Com base na análise e interpretação dos dados recolhidos nesta investigação, é possível extrair algumas conclusões que considero relevantes e que confirmam e reforçam a importância da prática de aulas individuais complementadas com aulas partilhadas na aprendizagem do piano.
No âmbito do modelo de aula individual, as respostas obtidas pelos discentes e pelos docentes relativamente à motivação reafirmam os modelos teóricos referidos no segundo capítulo. Verificou-se que as aulas individuais permitem uma abordagem adaptada às necessidades, ambições e possíveis dificuldades ou facilidades de cada aluno. Desta forma, o ensino individualizado permite o emprego de estratégias e desafios que se adequem ao nível de desenvolvimento de cada aluno e às suas capacidades. Tal como sugere Bandura, Csikszentmihalyi, Hallam, Maehr e O'Neill, a prática de atividades desafiantes com objetivos concretos que se encontrem em equilíbrio com as capacidades dos alunos e que respeitam o ritmo de desenvolvimento de cada criança contribuem para a motivação e persistência na aprendizagem. Nesta perspetiva, as atividades e tarefas desenvolvidas no âmbito das aulas de piano proporcionaram aos estudantes várias experiências de execução gratificantes, algo reforçado através do complemento das aulas partilhadas, que permitem aos alunos não só vivenciar o sucesso como também observar e celebrar o êxito dos colegas. Assim, os alunos puderam percecionar a sua própria competência, o que produziu um engrandecimento das suas expectativas de autoeficácia, algo que, tal como se pode constatar nos ideais de Bandura referidos no enquadramento teórico, promovem a sua motivação para a realização das tarefas.
Nas aulas partilhadas, a presença do colega e o seu feedback sobre as prestações permite ainda uma interação entre os alunos baseada na partilha musical que pode fomentar ou inibir a motivação dos discentes para a aprendizagem do piano. Esse feedback é especialmente eficaz devido à importância que os jovens atribuem à opinião dos seus pares, pois, tal como é argumentado por Swanwick e Bandura, os processos de imitação e a emulação são mais eficazes e significativos quando ocorrem entre indivíduos de idades e grupos sociais semelhantes. Os dados recolhidos sustentam estas ideias na medida em que os docentes e alunos entrevistados partilham a visão de que os alunos se esforçam mais por melhorar as suas práticas se souberem que terão de apresentar o seu trabalho não só ao professor como também aos seus pares. Segundo Deci e Ryan, estes fatores de motivação extrínseca podem ser interiorizados pelos alunos, o que pode contribuir para o desenvolvimento da sua motivação intrínseca.
Neste sentido, o método de ensino que incorpora estas duas tipologias de aula dispõe de mais variáveis para a promoção da motivação dos alunos devido às especificidades de cada uma, sendo que uma complementa a outra.
Na área das aprendizagens, os resultados apresentados demonstram que as aulas individuais, em articulação com o trabalho levado a cabo nas aulas partilhadas, estimularam o desenvolvimento de competências técnico-musicais nos alunos, potenciando, simultaneamente, a aquisição de competências extramusicais. Verificou-se ainda que a
Carolina Santos Alves
conjugação destes dois modelos de aulas possibilitou diversas dinâmicas de entreajuda e aprendizagens baseadas na imitação, não só da professora como também dos pares.
No que toca às aprendizagens técnico-musicais, a grande maioria dos testemunhos recolhidos nas entrevistas realizadas aos docentes e aos alunos indica que as aulas individuais são mais favoráveis para o desenvolvimento técnico e para a evolução dos alunos. As razões que justificam esta afirmação são as condições possibilitadas por este modelo de aula, que permite um ensino mais personalizado e eficaz, pois o ritmo de aprendizagem é imposto pelo aluno. No entanto, a importância das aulas partilhadas como complemento do trabalho realizado nas lições individuais é reconhecida por alguns discentes e, sobretudo, pelos professores. Os efeitos na conduta, atitude e motivação dos alunos provocados pela partilha da aprendizagem com outros semelhantes a eles são muito significativos. Verificaram-se níveis muito satisfatórios de estudo e de esforço dos discentes, bem como um sentido de responsabilidade para com o trabalho desenvolvido na disciplina de piano. Estes resultados reforçam a importância da presença dos colegas na aula e o seu papel na validação da aprendizagem dos seus pares através de comentários e opiniões expressos espontaneamente e sob a mediação da professora. Estes ideais vão ao encontro dos conceitos apresentados no enquadramento teórico deste estudo, nomeadamente nos constructos de Vygotsky, baseados na premissa de que a aprendizagem é mais eficaz quando é partilhada e que os alunos aprendem mais e melhor quando trabalham cooperativamente com companheiros mais capazes.
De forma semelhante, nas aulas partilhadas observou-se o desenvolvimento de diversas competências de música de conjunto que são vitais para o desenvolvimento musical dos estudantes. Keith Swanwick destaca o potencial das aulas de conjunto no desenvolvimento destas competências, assim como o espírito crítico dos alunos, afirmando que a prática musical em grupos promove infinitas possibilidades de ampliar a diversidade de experiências, incluindo a avaliação crítica do desempenho dos outros e a presença de um sentido de performance.
Relativamente às aprendizagens extramusicais desenvolvidas pelos discentes, verificou- se que as competências adquiridas através da conjugação de aulas partilhadas com o trabalho personalizado das aulas individuais vão muito além do domínio técnico do instrumento. A aprendizagem e a performance em grupo fomentaram a responsabilidade individual e coletiva dos alunos, conduzindo a uma apropriação de competências extramusicais como o respeito pelos outros, o rigor, a disciplina e a capacidade de memorização e a concentração. Por outro lado, as atuações em conjunto realizadas em contexto de aula proporcionaram um variado leque de aprendizagens relacionadas com a sincronia e coordenação de grupo, tanto a nível psicomotor, como musical, como a capacidade auditiva e de reação dos estudantes. Além disso, estas atividades coletivas possibilitaram diversas dinâmicas de aprendizagem baseadas na imitação e na emulação, não só do modelo do professor, mas também dos colegas mais capazes. Os resultados expressivos que foram obtidos com utilização destas estratégias validam os pressupostos teóricos de Vygotsky e Swanwick, atrás referidos.
Cabe referir que o envolvimento na aprendizagem desempenha um papel preponderante nos processos de motivação e de aprendizagens anteriormente descritos, tratando-se de conceitos intimamente relacionados que se influenciam mutuamente.
Figura 12. Relação de influência entre a motivação, as aprendizagens e o envolvimento
Laevers alega que a aprendizagem e ao sucesso académico na escola estão diretamente relacionados com o envolvimento dos alunos, e, no mesmo prisma, para Bertram e Pascal, a motivação na aprendizagem é uma característica predominante do envolvimento. Em concordância com estes pressupostos teóricos, os professores entrevistados referem que quanto mais motivados se encontram os alunos na escola, mais eles se tornam envolvidos, e, por sua vez, o aumento em termos de envolvimento escolar contribui para reforçar a sua motivação. Assim, se a motivação dos alunos for estimulada, estes esforçam-se mais para melhorar as suas práticas, o que contribui para uma aprendizagem mais eficaz, que por sua vez influencia diretamente a qualidade do envolvimento do aluno no processo de aprendizagem.