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THYMECTOMIE CHEZ LE MYASTHENIQUE

I. PERIODE PREOPERATOIRE

1. Evaluation préopératoire

Os materiais e as técnicas tradicionais de construção em Portugal têm sido estudados por autores de referência, como João Barreira (1908), Rocha Peixoto (1990), Henrique de Barros (Barros et al. 1947), Ernesto Veiga de Oliveira e a equipa de etnologia (Oliveira, Galhano e Pereira 1988 [1969]; Oliveira e Galhano 1994), e a equipa do “Inquérito à Arquitetura Popular em Portugal” (AAP 2004 [1961]). É de

122 Chícharos, favas, ervilhas, feijão, mas também batatas, cebolas, alhos e hortaliça, enquanto

realçar ainda o contributo de Orlando Ribeiro (1970, 1986 [1945], 1992 [1961]), através da investigação sistemática que desenvolveu no país. Mais recentemente, Mariana Correia (2005) e Pedro Prista (2005, 2014) produziram novos contributos sobre o tema. Inclusivamente, em Terra, Palha, Cal, Pedro Prista (2014) mencionou alguns dos momentos e autores que marcaram o estudo da arquitetura de terra em Portugal. Independentemente das especificidades de cada estudo, todos enunciam a influência da geomorfologia, do clima e de outros fatores naturais na diversidade de materiais e de técnicas de construção artesanal em Portugal.

Em Ourém, a diversidade da tipologia arquitetónica da casa rural remete para o papel da natureza dos solos na seleção dos materiais de construção utilizados até meados do século XX123. O assunto aparece sumariamente abordado em alguma literatura dedicada ao tema na perspetiva nacional, como é o caso da referência ao calcário em Arquitetura Tradicional Popular, menos desenvolvido que para as arquiteturas de granito ou de xisto (Oliveira e Galhano 1994: 173). Relativamente às casas de terra, os etnólogos enquadraram-nas em regiões secas e de pedra escassa, numa correlação com as áreas mediterrânicas (e confinantes) do país, como Aveiro, a Gândara, a faixa litoral dos distritos de Coimbra, Leiria e Ribatejo, onde Ourém se insere, e Alentejo (Oliveira e Galhano 1994: 316, 327). Comentaram a dificuldade de ajustamento da construção em terra a edifícios altos, sendo por isso especialmente adotados na casa térrea e muito comuns em áreas de pequena propriedade agrícola ou habitadas por trabalhadores por conta alheia (1994: 16, 20), o que se revê na região em estudo. Em relação ao estudo disciplinar do tema, Pedro Prista apontou que tem sido pouco estudado pelos etnólogos (Prista 2005: 108).

A dualidade geomorfológica mais ou menos marcada de Ourém reflete-se na disseminação de casas de pedra, a sul, e de casas de terra, no centro-norte, com emprego de materiais e técnicas mistas em zonas de transição geológica, o que traduz uma paisagem arquitetónica eclética. A observação de edifícios sem caiação e os dados de entrevistas a antigos construtores locais permitiram um mapeamento aproximado e necessariamente flexível dos materiais e técnicas de construção artesanal no concelho. A sul, nas freguesias de Fátima, Atouguia e Nossa Senhora das Misericórdias (abrangidas pelos afloramentos calcários em volta do santuário de

Fátima), predominavam os edifícios de calcário. Em Seiça, Rio de Couros, Caxarias, Ribeira do Fárrio, Casal dos Bernardos, Urqueira, Matas e Espite, prevalecia a construção de terra e somente alguns edifícios se baseavam em materiais mistos (terra com calcário, margas ou seixo rolado). Em Alburitel, as construções de calcário eram pontualmente intercaladas com estruturas de terra, tal como na Freixianda e Formigais (mais a norte e na continuidade da Serra de Alvaiázere). As freguesias centro-norte de Nossa Senhora da Piedade, Gondemaria/Olival e Cercal/Matas integravam construções de terra e algumas mistas (com terra e pedra extraída de bolsas locais de calcário, com teor mais descarbonatado).

Construções de calcário

O calcário era usado nas paredes-mestras de habitações, em anexos e em muros de propriedade e sustentação de terras. Num registo poético e envolvente, os arquitetos do “Inquérito à Arquitetura Popular em Portugal” (2004) realçavam a combinação “espontânea” entre os volumes, as opções arquitetónicas e a aplicação artesanal de materiais, como a pedra e a cal, numa adequação eficaz às condições do meio e com benefício dos recursos naturais (AAP 2004 [1961]: 55-56).

As habitações e outras construções mais elaboradas eram erguidas por homens com blocos extraídos em pedreiras, selecionados e preparados em obra. Com tamanhos irregulares, os blocos eram afeiçoados e assentes sobre alicerces de pedra, encaixando entre si, intercalados com pedras maiores para garantir travação das paredes, e os interstícios eram preenchidos com argamassa de cal e barro ou terra vermelha dos terrenos de sequeiro. Para os cunhais eram escolhidos blocos maiores, bem faceados, sobrepostos transversalmente para a estabilidade da estrutura.

No processo construtivo com pedra participavam três profissões masculinas: o cabouqueiro (na extração da pedra, tarefa fisicamente desgastante), o pedreiro (no levantamento das paredes, com um desempenho mais técnico) e o canteiro (na execução das cantarias dos vãos, com um saber especializado). O número de trabalhadores definia o tempo médio de construção. O reaproveitamento de pedras dos edifícios em ruína para novas obras poupava trabalhos na extração, no transporte e no facetamento de blocos, que podiam ser mais morosos que o levantamento das paredes. Os edifícios anexos e pequenos muros eram frequentemente erguidos com

blocos soltos não aparelhados e toscos, recolhidos em trabalhos de limpezas dos terrenos de lavoura, e não era aplicada argamassa nos interstícios.

Construções de taipa

Utilizada nas paredes-mestras de casas de habitação, em anexos e muros de divisão de propriedades, a taipa era uma técnica construtiva in situ. Permitia o levantamento de paredes autoportantes com cerca de 50 centímetros de espessura, com grande capacidade de isolamento térmico. A sua execução era um trabalho essencialmente masculino, coletivo e articulado. Num terreno próximo da construção era recolhida terra barrenta com cascalhinho ou pedriça e alguns elementos orgânicos. Retirada a capa vegetal, extraía-se a terra da camada virgem, sendo transportada em carros de bois ou de mão para o local da obra. Ali, os torrões eram desfeitos e amassados com água, que lhe dava plasticidade. Com a matéria-prima pronta, o construtor, auxiliado por dois ou mais serventes, erguia dois taipais com cerca de dois metros de comprimento por cinquenta centímetros de altura e cinquenta centímetros de distância entre si124. Assentavam sobre alicerces de pedra (feitos com seixos bem dimensionados), que podiam ficar elevados até cinquenta centímetros acima da cota do terreno. Esta técnica, também aplicada em paredes de adobe, dava segurança ao edifício e, por isso, era aconselhada pela Câmara Municipal, como se verifica em autos de autorização de construção.

Depois de armados, os taipais eram nivelados e aprumados para se dar início ao levantamento das paredes. Um homem transportava e vertia a massa para o interior do taipal; outro espalhava-a uniformemente com os pés até atingir cerca de um palmo de altura; um terceiro compactava-a com um maço de madeira, mais vigorosamente junto das pranchas laterais. Novas camadas eram sobrepostas sucessivamente até ao enchimento do taipal. A terra humedecida não podia secar, obrigando a um ritmo de transporte rápido e sintonizado com a cadência do apisoamento.

Após um tempo mínimo de secagem, o taipal era desmontado e remontado na posição seguinte, até encerrar o perímetro da construção. A cada vinte a trinta centímetros de altura, as fiadas de taipa eram intercaladas com uma camada de cal

124 Os taipais são compostos por duas pranchas de madeira posicionadas lateralmente, unidas entre si

por duas travessas pregadas perto dos extremos. Três barras de ferro (as agulhas) são dispostas transversalmente à parede, por baixo dos taipais. Estes são apertados lateralmente por barrotes de madeira (costeiros) em três conjuntos de dois (Rocha 2005).

que atuava como ligante. Produzia ao mesmo tempo um resultado plástico interessante a que os buracos circulares para fixação dos taipais acrescentavam valor. Um construtor oureense que trabalhou com esta técnica classifica-a como acessível, resistente, mas rigorosa. Uma casa de um piso podia ser erguida em quinze dias com o trabalho de quatro homens (dois para apiloar a massa, um para amassar e outro para a transportar). Meses depois, o tempo suficiente para o edifício secar e estabilizar, as paredes eram rebocadas em camadas múltiplas de argamassa com cal aérea. Com os anos, o risco de abaulamento perante a pressão da cobertura era corrigido com fortes gatos de ferro:

Havia umas coisas, tinham um bocado de pau que furavam aqui e ali e botavam as coisas ao alto. Nem toda a terra dava. A terra aqui em volta é amarela, é sempre melhor que aquela preta. E depois botavam uma camadita de cal, baldeavam com um bocadito de água, não muito molhada. Há casas dessas em pé e com mais de 100 anos. A minha casa foi a primeira do lugar feita em tijolo de quinze. As demais eram de taipa [Joaquim dos Santos Gameiro, 70 anos, Espite].

Construções de adobe

Em Ourém, o adobe ou adobo era empregue principalmente no interior das habitações térreas e em edifícios de apoio. Diferentemente da taipa, o local de produção dos blocos não era o mesmo da construção e não existia uma convivência simultânea entre o produtor do adobe e o construtor das paredes. Havia uma demarcação de dois momentos: o da preparação e o da construção.

A técnica local do adobe consistia na produção de blocos de terra amassada com areia, palha cortada ou outras fibras vegetais e, mais recentemente, com adição de cal. A pasta era deitada em moldes retangulares de madeira, conhecidos por adobeiros, que em Ourém mediam cerca de vinte centímetros de comprimento por quinze centímetros de altura e de largura, com variações ligeiras. O artesão moldava os módulos com a terra liquefeita, alisava-os sem compactar e dispunha-os na rua em terreno plano. Removia depois os moldes e os blocos ficavam a secar durante cerca de três semanas para ganhar consistência. Alguns profissionais fabricavam adobes em série para venda, inviável com a taipa enquanto construção in situ.

Em construções de adobe e de taipa, quando os edifícios começavam a ruir, raramente eram recuperados. “Quando o adobe de que elas são feitas começa a desagregar-se e as paredes a ruir, a casa é condenada, porque não merece arranjo”

(Oliveira e Galhano, 1994: 223). A efemeridade construtiva destas técnicas está relacionada com a associação das construções de terra à pobreza. O trabalho de recolha, transporte e transformação da matéria-prima – terra – era acessível, comparativamente à pedra, pelo que o destino mais comum destas ruínas seria a erosão e devolução natural ao meio, num processo ecológico, com a sua absorção gradual como terra de cultivo.

Tijolos cerâmicos artesanais

Habitantes de zonas com escassez de pedra e que participaram ou assistiram à construção de casas entre 1920 e 1940 confirmaram que durante esse período existiam fornos cerâmicos rudimentares que coziam pequenos blocos de cerâmica toscamente manufaturados com argila extraída de barreiros locais. Com base nesses relatos orais, na toponímia e com o apoio disciplinar de arqueólogos locais, identifiquei unidades de produção nas freguesias de Urqueira, Ribeira do Fárrio e Alburitel, as quais ocupavam, de algum modo, uma posição intermédia entre os adobes e os tijolos cerâmicos fabricados mecanicamente:

A minha casa é de tijolo maciço cozido no Bicão [microtopónimo em zona atualmente florestada]. O meu sogro falou com uns tipos de Espite que arranjaram lá um forno. O barreiro era no Bicão, junto do forno. Não sei se ele vendeu algum, mas fez o forno para a minha casa. Aqueciam no forno, com umas formas… tudo à mão [Manuel Santos, 94 anos, Urqueira].

Tabique nas divisórias da habitação

A maioria das divisórias interiores das habitações era de tabique, em alternativa às paredes com adobe e de pedra. A execução era fácil e pouco dispendiosa, mas exigia saberes especializados e conciliados com os trabalhos de carpintaria. Após o levantamento das paredes estruturais, o pedreiro fabricava as paredes com ripas de madeira (pinho) revestidas com argamassa. Aos barrotes do soalho eram pregadas madeiras grosseiras na vertical. Sobre estas era fixado o fasquio de réguas finas (três centímetros de largura no lado maior), dispostas horizontalmente em filas paralelas com cerca de cinco centímetros de distância entre si. A armação era chapiscada com cal e saibro e, nalguns casos, era-lhe adicionada palha cortada. Após a secagem, era rebocada e caiada de branco.

Cal nos revestimentos

Com emprego generalizado no país e apontada como uma constante na Estremadura e no Ribatejo (AAP 2004 [1961]: 73), a cal era usada nas casas de norte a sul do concelho. Nos revestimentos exteriores era aplicada em cor natural ou com pigmentos e nos revestimentos interiores era invariavelmente branca. Barata e de uso fácil, além de proteger o adobe e a taipa dos agentes atmosféricos (humidades), nas paredes de calcário a cal minimizava o impacto visual de uma pedra que não colhia a mesma “simpatia” que o granito.

A caiação era a última etapa de um processo operatório iniciado com a extração da pedra, a que sucedia a sua transformação, comercialização e aplicação, numa relação sequencial entre produtores, fornecedores e consumidores. A extração da pedra era feita por homens em pedreiras da Serra de Aire e transportada para fornos de cal para ali ser cozida e moída, concentrada125. Era depois comprada a granel em mercearias locais (conhecidas por lojas). Na sua utilização observa-se uma relação contextual com a questão de género: a primeira caiação do edifício era coordenada por homens, numa afirmação de responsabilidade e competência, e as caiações posteriores, sobretudo nas paredes interiores, cabiam ao casal ou apenas às mulheres: “Não vale a pena dizer o contrário. Eram as mulheres que caiavam” [Humberto, 86 anos, Fátima]. Também o antropólogo Pedro Prista realçou a participação feminina nas casas do sul de Portugal:

Para mais, a caiação revela ser não apenas uma rotina de asseio com várias outras vantagens funcionais na iluminação interior e na consolidação de rebocos, mas uma cifra da complexa relação entre interior e exterior das casas no Sul. Revela principalmente uma cultura da rua como lugar colectivo unindo as casas e o papel decisivo da mulher nelas, mesmo sem explícito protagonismo público (Prista 2014: 19).

Materiais e técnicas de construção industrial

João Vieira Caldas (2007: 168) situou a introdução de novos materiais e técnicas de construção no país a partir dos anos 30 do século XX. Progressivamente, a industrialização generalizou-se, com impacto na transformação do modo de vida rural e no afastamento geral dos processos artesanais (Oliveira e Galhano 1994: 369; AAP 2004 [1961]: 64). A viragem da década de 1950 para a de 1960 marcou a passagem da construção doméstica pré-industrial para a construção industrial e a mudança de

paradigma económico associado à construção da habitação. Os materiais de construção, antes maioritariamente recolhidos localmente, sem despesa associada (areias, pedra, saibro, madeiras…), passaram a ser comprados e isso provocou a subida do custo global da construção. Esta alteração, todavia, não se refletiu na mudança imediata das tipologias construtivas na região, mantendo-se o essencial das características de casas rurais.

A taipa, o adobe e a pedra foram gradualmente substituídos por blocos/tijolos de cerâmica de fabrico industrial e os madeiramentos passaram a ser aplainados em serrações (num processo coincidente com a expansão local de indústrias de cerâmica e de madeira). Em 1956, nos requerimentos de licenciamento, surgiam pela primeira vez referências à mudança de materiais artesanais para materiais industriais, mesmo em obras de alteração à habitação, por exemplo na substituição do tabique pelo tijolo. Como em outros territórios rurais do país, a introdução de materiais industriais fez com que a generalidade das casas dos trabalhadores agrícolas no concelho passassem a ser erguidas com blocos cerâmicos, telha marselhesa e pavimento em ladrilho cerâmico. As variações entre as casas a sul e a norte, condicionadas pelos materiais de construção locais126, esbatiam-se. Não obstante, continuava a vigorar a prestação local dos serviços por facilidade de comunicação e de transporte dos materiais, como se verificou com a carpintaria (pinho para as caixilharias e pavimento), que prevaleceu até finais dos anos 60, embora já transformada em serrações e oficinas e pronta a aplicar.

Homens jovens especializavam-se na construção com tijolos cerâmicos. Passaram a dedicar-se ao assentamento de tijolos ligados por argamassa, já com alguma percentagem de cimento, pondo de parte técnicas artesanais que pressupunham mais saber na transformação da matéria-prima e no levantamento de paredes127. Esta reconfiguração tecnológica teve impactos na esfera das profissões locais e reduziu significativamente o tempo de construção. A prática de uma técnica de construção comum de norte a sul do concelho permitiu aos construtores aumentar a escala territorial de atuação, pois deixavam de ficar confinados às áreas de influência dos materiais e das técnicas anteriores que antes dominavam. A inovação afetou os construtores mais velhos, com um longo percurso de construção artesanal

126 Como os alpendres recuados nas casas de pedra ou os revestimentos em almagra nas casas a norte. 127 As técnicas de encaixe da pedra ou a consistência e o faseamento da construção em taipa e em

que deixava de ser procurada. Cabouqueiros e canteiros ficavam sem ocupação e este saber especializado deixou de ser transmitido às gerações seguintes. A construção civil assentava agora num registo intermédio entre processos manuais e mecânicos e com novos quadros profissionais, como assalariados de cerâmicas, pedreiros, serralheiros ou mesmo carpinteiros que aplicavam madeiras preparadas em fábrica.

Esta mudança coincidiu com o aumento da emigração masculina para França, na qual se incluíram construtores com domínio sobre as técnicas artesanais, sem substituição equivalente por jovens construtores que trabalhassem materiais industriais, com efeitos na falta de mão-de-obra local. António Marques128 classificou a passagem dos anos 60 para os anos 70 como um tempo em que “era muito difícil encontrar pedreiros para fazer uma casa”. A necessidade de profissionais da construção civil converteu-se em oportunidade de regresso para muitos emigrantes que, em França, trabalhavam no ramo. Nesta circulação de ideias e de capital de conhecimento entre fronteiras, dos subúrbios de França para a aldeia portuguesa, estiveram envolvidos processos transnacionais (Basch, Schiller e Blanc 1994), a desenvolver no capítulo seguinte.

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