Em muitos de seus escritos, João de Deus alude à sua preocupação quanto aos efeitos da leitura, quanto à necessidade da leitura, quanto às intersecções entre cultura, civilização e leitura; essa leitura que vinha pelos trilhos do caminho de ferro... Havia, naquele último quartel do século XIX reconhecida relação entre a prosperidade material e o âmbito do desenvolvimento das letras. Era como se a nova civilização que estava por vir exigisse a forma escolar como seu modelo básico. Por ser assim, o ler e escrever passam a ser apreendidos como armas competitivas, instrumentos de cuja posse dependeria o progresso das nações. A humanidade, no atual estágio por que passava, exigia o signo da escrita como condição imprescindível para seu desenvolvimento. O saber ler era, pois, condição de dignificação humana; aquilo que metodologicamente atribuía a distinção do homem cultivado. Na trilha da herança dos revolucionários franceses - fossem os homens de 1789, fossem os homens da Comuna - havia uma necessidade de formação da opinião esclarecida, de consolidação de um espírito público, capaz de trazer dividendos ao país instruído.341 E esse projeto de formatação de uma subjetividade coletiva esclarecida e autônoma passava pela escola. No percurso da espécie, teria há muito findado o tempo da oralidade:
“Como condição de dignidade humana, diremos que o homem que não sabe ler é um bárbaro. Ele fala aos que o ouvem, e ouve os que lhe falam; mas aí se fecham as atribuições de sua inteligência. É o selvagem da horda; o membro primitivo da família errante ou solitária - não o membro de uma sociedade muitas vezes cortada por mares e continentes; não o membro da humanidade, em comunhão moral com ela, progredindo e desenvolvendo-se pela circulação das idéias; mas girando sobre si mesmo no círculo vicioso das espécies estacionárias, como um ente sem fala, um ente mudo, sem o divino caráter da palavra. Porque a palavra é não só o característico da espécie humana, mas a sua essência: sem ela todos morreríamos com as nossas próprias observações e experiências, ninguém poderia acumular conhecimentos alheios e o último homem saberia tanto como o primeiro: a espécie humana não existiria: porque não existiria a espécie que acumula e progride. Mas a palavra falada é como a iniciação da humanidade; a palavra que se apaga à flor dos lábios não tem ainda o caráter de divindade; é só, fixando-a pela escrita e multiplicando-a pela imprensa, que ela assume os foros da universalidade e da imortalidade. O ente que fala essa linguagem é realmente feito à imagem e semelhança de Deus.”342
A sacralização da atividade da leitura vem acoplada a uma percepção evolutiva da humanidade: a leitura decorre da palavra divina, aproxima o homem de seu Criador e favorece a partilha, a socialização e a circulação das idéias. Na acepção evolutiva desse modelo interpretativo, prosperariam os povos que melhor se fizessem capazes de aproveitar dos benefícios trazidos pela distribuição da palavra escrita. A civilização, por tal dispositivo,
341 Nessa medida, os próprios ventos progressistas que teriam caracterizado Portugal dos anos 70 solicitavam,
como requisito para o desenvolvimento nacional, a preparação cuidadosa de uma opinião pública verdadeiramente esclarecida. Só assim seria possível efetuar as desejadas mudanças, prescindindo da dolorosa via da revolução. Fomar para a democracia era o que afirmavam desejar os arautos da nova pedagogia, particularmente João de Deus: “Há uma necessidade primitiva, fundamental, essencial nas sociedades políticas,
que é a de saberem ler todos os cidadãos, sob pena de que, seja qual for a forma de governo, esse não terá por base, falando rigorosamente, a opinião, nem, por consequência, o direito. Só há opinião pública quando há povo que opine: ora, quando sabe ler, de cada mil, um, a opinião pública é frase vazia de sentido. Os nossos jornais correm um estreito círculo; o conhecimento dos negócios públicos é privilégio de alguns poucos milhares de indivíduos; e entre quatro milhões de habitantes, quando apenas quatro mil, isto é, a milésima parte, dá razão aos negócios comuns, confessemos que falar em maiorias e em opinião pública, é para sorrir-se o homem reflexivo”( JOÃO DE DEUS, ,Cartas sobre o método de leitura, In: Prosas, p. 249-250).
149 acumula memória e sai vitoriosa do embate contra o obscurantismo popular. Transformar o povo era tarefa urgente... O ensino da leitura seria visto, por tal dimensão, como um projeto civilizatório, passível de se colocar ao alcance das camadas majoritárias da população. Espraiar a atitude leitora era o objetivo maior de João de Deus. Na verdade, tratava-se do empreendimento de esforço no sentido de trazer eficácia à instrução portuguesa, naquela escola que era, entretanto, rejeitada por seus usuários, como uma instituição incapaz de fazer cumprir o que promete.
Sucede que abordar analítica e historicamente o método de João de Deus é uma atitude intelectual que deve ser acompanhada da observação sobre o modo mediante o qual o poeta orientava os educadores da época para lidarem com as predisposições mentais e emocionais dos estudantes. Em virtude da maneira dogmática e constritiva mediante a qual a escola estivera, desde remotas épocas, estruturada, o aluno que não era capaz de aprender, de modo geral, era um estudante espiritualmente bloqueado para o aprendizado. O aluno deveria ser, portanto, estimulado, motivado, a partir do entusiasmo com que o mestre lhe devolveria a auto-estima que ficara alhures perdida. O processo de aprendizado suporia pois, como condição primordial que o estudante acreditasse nele mesmo. Talvez nem o próprio João de Deus tivesse consciência dessa sua estratégia, mas indubitavelmente ela agia como uma profecia auto-realizadora. Convencia-se o aluno de que sua dificuldade de aprender não era ocasionada por sua incapacidade, mas pela ineficácia da ação escolar; dizia-se a ele que, em função disso, tentar-se-ia usar método diferenciado dos procedimentos tradicionais já experimentados pelo mesmo aluno; este passaria então a acreditar na possibilidade da mudança e na ocorrência efetiva do aprendizado; aberto para aprender, o jovem aprenderia... E assim, criava-se um ciclo de estímulo, autoconfiança e sucesso escolar. João de Deus parecia firmemente acreditar na possibilidade de transformação da escola. Talvez por isso tenha sido bem-sucedido com seu método. Talvez por isso, tenha sido tão cultuado a seu tempo...Ora, ocorre que o mestre deveria, acima de tudo, ser capaz de apreender os mecanismos lógicos utilizados pelo aluno no percurso da aprendizagem. A arte da educação supunha, antes de qualquer coisa, uma linguagem comum. Cabia ao mestre decodificar a linguagem do estudante e ser capaz de torná-la mais complexa, aproximando-a da outra linguagem, a linguagem culta, a linguagem da escola, a linguagem socialmente recomendada. A arte do magistério exigiria ser pois estudada, como se de uma ciência se tratasse:
“A arte da leitura é hoje uma ciência culta, um sistema, uma unidade lógica: todas as suas partes jogam entre si, e têm uma filosofia. O mestre deixou de ser um autômato que repetia ba, be, bi, bó, bu, a ser um intérprete, um explicador. Não conta com o grande auxiliar do tempo, que até gasta os mármores, nem ainda com o empenho do aluno. Conta consigo, com a arte, com a natural e irresistível simpatia da racionalidade do aluno, com a racionalidade do Método. Pode o discípulo não estudar, mas se prestou atenção, se ouviu, aprendeu a ler. Não há cabeças de burro. As cabeças de burro passaram das crianças para os homens, dos discípulos para os mestres. Ler é essencial a todos. Onde há um analfabeto, não há civilização. Mas se ler é essencial a todos, está ao alcance de todos. O gênio e o idiotismo são duas monstruosidades, raras de sua natureza. Pelo nosso método não se ensina o idiota; mas em paga o gênio aprenderia no tempo necessário para percorrer a cartilha. Na imensa distância do gênio ao idiota está a humanidade, está o povo português: este, se dentro em pouco ainda for analfabeto, é porque quer.”343
343 JOÃO DE DEUS, Cartas sobre o método de leitura, In: Prosas, p. 261-2. João de Deus pretende ter
encontrado o segredo da didática do ensino da leitura. Declara-se sempre convencido de que todos os seres humanos são capazes de aprender a ler; como se estivesse polemizando com pessoas que naquela altura entendiam como natural que determinadas pessoas, ou mesmo determinadas camadas da população, não se julgassem aptas para almejar a aprendizado dos códigos escritos.
150 João de Deus, preocupado em ensinar os professores sobre sua arte, partia do pressuposto de que eles em geral não sabiam o que faziam, agindo por aproximações, por induções, mas sem um método claramente definido. António Gomes Ferreira relata a carência de método como uma concreta característica do ensino português no século XVIII.344 Os professores, também no XIX, praticamente desconheciam as matérias que ensinavam. Tampouco compreendiam a fisiologia e a psicologia de seus alunos. O magistério era ainda um fazer profissional, que se praticava, sem qualquer dimensão teórica. O trabalho de João de Deus evidentemente sofreu essa dificuldade. Nem sempre os professores compreendiam o que lhes era proposto. À luz dessa realidade é que a Cartilha Maternal passará a ser julgada, e muitas vezes criticada.
Ao procurar se contrapor ao método de João de Deus, Francisco do Amaral Cirne Jr., tanto no relatório apresentado ao Comissário de Estudos do Distrito do Porto, sob o título
Exame da Cartilha Maternal (1879), quanto em sua obra Resumo da História da Pedagogia (1881), atenta para o fato de seu autor não haver conseguido e nem haver sequer
acreditado no ensino da leitura e da escrita simultaneamente, como processos concomitantes. Esta seria, no parecer daquele crítico, uma das maiores falhas do método. Embora condenando, como vimos, as práticas escolares presas por práticas arcaicas de soletração e de silabação, João de Deus - mesmo assim - entendia que a leitura era processo cognitivo do qual dependia a posterior prontidão para a escrita.345 Anteriormente, porém, entre as décadas de 40 e 50, Caldas Aulete publicava sua Cartilha Nacional, que se teria constituído na primeira tentativa em língua portuguesa de articular de maneira simultânea o ensino da leitura e da escrita sem haver precedência de um sobre o outro. Embora Cirne Jr. julgasse que até mesmo a cartilha de Caldas Aulete apresentasse problemas metodológicos, a despeito da larga utilização que teria conseguido nas escolas, o crítico reconhece que seu autor soubera decifrar o nó górdio do ensino português, ao propugnar um modelo simultâneo para o aprendizado dos saberes da escola primária.346 Em seu parecer, a cartilha de João de Deus provocara, em certo
344
“Em geral, os mestres de ler, escrever e contar sabiam pouco sobre o que ensinavam e menos ainda sobre
como o deviam fazer. Sem método, alguns terão perdido o controlo da aula ou permitido uma relação demasiado permissiva, situação que não podia deixar de desagradar às populações e às autoridades, mas a maioria parece ter assumido ar grave e austero que ajudava a impor o respeito e manter a disciplina, o que estava mais de acordo com a mentalidade da época. Todavia, manter todos os alunos em silêncio e a trabalhar entregues a si mesmos ou a outros mais adiantados, enquanto se atendia uma criança de cada vez, dificilmente seria conseguido sem se recorrer a castigos. Então, se o grupo dos meninos que o mestre tinha sob a sua responsabilidade era não só muito numeroso como muito diversificado, tanto quanto a idades como a saberes e, ainda por cima, dados a travessuras ou a desmandos, que os mais velhos ardilosamente provocariam, o mais provável seria que ele se exasperasse com alguma frequência, punindo sem critério e com violência desmesurada todos aqueles que lhe pareciam estar envolvidos nas perturbações.” (António Gomes FERREIRA,
A criança no Portugal do setecentos: contributo para o estudo da evolução dos cuidados e das atitudes para com a infância, p. 381-2).
345 Leia-se o que o autor publica em suas Cartas sobre o método de Leitura: “O caminho mais curto e agradável para dois pontos diversos não pode ser o mesmo. Pode a arte de ler ser a arte de falar: mas a arte de ler ser a arte de escrever, ou a arte de escrever ser a arte de ler, arte verdadeira, método, não pode ser. Nesse paralelismo a razão há de ser sacrificada alternativamente.” (JOÃO DE DEUS, Cartas sobre o método de
leitura, In: Prosas, p. 293).
346 “Caldas Aulete não se contenta em associar a escrita à leitura; junta-lhe também o cálculo e o desenho. Não padece dúvida que os exercícios de desenho se ligam com grande proveito ao ensino de ler. Não são, porém, exercícios especiais o que agora se requer, mas tão somente alguns exercícios, embora grosseiros, sobre o desenho dos objetos significados pelas palavras que servem à leitura. Quanto à pretensão a associar o contar com a leitura, diremos sem tergiversações que temos por quimérico o intento. Isto não quer dizer que não há-de ensinar-se o cálculo enquanto se ensina a ler, o que seria absurdo, pois é indispensável promover o desenvolvimento harmônico de todas as faculdades do espírito. Apesar dos defeitos apontados, a Cartilha
Nacional, introduzindo o ensino simultâneo da leitura e escrita, prestou à pedagogia portuguesa serviços
meritórios, que ninguém contestará razoavelmente” (F. A do Amaral CIRNE JR.., Resumo da história da
pedagogia, p. 147-148). Percebe-se, por esse excerto, o quanto o crítico parecia cioso quanto à necessidade de
conformação de um modelo escolar, criteriosamente dividido por espaços e por temporalidades curriculares, que, simultânea e reciprocamente, fossem capazes de entre si se complementar.
151 sentido, uma volta atrás, apesar de toda a louvação que lhe era feita, e que Cirne Jr. atribui à completa ausência em Portugal de uma ciência pedagógica à altura do século.347
No texto em que examina a cartilha de João de Deus, Cirne Jr. conclama os leitores à prudência diante de novidades, declarando que o entusiasmo nunca deverá ser o primeiro alicerce da atitude de investigação e de crítica. Todo o debate posto em torno do método Castilho não teria sido suficiente - argumenta Cirne Jr. - para impedi-lo de cair por terra e ser submetido ao mais completo esquecimento. De maneira análoga, o crítico previa a redução gradativa do entusiasmo gerado pela Cartilha Maternal, e explica: na verdade, os métodos só se fariam capazes de resistir ao crivo do tempo quando se mostrassem capazes de ser manuseados pelo professor no cotidiano da sala de aula.
“E por um desses saltos mortais que não são tão raros como poderia parecer, declarou-se para logo regenerada a instrução popular, como se nas escolas tudo se cifrasse em ler e como se, aplanadas as escabrosidades do ensino do ler, pudessem ser aplicados aos outros ramos da instrução primária - instrumental e real - os processos empregados no aprendizado da leitura! (...) Desde que os homens do mister se calam, é natural que surjam as opiniões mais aventurosas, as quais, não encontrando periódicos da especialidade que lhe corrijam as demasias, passam a ser aceites de todos os que, por negligência ou falta de instrução na matéria, aderem à primeira opinião que apareça. Mas é bem de ver que tais opiniões, sem base sólida em que se fundem, não conseguem granjear amigos perduráveis, não conseguem radicar-se; a agitação é tão só superficial, aparente, e passado o momento crítico do entusiasmo, voltam as coisas quase ao estado anterior, ficando, por assim dizer, apagados os vestígios dum movimento assaz ruidoso. Na história contemporânea do ensino primário em Portugal, avultam e destacam-se principalmente dois fatos característicos que confirmam plenamente este modo de ver. Refiro-me ao Ensino Mútuo e ao Método Português do Snr. Castilho. Que resta d’um e d’outro ?” 348
Haveria, nesse sentido, uma tendência, por assim dizer, compreensível e quase natural, de se empregar a metodologia já conhecida, sobre cujo domínio e eficácia não pairassem quaisquer dúvidas; enfim aquilo que, posto à prova do tempo, deu certo. O método novo, descrito apenas nos livros, era, em geral, visto com reticência e desconfiança por parte dos protagonistas da educação: os professores, que hesitavam para pô-lo em prática. Pelas palavras de Cirne Jr., explicita-se a relutância quanto àquilo que é apenas projeto impresso nas teoria : “Com efeito, um método só será eficazmente implantado numa escola quando teórica e praticamente for bem familiar ao professor. Prefere-se o método que melhor se conhece porque é aquele com que melhor nos ajeitamos.”349
A lógica que presidia a aceitação e o otimismo para com o método de João de Deus estaria posta na carência de reformas efetivas capazes de aprimorar o ensino português. Mesmo a imprensa periódica, em função da proverbial pobreza de idéias e de notícias sobre educação, cobrira o tema de modo superficial, até porque havia reconhecida incapacidade técnica de avaliação da matéria. Nessa trilha,
347 “A importância realmente injustificável atribuída à Cartilha Maternal, em que muitos viam a regeneração da instrução primária, a carta de alforria do povo português e talvez uma panacéia para os mais variados males de nosso país, só pode explicar-se pela ignorância, entre nós, quase geral da ciência pedagógica. A carência de habilitações no magistério primário é proverbial, a imprensa pedagógica falece totalmente, o país ainda está reduzido no ano corrente a duas escolas normais com uma organização mesquinha e absurda: em tamanha miséria não admira que a opinião se desnorteasse sobre o alcance do novo método. O Sr. João de Deus não encarou a educação e instrução debaixo de um ponto de vista geral e superior, como fizeram Comenius, Pestalozzi e Froebel, mas apresentou-se apenas como reformador do ensino da leitura (...)” ( F. A. do Amaral
CIRNE JR. , Resumo da história da pedagogia, p. 151).
348 Francisco do Amaral CIRNE JR., Exame da Cartilha Maternal: relatório apresentado ao Exmo Snr
Comissário d’Estudos do Distrito do Porto, p. 6.
349
Francisco do Amaral CIRNE JR. , Exame da Cartilha Maternal: relatório apresentados ao Exmo snr
152 afirma-se que, de tudo o que se teria escrito à época acerca da Cartilha Maternal de João de Deus, a grande ênfase e realce eram colocados na dimensão da suposta brevidade do método, o que por si contrastaria com a lentidão e a inoperância da escola primária portuguesa naqueles tempos. Cirne Jr, desqualificando completamente os entusiastas do método de João de Deus, refere-se a eles como “pedagogos improvisados”: “Publicam-se anúncios pomposos, promete-se aos pais rapidez assombrosa, chegando a afiançar-se que bastam quinze lições para uma criança aprender a ler corretamente.”350
A Cartilha Maternal, no parecer do crítico, havia apenas reordenado o modo com que se dispunha o alfabeto, mas não representava - no parecer daquele opositor - um avanço significativo, até porque se mantinha, disfarçado, o aprendizado tradicional e os procedimentos sintéticos de alfabetização. Acerca da polêmica pedagógica que há alguns anos assolava o país, Cirne Jr. procura desvendar a prática efetivamente instituída nas escolas primárias:
“Com efeito, o método de leitura que predominava (e porventura ainda predomina na maioria das escolas rurais portuguesas) era o método alfabético ou de soletração antiga, caracterizado pelo estudo simultâneo de todas as letras. Este método foi gradualmente caindo em descrédito e surgiram novos métodos de leitura, mirando a remediar os defeitos dele. Vieram os métodos de soletração moderna e de silabação que, pela rejeição da velha nomenclatura das letras e por uma graduação mais ou menos racional, levaram este ramo de ensino ao estado em que presentemente se encontra. Foi o Sr. Castilho quem rompeu o combate contra os velhos processos de leitura e por tal forma se houve que conquistou ilustre nome da história do ensino popular. O Método Português não só ensinava o alfabeto por partes mas enjeitava a ordem alfabética (...) O método do Sr. Castilho, apesar do período áureo a que logrou chegar bem depressa, caiu no esquecimento dos literatos que tanta bulha fizeram ao princípio e fugiu das escolas corrido pela inépcia, pela preguiça e pela malvadez que preferiam, ao novo método, a cartilha velha e a palmatória, leal amiga e companheira de tantos anos. A desorganização administrativa e pedagógica do ensino primário favoreceram muito particularmente essa regressão do professorado ao estado anterior. Nem tudo, porém, foi perdido no meio deste esfacelamento. O desprezo da ordem do alfabeto e o princípio da fragmentação do mesmo não foram esquecidos; ficaram com muita outra coisa do