Para assegurar o seu funcionamento todas as quartas feiras, os agricultores colhem as olerícolas no dia anterior, saindo às duas horas da madrugada do município de São Bonifácio/SC e retornando a uma hora da madrugada do dia seguinte. Permanecem assim 24 horas envolvidos nas atividades de comercialização na feira.
No período de implantação, em setembro de 2006, a produção de hortifrutigranjeiros era assegurada por outro grupo de agricultores localizados em Paulo Lopes-SC. Mas os baixos rendimentos auferidos e a sobrecarga decorrente do envolvimento com outros esquemas de comercialização contribuiu para desestimulá-los. Assim, a partir de outubro de 2007 a feira passou a ser assumida pelo grupo de São Bonifácio-SC.
Inicialmente, a intenção era, numa perspectiva de ecopedagogia, utilizar o bambu na construção das barracas, a partir do projeto de um especialista local reconhecido nacionalmente. A própria escolha do local de funcionamento, entre o Relógio do Sol e o Monumento em Memória das Vítimas da América, obedeceu a esta identificação com uma economia solidária, expressa na logomarca do Projeto Ágora.
Em algumas correspondências virtuais trocadas entre os envolvidos no período inicial e conforme foi relatado em entrevista, havia a intenção da feira permitir a formação de uma cooperativa e, consequentemente, fortalecer o movimento da economia solidária de SC.
Conforme um dos agricultores entrevistados, a motivação inicial para a participação neste projeto esteve fortemente ancorada na necessidade de gerar renda adicional para as famílias agricultoras de São Bonifácio/SC. Em alguns casos, o empreendimento tornou-se, desde o início, a principal fonte de renda das famílias envolvidas. Estas famílias foram sensibilizadas para efetuarem uma transição
agroecológica por influência de um agrônomo da Epagri atuando no
município e também pela existência de um sistema local de
299 Cunha, Campos, op. cit.
300 A nomenclatura desta experiência variou entre Terça Ecofeira, Ecofeira Solidária, Feira da Ufsc, Ecofeira Ufsc, não havendo uma nome estabelecido, se opta por esta.
conhecimento agroecológico (SLCA)301.
Foram entrevistados dois grupos de agricultores envolvidos com a comercialização de alimentos agroecológicos na Feira, compostos de cinco e quatro famílias respectivamente. Deste contingente, alguns agricultores com um nível ainda restrito de produção não são certificados, em decorrência das limitações orçamentárias. Vale ressaltar que as barracas são operadas pelas duas famílias agricultoras feirantes, sem um rodízio com os outros agricultores fornecedores. 302
Apesar das dificuldades iniciais de criação de infraestrutura de transporte e comercialização, muitas famílias decidiram aumentar o volume de produção, mas sem obterem retornos de curto prazo como contrapartida. Tornou-se assim inevitável o surgimento de uma fase marcada por sérias dificuldades financeiras. Além disso, durante o primeiro ano de funcionamento a universidade não conseguiu assegurar uma curva regular de apoio após o término do projeto de extensão. Somado as próprias dificuldades vividas no uso dos espaços da universidade, como foram os conflitos envolvendo o setor de segurança interna da UFSC.
Hoje em dia os dois grupos de agricultores de São Bonifácio ocupam duas barracas na Feira. Inicialmente, o sistema de transporte era bastante precário. Mais tarde, mediante o apoio do PRONAF303, ambos os grupos conseguiram adquirir novos veículos – uma frota que permanece ainda hoje insuficiente para atender a uma demanda crescente de produtos agroecológicos. As negociações com os representates do PRONAF foram marcadas por inúmeras dificuldades, exigindo esforços redobrados das famílias de agricultores para atender às exigências burocráticas deste Programa 304.
Mesmo diante a crescente apelação ao consumo de alimentos orgânicos, a viabilidade dos esquemas de comercialização que estão sendo experimentados exigem regularidade, qualidade e preços favoráveis na oferta – conforme o depoimento de um dos agricultores entrevistados. Ao menos são esses os critérios que têm sido cobrados
301 Santin, 2005; Adriano, 2009; Cordeiro,op. cit. 302
Este grupo é certificado pela Ecocert há 4 anos, pela agilidade que foi a certificação atendendo as necessidades da época, porém no momento estão interessados pela certificação da Ecovida que lhes exige um tempo maior de reuniões.
303 “Pronaf Mais Alimentos - crédito destinado a projetos de investimentos em infra-estrutura, tais como aquisição de tratores, máquinas, implementos agrícolas e matrizes, formação de pastagens, implantação de pomares e estufas, irrigação e armazenagem, associados à produção de milho, feijão, arroz, trigo, mandioca, olerícolas, frutas, leite, café, gado de corte,
suinocultura, avicultura, caprinos, e ovinos.” Cf. Favarin, 2009, p. 23. 304 Cordeiro, op. cit.
dos agricultores durante esses sete anos trabalhando na comercialização de alimentos agroecológicos.
A gente começou com uma conversa super bonita, como que milhões de pessoas estão esperando seu produto, e como é fantástico você fazer isso, e que depois no dia a dia você vai ver que duramente não é verdade, que você precisa de um produto competitivo, tanto no preço, quanto na qualidade, e com regularidade para você entrar no mercado. (entrevistado)
Um dos grupos de agricultores já tentou realizar feiras em outros lugares, porém não obtiveram o retorno necessário. Para este grupo entrevistado, foi importante a abertura de outros canais de comercialização, dada a quantidade de pessoal envolvido e, também, as limitações da Feira para o escoamento de um volume crescente de alimentos. Diante disso, buscou-se outras modalidades de comercialização (em regime de parceria) e vias de acesso a outros mercados. Já o outro grupo de agricultores entrevistado comercializa 80% da sua produção na feira, e o restante é canalizado para o abastecimento de pequenas lojas especializadas em Florianópolis.
Como já foi mencionado, os produtos fornecidos nas barracas da Feira são oriundos de São Bonifácio-SC, mas as frutas ofertadas por uma das barracas decorrem do estabelecimento de parcerias firmadas no âmbito de um outro canal de comercialização. Estes produtos e seus lugares de origem variam conforme a oferta. Por exemplo, a laranja vem de Erechim-RS; a banana vem de Cricíuma-SC ou de Joinville-SC; a maçã vem de Lages-SC; e a pêra - em algumas épocas do ano - vem da Argentina, através de um intermediário de São Paulo. São produtos comprados diretamente com as famílias produtoras ou suas associações - e em alguns casos, mediante o apoio de algum atravessador.305 O leque de produtos ofertados semanalmente inclui: alface, rúcula, agrião, acelga, repolho, beterraba, cenoura, aipim, batata doce, couve folha, couve flor, brócolis, etc.
Uma das maiores dificuldades com que a agricultura familiar tem se deparado atualmente, e no caso estudado não foi diferente, refere-se à escassez de mão-de-obra especializada - tanto na produção quanto na comercialização.
Nos dois grupos de agricultores entrevistados, constatou-se que são eles próprios que organizam toda a dinâmica (produção, logística e
305 Ver figura 10 na p. 165 sobre o fluxo dos produtos e quantidade de intermediários do dispositivo.
comercialização) necessária para a realização da feira, contando para tanto com a ajuda da família e de alguns auxiliares contratados. Muitas vezes são firmados contratos com outros agricultores na revenda dos seus produtos na Feira. A distância geográfica dos agricultores até o dispositivo de venda é de aproximadamente de 81km.
Desde 2013, a Feira vem passando por uma reorganização assessorada pelo LACAF-UFSC. 306 Enquadrada na categoria de uma feira livre, seus organizadores continuam ainda hoje encontrando vários empecilhos do ponto de vista operacional, a exemplo de acesso a fontes de água potável, escassez de banheiros e abrigos para os dias de chuva. Vale a pena insistir no reconhecimento que se trata de um espaço que transcende a esfera das trocas comerciais, oportunizando experiências de intercâmbio cultural e aprendizagem coletiva na interface entre os universos urbano e rural307
Os depoimentos coletados confirmam também que a distribuição dos produtos agroecológicos extrapola os limites da Feira, atingindo diversos restaurantes e lojas de Florianópolis. Até o encerramento da pesquisa de campo, não foi constatada a presença de agricultores agroecológicos de São Bonifácio comercializando seus produtos no âmbito do PAA ou do PNAE. Mas algumas famílias admitiram estarem interessadas em participar desses canais de distribuição.