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Ao mencionar sobre a possibilidade de obter depoimentos da comunidade no estudo fotográfico, Kossoy (2014a) vê a relevância de manter contato com pessoas envolvidas no contexto do acervo a investigar, de modo que os relatos revelam circunstâncias das cenas registradas nos documentados e o contexto dos agentes envolvidos. Explica-se que ao entrevistar um voluntário diante de um retrato que guarda, pode-se obter pistas sobre cronologia de um contexto ou data de produção documental. O autor também afirma que os depoimentos “devem ser colhidos com urgência; caso contrário, são incontáveis os cenários e personagens que permanecerão desconhecidos e anônimos nas fotografias do passado” (KOSSOY, 2014a, p.93).

Iwamato e Sarat (2016) explicam que, a partir da oralidade apreende-se a interação entre a memória individual e identidade coletiva, em que, independente da formação cultural e social das pessoas, essas apresentam diferentes compreensões, apreensões e aprendizados de sua realidade, ainda que estejam inseridas numa “formação coletiva e padrões culturais, estruturas sociais e processos sociais”, ao se manifestarem individualmente, pois “o indivíduo muda, conta e reconta conforme seus interesses e representações, destacando aquilo que considera importante. (IWAMOTO; SARAT, 2016, p.89).

Normalmente, aplica-se o método da história social para respaldar uma pesquisa, o que exige cumprimento de critérios no recolhimento de relatos que sirvam como testemunho. Meihy (2002, p.13) conceitua o método “uma prática de apreensão de narrativas feitas por meio do uso de meios eletrônicos e destinada a recolher testemunhos, promover análises de processos sociais do presente e facilitar o conhecimento do meio imediato”. Colocam-se diferentes conceitos acerca do método, compreendido, em resumo, como um projeto que prevê a formulação de documentos sonoros e textuais produzidos a partir de registros eletrônicos, mediante um conjunto de procedimentos e a definição de um grupo a ser entrevistado, visando “estudar a sociedade” por meio dessa documentação elaborada” (MEIHY, 2002, p.13-4).

A sociologia busca através dos depoimentos dos entrevistados a captura de “respostas às questões norteadoras do trabalho desenvolvido” (EVANGELISTA, 2010, p.172). Na

historiografia a realização de entrevistas, sobretudo, aplica-se “quando faltam outros tipos de fontes ou documentos para suas análises” (EVANGELISTA, 2010, p.172). Em ambos os casos, o material poderá ser aproveitado de forma integral ou fragmentária. Como exemplo de uso do método, Meihy (2002) cita os estudos por gerações, por meio da trajetória de pessoas idosas, jovens e crianças, recompondo-se aspectos particulares e do grupo em que estão inseridas, conforme suas experiências coletivas relatadas. “O estudo por gerações (crianças, moços, velhos) encontra muitos adeptos em história oral” (MEIHY, 2002, p.32), principalmente, combinando-se diferentes gerações, como exemplo, nos casos das correntes imigratórias.

Todavia, alerta-se sobre os cuidados a respeito do entendimento da objetividade e subjetividade na história oral, pois um dos pontos que considera polêmico na metodologia, consiste no fato de pensarem seu uso como referência objetiva. Porém, tal visão aproxima-se do positivismo, por acreditar que o mesmo conterá a verdade em si: “autores mais atentos ao moderno uso das narrativas como fonte garantem que o objetivo central da coleta de depoimentos não se esgota na busca da verdade e sim na da experiência” (MEIHY, 2002, p.49). Meihy (2002) aponta que três possibilidades explicam a fundamentação da história oral como metodologia a ser escolhida na investigação: quando não existem documentos; quando existem versões diferentes da história oficial; quando se elabora uma "outra história" (MEIHY, 2002, p.24). Coloca-se que nos últimos tempos “a história oral tem influído no comportamento das disciplinas universitárias e atuado diretamente na conduta de museus e arquivos do mundo inteiro” (MEIHY, 2002, p.39), de modo a aproximar instituições e comunidade, por manterem uma preocupação com diversos aspectos da vida contemporânea:

1 - registro, arquivamento e análise da documentação elaborada por meio de recolhimento e trabalho de edição de depoimentos e testemunhos feitos com recursos da moderna tecnologia;

2 - inclusão de histórias orais e versões mantidas por segmentos sociais antes silenciados, evitados, esquecidos ou simplesmente desprezados por diversos motivos;

3 - interpretações próprias, variadas e não-oficiais, de acontecimentos que se manifestam na sociedade contemporânea;

Em termos técnicos, Burke (2010, p.185) coloca como uma das características da história oral, “a passagem da fase falada para a escrita, ou dizendo de outro modo, do código falado, estéreo, para o escrito ou comprometido com o que se considera documento no sentido tradicional”. A transcrição de um registro sonoro para um escrito constitui-se de acordo com o autor, o seu diferencial. Todavia, segundo Meihy e Ribeiro (2011), o processo de história oral, para caracterizar-se como tal, o mesmo requer um projeto com as seguintes etapas: planejamento da condução das gravações; respeito aos procedimentos do gênero narrativo escolhido; tratamento da passagem do código oral para o escrito (transcrição; texto final; escritura de um livro); conferência da gravação e validação; autorização para o uso; arquivamento e/ou eventual análise; publicação dos resultados31 (sempre que possível).

Os autores colocam que sobre o uso das gravações de um projeto de história oral, as mesmas podem caracterizar um fim ou um meio. Como fim, a série de registros gravados corrobora para a “constituição de arquivo ou coleção de entrevistas. Nesse caso, fala-se de

bancos de histórias ou conjunto de gravações que se orientariam segundo relatos de grupos

atentos à própria presença em contextos sociais ou institucionais” (MEIHY; RIBEIRO, 2011, p.14), exemplos de migrantes, imigrantes, grupos de profissionais específicos ou outros setores da sociedade. Como meio, os documentos são criados para função determinada. Para ambos os casos, exige-se certa análise, embora nem sempre precisa ser feita imediatamente à execução do projeto.

Ainda, conforme Meihy e Ribeiro (2011, p.15) sem a análise complementar, o alcance da história oral será sempre instrumental, posto que sirva como instrumento para ações de análises futuras como meio ou fim”. Portanto, tem-se três tipos de situações conforme o uso da história oral (MEIHY; RIBEIRO, 2011, p.15): história oral instrumental (serve de apoio); história oral plena (análise de entrevistas, conforme necessidade do projeto norteador da pesquisa, considerando apenas as narrativas); história oral híbrida (supõe-se o cruzamento documental com as análises, trabalho de maior abrangência). A história oral possui variações determinadas conforme o objetivo e aplicação a serem atingidos pelo pesquisador:

1 – Gênero história oral de vida: "Nas entrevistas de história oral de vida, as perguntas devem ser amplas, sempre colocadas em grandes blocos, de forma indicativa dos grandes acontecimentos" (MEIHY, 2002, p.131). Não condiz a uma narrativa biográfica, mas sim fragmento narrativo, que complementará a elaboração da vida de um indivíduo num sentido

31 De acordo com os autores: “catálogos, relatórios, textos de divulgação, sites, documentários em vídeo ou exames

mais completo. Os fragmentos poderão abordar episódios da vivência, pequenos fatos recortados, de modo descompromissado com o todo, constituindo outras variações dentro da história de vida, que na maioria trata-se de pessoas já falecidas. Normalmente, a reconstrução das narrativas biográficas parte das histórias de vida, que além dessa, há outras variações:

1.1 - Fragmentos narrativos: narrador relata a vida de outra pessoa que não está presente, que trata a investigação (pessoas falecidas, por exemplo). “No fragmento narrativo, sempre há um sentido moral ou cômico na seleção do fato” (MEIHY, 2002, p.135). "No fragmento narrativo, sempre há um sentido moral ou cômico na seleção do fato." (MEIHY, 2002, p.136).

1.2 - história de vida de família: retrata a narrativa no contexto do núcleo familiar, do grupo com laços sanguíneos, dependente de um projeto que atravessa gerações.

1.3 - história de vida espécies sociais: bem comum essa variação contemplar a categoria profissional, que contextualiza a trajetória profissional de um indivíduo. Incluem-se as categorias gênero, classe e etnia.

2 - Gênero história oral testemunhal: conforme Meihy e Ribeiro (2011), possui finalidade de registrar processos traumáticos de pessoas que passaram por circunstâncias marcantes no plano coletivo, os colaboradores da narrativa encontram-se na condição de vítima ou testemunha.

3 – Gênero história oral temática: aproxima-se mais das soluções comuns e tradicionais de apresentação nos trabalhos de diferentes áreas do conhecimento acadêmico. Normalmente, equipara-se ao uso da documentação das fontes escritas, “usada como técnica, pois frequentemente articula diálogos com outros documentos” (MEIHY, 2002, p.145-6). Por possuir um caráter específico, apresenta-se distinções em relação à história oral de vida, pelos detalhes históricos da vida pessoal do narrador que, “apenas interessam na medida em que revelam aspectos úteis à informação temática central”. Além de admitir o uso do questionário, este também passa a ter função importante como peça fundamental na aquisição dos detalhes procurados.

4 – Gênero tradição oral: considerado o gênero mais complexo, “por trabalhar com a permanência dos mitos e a visão de mundo de comunidades que tem valores filtrados por estruturas mentais asseguradas em referências do passado remoto” (MEIHY, 2002. P.149). Exige-se uma percepção do indivíduo e do grupo diferente da história oral de vida e temática.

Conforme Meihy, há possibilidades de misturar diferentes gêneros narrativos num projeto, prática apreciada por mesclar situações, que torna a narrativa mais viva. “O que se busca é o enquadramento de dados objetivos do depoente com as informações colhidas” (MEIHY, 2002, p.148). A partir dos gêneros e variações de história oral, obtém-se o

conhecimento a respeito de diversos aspectos como a identidade coletiva, a diversidade dentro de uma comunidade e aspectos imigratórios. O autor coloca que “a questão da identidade é indissociável da memória” (MEIHY, 2002, p.71) e, consequentemente “o estudo das identidades devolve o caráter humano da sociedade” (MEIHY, 2002, p.72), pois a identidade “é um fator original redefinido mediante uma herança cultural submetida a situações desafiadoras” (MEIHY, 2002, p.73). Meihy (2002, p.73) explica que o cuidado ao implantar um projeto de história oral, principalmente sobre questões de identidade, atenta-se para evitar “juntar apenas as semelhanças e afinidades internas dos grupos”, pois considerar a diversidade deve constituir uma preocupação. Como exemplos de diversidade numa determinada comunidade são os grupos imigratórios, na medida em que encontram-se expostos a uma determinada cultura que os atraiu “tendem a viver processos duplos de identificação”.

Sobre o uso da história oral direcionada na investigação de documentos fotográficos, Dietrich (2008) apresenta suas contribuições como método de diferentes aplicações: organização e identificação de fotografias; a fotografia como objeto desencadeador da memória; campanhas para arrecadação de acervo fotográfico. No primeiro caso, de acordo com a autora, “ao contrário de documentos escritos, as fotografias, pinturas e iconografia, em geral, não contém inscrições que as datem ou contextualizem” (DIETRICH, 2008, p.3), logo a entrevista serve de subsídio na identificação de elementos como datação, informações técnicas e análises da fotografia, através de colaboradores como os autores dos documentos (fotógrafos) ou outros grupos. Acrescenta-se que “no caso de fotografias mais antigas, familiares e conhecidos destes fotógrafos se tornam potenciais colaboradores” (DIETRICH, 2008, p.2).

No segundo caso, as fotografias servem como instrumento de recuperação de uma memória, como “objeto biográfico” no decorrer das entrevistas. A performance narrativa potencializa-se pelas lembranças geradas a partir do documento fotográfico. Dietrich (2008) cita o fato de instituições de custódia mobilizarem a comunidade através de campanhas dentro de determinado projeto: além dos depoimentos dos colaboradores, reúnem-se doações de fotografias desse contexto. Nakamura e Crippa (2010) também destacam o potencial das entrevistas interligadas ao documento fotográfico, pois a articulação entre ambos na constituição do documento oral, apresenta-se como forma de “aprofundar o conhecimento sobre um determinado fenômeno em estudo, sem perder o cuidado com o registro das entrevistas” (NAKAMURA; CRIPPA, 2010, p.91).

Por isso, os autores consideram que as possibilidades de conexão da fotografia com fontes orais, pela ampliação do campo de atuação dos profissionais da informação, também contribuem para reconhecer o potencial do registro oral.

5 METODOLOGIA

Conforme Minayo (2009, p.21), a pesquisa qualitativa preocupa-se dentro das Ciências Sociais, com um “nível de realidade que não pode ser quantificado”, trabalhando-se com “o universo de significados, dos motivos, das aspirações, das crenças, dos valores e das atitudes”. Explica-se que o universo de produção humana constitui-se o objeto da pesquisa qualitativa, pois abrange as relações, representações e intencionalidade. Ainda citando Minayo (2009, p.26), o processo da pesquisa social possui três etapas: fase exploratória; trabalho de campo; análise e tratamento do material empírico e documental.