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Estimations de l’ITT et de l’ATT en Double-Différence

CHAPITRE II : METHODES D’IDENTIFICATION ET RESULTATS

6. Résultats

6.2. Estimations de l’ITT et de l’ATT en Double-Différence

Expostas as principais teses de duas perspectivas que, na assunção que é fei- ta do modelo interno da acção, elegem, num caso, as intenções e, no outro, as volições como elementos determinantes da acção, é chegado o momento de intentarmos uma síntese do aparentemente antagónico, tendo como hori- zonte de sentido a relação entre a faculdade de querer e a acção.

Sustentamos que a faculdade de querer compreende volições e intenções, cuja distinção, portanto, deve ser mantida, sem que nenhuma das categorias possa ser dispensada, ainda que a diferentes níveis. Por volição entendemos o acto mental de um querer. Nessa medida, consideramos que as acções im- plicam volições e nesse pressuposto assumimos a ideia da impossibilidade de agir sem formar uma volição e acompanhamos a tese de que o essencial da acção não está na intenção que possa tê-la precedido e sim no acto men- tal voluntário que preside à realização da acção. Por outro lado, recusamos prescindir do carácter intencional da acção na sua condição de maior com- plexidade, na medida em que entendemos por “intenção de” o acto mental complexo que combina (e diferencia) o acto da volição propriamente dito com um plano em vista da sua satisfação, programando de forma mais ou menos explícita tempos e meios. O exposto anteriormente permite-nos con- cluir, de modo que julgamos pacífico, que as acções não implicam “intenções de”— por isso, a “intenção de” não é essencial à acção. Nesta perspectiva, as “intenções de” têm sempre um componente volitivo, resultando concep- tualmente absurda a ideia de uma intenção desprovida do suporte mental de uma volição.

A análise feita ao exemplo do indivíduo crente (ilusoriamente) da sua capaci- dade de acelerar os próprios batimentos cardíacos pretende que existe uma independência que não é efectiva. Admite-se aí que uma não-acção, assim considerada porque não teve na sua base uma genuína volição, tenha tido uma “intenção de”, subentendendo-se que as “intenções de” não teriam em si mesmas um ingrediente volitivo. Porém, na análise que fazemos do exem-

plo, e de acordo com a compreensão conceptual agora exposta, não há acção porque não houve uma relação causal intencional entre a aceleração car- díaca e a volição apropriada. Se, como pretende o volicionismo, não houve acção na medida em que o coração não bateu mais depressa porque se quis que o coração batesse mais depressa, também podemos dizer que não hou- ve acção na medida em que o coração não bateu mais depressa porque se teve a intenção de que batesse mais depressa. Há, é certo, uma relação cau- sal indirecta, tal como é notado, mas essa relação é extensível à volição e à intenção, do mesmo modo que em ambos os casos não há a relação causal intencional subtendida no uso feito da palavra “porque”.

Assim, embora, segundo os dados neurofisiológicos, o agir e o querer re- levem de subsistemas diferentes, não há agir sem querer e não há, nessa medida, agir que releve do querer sem que parta de uma volição. O inverso já não se verifica: muitas volições não resultam, pelos mais variados facto- res, em acções; e uma vez que as “intenções de” pressupõem volições, a este propósito é válido para elas o que é válido para as volições: muitas “inten- ções de” não se concretizam, pelas mais variadas razões, em acções. A implicação da volição na acção não nos impede de conceder na ideia de que: «A volição não faz referência à acção senão de maneira distante, como eventualidade favorável e não como consequência imediata; ela distingue-se, pois, claramente da formação de um plano de acção e, a fortiori, da passa- gem ao acto.»59 Pelo contrário, a diferenciação conceptual que sugerimos dá

conta, precisamente, desta perspectiva, tendo em conta que as volições, por si só, não determinam nem a planificação nem a execução da acção. Em suma, mantendo a dissociação entre um subsistema automático, respon- sável pela vertente executora da acção, e um subsistema não-automático, respeitante à dimensão conceptual e cognitiva, e tendo em consideração ex- clusivamente esta última, propomos que:

59. Jeannerod, 2009: 142. «La volition ne fait référence à l’action que de manière distante, comme éventualité favorable et non comme conséquence immédiate : elle se distingue donc clairement de la formation d’un plan d’action et, a fortiori, du passage à l’acte.»

i. a volição é condição necessária e no caso de actos simples (que dispensam um plano elaborado) suficiente da acção;

ii. a “intenção de”, não sendo condição necessária, tendo em conta que nem todas as acções são precedidas de uma intenção prévia, é condição suficien- te da acção, uma vez que integra um componente volitivo;

iii. não estando implicada a “intenção de” na volição, mas sim o contrário, no caso de a acção envolver deliberação, a “intenção de” é condição necessária, estando, portanto, implicada na deliberação.

Evidentemente, há que justapor a esta análise o funcionamento do sub- sistema motor para que a acção se realize, no que não temos razões para duvidar da perspectiva actualmente prevalecente e que explorámos ao lon- go do capítulo. Dela diferimos, apenas, na rejeição de uma causalidade entre subsistemas, divergência que cremos resultar de um entendimento fisiológi- co unívoco da causalidade, que a conceptualização filosófica não só permite como obriga a ultrapassar. Assim, julgamos que uma avaliação da nature- za relacional do querer e do agir permite estabelecer uma ligação causal no sentido inicialmente colocado, ou seja, não uma entidade substancial von- tade a intervir directamente nos movimentos, mas a capacidade de querer operando, através de volições, como causa eficiente da acção. Neste aspecto, divergimos da ideia que vimos exposta de a volição acompanhar necessa- riamente a acção enquanto ensaio ou tentativa de obter uma mudança. Na nossa perspectiva, a volição já é a mudança na actualidade mental em vis- ta de uma possível tentativa de acção. Se o sentimento de autoria da acção pressupõe a volição patente na ligação entre o momento de consciência do “eu quero” e o momento de consciência do “fui eu que fiz”, veremos a liga- ção entre o querer e o agir reforçada, precisamente por via das volições, no âmbito da construção da identidade pessoal. A auto-apropriação das ac- ções e a auto-construção identitária revelam-nos uma faculdade de querer plenamente envolvida na definição da vida humana. O tempo narrativo e o processo de validação da acção instauram, assim, a importância da cons- ciência para a acção humana.

EMOÇÕES E SENTIMENTOS