Lexique et instances énonciatives
I- 3-La double instance « Amer/Marie » et la quête de soi
Historiar uma instituição educativa tomada na sua pluridimensionalidade, não significa laudatoriamente descrevê-la, mas explicá-la e integrá-la em uma realidade mais ampla, que é o seu próprio sistema educativo.
CAPÍTULO II
A ESCOLA NORMAL E SEUS MATERIAIS ESCOLARES
2.1. Cadernos Escolares e sua Significação
Ao construir a investigação sobre a cultura escolar, é importante situar neste contexto o caderno escolar usando a música de “Toquinho”, revelando a estreita ligação deste material e as lembranças da escola:
Sou eu que vou seguir
Do primeiro rabisco até o bê-a-bá Em todos os seus desenhos vou estar A casa
A montanha
Duas nuvens no céu E um sol a sorrir no papel Sou eu que vou lhe dar abrigo Se você quiser a vida se abrirá Num feroz carrossel
E você vai rasgar meu papel... Só peço a você se puder
Não me esqueça num canto qualquer...
A música de Toquinho levou-me a refletir sobre o privilégio deste reencontro, pois hoje poucos são os que podem ainda curtir a lembrança do seu primeiro caderno.
Isa Cristina Rocha Lopes (2006, p. 1) aborda o caderno como um documento integrante da narrativa da história da escola e suporte da escrita, portador de um sistema lingüístico e cultural. Maria Cecília Cortez (2000, p. 52) esclarece-nos que é preciso incorporar à análise histórica a idéia de que para compreender o que a escola realizou em seu passado, não é suficiente estudar idéias e discursos, programas, papéis sociais nela desempenhados, suas práticas e métodos de trabalho; torna-se necessário também tentar compreender a maneira que o professor e alunos
reconstruíram sua experiência, constituíram relações, estratégias, significações que os levaram a construírem-se como sujeitos históricos.
Com a intenção de analisar e historicizar as informações contidas nos cadernos escolares, nos diários, revistas de ensino e jornais da Escola Normal, como e onde se postulam, nas suas marcas identitárias, a estreita veiculação com os personagens que se interagem com eles, professores e alunos, é que se construiu o corpus do segundo capítulo.
Veiga, Gouveia e Faria Filho (2001, p. 212), ao analisarem estes sujeitos escolares e seu fazer cotidiano, agindo em terrenos delimitados por outros e minados de incertezas, esclarecem:
Compreendê-los como componentes de uma cultura escolar quer enfatizar a idéia de que os sujeitos escolares, alunos, professores sobretudo, não apenas põem em funcionamento uma instituição ou uma cultura definidas sem sua presença, mas que, pelo contrário, professores e alunos participam ativamente na construção da escola e da cultura escolar e de si mesmos como sujeitos sociais.
Buscar-se-á, ao analisar estes materiais de ensino, considerá-los como um quadro de referência do passado e que constituem, através de sua materialidade, o testemunho de uma época, como representação da educação escolarizada e suas práticas educativas, vivenciadas no cotidiano escolar daquela Instituição de Ensino, produzidas nos diferentes momentos históricos em que se constituíram os saberes escolares.
Cada época histórica e cada sociedade expressam usos e funções da escrita, como um instrumento de comunicação de idéia e pensamento, constituindo-se como um espaço de criação da memória docente e da identidade profissional.
Far-se-á uma análise comparativa para descobertas de padrões comuns entre várias gerações, como também para inserir esta problemática na História da Educação.
Para Hébrard (1998, pp. 7-58), não se permitiu estabelecer uma verdadeira história do caderno escolar; que alicerça o trabalho de alfabetização, tendo se expandido no primeiro terço do século XIX. Afirma ainda que este foi um instrumento comum desde o século XV nos colégios, o “livro branco” como era designado na Ratio Studiorum, nas escolas da reforma protestante e da contra-reforma. O termo “livro branco” vem do material escolar que, além do texto impresso, tinha espaços em branco para que o aluno pudesse anotar as explicações.
Na Escola Normal também o caderno tornou-se um instrumento comum a todos os alunos, pois através dele registravam-se conceitos, copiavam as lições, efetuavam-se exercícios, registrava-se o conteúdo a ser transmitido, fazendo o aluno interagir com estes, produzindo também seus próprios significados.
Apesar do caderno escolar se destacar como valor incontestável de perpetuação e transformação de determinada cultura escolar, pois está voltado para a vida interna de cada instituição de ensino, não houve zelo quanto à sua preservação, pois poucas pessoas os mantiveram como forma de lembrança para revelar as práticas educativas da época.
O caderno é de relevante importância, tanto pela inserção no sistema escolar, dos sujeitos envolvidos no processo educativo, como pela investigação do que se passa no interior das escolas, trazendo um conhecimento mais profundo deste espaço e do processo ensino-aprendizagem.
Ainda constituindo como mediador da aprendizagem, e vestígio integrante do contexto histórico, o caderno escolar, por registrar o trabalho escrito, tornou-se testemunho valioso do tempo escolar e portador de memórias coletivas e individuais produzidas no cotidiano da escola.
Através dos cadernos escolares os professores comunicavam suas expectativas com os pais, expressavam elogios aos alunos como Parabéns! Ótimo! Visto! fazendo entender que as atividades foram vistas, como também alertavam sobre a necessidade de atenção, para a caligrafia com a expressões : MELHORAR A LETRA!, ou para reforçar o hábito do estudo como: ESTUDE MAIS! O caderno não só ofereceu um suporte cultural como também conferiu sua significação pedagógico- educativa como preocupação com a limpeza, capas de cores variadas, determinando as funções reservadas a cada disciplina como: Caderno de Deveres de Casa, Caderno de Redação, de Matemática, de Língua Portuguesa, de Caligrafia.
Hébrard ( 1998, p. 121) considera o caderno tanto pela sua inserção na história da escola quanto pela preservação e conservação de qual é objeto, e certamente testemunho precioso do que pode ter sido o trabalho escolar da escrita.
Privilegiando-se do pensamento de Hébrard, a ex-aluna e professora Leyde Moraes conserva os cadernos pessoais, de aluna do antigo curso primário, do ano de 1932, 1933, do curso normal, como também os cadernos de sua irmã Déa e os primeiros cadernos de seus filhos. Através deles, pôde apresentar não só a trajetória escolar, como os contextos pedagógicos em que estavam inseridos, como o que pode ter sido o trabalho escolar da escrita. Os cadernos podem representar a escrita
como um instrumento de comunicação de idéia e de pensamento constituindo-se como um espaço de criação da memória docente e da identidade profissional.