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Focus n°4 : La contractualisation – Projection 2020

Dans le document RAPPORT DE PRESENTATION (Page 75-79)

Dette par type de risque

8. L’encours de la dette garantie au 31/12/2020

8.4 Focus n°4 : La contractualisation – Projection 2020

O trabalho em saúde é um processo coletivo, do qual emergem interesses, conflitos e negociações, estabelecendo determinadas tendências na produção do cuidado. Desse modo, precisa haver uma responsabilização coletiva, pela divisão pactuada e articulada de tarefas, afinal, presume-se que uma equipe responda pelos atos de qualquer um de seus membros, que precisam caminhar juntos em um processo de cuidado recíproco.

Dentre os entrevistados, seis relataram que não tiveram oportunidade de escolha de área ou local de atuação ao serem convocados para assumir os cargos conquistados no concurso. Não foi levado em consideração o perfil ou formação. Identificou-se que a impossibilidade de escolha, sem capacitação prévia, despertou insegurança, possivelmente fruto das experiências de vida, formação ou dos preconceitos sociais construídos ao longo da história em relação à loucura:

[...] não é alguém com perfil que é encaminhado pra cá [...] eu já imaginei que ia entrar aqui e ser agredida, que iam pegar meus cabelos, me xingar [...] (E6).

Os profissionais que tiveram oportunidade de escolha já demonstravam interesse pela área de saúde desde seu período de formação:

Então eu escolhi a psiquiatria, porque pra mim era um desafio conhecer. Pra falar a verdade eu tinha muito medo (E1).

Todos os entrevistados apontam que os conhecimentos sobre o cuidado em saúde mental exigem busca pessoal em grande parte de sua história profissional. Esse processo de ingresso e não capacitação pode refletir diretamente na qualidade das ações oferecidas por esses profissionais:

Talvez não escolhesse aqui, mas já que eu vim pra cá, eu acho que deveria ter uma capacitação. Eu não tive, eu não tinha nenhuma noção [...] então já comecei atendendo, só que eu não sabia nem o que eu tava fazendo (E4).

Com o movimento antimanicomial, foram desenvolvidos fluxos e estratégias para que o trabalho em equipe ocorra de modo interdisciplinar, e até mesmo transdisciplinar. Tende-se a privilegiar a comunicação, discussão, decisão conjunta e ações compartilhadas entre profissionais e usuários do serviço.

A dinâmica da equipe pela divisão do trabalho e as dificuldades na interação entre os setores são expostas nas entrevistas. Intensifica-se um distanciamento entre os profissionais, o que vem acentuando a falta de comunicação entre eles. Dada a grande demanda de casos atendidos em ambulatório, as equipes técnica e médica acabam diminuindo sua aproximação e participação no cotidiano dos usuários que passam o dia na unidade (Hospitalidade dia ou Acolhimento integral), que permanecem aos cuidados mais gerais da equipe de enfermagem.

O diálogo é elemento central no manejo do adoecimento e nesta equipe, pode-se selecionar a reunião geral como momento favorecedor. Elas ocorrem semanalmente e são percebidas positivamente pela maior parte da equipe:

[...] é o tempo que você tem pra pensar a respeito do caso, pra trocar com o colega, até pra aprender às vezes, se alguém sugerir alguma coisa (E3).

As reuniões promovem a angústia, porque a gente revê a nossa prática, mas a gente colhe bons frutos. É angustiante porque são vários tipos de saberes, então você tem que conciliar o teu saber com o do outro (E7).

As reuniões gerais nem sempre contam com a presença dos técnicos de enfermagem, pela demanda de trabalho e o reduzido número de funcionários. Também não participam profissionais do período noturno, componentes também do corpo de enfermagem. Há dificuldades também na participação dos médicos e da equipe administrativa/recepção. Essa ausência favorece o distanciamento e pode comprometer a produção de ações coletivas na prática do cuidado:

Como eu fico mais tempo com eles, se tem algum problema eu posso falar na reunião. O fato de não ser muito ouvido eu acho que às vezes acontece (E2). Acho que os técnicos de enfermagem deveriam participar e o pessoal do administrativo também. A gente não tem conseguido isso, às vezes por falta de equipe e às vezes porque eles também não são motivados e incentivados a participar. Quando participam, se comprometem mais com o trabalho (E3). [...] eu poderia estar desenvolvendo alguma outra atividade com os pacientes que ainda não é realizada, poderia estar fazendo visita domiciliar, poderia participar mais das reuniões. É isso. Eu considero essencial sim o ato médico da consulta, da prescrição, mas essa é a única coisa que eu consigo fazer de fato e é frustrante (E10).

Além da reunião geral, há momentos diários entre a troca das equipes, chamados de “passagens de plantão”. Acontecem de forma mais objetiva e resolutiva, referindo-se às situações ocorridas naquele dia ou que mereçam atuação imediata. As deficiências desses encontros em relação à ausência de funcionários de todas as áreas e o potencial reflexivo sobreposto pela resolução pragmática de problemas dificultam a reflexão construtiva. Parecem assumir-se relações de hierarquia em relação às condutas oferecidas ao usuário do serviço.

A reflexão do trabalho em saúde modifica padrões pré-estabelecidos e reforça a impossibilidade de predeterminar ou prever os resultados do processo, causando certo desconforto entre os trabalhadores, sobretudo quando não estão acostumados a refletir sobre si e seu trabalho. A implicação destes profissionais no desenvolvimento de suas ações parece prejudicada pela sensação de perda de potência, dada a baixa disponibilização de recursos:

Os desafios são o investimento mínimo, ou quase nenhum [...] Eu percebo muito resultado da minha prática profissional com os usuários, mas essa prática é uma prática suada, forçada, pela boa vontade da equipe e do profissional (E9).

[...] é uma equipe reduzida e essa carência de material de trabalho e pouco apoio das instâncias superiores a nós (E10).

Uma questão trazida pelos profissionais está relacionada ao possível adoecimento causado pela atuação profissional, frente às frustrações relacionadas às condições de trabalho:

Já ouvi funcionário falar que aqui se não é, fica louco [...] (E1).

Tem pessoas que estão adoecendo na rotina do dia a dia e isso me deixa muito triste e eu também já estou adoecendo (E4).

Apesar de ressaltarem as deficiências, os profissionais também valorizam e reconhecem momentos em que se discute e se compartilha:

[...] a gente teve alguns ganhos, a soma das nossas ações, das atividades que a gente propôs acho que causou uma transformação, então quando eu olho pra um tempo recente atrás, eu vejo os próprios usuários que estão com a gente todos os dias, que eles melhoraram, que estão melhores em vários sentidos, assim, não de sintomas, mas com outras questões, nas relações afetivas, na expressão, na dinâmica do relacionamento interpessoal [...] (E3).

[...] acho que a equipe trabalha bem coletivamente sim, uns setores mais próximos que outros, é muito segmentado, a enfermagem é mais unida com a enfermagem, os técnicos com os técnicos, administrativo com administrativo, mas mesmo entre as equipes tem troca (E7).

As equipes que têm maior clareza sobre as práticas colaborativas estão mais preparadas para atuar também no trabalho em rede, fundamental para a política da integralidade preconizada pelo SUS. Os fluxos assistenciais precisam estar centrados no usuário, facilitando seu percurso e acesso, sendo o PTS o fio condutor desse cuidado integral.

A escassez de capacitações é tema frequente, pois os profissionais consideram insuficiente o oferecimento de momentos de ensino/aprendizagem e ressaltam que não é oferecida, até o momento, supervisão institucional para a equipe:

Estão exigindo o PTS, mas ninguém sentou pra ensinar isso, tem gente que não tem a mínima noção porque não teve capacitação (E7).

[...] é uma equipe muito boa, muito capaz, mas ela se perde por estar desgastada e por não ter nenhum incentivo da coordenação (E9).

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