5.2 Effets de l’environnement
5.2.3 Evolution de la taille des ETGs dans deux environnements
Os meios de comunicação uruguaios e brasileiros incluíram, em suas agendas, a negociação bilateral Brasil-Uruguai. A imprensa é um fator do contexto que influencia a negociação, segundo a forma em que trata do tema. A forma como os temas são agendados pela imprensa, assim como o espaço dedicado ao assunto, são variáveis que influem no processo como um todo. O caso em estudo consistiu numa negociação “pública”, no sentido de não ser “secreta” (Raiffa, 1982). A imprensa tem sido apontada como um fator de poder que exerce influência sobre os processos de tomada de decisões e sobre a agenda das políticas públicas e negociações. Na condição de fator de contexto, a imprensa pode: a) aumentar ou diminuir a relevância de um tema e b) “criar” uma certa forma de cobertura sobre um tema, enfatizando alguns aspectos e diminuindo a relevância de outros. A imprensa influi sobre as percepções dos agentes de decisão (Wolf, 1994).
Em relação ao Uruguai, a coleta de dados foi realizada nos jornais de maior tiragem e com cobertura nacional. Também foram consultados, aleatoriamente, jornais locais, incluindo alguns artigos relevantes produzidos no interior do país.
A pesquisa adotou o método de análise de conteúdo de tipo qualitativo (Kripendorff, 1990). No Anexo 5, a metodologia de análise da imprensa utilizada nesta tese é apresentada com maiores detalhes.
A) A imprensa como fator de contexto no Uruguai
A análise do conteúdo da imprensa uruguaia apresentou os seguintes resultados.
• Freqüência. De acordo com as freqüências absolutas de artigos, a fase da negociação foi mais intensa do que a etapa de implementação dos acordos. Do universo analisado (94 artigos), 50 trataram da fase da negociação (53% do total), ao passo que a implementação foi abordada em 44 matérias (47% do universo analisado) (ver Figura 5.1.)
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Figura 5.1.: Gráfico de porcentagens de artigos publicados no Uruguai por etapas do processo (negociação e implementação)
Negociação 53% Implementacão 47% Negociação Implementacão 50 artigos 44 artigos
Fonte: elaboração própria.
•Agenda de temas. Para analisar a agenda de temas durante o período da negociação, optou se por classificar os assuntos abordados em cada artigo de acordo com os seguintes temas: “contaminação produzida pela UTPM”, “negociação dos acordos”, “construção de Candiota III”, “política energética” e “outros temas”. No total, tais temas foram mencionados 185 vezes (em alguns casos, diferentes temas foram mencionados num mesmo artigo). O tema que atingiu o maior número de aparições, em termos absolutos, foi o da “contaminaçãoproduzida pela UTPM”, com 48% do total de menções. A “negociação dos acordos” ficou em segundo lugar, com 31 % das menções, ao passo que “construção de Candiota III” recebeu 13% das menções. É interessante destacar que, apesar de
não ter sido objeto específico das negociações, a “construção de Candiota III” foi levada em consideração pelos tomadores de decisão. Tais dados são apresentados na Figura 5.2.
Figura 5.2.: Gráfico dos temas agendados na imprensa uruguaia durante a etapa da negociação (1988-1990)
31% 48% 13% 2% 6% Total de menções: 185 Contaminação Negociação Candiota III Pol. Energ. Outros
Fonte: elaboração própria.
• Menções e imagem do Brasil na imprensa uruguaia na etapa da negociação
Na fase da negociação, o Brasil foi mencionado em 96% dos artigos publicados. A imprensa uruguaia passou uma imagem negativa do Brasil em 58% das menções. Apenas em 38% das vezes o país foi citado de forma positiva. Esses dados mostram uma clara defasagem entre a imagem do país apresentada pela imprensa e a evolução oficial da negociação, a qual avançou numa direção cooperativa. A mídia uruguaia, porém, construiu uma imagem predominantemente negativa, destacando a existência de um alto grau de contaminação ambiental causada pela UTPM e mostrando, em alguns casos, a falta de ação do governo brasileiro em relação às atividades da usina. Uma hipótese para explicar tal fato é de que a imprensa tenha construído a imagem do Brasil de forma muito atrelada à imagem da empresa proprietária da UTPM.
•Imagem da empresa na imprensa uruguaia na etapa da negociação. Os artigos analisados na etapa da negociação apresentaram uma imagem extremamente negativa da Companhia de Energia Elétrica do Estado (CEEE), proprietária e responsável pelo funcionamento da usina de Candiota: 71% das menções à empresa mostraram um conteúdo negativo; 19% tinham um conteúdo “misto”, com elementos positivos e negativos; apenas 2% das menções foram de conteúdo positivo. Foram incluídas, nessa análise, tanto as matérias que fizeram referência à CEEE quanto os artigos a respeito da própria Usina Termelétrica de Candiota II (UTPM). Os resultados são apresentados na Figura 5.3. A predominância de uma imagem negativa da CEEE na imprensa uruguaia pode ser explicada pelo fato de que o Uruguai, no caso, era o país que estava recebendo os efeitos da poluição gerada pela empresa (ainda que isso não estivesse comprovado cientificamente). Ademais, a falta de uma aceitação clara e direta destes efeitos por parte da empresa pode ter contribuído para que a sua imagem continuasse sendo negativa. Isto gerou uma “crise” de imagem da organização (Pearson, 2000; Susskind & Field, 1996). Tal fato foi analisado no Capítulo 3.
Figura 5.3.: Imagem da CEEE e da UTPM na imprensa uruguaia na etapa da negociação dos acordos (1988-1990)
3% 71% 20% 6% Positiva Negativa Mista Neutra Total de menções: 87
Fonte: elaboração própria.
B) A imprensa como fator de contexto da negociação no Brasil A análise da imprensa no Brasil apresentou os seguintes resultados.
• Total de publicações em porcentagens. No caso do Brasil, a imprensa deu maior destaque à etapa da implementação do que à da negociação. Num total de 23 artigos, apenas 15% dos artigos analisados e coletados se referiram à negociação. Na Figura 5.4. são apresentados esses resultados.
Figura 5.4.: Gráfico de artigos publicados no Brasil sobre Candiota, em relação às etapas de negociação e de implementação
Negociação 15% Implementacão 85% Negociação Implementacão 23 artigos 128 artigos
• Menções e imagem do Uruguai na imprensa brasileira
Dos artigos coletados e analisados que fizeram referência aos temas de Candiota, o Uruguai foi mencionado em apenas 35%. Dentro desse universo, a imprensa construiu uma imagem positiva do
país vizinho em 71% dos casos, neutra em 25% e negativa em 4%. A alta porcentagem de artigos em que o Uruguai não foi mencionado (65%) deve-se ao fato de que a imprensa brasileira deu maior importância a assuntos domésticos que também eram relevantes para o país e para o estado do Rio Grande do Sul, como, por exemplo, a construção de Candiota III, que era de interesse para a política energética.
• Temas mencionados
Os temas relacionados ao problema de Candiota foram mencionados 281 vezes no total de artigos analisados. O tema com maior percentual de menções foi o da política energética (32%), seguido do tema da construção de Candiota III (28%). A contaminação ambiental produzida pela usina recebeu apenas 19% do total das menções, ao passo que a negociação, 14%. Essa análise permite concluir que, no Brasil, as questões domésticas (política energética e construção de Candiota III) preponderaram sobre a questão da negociação internacional (Ver Figura 5.5.).
Figura 5.5: Temas relacionados com Candiota agendados na imprensa brasileira na etapa de negociação 14% 19% 28% 32% 7% Total de menções: 281 Negociação Contaminação Candiota III Pol. Energ. Outros
• Imagem da empresa (CEEE-UTPM) na imprensa brasileira
A empresa recebeu 121 menções no período analisado, a maior parte de caráter “neutro” (56%). Das menções que mostraram posição (afirmativa ou negativa) sobre a construção de imagem, predominaram as negativas (24%). Cerca de 10% foram positivas, e 10% mistas (Ver Figura 5.6.).
Figura 5.6.: Imagem da CEEE-UTPM na imprensa brasileira na etapa da negociação dos acordos 10% 24% 10% 56% Neutra Mista Negativa Positiva
Total das menções: 126
Fonte: elaboração própria.
Finalizando, uma comparação entre os resultados da análise da imprensa em ambos os países pode levar às seguintes conclusões:
a) A imprensa uruguaia deu uma importância maior ao tema da negociação dos acordos (31%das menções) do que a imprensa brasileira (14% das menções).
b) A imprensa uruguaia deu maior importância ao tema da contaminação ambiental produzida pela UTPM (48% das menções) do que a imprensa brasileira (19% das menções).
c) A imprensa brasileira mostrou maior interesse pelos temas domésticos do que a imprensa uruguaia. No Brasil, a política energética recebeu 31% do total das menções, e a construção de Candiota III, 28%, de modo que os dois temas, somadas, totalizam 59% das menções.
d) Em relação ao modo como a imprensa de cada país tratou o país vizinho, também houve grandes diferenças. A imagem do Brasil construída pela imprensa uruguaia durante a negociação foi extremamente negativa (58% das menções). No entanto, a imagem do Uruguai apresentada pela imprensa brasileira foi altamente positiva (71% das menções). Tal desequilíbrio deve-se ao fato de que, para a imprensa uruguaia, o Brasil era o país “poluente”, ao passo que o Uruguai, na visão da mídia brasileira, era o país “poluído”. Nota-se, portanto, que a imprensa é sensível à posição que cada país ocupa numa negociação por temas ambientais.
e) Outra diferença significativa refere-se ao modo como as imprensas de cada um dos países constrói a imagem da CEEE, empresa proprietária da usina de Candiota. No Uruguai, tal imagem foi altamente negativa (71% das menções), pois a empresa era vista como causadora da contaminação ambiental. No Brasil, porém, a imagem construída pela imprensa em relação à UTPM foi mais positiva. Predominaram as menções neutras (58% das menções); as negativas alcançaram apenas 24% das menções.
Os fatores do contexto já analisados contribuíram para que a negociação avançasse de modo a que os dois Estados resolvessem conjuntamente o problema da poluição originada por Candiota. A seguir, esse processo de negociação será analisado.