No sentido de evidenciar a construção discursiva do tema violência sexual infanto-juvenil no G1 e na Folha.com, faz-se necessário lembrar conceitos importantes para a categorização da análise dos discursos.
4.1 ANÁLISE DE DISCURSOS E AS GERAÇÕES DA SEMIOLOGIA
De acordo com o Dicionário de Análise do Discurso (CHARAUDEAU e MAINGUENEAU, 2008. p 168), o discurso é uma noção em uso desde a filosofia clássica, na qual o conhecimento discursivo era o oposto de conhecimento intuitivo.
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Na Bahia existe uma iniciativa importante que analisa e monitora a cobertura temática referente a infância e adolescência, é o Observatório de Mídia e Direitos Humanos, que existe em parceria com a Comunicação Interativa (CIPÓ), a Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom/UFBA) e o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social (ANDI, 2006, p. 62).
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Para saber mais sobre essa pesquisa ver – FERREIRA, Giovandro Marcus (et al). A construção da violência na televisão da Bahia: um estudo dos programas Se liga Bocão e Na Mira. Salvador: UFBA, 2011. 109 p.
A noção de acontecimento discursivo é um conjunto finito das únicas sequências discursivas que tenham sido formuladas, dentro do questionamento “como apareceu um determinado enunciado, e não outro em seu lugar?”, que remete a necessidade de considerar o dito e o não dito em uma análise. Em contrapartida a noção de campo discursivo, compreende o enunciado na singularidade de sua situação, condição de existência e correlações com outros enunciados (FOUCAULT, 2010. p 30-31).
A análise de discursos, para Pinto (1999. p 11), “procura descrever, explicar e avaliar criticamente os processos de produção, circulação e consumo dos sentidos vinculados àqueles produtos na sociedade”.
Pinto (1999. p 26), quando argumenta sobre os modos de dizer (modos de mostrar, modos de interagir e seduzir), conceitua a análise de discursos como aquela em que se interessa pelo que o texto diz e mostra, mas “como” e “por que” diz e mostra.
Do ponto de vista de uma prática analítica, os modos de dizer podem ser ainda explicitados em modos de mostrar (uso referencial da linguagem e de outras semióticas, pelo qual são criados os universos de discurso em jogo no processo comunicacional, modos de interagir (uso da linguagem e de outras semióticas pelo qual são construídas as identidades e relações sociais assumidas pelos participantes no processo comunicacional) e os modos de seduzir (uso da linguagem e de outras semióticas na busca e consenso, pelo qual se distribuem os afetos positivos e negativos, associados ao universo de discurso em jogo) (Pinto, 1999. p 27) (grifos do autor).
Para compreender esse novo território da semiologia, que é o reconhecimento da recepção (efeitos de sentido) é preciso resgatar as fases ou gerações da semiologia demarcadas por Verón (2004. p 215-216). A semiologia de primeira geração (1960) que descrevia o funcionamento conotativo do sentido e fazia a análise da mensagem, é caracteriza por Véron como imanentista.
A semiologia de segunda geração (1970) que focava na construção do sentido e reconstituía o processo de sua criação e a semiologia de terceira geração (1980), que compreende o discurso como um campo de efeitos de sentido, caracterizando um processo que começa na produção do sentido e vai até a “consumação” do sentido (VERÓN, 2004. p 215-216).
Ferreira (2006. p 1-4), apresenta um detalhamento dessas gerações e especifica nuances importantes para compreender a trajetória do estudo do discurso. Para o autor, os anos 60, que caracterizam o início da semiologia de primeira geração, marcam a fase do imanentismo semiológico que estava imerso no estruturalismo, na preocupação com a análise das estruturas da mídia. Outra característica dessa fase são as noções de
denotação (reflexão sobre a neutralidade dos discursos racionais e dos enunciados denotativos), conotação (mass media como reflexo dos valores burgueses, tudo significa na mensagem) e analogia (destaca o sentido literal dos discursos).
Na semiologia de segunda geração, que se inicia nos anos 70, as características marcantes são a enunciação e as condições de produção e de reconhecimento. Ferreira (2006. p 3) lembra que “o núcleo duro da análise passa a ser as mensagens, parâmetro para se pensar sua organização na produção e na recepção, e não o código que servia de pedra angular para balizar a interpretação”.
Refletindo sobre o uso da palavra código, Verón (2004. p 37-42) argumenta veementemente contra o uso do termo como sinônimo de língua, os códigos seriam apenas “unidades que se combinam nas mensagens”.
Portanto, um “código” é um sistema de relações entre dois “universos do discurso”: o campo semântico (do lado do significante – “o plano do indicador”) e o campo noético (do lado do significado – “plano do indicado”). Significante, significado e sema são entidades abstratas, classes de fatos. As entidades concretas, membros dessas classes, são os sinais e as mensagens(VERÓN, 2004. p 41-42).
Esse é um passo importante para a transição da análise estruturalista do discurso para a análise dos discursos envolvendo a enunciação, o que caracteriza a terceira geração da semiologia. Por isso, Ferreira (2006. p 3) aponta três avanços dessa fase: a definição de novos parâmetros de análise, o estabelecimento de novas relações (análise de outras matérias significantes, como a fotografia) e a articulação das mensagens analisadas e o ambiente sociocultural.
Outro marco é a expansão da análise dos discursos considerando as condições de produção e reconhecimento associado aos conceitos de enunciação e enunciado. Na semiologia de terceira geração o foco de análise não é mais a mensagem, mas a produção/reconhecimento do sentido, também chamada de gramáticas de produção e reconhecimento.
No caso do estudo do contrato de leitura, tenho, por conseguinte, de um lado, um corpus de suportes de imprensa que me permite trabalhar “na produção” para reconstituir a gramática de produção de cada um dos suportes e, de outro lado, tento reconstituir, a partir do discurso dos receptores, as gramáticas de reconhecimento, que são sempre várias, pois é certo que um dado dispositivo de enunciação jamais produz um único efeito, mas sempre vários, conforme os receptores (VERÓN, 2004. p 237-238).
A gramática de produção Verón (2004. p 250) caracteriza como traços que remetem às condições de produção dos discursos. Esses traços são o suporte para regras de criação desses discursos: um conjunto dessas regras define exigências para a criação de um discurso.
Na gramática de reconhecimento, Verón (2004. p 250) indica que se deve trabalhar com dois conjuntos discursivos: um corpus que deve ser analisado em suas propriedades e um conjunto constituído pelos discursos dos receptores.
4.2 ENUNCIADO, ENUNCIAÇÃO, ANÁLISE ENUNCIATIVA E
REGULARIDADE DISCURSIVA
A teoria da enunciação francesa tem como um dos representantes Émile Benveniste, pesquisador francês que foi aluno de Saussure. Para Benveniste (1989. p 82), a enunciação é “este colocar em funcionamento a língua por um ato individual de utilização”.
Um questionamento provocador de Benveniste (1989. p 82), é como o “sentido” se transforma em “palavra”. Para o pesquisador francês a semantização da língua está no centro deste aspecto da enunciação.
Enquanto realização individual, a enunciação pode se definir, em relação à língua, como um processo de apropriação. O locutor se apropria do aparelho da língua e enuncia sua posição de locutor por meio de índices específicos, de um lado, e por meio de procedimentos acessórios, de outro (BENVENISTE, 1989. p 84) grifo do autor.
A enunciação existe no processo de diálogo com o outro, em uma relação de troca. O “locutor” tem necessidade de se apropriar da língua para referir o discurso para o outro: este é um movimento de coreferência que faz de cada locutor um co-locutor (BENVENISTE, 1989. p 84).
O que caracteriza a enunciação de forma geral é a acentuação da relação discursiva com o parceiro, que pode ser real ou imaginário, individual ou coletivo. Essa é a estrutura de diálogo inerente ao processo de enunciação (BENVENISTE, 1989. p 87).