Para atender aos objetivos propostos e verificar as hipóteses levantadas, foi delimitado ao estudo de caso a cidade de Pelotas, localizada no estado do Rio Grande do Sul. A cidade possui sete regiões administrativas: Barragem, Fragata, Três Vendas, Areal, Laranjal, São Gonçalo e Centro. Cada uma destas regiões é subdividida em meso e microrregiões, conforme o III Plano Diretor Municipal. O bairro Porto, foco deste estudo, é uma microrregião do Centro, e seus limites englobam uma área de 747.370,96m2.
Hoje, o bairro localizado às margens do canal São Gonçalo apresenta uma fisionomia urbana e industrial, além de uma paisagem carregada culturalmente. Possui, como ao longo de sua história, uma predominância de uso residencial (Figura 4.1). Formam a paisagem periférica das residências algumas grandes instalações portuárias e fabris, abandonadas e em ruínas (como o antigo prédio da Brahma, por exemplo). Ainda que não apresente construções excepcionais, a área possui valor na ambiência gerada pelo seu espaço urbano e pela soma dos seus
prédios, resultando num contexto ímpar, com significativo valor histórico e arquitetônico.
a) b)
Figura 4.1 | Imagens do bairro Porto.
Prédios residenciais na Rua Almirante Barroso (a) e na Rua Benjamin Constant (b) Fonte: fotos da autora, 2013.
4.1.1 Características arquitetônicas do bairro Porto
Existem diversos estilos arquitetônicos presentes no bairro Porto, oriundos das diferentes etapas de seu desenvolvimento ao londo dos anos. Esta pesquisa sintetizou, de modo geral e conforme a classificação de Schlee (2003, p.144), os estilos arquitetônicos presentes no bairro dividindo-os em três grupos, para fins de levantamento: (i) as edificações remanescentes do Primeiro Período Eclético (de 1850 a 1900), (ii) as provenientes do Segundo Período Eclético até o Primeiro Período Moderno (de 1900 a 1950), e (iii) os prédios do Período Moderno até os construídos nos dias atuais (a partir de 1950). Os principais atributos formais que caracterizam as construções de cada um dos três grupos são apresentados por Schlee (2003) e destacados por Portella (2003, p.91). São os seguintes:
(i) do Período Eclético: platibanda com balaústres, elementos de massa, estatuetas, pinhas, globos, frontões triangulares e curvos (às vezes com a data da construção); pilastras e/ou colunas com fuste liso ou canelado e elementos de ordens clássicas; cornijas, frisos e elementos com motivos florais ou geométricos; mirantes e cúpulas; sacadas de púlpito contínuas ou janelas de sacadas, em geral em ferro fundido; marcos de pedra, de alvenaria lisa ou trabalhada e/ou umbrais imitando pedra; bandeiras sobre portas e janelas; revestimento de argamassa lisa, trabalhada ou cimento penteado; cunhais; gateiras; proporções, simetria e modulação.
(ii) do Segundo Período Eclético até o Primeiro Período Moderno: platibandas cegas, na maioria; planos de fachadas definidos por linhas retas e/ou curvas; saliências e reentrâncias nas fachadas em linhas retas; uso de ferro, principalmente em muros e portões; esquadrias com menor altura e maior largura; redução do pé direito; eliminação do porão, na maioria dos casos.
(iii) do Período Moderno até os dias atuais: ausência de ornamentos; balcões de alvenaria em substituição às sacadas de ferro; lajes sobre as aberturas; planos de fachadas definidos por linhas retas; concreto aparente; aumento da largura das aberturas, que em alguns casos são panos de vidro. As construções pós-modernas, em Pelotas, não apresentam características formais específicas como os demais estilos. Em alguns casos, tendem a refletir traços da Arquitetura Moderna, ou ainda a propor releituras do estilo Eclético, por exemplo. Portanto, em relação a esse estilo, é considerado apenas o período de construção.
Assim como cada época possui sua cultura e estilo arquitetônico, cada estilo possui historicamente uma específica cultura cromática (AGUIAR, 2005, p.317 e NAOUMOVA, 2009, p.206).
4.1.2 Histórico do bairro Porto e área de recorte
Quando em plena atividade, o Porto de Pelotas (Figura 4.2) atraiu para o seu entorno a instalação de indústrias e equipamentos complementares (armazéns e depósitos, por exemplo), que se utilizavam das instalações portuárias.
a) 1912 b) (s. d.)
Figura 4.2 | Porto de Pelotas no início do século XX.
Fonte: a) <www.pelotascultural.blogspot.com.br> acesso em 05/09/2012; b) <http://www.amigosdepelotas.com.br> acesso em 05/08/2013.
O século XIX caracterizou-se por uma série de transformações em todos os setores da sociedade – cultural, territorial, urbano tecnológico, econômico, político e social. No final do século XIX e começo do século XX, com a industrialização aquecida, área do porto assumiu uma importante valorização urbana.
Formaram-se, ao norte da área portuária, núcleos residenciais de baixa renda, característicos do início da formação do proletário urbano (WEINER, 1992 apud POETSCH, 2002, p.99). Na segunda metade do século XX o porto da cidade começa o seu processo de estagnação. Foi o resultado de um processo de decadência econômica que teve início no começo dos anos 30, com a quebra do Banco Pelotense.
Hoje o Porto é uma das Zonas de Preservação do Patrimônio Cultural (ZPPCs) da cidade. Cada ZPPC corresponde à implantação de um dos primeiros loteamentos executados na cidade e o zoneamento foi definido de acordo com o processo de evolução urbana de Pelotas. Este zoneamento tem como objetivo manter a integridade de áreas da cidade com características históricas e culturais significativas para a identidade local. As figuras 4.3 e 4.4 mostram as zonas de preservação e o mapeamento dos imóveis inventariados e com tombamento municipal, estadual e federal. Como principal instrumento legal utilizado pelo poder público municipal para a preservação do patrimônio pelotense tem-se a Lei Municipal n°4568/00.
Figura 4.3 | Zoneamento da cidade segundo Plano Diretor Municipal (acima).
Figura 4.4 | Zonas de preservação e mapeamento dos imóveis inventariados e com tombamento municipal, estadual e federal.
Fonte: Secretaria Municipal da Cultura.
A área de estudo, que compreende grande parte da zona do Porto, está composta por vinte e quatro quadras (e as faces das quadras confrontantes destas) e é delimitada pelas ruas Almirante Barroso, Três de Maio, Dona Mariana e Benjamin Constant (Figura 4.5). A área investigada engloba a parte central do bairro e foi definida a partir das observações realizadas no local. Para tanto, levou-se em consideração as ruas onde havia maior incidência de prédios com relações cromáticas representativas, assim como a presença de prédios históricos de diversos estilos arquitetônicos.
Figura 4.5 | Marcação do bairro Porto e área de recorte. Fonte: da autora.
Legenda: Limites da área de recorte A – Rua Almirante Barroso
B – Rua Três de Maio C – Rua Dona Mariana D – Rua Benjamin Constant