Chamou-nos atenção uma publicação feita, a pedido de Luiz Martins Collaço, no jornal O Argos, de Desterro, na sua edição de 16 de fevereiro de 1858.74 Nela, o político da
74 A correspondência assinada por Luiz Martins Collaço está datada de 29 de janeiro de 1858 e, de acordo com o
próprio jornal, “era dirigida à Redacção do Mensageiro, que chegou quando tinha cessado as publicações d’aquella folha”. (O ARGOS, 1858, p. 2)
Freguesia do Tubarão fez um longo relato sobre a existência do carvão mineral nas cabeceiras do rio Tubarão, mais especificamente no Passa-Dois, um de seus afluentes e que, de acordo com ele, era de conhecimento do Império já há bastante tempo. Inclusive, “por muitas vezes e por diversos mineiros teria sido explorada”. No entanto, Collaço faz a ressalva de que essas “explorações” anteriores teriam sido realizadas apressadamente e que se limitaram ao simples “exame visual”, produzindo resultados pouco satisfatórios. Collaço continua informando que ele próprio teria acompanhado muitas das incursões anteriores e que as amostras enviadas para a corte até aquele momento haviam sido extraídas de um único veio e que se encontravam deterioradas pela ação das águas, não podendo determinar toda a quantidade e a qualidade do mineral por conter um alto índice de enxofre. Essa situação, segundo ele, fazia com que a mina fosse desacreditada, indicando que o Governo do Império e possíveis investidores viesse a perder o interesse por explorá-las futuramente. Collaço relata ainda que na época estava à frente, como correspondente, dos negócios empreendidos pelo Dr. José Rodrigues Ferreira da Corte que havia contratado, para desenvolver os trabalhos de prospecção das jazidas de carvão, o francês Henriques Cuarré75, que se apresentara como engenheiro de minas, mas que na realidade era padre e muito pouco conhecia do ofício mineralógico.
De acordo com ele,
A inhabilidade deste pobre homem estudando alheio officio, seus trabalhos não passarão de fazer mapas e traçar planos, consumindo não pequena somma do Dr. Ferreira, que desanimado e prejudicado veio, a abandonar esses trabalhos, que aliás terião progredido sob uma boa e sciente administração (O ARGOS, 1858, p. 2) [Grifos nosso]
Collaço lamenta o prejuízo que tivera o Dr. Ferreira da Corte e de não poder “vêr realizada a esperança que nutria da estração do carvão na nossa Provincia”. No entanto, ele segue em seus relatos demonstrando certo entusiasmo, apesar do revés sofrido, informando que, ainda durante a retirada da equipe de trabalhadores que se encontrava a serviço do Dr. Ferreira da Corte na mina que margeava o rio Passa-Dois, o sertanejo conhecido por Manoel Miranda, provavelmente ligado à sesmaria dos “Mirandas”,76 ao embrenhar-se no sertão
75 Tanto a correspondência publicada no jornal O Argos quanto a literatura regional dão conta de que o padre
francês teria sido vítima de um assassinato em Tubarão por um “colega” de trabalho, fruto de uma intriga insidiosa. Ver: DALL’ALBA, João Leonir. Colonos e Mineiros no Grande Orleans. Florianópolis: Ed. Do Autor, 1986, p. 343.
76 Antônio Rodrigues de Miranda, Pedro Rodrigues de Miranda e Jacintho Rodrigues de Miranda ocupavam uma
sesmaria na localidade denominada Raposa (hoje, Pindotiba) requerida junto ao Estado por volta de 1835. Mais tarde, na década de 1880, essas terras passaram a confrontar seus limites com as terras correspondentes
acabou por encontrar o que qualificou como “grossas e numerosas camadas de carvão”, e que havia sido examinado pelo mineiro francês conhecido como Vigriville, membro da equipe de trabalhadores coordenada pelo padre Henriques Cuarré, e que as considerou de elevada qualidade.
Na sequência da correspondência, Collaço menciona que, na ocasião da publicação, estava acompanhando os trabalhos coordenados pelo engenheiro de minas James Johnson,77 indicado pelo Presidente da Província, João José Coutinho, para examinar as minas de carvão mineral do Passa-Dois. Ao contrário das considerações que fez ao padre/engenheiro, Collaço fez questão de destacar que o engenheiro inglês “soube bem desempenhar a missão que lhe foi confiada não imitando os seus predecessores”, e qualificou suas novas descobertas e avaliações como sendo “requíssimos thesouros”.
A curiosidade me levou a accender fogueiras de carvão de todas estas veias, e observei que ele se insendeia lentamente dando fumo negro e chama muito viva, inflama-se pouco depois, e deixa expressar um olio comparado ao alcatrão, ligando- se de maneira a senão poder separar, e deixando no consumo poucos e leves resíduos (O ARGOS, 1858, p. 2).
Dando continuidade ao texto, Collaço passou a apresentar alguns dados que haviam sido levantados por James Johnson e que apontavam para a quantidade, a qualidade e a viabilidade da exploração do carvão mineral na região78, demonstrando que, para além do seu entusiasmo com a possibilidade de exploração comercial do carvão, também estava atento. Além disso, mostrou que acompanhava de perto todas as investidas na perspectiva da exploração do mineral, reforçando nossa tese de que a elite política e econômica regional não
ao Patrimônio Dotal pertencente à Princesa Isabel e ao Conde D’Eu, onde foi instalada, no ano de 1882, a colônia Grão-Pará, administrada pela Empresa Colonizadora Grão-Pará.
77 De acordo com a historiadora Cristina Ennes da Silva, no ano de 1853, o Conselheiro Luiz Vieira Cansação de
Sinimbú, presidente da província de São Pedro do Rio Grande do Sul, em relatório endereçado ao legislativo, incentivava a pesquisa do carvão mineral, na localidade de Arroio dos Ratos, obtendo permissão e financiamento do governo imperial para empreender uma nova exploração do mineral nas margens do Rio Jacuí. Para a realização dessa exploração, o presidente encarregou o engenheiro Inglês James Johnson de dar início às sondagens (SILVA, 2007, pp. 42 – 46). Mais tarde, por meio do Decreto n. 3715 de 6 de outubro de 1866, o engenheiro James Johnson e o Coronel Ignacio José Ferreira de Moura receberam uma concessão de 30 anos para lavrarem uma mina de carvão de pedra na localidade de Arroyo dos Ratos, no município de São Jerônimo da Província de São Pedro, conforme: https://www.diariodasleis.com.br/legislacao/federal/194007- concede-a-james-johnson-e-ignacio-josu-ferreira-de-moura-permissuo-por-30-annos-para-lavrarem-a-mina- de-carvuo-de-pedra-sita-no-lugar-denominado-arroyo-dos-ratos-municipio-de-s-jeronimo-da.html - Acessado em 02 jun. 2020.
78 De acordo com texto publicado, “elle fez abrir largas galerias em quatro diferentes veias das que julgou mais
importantes que derão o resultado seguinte: carvão superior 30 palmos e 4 polegadas, dito inferior 6 palmos e 8 polegadas, Schisto 16 palmos e 5 polegadas. Espessura de cada veio: 1ª 7 palmos e 5 polegadas, 2ª 16 palmos e 6 polegadas, 3ª 14 palmos e 7 polegadas, 4ª 15 palmos e 1 polegada. Carvão superior de cada uma, 1ª 1 palmo e 4 polegadas, 2ª 7 palmos e 11,2 polegadas, 3ª 9 palmos e 21,2 polegadas, 4ª 12 palmos e 5 polegadas”. (O ARGOS, 1858, p. 2)
se colocava alheia aos processos em curso; ao contrário, integrava e/ou articulava as forças políticas e econômicas de modo a potencializar os seus próprios negócios e interesses. Dessa forma, fazendo uso de argumentos em voga naquele período como a oportunidade de atender a “necessidade crescente da alimentação das máquinas a vapor no brasil, que tendo de sua lavoura não suportará comprar por muito tempo ao estrangeiro, a facilidade de extração nas minas”, além de fazer um alerta quanto ao fato de que “se em outra qualquer Provincia de primeira ordem se encontrasse esse poderosíssimo combustível, em quantidade e qualidade igual ao que possuímos por certo que a muito se estaria desenterrando e teria ella a preferência”. Sendo assim, apontando, inclusive, para a preocupação com relação a viabilidade de exploração do carvão no Rio Grande do Sul, província com importante papel político e econômico no Império e que poderia vir a atrapalhar os planos e os interesses ligados à extração do mineral em Santa Catarina. Tais fatores demonstravam que Collaço tinha clareza e que fazia cálculos políticos e econômicos.
Posteriormente, esses mesmos dados que foram prospectados pelo engenheiro James Johnson e noticiados por Collaço no ‘O Argos’ também foram publicados no relatório anual apresentado pelo presidente da Província de Santa Catharina, Sr. Francisco Carlos de Araújo Brusque79, ao Legislativo, no dia 1 de abril de 1860. No referido relatório, a publicação trazia dados mais consubstanciados e mais bem detalhados acerca dos estudos realizados pelo inglês. No relatório de 1860, com base nas informações do engenheiro, o presidente da província reafirmava a facilidade e a pronta extração do carvão em alguns dos veios prospectados, mas que o único empecilho era a dificuldade de transporte do mineral até o porto mais próximo, assinalando que,
Mas nem a distancia de 6 leguas, que será a maior extenção que medeia entre as minas e o ponto de embarque denominado Guarda, é dificuldade que nos faça recuar diante desta empreza, nem os embaraços que nessa direcção se encontrão são de tal ordem que não possão ser superados em nossas circumstancias (SANTA CATHARINA, 1860, p. 35) [Grifo nosso].
Observamos na fala do presidente dirigida ao legislativo, portanto, no âmbito da política provincial, o mesmo entusiasmo esboçado por Luiz Martins Collaço no âmbito da política regional. No caso da narrativa do presidente Araújo Brusque, além agregar expressões
79Francisco Carlos de Araújo Brusque nasceu em 24 de maio de 1822, em Porto Alegre/RS. Bacharelou-se em
Direito pela Faculdade de Direito de São Paulo/SP, em 1845. Depois de formado, retornou ao Rio Grande do Sul, onde foi Deputado Provincial (1849-1856) e Deputado Geral, de 1856-1859. Filiado ao Partido Liberal, foi nomeado por Carta Imperial, assumindo a presidência da província catarinense, governando de 21 de outubro de 1859 a 17 de abril de 1861 (MEMÓRIA POLÍTICA DE SANTA CATARINA, 2019).
como “não devemos, pois, trepidar um só momento diante da grandeza do objecto, receiosos dos embaraços que se nos apresentão”, também fez uso de conceitos muito presentes naquele momento, como “progresso” e “civilização”. Ademais, também fora sinalizado que já teriam sido dados alguns passos junto ao governo do Império no sentido de assegurar a continuidade dos trabalhos iniciados nas minas conhecidas. Para ele, a extração do mineral se configurava como uma grande ideia política, econômica e comercial que mudaria “a face do paiz em todos os detalhes de seu progresso e civilização” (SANTA CATHARINA, 1860, p. 35).
Outro fato que reputamos relevância para a compreensão da dimensão dos processos em curso na região Sul de Santa Catarina, na virada da metade do século XIX, relacionados às investidas sobre o carvão existente nas cabeceiras do rio Tubarão, foi a publicação de outra correspondência no mesmo jornal. “O Argos”, na edição do dia 27 de fevereiro de 1858, portanto onze dias após a publicação feita por Collaço, fez publicação a pedido e assinado por Manoel J. de Oliveira. Nessa nova edição, o autor fazia menção à publicação feita por Collaço, dando a entender, inclusive, que aquela teria motivado esta. Na ocasião, destacava que trazia informações acerca das minas que lhes foram transmitidas por um amigo, que as julgava de interesse de todos aqueles que nutriam “sentimentos patrióticos” e que tal publicização se justificava por tratar de aspectos relacionados a futuros “melhoramentos” na província catarinense.
Observamos algumas coincidências entre as duas publicações. A primeira delas está relacionada ao curto espaço de tempo entre a publicação de ambas, ou seja, cinco edições que correspondem a onze dias, apenas. A segunda: as informações trazidas por Manoel J. de Oliveira são atribuídas a um “estimado amigo”, pelo qual ele confessa ser “grato por tantas provas de sympathia” demonstrada. Essa pessoa não é identificada e Oliveira escreve que teria agido apenas por “bondade”. A terceira coincidência diz respeito ao fato de a segunda publicação reforçar e ampliar as informações já trazidas pela primeira; a quarta: está relacionada ao fato de o autor fazer menção ao empenho de Luiz Martins Collaço no acompanhamento dos trabalhos relacionados aos estudos desenvolvidos na região carbonífera. Por fim, a quinta trata da forma como os autores procuraram se colocar, apresentando-se como pessoas bem intencionadas e preocupadas com o desenvolvimento material da província de Santa Catarina, do município da Laguna e, por extensão, da Freguesia do Tubarão.
Quanto à estrutura da publicação de Manoel J. de Oliveira, podemos observar que na primeira parte é apresentada a transcrição da carta enviada pelo “amigo oculto” que, conforme indicação do próprio texto, devia ser morador de Laguna ou mesmo da própria Freguesia do Tubarão, enquanto que, na segunda parte, o autor responsável pelo texto
publicado tece suas considerações acerca o tema gerador. A transcrição da carta do “amigo oculto” inicia dizendo que ele não poderia deixar de informa-lo acerca “da exploração havida nas minas de carvão aqui existentes” [grifo nosso], além de apontar para a existência de um imenso depósito de carvão entre o rio Palmeiras e a encosta da serra, em uma área de aproximadamente quatro léguas, reforçando as informações trazidas anteriormente por Luiz Martins Collaço e ressaltando que o engenheiro [James Johnson] havia realizado um calculo das “4 veias que examinou em um quadro de uma e meia légua, dando cada jarda quadrada uma tonellada, e extrahindo-se cem tonelladas por dia, fornecerão ellas carvão para 4$ annos”. Oliveira completava sua carta com a indagação: “quanto, pois, não fornecerão as 19, isto suposto em 4 léguas quadradas?”. A combinação da apresentação do volume de carvão estimado em toneladas por James Johnson, seguido da indagação projetando a possibilidade de exploração do mineral no longo prazo, sugere uma preocupação por parte do narrador em projetar para a região Sul catarinense um futuro orientado pela indústria que proporcionaria progresso e desenvolvimento material, e, consequentemente, a instalação dos elementos que a ligariam ao mundo civilizado.
De acordo com a carta transcrita na publicação, a única despesa necessária para o empreendimento minerador ficaria a cargo da construção de uma estrada adequada e que servisse para o escoamento do minério. É neste último aspecto que julgamos residir a informação mais importante, justamente por apontar para a viabilidade da construção de uma estrada equipada com trilhos de madeira, aproveitando o próprio terreno composto por vargens que margeavam o rio e a abundancia de árvores que forneceriam as madeiras necessárias para a construção dos trilhos, enquanto não fosse possível a utilização dos de ferro, já sinalizando que os trilhos de madeira teriam um caráter de provisoriedade e que seriam substituídos “quando tudo já estiver adquirido maior força e robustez”. Ainda de acordo com o “plano” traçado pelo “amigo oculto”, os carros/vagonetes seriam carregados com o mineral extraído das minas e dali as cargas seriam tracionadas por bestas que poderiam transportar entre 4 ou 5 toneladas. A carga seguiria até a localidade denominada “Passo do Bago”, onde uma embarcação movida à vapor, devidamente adaptada à profundidade do rio, rebocaria “barcas carregadas de carvão para o porto destinado” (O ARGOS, 1858, p. 2 – 3).
Ao final, utilizando-se de uma construção narrativa poética, o amigo oculto de Manoel J. de Oliveira faz o seguinte registro:
Assim, pois, meu amigo, a Provincia de Santa Catharina virá a ser um dia o Jardim do Grande Império do Brazil, o município da Laguna um[a] flor mimosa e o Tubarão um botão, cheiroso que mil authophilos previdentes virão
rodeiar. Já não seremos a esse tempo, mais que uma planta murcha ou consumida dentro d’esse jardim, porém os germens preciosos que brotando na força e no vigor de uma primavera amena, e melhor que a nossa nutrem de dengos d’esse tempo, nos transmitirão parte d’esse aroma vivificante do desabrochar das flores com suave prazer ao desfructar pacíficos, diremos: – com a vida comprida tudo se alcança, com ella curta de nada se precisa –” (O ARGOS, 1858, p. 2-3) [Grifo nosso].
Ao construir uma narrativa poética em que estabelece uma comparação entre a efetivação do projeto em curso para a mineração do carvão na região Sul, com um organismo vivo (Jardim, Flor, Botão...), orientado por uma estrutura hierarquizada em que cada membro apresenta uma função distinta, o nosso narrador se colocava ao longe de uma visão ingênua e meramente romanceada. Pelo contrário, o que observamos no período em questão é a recorrência de uma construção narrativa de que Santa Catarina era uma província com grandes potencialidades, embora preterida no contexto do Império, sobretudo do ponto de vista político e econômico, e, principalmente, quando comparada à província de São Pedro do Rio Grande do Sul, que obteve grande destaque com o comércio do gado e seus derivados ao longo dos séculos XVII e XIX. Do mesmo modo, o sentimento nutrido e as narrativas construídas no âmbito da província também reverberavam na direção dos municípios e freguesias com maior ou menor intensidade. Por isso, mesmo que os movimentos internos se articulavam de modo a demonstrar que a província prospectava um futuro associado a ideia de “civilização” e de “progresso”, em que Santa Catarina pudesse figurar com importância econômica, pois dela também derivaria a relevância política. Do mesmo modo, buscava apresentar o carvão mineral como propulsor de uma indústria capaz de gerar riqueza por um longo período. As publicações, naquele contexto, faziam parte de uma estratégia articulada pelos agentes sociais que controlavam a economia e a política da província e de Laguna, de modo a chamar a atenção tanto do governo do Império, quanto de possíveis investidores para uma região coberta por florestas, mas que se apresentava com grandes possiblidades diante do curso civilizatório.80
Ao final da publicação, já tendo apresentado a transcrição da carta que lhe fora entregue pelo “amigo oculto”, Manoel J. de Oliveira aproveita do fato de estar “com a mão na massa, como diz o adágio” para também apresentar suas consideração acerca do objeto ali tratado, e faz um apelo ao “patrocínio do Governo Imperial afim de se tornar uma realidade a mineração dos terrenos carboníferos existentes na nossa bella, porém infeliz província”
80 Se no século XIX o imaginário do "progresso do carvão mineral" foi o grande "horizonte de expectativa" da
mentalidade moderna, no século XX, a realidade da economia/indústria do carvão representou a maior tragédia socioambiental da região sul de Santa Catarina e uma das maiores tragédias do Brasil.
[grifos meus], reafirmando a condição de desamparo da província catarinense em detrimento de outras, em especial, a província do Rio Grande do Sul. Oliveira informa que na província vizinha estaria sendo incorporada uma companhia organizada a partir da corte imperial para a exploração do carvão, prenunciando dificuldades para levar a efeito a mineração no Tubarão. A referida companhia teria como concessionários o empresário Barão de Mauá e o político Luiz Alves de Oliveira Bello, além do engenheiro inglês, James Johnson, como um de seus acionistas.81
Oliveira evidencia e reforça uma preocupação comum, também, aos demais agentes sociais aqui apresentados, com o fato de que alguma pessoa, para atrapalhar o empreendimento da mineração, pudesse convencer o governo do Império, os agentes políticos e os empresários capitalistas em condição de se interessar por tal investimento, de que o caminho que daria vasão ao escoamento do carvão seria impossível de ser realizado ou, de tal monta, que o investimento não compensaria, já que a quantidade e a qualidade do mineral eram inegáveis.
Mas, afinal, quem foi Manoel J. de Oliveira? De acordo com o historiador Walter F. Piazza, e com a “Memória Política de Santa Catarina”, tratava-se de “Manuel José de Oliveira”, popularmente conhecido pelo apelido de “Pendica”. Natural de São Francisco do Sul, dedicou-se às atividades comerciais, militares e políticas. Como advogado provisionado, defendia os direitos de negros forros e nascidos livres, conforme relatos e núncios de jornais da época. Como militar, seguiu carreira até ser reformado Tenente do 8º Batalhão de Infantaria da Vila de São Francisco, em 24 de dezembro de 1852. Já em Desterro, capital da província, atuou como secretário da Irmandade do Senhor Jesus dos Passos e do Hospital Imperial de Caridade, além de ser membro e ministro da “Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência”. Vale ressaltar que “Pendica” era filho de José Luciano de Oliveira, que também era comerciante e militar, e que foi Deputado na Assembleia Legislativa Provincial de Santa Catarina entre os anos de 1848 e 1849. Ainda sobre sua genealogia, era irmão de Emídio Silveira de Miranda e Oliveira, que também ocupou uma vaga de Deputado na
81 Os concessionários mencionados por Manoel J. de Oliveira eram, respectivamente: Irineu Evangelista de
Sousa um comerciante, armador, industrial e banqueiro com grande participação no processo de