cobertura e refletir sobre os elementos da notícia e do posicionamento discursivo dos veículos sobre o tema.
Iniciamos essa pesquisa com o desafio de responder a questão “Como ocorre a construção discursiva das webnotícias sobre violência sexual contra crianças e adolescentes na Folha.com e no G1 e como os atores sociais são expostos nas notícias?”, ao longo do processo analítico associamos análise de conteúdo à análise do
posicionamento discursivo para tentar diagnosticar e responder essa questão de como ocorre a cobertura sobre essa temática em ambos os veículos.
A regularidade dos elementos e dos discursos no período de cinco anos possibilitou considerar o que cada veículo põe em evidência ao noticiar esse tema que é polêmico e que envolve percepções morais e éticas.
Na análise de conteúdo percebemos que na categorização webjonalística a Folha.com conseguiu atender o leitor em alguns itens, houve redução da multimidialidade que foi quase inexistente, pouco uso de imagens, áudios e vídeos, mas na hipertextualidade, memória e banco de dados, a Folha.com atende com rigor semântico a possibilidade de aprofundamento no tema violência sexual infanto-juvenil, facilita a navegação do usuário disponibilizando um link em cada notícia com uma busca por outras notícias que abordam o tema.
O G1, diferente da Folha.com, adota o uso de imagens, principalmente imagens das vítimas, no entanto, observamos que existe um certo “cuidado” em não identificar a criança quando esta sobreviveu ao trauma, mas o mesmo não ocorre quando a criança chega a óbito, nesses casos a imagem do rosto aparece de forma nítida, em uma tentativa clara de sensibilizar o leitor e órgãos competentes sobre a perda. A personalização não foi identificada em ambos os veículos, mas a interatividade sim e cada veículo apresenta canais de interação organizados para receber as interferências dos leitores.
Entre os enquadramentos mais recorrentes no G1, estão (1) crimes e prisões, (2) políticas-públicas/ações de governo, (3) denúncia, (4) estatística e por último (5) prevenção. Na Folha.com os mais recorrentes foram, (1) crimes e prisões, (2) políticas públicas/ações de governo, (3) prevenção, (4) denúncia e por último (5) estatística. Por isso podemos considerar que além de confirmar a prevalência das notícias sobre crimes e prisões, descobrimos que a Folha.com tem uma preocupação com a prevenção e denúncia da violência sexual infanto-juvenil, enquanto que o G1 prioriza a denúncia, as estatísticas sobre o tema e depois a prevenção.
Como já pontuamos o enquadramento mais recorrente em ambos os veículos foi o de crimes e prisões, o que confirma a tendência detectada em pesquisas da ANDI, de que a imprensa divulga mais notícias nesse enquadramento e que tem como fonte principal a polícia. Ambos os sites não utilizam ainda os elementos webjornalísticos de forma favorável, principalmente o banco de dados, nesse quesito a Folha.com esta um
pouco mais preparada que o G1 que apresenta vários links sem funcionar e players de vídeo que também estão indisponíveis.
Sobre os valores-notícia detectamos que ambos os veículos priorizam a notabilidade e o conhecimento. No entanto, o comportamento editorial muda com os outros valores-notícia. A Folha.com preza pelo conflito para depois pautar o interesse humano, enquanto o G1 destaca o interesse humano e depois o conflito.
Com relação ao posicionamento discursivo, a postura da Folha.com em pautas que envolvem ações políticas, como nas notícias sobre as obras do PAC ou o remanejamento de verbas dos programas sociais fica evidente o posicionamento discursivo contrário às atitudes do governo. Em notícias polêmicas a Folha.com consegue evidenciar o seu posicionamento discursivo de forma clara, em geral, procura opinar por intermédio da construção da notícia, do título ou do discurso das fontes.
O G1 é um pouco mais tímido nesse sentido, não apresenta o seu posicionamento de forma tão evidente, mas deixa perpassar por intermédio do discurso das fontes, títulos e da construção da notícia o seu posicionamento. Um cuidado indispensável que o G1 precisa ter é com o que as fontes falam, algumas fontes apresentam declarações polêmicas e preconceituosas quando evidenciam que pessoas do interior estão mais propensas a sofrer violência por que são suscetíveis a seguir “apelos de ícones urbanos” ou quando diz que as meninas exploradas sexualmente fazem isso em razão do consumismo.
Os títulos-informativos (manchetes) em ambos os veículos são construídas predominantemente apresentando a causa/ação do acontecimento e seu respectivo resultado/motivação, as manchete com esse padrão são atrativas e resumem os dois itens principais do acontecimento. O segundo tipo de manchete mais utilizada são aquelas que apresentam alguma suposição, asserção ou apelo pedagógico e em último caso são utilizadas manchetes com alguma declaração polêmica da fonte.
As fontes envolvidas e testemunhais na Folha.com geralmente têm suas declarações veiculadas através de discurso indireto, o G1 segue essa mesma tendência, no entanto, apresenta uma incidência maior de notícias com declarações das vítimas em discurso direto, o que sugere que houve um contato direto ou optou-se por coletar as declarações da polícia e expô-las dessa forma. Já as fontes autorizadas e especializadas tem suas declarações expostas de forma direta na maioria das notícias.
Uma iniciativa importante e que contribui para a prevenção da violência sexual contra crianças e adolescentes são as declarações de fontes especializadas que indicam
como conduzir e identificar casos em que a criança sofreu ou sofre violência. Além disso, através das declarações das fontes e dos dados sobre o tema, ambos os veículos convidam o leitor a refletir sobre o ato de denunciar e de reconhecer as vítimas, que muitas vezes não revelam a violência.
O processo analítico dessa pesquisa permitiu treinar metodologias e formas de olhar a cobertura sobre a violência sexual infantil em veículos online. Articulando conceitos e categorias, tentamos lançar um olhar criterioso e sensível para detectar as nuances dos discursos dos veículos e suas fontes e perceber de que forma esses discursos contribuem ou não para uma cobertura qualificada. Estudos futuros podem investir esforços em agregar outros veículos e testar outras metodologias que possam atender ao objetivo proposto nesse estudo.
O webjornalismo tem características específicas que precisam ser consideradas em sua essência para tornar o conteúdo mais eficaz para o leitor. Um leitor de notícias online, não almeja apenas um texto, ele procura encontrar um conteúdo contextualizado com memória de tudo o que foi discutido sobre a pauta e quer essa historicidade em links, além disso, ele precisa de imagem, vídeo, áudio ou algo que torne ainda mais real aquele fato. Esse estudo foi uma tentativa de considerar esses elementos do webjornalismo associados com as teorias da comunicação e de análise de discursos para perceber de forma ampla essa cobertura temática que ainda é precária.
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