Chapitre III : Optimisation des Interactions
3.3 Etude structurale d’interface complète
Retomando a discussão no capítulo anterior sobre a relação entre diferentes tipos de proximidade e a construção de redes de conhecimento, a importância que a mobilidade dos cientistas assume na criação das suas redes de conhecimento reside na oportunidade que permite para a ocorrência de períodos de co-localização – i.e. proximidade física – entre eles por períodos mais ou menos prolongados. Esta proximidade física que permite interacções face-a-face é, de acordo com a literatura de redes sociais de grande importância para a criação de laços directos entre os actores. É igualmente aceite na literatura como crítica para a troca de conhecimento (Feldman, 1999), particularmente quando este tem uma forte componente tácita, como é o caso de novas descobertas científicas (Zucker et al., 2002); ou quando é altamente complexo, em cujo caso a codificação não garante completa compreensão e reprodução (Dasgupta e David, 1994).
Esta questão assume um relevo particular num contexto de crescente mobilidade interorganizacional e internacional dos cientistas, tendo sido objecto de análise em áreas científicas emergentes como a biotecnologia (Ackers, 2005). É expectável que relações caracterizadas pela proximidade cognitiva e/ou social e/ou organizacional se vão estabelecendo em localizações diversas, ao longo do percurso do cientista e se mantenham quando a co-localização termina (alimentadas pelos avanços das TIC e por novas oportunidades de co-localização temporária) (Saxenian and Hsu, 2001). Tendo em conta que a mobilidade está frequentemente associada à procura de conhecimento mais avançado, também
46 é expectável que os indivíduos/organizações com quem essas relações se estabelecem venham a assumir um papel importante como fontes de conhecimento científico e tecnológico para os cientistas que passaram por essa experiencia de mobilidade.
Relativamente à questão do impacte da mobilidade na criação de redes de conhecimento duas correntes na literatura empírica assumem particular relevância. As pesquisas sobre a influência da mobilidade laboral sobre os fluxos de conhecimento no universo empresarial produziram resultados empíricos e teóricos relevantes. Nomeadamente, confirmaram a importância dos períodos de co-localização na mesma organização para a criação de relações sociais e cognitivas que persistem após a separação física. A investigação aplicada ao caso da mobilidade científica focou-se inicialmente na criação de redes científicas diaspóricas mas, recentemente, começou igualmente a produzir evidência empírica sobre a relevância da mobilidade para o desenvolvimento de redes de conhecimento entre cientistas que regressam ao seu país de origem mas mantém laços com os países onde tinham feito a sua estadia anterior. As contribuições destas duas linhas de pesquisa serão discutidas de forma mais detalhada nos parágrafos seguintes.
Diversos autores investigaram a influência da mobilidade dos trabalhadores nos fluxos de conhecimento para as empresas (Almeida e Kogut 1999, Oettl e Agrawal 2008, Rosenkopf e Almeida 2003). A premissa seria a de que os trabalhadores móveis iriam manter relações com pelo menos alguns dos seus colegas anteriores e que essas relações serviriam como veículos para a continuação das trocas de conhecimento entre eles. O impacte destas trocas poder-se-ia estender aos seus colegas na nova organização e logo, se a mobilidade tiver tido lugar entre países diferentes, a mobilidade poderia igualmente conduzir a fluxos de conhecimento internacionais (Oettl e Agrawal 2008).
Análises empíricas, baseadas em citações de patentes, confirmaram a persistência de fluxos de conhecimento, em ambos os sentidos, após a mobilidade. Por outras palavras, as relações sociais e cognitivas criadas por estes indivíduos durante a sua co-localização na mesma organização persistiram após a separação e adicionaram-se às redes pessoais de ambos. Pelo menos algumas destas relações são subsequentemente mobilizadas no novo contexto (de produção de conhecimento) das suas actividades. Deste modo, a criação e mobilização destas redes é um elemento-chave para o desenvolvimento de fluxos de conhecimento entre pessoas e as suas organizações/países.
A investigação sobre a relação entre a mobilidade internacional dos cientistas e a construção das suas redes interpessoais de circulação de conhecimento emergiu sobretudo
47 enquanto resposta às perspectivas do brain drain. Esta perspectiva encarava, como vimos, a mobilidade internacional dos cientistas de um país para outro como um jogo de soma nula, em que o país de origem ficava inteiramente privado dos seus talentos. As abordagens mais recentes, que definiam a mobilidade científica como um fenómeno complexo, multi- dimensional e multi-direccional (Ackers, 2005; Meyer, 2001, Davenport, 2004), previam a possibilidade de que estes cientistas podiam ainda contribuir para o seu sistema científico nacional através de redes diaspóricas, conectando-o a contextos científicos mais avançados (Davenport 2004, Kuznetsov, 2006). Nessa lógica, as pesquisas iniciais sobre fluxos de conhecimento associados à mobilidade internacional dos cientistas concentraram-se nestas
redes diaspóricas.
Mais recentemente, os investigadores começaram a demonstrar mais interesse no caso dos cientistas que regressam aos seus países de origem. O papel dos expatriados regressados como condutas para fontes de competências e conhecimento localizadas nos países onde tinham anteriormente trabalhado ou estudado já tinha sido discutido por alguns autores (Saxenian e Hsu 2001, Williams et al., 2004). No entanto, no nosso conhecimento, existem apenas três estudos que focam especificamente a influência da mobilidade internacional de cientistas na criação de redes de conhecimento que persistem após o cientista regressar ao país de origem (ou ir para outro país).
O primeiro utiliza uma amostra vasta de cientistas de uma série de países da Asia- Pacífico e investiga o impacte da sua mobilidade entre países – para doutoramentos e pós- doutoramentos – na criação de redes de investigação e colaborações transnacionais com esses países (Turpin et al., 2008). O segundo concentra-se em cientistas estrangeiros que visitaram a Alemanha no contexto do programa de bolsas Humboldt e investiga os processos subsequentes de colaboração e mobilidade transnacional que resultaram desse processo, tendo como destino a Alemanha (Jöns, 2009).
Ambos os estudos encontraram evidências sobre a relevância da mobilidade para o estabelecimento de redes de conhecimento, ao nível do país, demonstrando que os cientistas tendem a estabelecer relações de conhecimento com os países onde tinham tido estadias. No entanto, uma vez que a unidade de análise é o país, não é possível aferir as condições em que a relação foi estabelecida, nomeadamente se proveio de uma permanência numa mesma instituição ou se foi obtida de outras formas.
Num terceiro estudo de Fontes, Videira e Calapez (2013), sobre cientistas portugueses (com e sem trajectórias de mobilidade internacional superiores a um ano) a trabalhar em instituições de investigação nacionais, procura-se já aferir o impacte, tanto da mobilidade
48 como das co-localizações, em determinadas instituições, na construção das redes de conhecimento mais relevantes dos cientistas. Os resultados parecem indicar que tanto a trajectória de mobilidade internacional em si, como a própria co-localização institucional são relevantes para a construção desses laços que, em determinadas circunstâncias, demonstram elevada persistência após o regresso dos cientistas a Portugal.
Apesar destes estudos, dada a reduzida atenção prestada às redes dos cientistas que regressam, podemos afirmar que sabemos ainda muito pouco sobre o papel da mobilidade na criação de relações que permitam a circulação de conhecimento entre países (Jonkers e Tijssen, 2008). As hipóteses lançadas a este nível pelas correntes teóricas mais ligadas à discussão dos diferentes tipos de proximidade encontram-se apenas parcialmente testadas e faltam estudos empíricos que abordem de forma mais compreensiva o próprio processo de construção das redes de conhecimento dos cientistas. Esta é uma dimensão que será abordada teórica e empiricamente neste estudo que procurará assim contribuir para o conhecimento nesta área.
2.5. A mobilidade dos cientistas portugueses e o seu impacte na internacionalização do