Voltemos um pouco para falar da História desse bairro tão rico em nossa cultura. No ano de 1683, foi construída a Casa Forte do Cuó, ao lado do rio Seridó, antes denominado de Acauã, próximo a dois poços. Local elevado e escolhido por estar perto d`água para combater os índios Tapuias, usada como abrigo dos curraleiros no Sertão dessa Capitania. Em 1748, a velha capela do Penedo foi transformada na capela de Nossa Senhora do Rosário. Do Forte e da Capela, só nos restam o alicerce do Forte e possível escavação no local da Capela. O crescimento da cidade extrapolou os seus limites e a sua área de expansão adentra nessa zona rural, incorporando áreas típicas do campo que passaram a ser urbana, como foi caso do Sítio Penedo. Em visita técnica da Disciplina de Arqueologia a grande proximidade das casas, uma cerca de arame e um poste de energia elétrica bem no sítio urbano, objeto de projeto urbanístico especial como no mapa a seguir:
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Idem.
Mapa nº 04 – Localização Espacial, Via Satélite, do Bairro Penedo
Legenda: Limites do Bairro
Fonte: Imagens@2014/ASTRIUM, CNES/Sport Imagem, Digital Globo, dados do mapa@2014 Google87
Nas caminhadas pelos bairros da Cidade de Caicó, deparamos com a dualidade do Campo versos a Cidade, com a porteira do sítio Penedo, proporcionando acesso ao centro de Caicó, área econômica e administrativa, com setor imobiliário de valor elevado, em relação aos bairros da periferia. Com uma porteira que dá acesso ao estábulo e ao curral:
Figura nº 08 – Porteira na Rua Janúncio Nóbrega
Foto: Rui Paulino de Medeiros Sena, 2014. Fonte: Arquivo do Autor
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Google Maps. < https://www.google.com.br/maps/place/Caic%C3%B3+-+RN/@-6.4689153,- 37.0861595,1432m/data=!3m1!1e3!4m2!3m1!1s0x7afed967d8e39a1:0xa3ea45eaea46de3b?hl=pt-BR>. Acessado em 12 de set. de 2014.
Tanto no campo como na cidade, o “avoar no mato”, surge como limite tênue de espacialidade e modus vivendi do sertanejo ancorado entre a fim da zona rural e o início da cidade. Nas palavras de Ione Diniz sobre as características do campo nos bairros mais distantes de Caicó:
Uma outra característica da zona periférica central da cidade constitui a existência de currais de gado e plantações de capim às margens dos rios Seridó e Barra Nova. São verdadeiras manchas de espaço rural (FIGS. 115, 116, 117 e 118) impressas na paisagem citadina, sobreposição de imagens entre o modus vivendi de ontem e o de hoje. Marcas indeléveis que remetem à origem de um processo histórico, expressão viva de um modo de vida, cuja imagem atual, parece emoldurar o passado.88
Lançado o olhar sobre a porteira, em pleno centro da cidade de Caicó, visualiza- se um sítio que deu origem ao bairro Penedo, analisada aqui, em sua pluralidade de espaços que resiste ao tempo, vamos convocar Durval Muniz Albuquerque Jr. como teórico para sustentar nossos argumentos:
O surgimento de um recorte espacial, de um lugar imaginário e real no mapa do Brasil, que todos nós conhecemos profundamente, não importa de que maneira, mas que nunca pudemos imaginar com a existência tão recente. O Nordeste de Gilberto Freyre, Jorge Amado, Gabriela Cravo e Canela; de Dorival Caymi, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Carlinhos Brow, de Raquel de Queiroz, Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, do cangaço de Lampião e Maria Bonita; as praias maravilhosas, das festas religiosas e da literatura de cordel [...]89
O imaginário de um sítio, açude, curral de pedra e porteira, em pleno centro da cidade de Caicó, nos traz uma estranheza do capitalismo com seus carros importados circulando pela cidade. Nas palavras de Michel de Certeau, no mesmo espaço geográfico podemos encontrar outro transumante, metafórico e visível:
Neste conjunto, eu gostaria de detectar práticas estranhas de espaço „geométrico‟ ou „geográfico‟ das construções visuais, panópticas ou teóricas. Essas práticas do espaço remetem a uma forma específica de „operações‟ („maneiras de fazer‟), a uma outra espacialidade‟ (uma experiência „antropológica‟, poética e mítica de espaço) e a uma
88
MORAIS, Ione Rodrigues Diniz. Desvendando A Cidade: Caicó em sua dinâmica espacial. Natal: Senado Federal, Secretaria Especial de Editoração e Publicação, 1999, p. 262.
89 ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes. 3. Ed., Recife:
mobilidade opaca e cega da cidade habitada. Uma cidade transumante, ou metafórica, insinua-se assim no texto claro da cidade planejada e visível.90
Figura nº 09 – Cabras, curral de pedras e cocheiras na Rua Janúncio Nóbrega (após a porteira-Sítio Penedo)
Foto: Rui Paulino de Medeiros Sena, 2014. Fonte: Arquivo do Autor
Após a porteira na Rua Janúncio Nóbrega, vê-se claramente uma criação de cabras em um curral que fica quase no centro da cidade de Caicó. O desmembramento desse sítio foi que deu origem ao bairro Penedo, mas a porteira específica dar acesso ao centro de Caicó, inclusive essa Rua, passa ao lado direito do Centro Administrativo da Prefeitura Municipal de Caicó. Além das cabras, é possível avistar de cima de um prédio em construção um açude do sítio Penedo ao Noroeste da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, antes da ilha de Sant‟ana, as margens do Rio Seridó.
Figura nº 10 – Açude de “Nevinha” (Sítio Penedo)
Foto: Rui Paulino de Medeiros Sena, 2014. Fonte: Arquivo do Autor
90
CERTEAU. Michel. A invenção do cotidiano: 1. artes de fazer. Tradução de Ephraim Ferreira Alves . Petrópolis, RJ: Vozes, 1994, p. 172.
Assim, nas caminhadas vespertinas pelo bairro Penedo, nota-se que a população ainda continua com o mau costume de jogar lixo no mato, no qual denominamos, metaforicamente, nessa pesquisa de “avoar no mato”, já que era da cultura do sertanejo descartar tudo aquilo que não fosse mais útil, colocar pra fora de sua residência.
Figura nº 11 – Entulho e Lixo jogado junto a cerca da CAERN, bairro Penedo
Foto: Rui Paulino de Medeiros Sena, 2014. Fonte: Arquivo do Autor
A regra, pela ordem jurídica do Município, é muito clara sobre as irregularidades locais e da aplicação das normas as responsáveis pelas condutas dos posseiros, possuidor de qualquer espécie, inquilinos e proprietários das casas para seus materiais excrementícios, como reza o Parágrafo Único, do art. 36, do Código de Posturas:
Art. 36 – O lixo das habitações será recolhido em vasilhas apropriadas, providas de tampas, para ser removido pelo serviço de limpeza pública.
Parágrafo Único – Não serão considerados como lixo os resíduos de fábricas e oficinas, os entulhos provenientes de demolições, as matérias excrementícias e restos de forragem das cocheiras estábulos, as palhas e outros resíduos das casas comerciais, bem como terra, fôlhas[sic.] e galhos dos jardins e quintais particulares, os quais serão removidos à custa dos respectivos inquilinos ou proprietários.91
Essa cultura de jogar as coisas no mato como acontece no sítio, permanece ocorrendo na área urbana, que o cidadão atribui a responsabilidade para o ente público,
mas que na realidade é dever do cidadão manter a sua cidade limpa. Nessa linha, a cidade limpa seria uma cidade conceito, pensada a partir da tecnologia científica e da política, como um lugar de apropriação e transformação, mas a cultura do ser enquanto ser resiste sem esquecer os atributos da modernidade, como se fosse um estado paralelo: “Em nenhum momento ao longo do século de legislação urbanística, esses pactos deixaram de ser paralelos. Em virtude disso, uma espécie de direito não-oficial foi criada para amparar a infração à lei.92
A cidade urbana, mesmo remontada em projetos urbanísticos, segundo Michel de Certeau tem algo de mítico que não consegue ser excluído: “A linguagem do poder „se urbaniza‟, mas a cidade se vê entregue a movimentos contraditórios que se compensam e se combinam fora do poder panóptico.”93
Dessa forma, a urbanização da cidade é observada com um espaço recortado em cada bairro de Caicó para analisar a dialética entre o campo e a cidade, o modo de vida inserido num lugar fixo, mas de comportamentos universais, onde o indivíduo localizado num modelo compacto praticado também por outras pessoas, como foi demonstrado um modelo de observação, criado por Bentham, citado como teoria por Michel de Foucault, no capítulo denominado “o panoptismo”:
O Panóptico de Bentham é a figura arquitetural dessa composição. O princípio é conhecido: na periferia uma construção em anel; no centro, uma torre; esta é vazada de largas janelas que se abrem sobre a face interna do anel; a construção periférica é dividida em celas, cada uma atravessando toda espessura da construção; elas têm duas janelas, uma para o interior, correspondendo às janelas da torre; outra, que dá para o exterior, permite que a luz atravesse a cela de lado a lado. Basta então colocar um vigia na torre central, e em cada cela trancar um louco, um doente, um condenado, um operário ou um escolar.94
92
ROLNIK, Raquel. A cidade e a lei: legislação, política urbana e território na cidade de São Paulo. São Paulo: Studio Nobel: Fapesp, 1997. p. 184.
93
CERTEAU. Michel. A invenção do cotidiano: 1. artes de fazer. Tradução de Ephraim Ferreira Alves . Petrópolis: Vozes, 1994. p. 174.
94 FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete.
Figura nº 12 – Jegue, Rua José Nilton, bairro Penedo
Foto: Rui Paulino de Medeiros Sena, 2014. Fonte: Arquivo do Autor
Aqui assistimos um animal solto, jumento comendo restos de comidas deixados dentro de tonel, usado para depósitos de dejetos, no qual o dono deve ter descartado magro dentro da cidade após servi-lo como motor de tração animal, sem atentar para o perigo que pode ocasionar caso saísse desenfreado pela sua esquerda, podendo causar um choque frontal com o veículo que passa na avenida. Essas proibições vêm desde Marco Polo narrando sobre as cidades do Império de Kublai Kan, como também outra postura para quando adentrasse aos portões das cidades, o povo mantivesse um comportamento condizente com a comunidade que habita na cidade, como descreve Ítalo Calvino:
Outros símbolos advertem aquilo que é proibido em algum lugar – entrar na viela com carroças, urinar atrás do quiosque, pescar com vara na ponte – e aquilo que é permitido – dar de beber às zebras, jogar bocha, incinerar o cadáver dos parentes.95