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Corrections to Problems with the Previous Release

Dans le document Micro/RSX Base Kit Release Notes (Page 70-73)

O bairro Castelo Branco nasce de um conjunto habitacional criado pelo Governo Federal para possibilitar moradia a população que ganhasse até 5 (cinco) salários mínimos e que fosse criado em zona rural, tanto pela falta de infraestrutura como forma de expansão urbana. Ele fica localizado a zona leste de Caicó, conforme limites no mapa a seguir:

Mapa nº 05 – Localização Espacial, via Satélite, do bairro Castelo Branco

Legenda: Limites do bairro

Fonte: Imagens@2014/ASTRIUM, CNES/Sport Imagem, Digital Globo, dados do mapa@2014 Google102

100

Idem.

Do lado leste do bairro Castelo Branco, encontramos duas porteiras para embarque e desembarque de animais, simbolizando a entrada e a saída de gado vacum,

cavalar e muar, provavelmente para o Parque de exposição que fica a sua retaguarda

para compra e venda de animais:

Figura nº 14 – Duas porteiras para embarque e desembarque de animais na Rua Edmilson R. de Paula (bairro Castelo Branco)

Foto: Rui Paulino de Medeiros Sena, 2014. Fonte: Arquivo do Autor

A porteira é também um símbolo de passagem entre o passado e futuro, o velho e o novo, o ontem e o amanhã, o campo e a cidade. Como tudo que ainda estar por vir é um mistério, para enfrentá-lo, precisa-se de fé. Uma passagem da música de Zé Ramalho fala da porteira e do terço de minha avó:

É o terço de brilhante Nos dedos de minha avó E nunca mais eu tive medo Da porteira

Nem também da companheira Que nunca dormia só

[...]103

Nesse prisma, de olhar ao caminhar pela cidade, do que há em nossa volta, a transformação do urbano que a luz implacável do rural dos sentidos mais sublimes não

102 Google Maps. < https://www.google.com.br/maps/place/Caic%C3%B3+-+RN/@-6.474254,-

37.0794304,1432m/data=!3m1!1e3!4m2!3m1!1s0x7afed967d8e39a1:0xa3ea45eaea46de3b?hl=pt-BR >. Acessado em 12 de set. de 2014.

103 RAMALHO, Zé. Avôhai. letras.mus.br. Disponível em: < http://letras.mus.br/ze-ramalho/74944/> .

deixa escapar as imagens que o poder tecnocrático nos deixa e escapar, mesmo pondo o cidadão sob a vigilância, como defende Michel de Certeau:

A caminhada obedece com efeito a tropismos semânticos; é atraída ou repelida por denominações de sentidos obscuros, ao passo que a cidade, esta sim, se transforma, para muitos, em um „deserto‟ onde o insensato, ou mesmo o terrificante, não tem mais a forma de sombras mas se torna, como no teatro de Genet, uma luz implacável, produtora do texto urbano sem obscuridade, criada em toda parte por um poder tecnocrático que põe o habitante sob vigilância (de quê? Não se sabe)104

A galinha presente na imagem da cidade, não configura uma cena exclusiva do sertão do Seridó, compilando as cidades invisíveis, deparamos Maurília, que o viajante descreve uma galinha na estação de ônibus,conforme segue abaixo transcrito:

Em Maurília, o viajante é convidado a visitar a cidade ao mesmo tempo em que observa uns velhos cartões-postais ilustrados que mostram como esta havia sido: praça idêntica mas com uma galinha no lugar da estação de ônibus[...]105

Em frente de uma casa na Rua Edmilson R. de Paula, no bairro Castelo Branco além das galinhas, criadas num chiqueiro que tem como mourões pés de algarobas, encontramos a expressão defendida em nosso trabalho “avoar no mato” pelo descartes de objetos de barro, plástico e madeira, não sendo mais servíveis para o uso da “polis” sendo reaproveitado em plena zona urbana, para fazer um curral de animais domésticos, ainda com descarte de lixo humano, próximo do rebanho que descaracteriza qualquer falta de higiene entre a alimentação balanceada que deveria ser para consumo dos animais e restos de dejetos humanos que jogados ao seu redor, segundo mostra a imagem abaixo:

104

CERTEAU. Michel. A invenção do cotidiano: 1. artes de fazer. tradução de Ephraim Ferreira Alves . Petrópolis: Vozes, 1994. p. 184.

Figura nº 15 – Pote e Galinheiro na Rua Edmilson R. de Paula, bairro Castelo Branco

Foto: Rui Paulino de Medeiros Sena, 2014. Fonte: Arquivo do Autor

Na foto acima, temos uma cerca de arame farpado com algarobas servindo de morão para da estabilidade no esticamento do arame, com potes servindo como vasilhames de água, já que por ser de barro, esfria mais a água no clima semiárido. Um depósito de lixo, em frente da casa no Castelo Branco e ao fundo umas galinhas de criação, que a legislação local proíbe expressamente, ex iures:

Art. 104 – É expressamente proibido:

I – criar abelhas nos locais de maior concentração urbana; II – criar galinhas nos porões e no interior das habitações; III – criar pombos nos forros das casas de residência.

Figura nº 16 – Guinés e Galos, Rua Vicente Rogério da Costa, bairro Castelo Branco

Foto: Rui Paulino de Medeiros Sena, 2014. Fonte: Arquivo do Autor

Do lado Sudeste do bairro Castelo Branco, a caminho do conjunto residencial Mirante da Serra, uma nova área de expansão urbana, numa estrada já com calçamento e iluminada. A inciativa privada possui uma administração em condomínio para despesas em comum com os serviços de manutenção, limpeza, segurança, iluminação e lazer. Sem muita dependência da Administração Pública:

E mais: o condomínio imprescinde de negociações cotidianas com territórios vizinhos e autoridades locais para se manter. Tem sua própria polícia, suas próprias brigadas de limpeza, seu serviço de manutenção. Tem tudo isso principalmente porque pode pagar para ter tudo isso sem precisar de lobbies ou guerras de influências na determinação das prioridades orçamentárias.106

A porteira, o curral antigo, feito de pedras sobrepostas, curral “novo” tido como troncos de madeiras, geralmente de aroeira, lado a lado. Esse tipo de curral novo foi construído a primeira vez em Currais Novos, o que veio esse tipo de construção justificar o nome da cidade. Há também, nesse ambiente, a cerca “moderna”, com mourões separados uns dos outros com estacas para dar estabilidade ao arame farpado. Visualiza-se ao fundo da imagem os três tipos de matéria prima utilizadas na construção deste curral:

Figura nº 17 – Porteira, cerca de pedra, cerca de pau e cerca de arame na Rua que da Acesso ao Condomínio residencial Mirante das Serras.

Foto: Rui Paulino de Medeiros Sena, 2014. Fonte: Arquivo do Autor

106 ROLNIK, Raquel. A cidade e a lei: legislação, política urbana e território na cidade de São Paulo. São

Aqui, poderíamos descrever essa cerca, pedra por pedra, não pelas pedras em si, mas pelo modo de fazer as cercas de pedras que seria universal, pois encontraremos essa maneira de fazer em todos os cantos do sertão nordestino. Nesse diapasão, Marco Polo em diálogo com Kublai Khan filosofam sobre a construção de uma ponte poderia ser um paralelo da universalidade da construção da cerca de pedra com a porteira de gado que pode ser construída não só aqui, mas em qualquer lugar do mundo:

Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra.

- Mas qual é a pedra que sustenta a ponte? – pergunta Kublai Khan. - A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra – responde Marco - , mas pela curva do arco que estas formam.

Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta: - Por que falar das pedras? Só o arco me interessa.

Polo responde:

- Sem pedras o arco não existe. 107

Pelo outro lado da porteira, encontra-se o sítio “Bolandeira”, que a Cidade Judiciária foi avançando e urbanizada a área rural. Com a construção do Condomínio “Residencial Mirante das Serras”, com a via de acesso por calçamento e iluminação, caracteriza-se duas benfeitorias típicas da área de expansão urbana. Vejamos o conceito de zona urbana no Código Tributário do Município de Caicó, da época, regulamentado na Lei n° 3.282, de 29 de dezembro de 1989, conforme talhado no seu art. 4°:

Art. 4° - Para os efeitos deste imposto, considera-se zona urbana a definitiva e delimitada em Lei Municipal onde existam, pelo menos dois dos seguintes melhoramentos, construídos ou mantidos pelo Poder Público.

I – meio fio ou calçamento, com canalização de águas pluviais; II – abastecimento de água;

III – rede de iluminação pública, com ou sem posteamento, para distribuição domiciliar;

V – escola primária ou posto de saúde a uma distância máxima de 3 (três) quilômetros do imóvel considerado.108

Da leitura de Ítalo Calvino, em sua obra As Cidades Invisíveis, quando do capítulo as cidades e o desejo, fica claro o mundo ideal do homem e aquilo que ele vai concretizar no futuro, pois tanto o Mirante da Serra ainda estar por acabar com a construção de aproximadamente 340 (trezentos e quarenta) casas como a cidade de Dorotéia:

107

CALVINO, ibidem, p.79.

Da cidade de Dorotéia, pode-se falar de duas maneiras: dizer que quatro torres de alumínio erguem-se de suas muralhas flanqueando sete portas com pontes levadiças que transpõem o fosso cuja água verde alimenta quatro canais que atravessam a cidade e a dividem em nove bairros, cada qual com trezentas casas e setecentas chaminés[...] 109

Nada mais comum no sítio do que um cachorro “vira-lata” (raça não definida) para tomar conta do galinheiro, proteger as galinhas da raposa. Avisa ao dono que alguém se aproxima da casa. Usado como instrumento de caça para ir buscar um peba na serra como suprimento alimentar do sertanejo. Entretanto, o cachorro que está na iconografia amarrado, embaixo de um pé de ninho, vigilante no terreiro é “de raça não definida” em plena zona urbana, protegendo a casa, patos, galinhas e guiné. Todos os animais, no bairro Castelo Branco, evidenciando a dicotomia da cultura, eminentemente rural, em plena zona urbana, como se segue:

Figura nº 18 – Cachorro e Patos na Rua Vicente Rogério da Costa, bairro Castelo Branco.

Foto: Rui Paulino de Medeiros Sena, 2014. Fonte: Arquivo do Autor

A maioria dos cães sertanejos não tem uma origem certa, nem uma raça determinada. Eles nascem de uma mistura ao longo dos tempos, em condições que não há explicação para sua origem, mas que foram muito utilizados para o pastoril do gado, perseguição de caça e para proteger os galinheiros da raposa e guaxinim. Seguem, assim, os ensinamentos de Oswaldo Lamartine com a importância do animal na Região do Seridó:

Sendo o cachorro um animal de menor valor econômico nos afazeres regionais – é mais pobre e, consequentemente, menor atenção tem

despertado aos pesquisadores da genética cabocla em pauta a sua escolha.110

Nessa pesquisa, realizamos várias caminhadas, tanto no campo como na cidade, acompanhado por um cão, que foge um pouco da regra do sertanejo, que também o somos, por herança e matuto por vocação, mas o cachorro é da raça Cocker Spaniel

Inglês, o qual denominamos de amigo “Pitucho”. Fabiano em Vidas Secas, de

Graciliano Ramos, caminhava pela caatinga do sertão nordestino com sua cachorra, que ia a frente, balançando o rabo e olhando ao seu redor, com seu focinho farejadora de preá: “Ausente do companheiro, a cachorra Baleia tomou a frente do grupo. Arqueada, as costelas à mostra, corria ofegando, a língua fora da boca. E quando em quando se detinha, esperando as pessoas, que se retardavam.”111 Lendo o livro, o Campo e a

Cidade, de Raymond Williams, o cachorro não está amarrado em frente ao galinheiro na

cidade, mas latindo acorrentado no celeiro de amianto:

Um cão está latindo – latido de cão acorrentado – atrás de celeiro de amianto. Presente e passado; aqui e muito lugares. Quando há perguntas a formular, empurro minha cadeira para trás, olho para meus papéis e sinto mudança.112

Caso esse cachorro não tivesse dono e tivesse vagando pela rua da cidade seria apreendido e recolhido ao depósito da Prefeitura. Em 10 (dez) dias não sendo reclamado pelo seu dono, pagaria as multas e taxas, seria o animal sacrificado, nos termos do art. 99, do Código de Posturas:

Art. 99 – Os cães que foram encontrados nas vias públicas da cidade e vilas serão apreendidos e recolhidos ao depósito da Prefeitura.

§ 1º - Tratando-se de cão não registrado, será o mesmo sacrificado, se não fôr[sic.] retirado por seu dono, dentro de dez dias, mediante o pagamento da multa e das taxas respectivas.

§ 2º - os proprietários dos cães registrados serão notificados, devendo retirá-lo em idêntico prazo, sem o que serão os animais igualmente sacrificados.

[...]113

110 FARIA, ibidem, p.191. 111

RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 58. ed. São Paulo: Record, 1986. p. 11.

112 WILIAMS, Raymond. O campo e a cidade: na história e na literatura. tradução de Paulo Henrique

Brito. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p.21.

Dessa maneira, preenchendo o vazio deixado por algumas obras sobre a cidade de Caicó e de como ela está impregnada pela “sociedade do couro” e da cultura do sertanejo, a mesma imagem do carneiro em 1977, na Rua Tonheca Dantas, aparece o carneiro amarrado de fronte uma casa aguardando o momento de ser comercializado, não mais no bairro Paraíba de outrora, mas no Bairro Castelo Branco. Seguindo mais frente e lançando um olhar adiante, em outra na casa na mesma rua, deparamos com um carneiro amarrado, pastando em frente a uma residência, no bairro Castelo Branco, mostrando que sempre existe um lugar para gente ir à cidade e reconstruir o nosso passado, localizando lacunas no tempo que não passou, como ensina Marco Polo a Kublai Kan:

Mas o que Kublai considerava valioso em todos os fatos e notícias referidos por seu inarticulado informante era o espaço que restava em torno deles, um vazio não preenchido por palavras. As descrições das cidades visitadas por Marco Polo tinha esse dom: era possível percorrê-las com o pensamento, era possível se perder, parar para tomar ar fresco ou ir embora rapidamente.114

Figura nº 19 – Carneiro, na Rua Vicente Rogério da Costa, bairro Castelo Branco

Foto: Rui Paulino de Medeiros Sena, 2014. Fonte: Arquivo do Autor

Nesse contexto, a cidade ideal deveria ser com seus munícipes realizando suas condutas no cotidiano de acordo com as normas. Os resíduos, restos de construção e de materiais, entulhos e resto de forragens das cocheiras e dos estábulos, folhas e galhos dos jardins e das casas dos particulares sendo removidos as custas dos seus respectivos inquilinos e proprietários ao invés de cultuar o antigo “avoar no mato”, como descarte de tudo que se julgar inservível. A cultura do “avoa no mato” é de quem viveu no mato, saiu do mato, mas o mato não saiu dele. Osvaldo Lamartine mostra visível expressão: “mato”, na ribeira do espinhara: “Na ribeira do Espinhara, os Correia [sic.] e Valentim

marcaram época e, ainda há bem poucos anos, tropicava-se em elementos dispersos dessa gente com visível tendência para viver no mato.”115

Assim o modelo ideal de uma cidade possível, constrói-se a partir de uma consciência do senso comum, nas palavras de Ítalo Calvino citando um diálogo de Marco Polo com as respostas do Imperador Kublai:

- Entretanto, construí na minha mente um modelo de cidade do qual extrair todas as cidades possíveis – disse Kublai. – Ele contém tudo o que vai de acordo com as normas. Uma vez que as cidades que existem se afastam da norma em diferentes graus, basta prever as exceções à regra e calcular as combinações mais prováveis.116

A cidade sertaneja cresce descaracterizando o campo com suas estradas e ruas calçadas, clareadas pela iluminação pública, coletando seus impostos, barulhenta com seus bangalôs e festas, motorizadas com a modernidade querendo esquecer o seu passado conforme demonstrava Oswaldo Lamartine:

Cerca de pedra, pé-de-pedra e arame ou madeira – onde havia fartura de pedra; pé de xiquexique e arame, onde o espinho tomava lugar da pedra –crescendo, se espichando, limitando pastos e retalhando quinhões de herança. Os boqueirões dos riachos tomados por barragens – represando água, criando peixes e vazantes. A tradição do queijo de manteiga ou Seridó se esparramando pelas ribeiras. Os bangalôs crescendo nas ruas sertanejas –ruas já calçadas de pedras e clareadas de eletricidade; barulhenta pela boca „estrangeira‟ do rádio. As estradas ganhando o chão das caatingas – zoando caminhões. Caminhão que carregava algodão e depois minério, agora também „araras‟. O sertão crescendo e descaracterizando, parecendo hoje ter vergonha de ontem...117

As caminhadas na vida de um sertanejo, ora pelas veredas do sítio ora sendo pelos bairros da cidade, outros foram pelos barreiros investigando a falta d‟água e a solução para estiagem. Essas caminhadas vêm das fugas dos mais longínquos ancestrais extenuados pela caatinga: “Surtos agudos de fome que surgem com as secas, intercaladas ciclicamente com os períodos de relativa abundância que caracterizam a vida do sertanejo nas épocas de normalidade.”118

Desta forma, ele parte do campo em busca da cidade por melhores condições de vida, mas leva consigo o modo de viver rude do campo, o costume de dormir em rede no copiar, que nas noites acorda de madrugada e urina nos pátios da casa grande. Na

115 FARIA, ibidem, p.184. 116 CALVINO, ibidem, p. 67. 117

FARIA, ibidem, p.168-170.

118 CASTRO, Josué de. Geografia da fome: (o dilema brasileiro: pão ou aço). 11. ed. Rio de Janeiro:

cidade, quando nas festas populares que bebe além da moderação, não achando um banheiro por perto, faz verter a água do joelho em qualquer esquina do bairro ou algum pé-de-planta na rua, como se fosse uma rememoração do alpendre do sítio, “avoar no mato” o líquido que deveria ser direcionado algum banheiro público. Segue uma passagem de Oswaldo Lamartine do costume do homem do campear: “Nas madrugadas que precedem os meses de inverno, saem aos pátios para urinar, espiar o céu e ler nas nuvens as promessas de chuva:”119

Dans le document Micro/RSX Base Kit Release Notes (Page 70-73)

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