CHAPITRE II: APPROCHES COLLABORATIVES
SECTION 1: EFFICIENT CONSUMER RESPONSE (ECR)
Buscamos, além das teorias da Ciência da Informação, especialmente os estudos de uso e usuários da informação, aporte na Sociologia para debater e justificar a pesquisa da informação entre a população carcerária como objeto de estudo.
No entanto, procuramos utilizar, simultaneamente, sem a pretensão de uma unificação, as abordagens do Sense-Making com a Etnometodologia, traçando um paralelo entre tais referenciais teóricos e identificando pontos convergentes e divergentes.
se da proposta da Etnometodologia: valorizando as interações humanas e seu senso comum como pontos-chave para a construção de sua realidade. Enquanto o Sense-Making pretende vislumbrar as práticas informacionais, a Etnometodologia, abandonando fundamentos básicos da Sociologia como as estruturas e fatos sociais estabelecidos, aponta a construção das normas sociais através das ações cotidianas dos próprios indivíduos.
Optamos neste trabalho pela escolha de uma abordagem de estudo de usuário voltada à subjetividade do mesmo, já que a análise da interação informacional dentro de uma instituição prisional abarca uma realidade complexa, em que se conjugam diferentes práticas informacionais e suas variadas fontes, ultrapassando a delimitação encerrada nos sistemas de informação formais.
A abordagem do Sense-Making foi escolhida por oferecer facilidades metodológicas de se abordar o uso prático da informação por seus usuários individuais, as lacunas e necessidades demandadas, a aquisição direta ou indireta de dados para a formulação de informações, seu uso rotineiro e produção de novas informações.
Outro aspecto atraente foi a aproximação da realidade cotidiana do usuário; o uso do senso comum como fonte de informação para as suas realizações rotineiras; aspecto caro à Etnometodologia.
Com a Etnometodologia buscamos a imersão microssociológica da investigação; o balizamento do que enfocar dentro do grupo abordado; a construção de sua própria realidade objetiva através de uma retroalimentação com seu conhecimento compartilhado, em especial o senso comum.
Utilizamos um viés etnometodológico para demonstrar, então, como em cada um dos domínios sociais os atores-membros valem-se de etnométodos – lógicas e raciocínios específicos aplicados a ambientes, organizações e instituições particulares – para dar sentido à sua existência e às relações que estabelecem entre si. Métodos que, seja no espaço da ciência ou na esfera do senso comum, continuamente embasam novos procedimentos, ou reafirmam as rotinas, criados e mantidos pelos próprios membros.
Aqui está um dos pontos de interseção entre as duas abordagens. A circularidade nos processos de atribuição de sentido e retroalimentação do contexto à subjetividade vai ao encontro de nosso objetivo, que pretende investigar como ambos os processos se operam: a
construção de sentido da informação pelo indivíduo através de uma situação relacionada com um contexto espaço-temporal e, inversamente, como as informações apropriadas são integradas às práticas no etnoespaço social.
Assumimos uma postura etnometodológica nesta dissertação, embora sem a pretensão de nos aprofundarmos em uma investigação desse porte, cujos objetivos pertencem à Sociologia, mas nos utilizaremos de alguns de seus princípios metodológicos para complementar a análise do sense making.
Outra contribuição etnometodológica consiste em sua postura de imparcialidade na pesquisa científica. A Etnometodologia adota o princípio de se suspender, ou “pôr entre parênteses”, todos e quaisquer compromissos com versões privilegiadas da estrutura social, sejam eles adotadas pelo próprio analista ou pelos participantes, em favor de se estudar como os participantes criam, reúnem, produzem e reproduzem tais estruturas para as quais se orientam. Essa chamada “indiferença etnometodológica” é explicada por Heritage:
Na base, ela implica simplesmente o estudo das propriedades sistemáticas do raciocínio prático e da ação prática ao mesmo tempo que a abstenção de juízos que têm o efeito de sancioná- las e solapá-las. Dentro dos “parênteses” as atividades práticas e suas propriedades são examinadas com o menor número possível de pressuposições e da forma mais imparcial possível. (HERITAGE, 1999, p. 332)
A indiferença etnometodológica nos inspira a abordar a construção de sentido informacional pelos apenados de forma aberta, aceitando a visão que eles têm do que seja “informativo”. Através de seus accounts e da acepção dos princípios teóricos do Sense-
Making, de que informação é ativamente construída pelo próprio usuário, e não transmitida,
nos ateremos preponderantemente à visão que os indivíduos-membros participantes da população carcerária possuem sobre a questão informacional e como eles a utilizam.
Como visto anteriormente, a Etnometodologia atém-se aos processos de prática de ação social. Observamos alguns pontos de convergência com a abordagem desenvolvida por Brenda Dervin. Um dos principais pontos em que a Etnometodologia e o Sense-Making coincidem, além de seu caráter qualitativo e muitas vezes de microanálise, seria o questionamento de seus processos, de sua construção, o “como” (how) da questão definida.
buscadas pelo Sense-Making:
Como o indivíduo interpreta e transpõe este momento? [de gap informacional]
Quais estratégias usa para solucionar a situação na qual defrontou-se com a lacuna?
Como interpreta esse problema e as possibilidades de resolvê- lo?
Como se move taticamente para isso? Como reinicia sua jornada?
Essa ênfase ao processo de formulação individual também é característica na Etnometodologia. Garfinkel (1967, p. 1) descreve assim os estudos que inaugurou:
[...] seek to treat practical activities, practical circumstances, and practical sociological reasoning as topics of empirical study, and paying to the most commonplace activities of daily life attention usually accorded extraordinary events, seek to learn about them as phenomena in their own right.8
Brenda Dervin e Michael Nilan (1986, p. 22) apontam que os estudos de sense-
making têm suas raízes no que pode ser chamado de “estudos de necessidade de informação
do dia-a-dia do cidadão” (everyday citizen information need studies) e que nesses estudos, as necessidades de informação são definidas topicamente pela situação e as demais ênfases são centradas no uso da fonte. Essas contribuições primárias foram fundamentais para se desvincular dos limites dos estudos da interseção do sistema até a valoração dos usos da informação.
O uso desse aparato teórico, em paralelo, pode envolver o benefício de se analisar especialmente a dinâmica da linguagem dos indivíduos para a construção de seus próprios enunciados. Assim, não basta identificar os mecanismos de aquisição informacional pela população carcerária encerrada em uma determinada instituição correcional; é preciso o entendimento de como são processadas e manipuladas tais informações para as suas posturas sociais.
8
[...] abordam as atividades práticas, as circunstâncias práticas e o raciocínio sociológico prático como temas de estudo empíricos. Concedendo às atividades corriqueiras da vida cotidiana a mesma atenção que habitualmente se presta aos acontecimentos extraordinários, tentaremos compreendê-los como fenômenos de direito pleno (tradução nossa).
A valorização do estudo linguístico dos membros sociais, com sua indicialidade e reflexividade inerentes ao seu domínio, conforme apontado, vem complementar o referencial teórico sobre construção de sentido, em especial quando pretendemos nos valer de uma metodologia de entrevista direta com os usuários de informação. Buscamos, ainda, de forma qualitativa, registrar, descrever e interpretar o locus social e sua relação com seus membros entrevistados e assistidos.
A análise do senso comum em suas rotinas diárias pôde dar pistas relevantes tanto para a Etnometodologia (estudo dos métodos utilizados pelas pessoas) quanto para o sense–
making (construção de sentido pelas pessoas, através de informações). Especialmente na
Etnometodologia, a atenção volta-se às atividades, ao raciocínio prático dos indivíduos, à construção, interpretação, justificativa e transformação de suas próprias realidades cotidianas.
Procuramos identificar como é investigada no método documental interpretativo de Garfinkel a tese de que há um padrão observável nos processos de construção de sentido em um determinado grupo social que compartilha determinada situação. Isolando os aspectos subjetivos individuais e idiossincráticos dos apenados enquanto usuários de informação, empreendemos a análise de padrões comportamentais na busca de dados para a construção de sentido informacional para a população em foco.