1.3 Conclusion
2.1.1 Echelle microscopique : modélisation des fils
Até aos dias de hoje, o livro impresso foi o natural sucessor do manuscrito. No
entanto, “[c]om o ecrã, substituto do códex, a transformação é mais radical, visto que são
os modos de organização, de estruturação, de consulta do suporte da escrita que estão
alterados” (CHARTIER, 1997: 136), pois o ecrã de um computador “não possibilita a
sensação do toque, do manuseio, como o livro tradicional” (PAULINO, 2009: 7). Como é
de conhecimento geral, “no mundo digital, todos os textos são dados a ler num mesmo
suporte: o ecrã de um computador” (FURTADO, 2004: 27) ou de um aparelho a ele
semelhante.
É certo que
“ler num ecrã não é o mesmo que ler um livro; as pragmáticas da leitura (para usar uma expressão de Nicholas Burbules), isto é, a velocidade da leitura, o momento das pausas, a duração da concentração, a frequência com que saltamos texto ou voltamos atrás para reler, etc. vão ser diferentes, e essas diferenças vão ter efeitos no modo como compreendemos e recordamos o que lemos” (FURTADO, 2002).
Denise Braga também aponta algumas desvantagens relacionadas com a leitura em
ecrã ao afirmar que este
“’imaterializa’ o texto e o leitor deixa de ter a noção do todo e algumas orientações visuais importantes , como páginas, por exemplo, que podem auxiliar o leitor durante a leitura de textos impressos. Além disso, resolução atual de tela é pouco confortável para o processo de recepção, uma vez que demanda movimentos oculares mais amplos, que diminuem a velocidade de leitura. Essas dificuldades são acentuadas pelo cansaço visual gerado pelo brilho da tela e pelo desconforto da posição fixa para a leitura.” (BRAGA, s.d: 2)
Segundo Maria Augusta Babo, “a digitalização da escrita toca dois polos extremos:
por um lado a fixação mais durável do texto, por outro a produção textual mais efémera”
(BABO, 2001: 6). A autora pretende sublinhar a ideia de que a digitalização da escrita
permitirá que esta perdure mais tempo em relação aos manuscritos, que se deterioram com
maior facilidade ao longo do tempo. No entanto, a produção textual torna-se efémera,
porque não possui um suporte físico (ao contrário da folha de papel) e está em permanente
mutação. Esta situação põe também em causa o conceito de autoria, pois qualquer pessoa
A Revista Atlântico – Revista de Temas Culturais (1985-1989): do suporte impresso ao digital –
Construção de uma Base de Dados Bibliográfica – Cláudia Cristina Ponte Santos 20
pode copiar e colocar conteúdos não elaborados por si em rede e acrescentar informação
em qualquer texto, a não ser que este esteja protegido contra adulterações por parte dos
utilizadores.
Este facto “levanta questões importantes, como as da permanência,
estabilidade e perenidade dos documentos em meio digital” (FURTADO, 2006:70).
No livro impresso, o leitor, caso quisesse fazer pequenas anotações, só poderia
utilizar “os lugares do livro
abandonados pela escrita: interiores da encadernação, folhas
deixadas em branco, margens do texto, etc.” Com o texto eletrónico, pelo contrário, o leitor
pode acrescentar-lhe um índice, anotá-lo, copiá-lo, dividi-lo, recompô-lo, desloca-lo, etc.
(CHARTIER, 1997: 147). Ao contrário do texto impresso, o computador permite conservar
uma enorme quantidade de dados na sua memória e processa-os com grande precisão e
rapidez (BARBOSA, 1996: 34). Atualmente, programas potentes “são capazes de ‘caçar’
automaticamente informações e textos em centenas de bases de dados e bibliotecas
dispersas no ciberespaço” (LEVY, 2000: 108). Assim, “qualquer leitor, onde quer que se
encontre, desde que seja à frente de um aparelho de leitura conectado à rede que garante a
distribuição dos documentos informatizados, poderá consultar, ler, estudar qualquer texto,
independentemente da sua localização original” (CHARTIER, 1997: 150).
O suporte digital introduz uma diferença fundamental em relação aos hipertextos
antes da era informática, pois a procura de informação a partir dos índices, a utilização de
instrumentos de orientação no corpo textual, a passagem de um nó ou ligação de uns para
outros faz-se com uma grande rapidez. Este meio permite mesmo associar perfeitamente
sons, imagens e textos (LEVY, 2000: 61). Este suporte tem algumas vantagens, sendo uma
delas o facto de “a sua capacidade de memória ser muito grande e, portanto, proporcionar o
transporte e a consulta de verdadeiras bibliotecas – que, na sua forma física, seriam
impossíveis de deslocar com tal facilidade” (FERNANDES, 2003: 170). Os novos
dispositivos eletrónicos (computador pessoal, tablets, telefones móveis, etc.), devido à sua
grande capacidade de memória, permitem armazenar e transportar uma grande quantidade
de livros, o que seria impossível na forma impressa.
A Revista Atlântico – Revista de Temas Culturais (1985-1989): do suporte impresso ao digital –
Construção de uma Base de Dados Bibliográfica – Cláudia Cristina Ponte Santos 21
Ao digitalizar-se um documento, obtém-se uma imagem idêntica ao original; esta
imagem pode, ainda, ser editada para correção de problemas que possam ser prejudicais
para a leitura do documento (manchas na página digitalizada, tinta desbotada, falta de
contraste no texto,
etc.) e “aplicar recursos que possibilitem representar algumas
características físicas da obra, aproximando ainda mais a imagem virtual do original
impresso” (NARDINO, 2004: 54).
Ambas, a edição eletrónica e a edição impressa, possuem as suas vantagens e
desvantagens: por um lado, a edição eletrónica exige um suporte de hardware e um
software sem os quais não é possível ter acesso à informação (FURTADO, 2002), assim
como é necessária uma fonte de energia para alimentar esse dispositivo, caso contrário a
leitura não é possível; por outro lado, o “livro impresso sempre teve a vantagem de não
exigir qualquer dispositivo técnico para ser lido, de ser imediatamente visível, e
consultável e de ser fácil de emprestar” (FURTADO, 2007: 75); este possui, também,
“uma apresentação com elevado contraste, é leve, fácil de folhear e não é muito caro. Mas
fazê-lo chegar a si inclui transporte e armazenamento. Pior, um livro pode esgotar-se. Os
livros digitais nunca se esgotam. Estão sempre aí.” (NEGROPONTE, 1996: 21).
Em relação a estas diferenças, Nicholas Negroponte afirma que
“num livro impresso, as frases, os parágrafos, as páginas e os capítulos seguem-se uns aos outros segundo uma ordem determinada não só pelo autor como também pela estrutura física e sequencial do próprio livro. Se bem que um livro possa ser consultado de forma aleatória e os nossos olhos possam percorrer as páginas ao acaso, tem contudo limites fixados para todo o sempre pelas três dimensões físicas. No mundo digital não é este o caso. O espaço da informação não está de modo nenhum limitado às três dimensões. Uma expressão de uma ideia ou uma sequência de pensamento pode incluir uma rede multidimensional de apontadores (pointers) que encaminham para pormenorizações e argumentos adicionais, os quais podem ser invocados ou ignorados. Pode-se reordenar pedaços de informação, ampliar frases e pedir a definição de palavras. Estas ligações podem ser efetuadas tanto pelo autor na altura de “publicação” como mais tarde pelos utilizadores” (NEGROPONTE, 1996: 78).
Apesar de o hipertexto permitir manipular a informação disponível em rede, esta
manipulação não é possível na sua totalidade na medida em que a maioria das páginas Web
apenas podem ser alteradas pelo administrador das mesmas. No entanto, isto é possível nas
A Revista Atlântico – Revista de Temas Culturais (1985-1989): do suporte impresso ao digital –
Construção de uma Base de Dados Bibliográfica – Cláudia Cristina Ponte Santos 22
páginas da Wikipédia
. Para além da Wikipedia, todas as outras páginas Web permitem um
baixo grau de interferência por parte dos internautas, pois
“o usuário fica limitado a escolher entre uma quantidade de links e a simplesmente navegar por entre este mar de opções, porém incluir novos rumos, ou seja, novos links, isto não lhe é facultado. Por isso, não é possível considerar a prática hipertextual da Internet de hoje como efetivamente interativa, já que o usuário da Rede não interage totalmente nas páginas, porque não possui total liberdade e flexibilidade de se manifestar” (AQUINO, 2006: 7).
Deve ter-se em conta que quanto mais pessoas “utilizarem o hipertexto, podendo
modificar seu conteúdo e incluir novos links, mais ricas de informação serão as páginas”
(AQUINO, 2006: 8).
Como foi afirmado anteriormente, é muito difícil, senão impossível, controlar os
conteúdos que são colocados em rede. Muitos cibernautas comportam-se “perante a
informação em rede como se esta fosse de natureza autêntica e exata”, o que não é uma
realidade rigorosa ou generalizável. Além disso, “uma pesquisa Web pode apresentar
milhares ou mesmo milhões de resultados” que não estão diretamente relacionados com o
tópico em estudo e que não são originados por fontes fidedignas. Este facto deve-se à
“velocidade do seu crescimento e taxa de dispersão com que a informação circula no seu
interior” (FURTADO, 2006: 68); ou seja, o cibernauta “perde-se” neste mar de informação
disponível em rede, não encontrando, muitas vezes, o caminho que procura. Assim, o leitor
“tem de saber optar por percursos no metatexto, servir-se de textos já disponíveis e saber
criar ligações entre documentos multimodais” (FURTADO, 2006: 70).
6 Esta página foi criada em 1995 por Ward Cunningham e permite que qualquer usuário da Internet possa
alterar/editar o conteúdo das páginas que funcionam dentro desse sistema: “As páginas wiki podem ser alteradas sem a prévia autorização do autor da página, o que acaba fazendo com que todos sejam autores e que o texto nunca tenha uma versão definitiva, mas que fique em constante modificação.” Qualquer pessoa pode criar novos dados, incluir e/ou excluir links tanto para dentro como para fora da Wikipédia (AQUINO, 2006: 11).
A Revista Atlântico – Revista de Temas Culturais (1985-1989): do suporte impresso ao digital –
Construção de uma Base de Dados Bibliográfica – Cláudia Cristina Ponte Santos 23