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PARTIE 2 : CADRE D’ANALYSE

7. FORCES ET LIMITES DE LA RECHERCHE

A socialização da relação histórica do sujeito psicológico com a técnica pela via do desejo – exemplo disso é a fase do processo de gramatização associada à escrita (hypomnématon alfabético) -, está, como se já se referiu, associado à possibilidade e capacidade de re-elaboração de novos modos de vida, cujo contexto de referência é a cultura, compreendida, justamente, como o cultivo dos saberes que, através da técnica, preservam a memória do objecto de desejo [i.e. dão conta da sua falta original, através formalização da técnica como exteriorização da memória e prolongamento da vida (humana e social) por outros meios que não a vida]; a promoção do saber (suportado pela técnica) como economia do desejo, tem sido um papel historicamente desempenhado na

cultura ocidental26, pelas instituições de programas, como é o caso da Universidade, e à

qual se atribui um contributo decisivo para a preservação do logos como a matriz da tradição do pensamento ocidental, que representa, acima de tudo, uma prática de cuidado

na relação com o saber (pois, o saber sendo

exteriorizado/suportado/categorizado/epacializado pela técnica, também herda e inclui propriedades farmacológicas inerentes aos seu recurso) (Stiegler, 1994).

Sucede, porém, que a socialização dos hypomnémata segundo as prescrições do marketing – tornadas evidentes, sobretudo, a partir da estabilização da sociedade de consumo no, terceiro quartel do séc. XX, destinadas a tudo converter em mercadoria e, com isso, a reduzir o sujeito psicológico a um poder de compra, deram lugar à constituição

26 A circunscrição da análise ao contexto cultura ocidental, justifica-se na medida em que é o contexto do qual este trabalho parte, e para o qual os seus contributos se dirigem, tendo, por esse motivo, sido assumido ao longo trabalho como contexto histórico e cultural de referência.

106 de indústrias de programas/indústrias culturais (e.g., rádio, televisão), que passaram a competir directamente com as instituições de programas, pela captação da consciência e da atenção (les temps de cerveaux disponibles) do sujeito psicológico (então, transformado consumidor), ou seja, passaram a instituir um competição entre a tradição do logos

(promovida pelas instituições de programas), e o movimento de

racionalização/desencantamento (Adorno & Horkheimer, 1947/1985; Baudrillard, 1984; Marcuse, 1964, 1989; Habermas, 1990b). No entanto, da competição entre o logos e a racionalização, protagonizada pelas instituições de programas e pelas indústrias de programas, respectivamente, restava, ainda, à Universidade a conservação do seu estatuto de instituição, de espaço privilegiado para o cultivo da relação com o saber, para a sublimação do real pela valorização da esfera incalculável, o mesmo será dizer, à Universidade era permitida a ousadia de afirmar a inutilidade como valor, e com isso fazer sobressair a irredutibilidade da esfera incalculável da existência.

Ora, nas sociedades do hiperconsumo, cujo sustentáculo é a dependência formal e funcional, da assimilação da esfera incalculável pela do calculável (empobrecimento simbólico), a competição entre instituições de programas e indústrias de programas, não se manteve, também ela foi consumida, dando lugar à reivindicação da tendência de conversão das instituições de programas em indústrias de programas, ou seja, imprimindo um novo estágio na proletarização do sujeito psicológico, correspondente à desinstitucionalização da Universidade (cf. Coimbra, 2011), e com ela à perda do savoir- théoriser. De facto, (i) a perda da soberania da instituição universitária, e a sua crescente subordinação da vida académica a objectivos de ordem económica, (ii) a imposição de avaliação da actividade científica baseada em critérios estandardizados e normativos, (iii) a ferramentalização/tecnicização das práticas de investigação (à qual do domínio da Psicologia, nem pela ordem do seu objecto de estudo, permanece imune), (iv) a inscrição do tempo da produção científica em rotinas „performantes‟ e contratualizadas com a produção de resultados e com a exigência da sua participação e divulgação (accountability); (v) a obrigação da participação da Universidade no “jogo mercantil, a esvaziá-la da sua substância e, até, surpreendentemente a alheá-la da sua relação com o trabalho e com a responsabilidade que aí deveria assumir (não confundir com a retórica da empregabilidade nem com a leviandade do empreendedorismo incondicional)”(Coimbra, 2011); (vi) a hiper-especialização precoce de jovens investigadores e a sua redução à condição de executantes entregues a si mesmos, em suposto favorecimento de condições de autonomia (e.g., alteração da designação de alunos para estudantes); traduzem, no seu

107 conjunto, manifestações inquestionáveis da proletarização da instituída naquela que já foi a instituição universitária e que agora se vê cativa da sua designação como indústria (Universidade vs. Unidade de Produção de Conhecimento) (Coimbra, 2011; Derrida, 2001/2003; Stiegler, 2004b, 2006a). E é em resposta à tendência de proletarização da instituição universitária, em geral, e de, funcionalização da investigação em Psicologia, em particular, que se situa o segundo contributo desta investigação para a intervenção e investigação em Psicologia (dimensões apenas separadas analiticamente): o manifesto da urgência da teoria. Com efeito, a fundamentação da metodologia desta investigação nos contributos da Psicologia Crítica e na opção pela teoria, visou alertar – independentemente de se ter concretizado esse objectivo –, para a necessidade de recuperação do savoir- théoriser como prática de cuidado, uma vez orientado para a formalização e promoção de estruturas de questionamento e problematização do mundo (onde se inclui o funcionamento e desenvolvimento psicológicos), e para o incentivo ao reconhecimento da conflitualidade, incorrigível, do objecto de estudo, enfim, para a fomentação de uma postura crítica e complexficante face à investigação em Psicologia e às exigências, externamente, colocadas aos seus processos e produtos/resultados.

Termina-se, pois, com a afirmação renovada da exclamação do valor da teoria e da sua indispensabilidade na concretização da agenda do modelo da contribuição, revista, particularmente, no seu contributo para a inversão da tendência da instalação e legitimação da bêtise do reino do calculável, e para a instituição da Universidade como skholé: a urgência da teoria para a o alcance da investigação científica, considerada na sua relação histórica com a técnica (gramatização) como estrutura de individuação psíquica e colectiva, como memória do objecto de desejo, como amor à sabedoria.