A história da Enfermagem no Brasil se inicia com a organização da Enfermagem na Sociedade Brasileira no período colonial e vai até o final do século XIX. Por sua vez, a enfermagem profissional contemporânea surgiu no contexto de
emergência do sistema capitalista europeu, particularmente na Inglaterra, subseguindo a decadência dos sistemas monástico-caritativos de assistência à saúde das populações, que ocorreu entre os séculos XVI e XIX.
No contexto da saúde mental, a profissão da enfermagem percorreu um longo desenvolvimento histórico, uma vez que desde os primórdios da sua existência a prática esteve marcada pelo modelo controlador e repressor, tendo suas atividades realizadas pelos indivíduos leigos, ex-pacientes, serventes dos hospitais e, posteriormente, desenvolvidas pelas irmãs de caridade (RODRIGUES, 2016).
No século XVIII, a assistência de enfermagem desenvolvia-se na perspectiva do tratamento moral de Pinel e da Psiquiatria descritiva de Kraepelin, logo as práticas da profissão nos hospitais psiquiátricos constituíam-se de tarefas de vigilância e manutenção da vida das pessoas em sofrimento mental com práticas de higiene, alimentação, supervisão e execução de tratamentos prescritos (FUNGHETTO, 2015).
A psiquiatria surge no Brasil a partir do século XIX, a essa época o capitalismo no Brasil permitiu a apropriação da loucura pela medicina, sob forte influência do modelo biológico hegemônico. Considerou-se a loucura como sendo uma doença mental, a qual se efetiva a partir de um distúrbio fisiológico, nomeando o asilo como lugar da verdade médica sobre a doença mental, em que as funções terapêuticas e político-administrativas adquirem mais consistência (NASCIMENTO, 2014).
A enfermagem surge no campo da psiquiatria inicialmente enquanto saber subsidiário à prática médica. O médico era a figura de autoridade a ser respeitada e imitada nesse projeto pedagógico, e os trabalhadores de enfermagem, os atores coadjuvantes, eram os executores da ordem disciplinar emanada dos médicos. Os profissionais de enfermagem eram observadores e provedores das informações que iriam alimentar ou subsidiar a construção das primeiras classificações nosográficas, altamente baseadas no comportamento observável (BARROS, 2000).
A necessidade de formar profissionais de enfermagem com a finalidade de prestar cuidados às pessoas em sofrimento mental, com base em princípios científicos, representou um tema frequente no discurso dos dirigentes dos hospitais psiquiátricos brasileiros nas décadas de 1920 a 1950 (CARRARA et al., 2015).
Não obstante, a importância atribuída a tal questão nos discursos nem sempre redundou em iniciativas concretas, visto que a preparação de pessoal de
enfermagem para atuar nos hospitais psiquiátricos ocorreu apenas no Rio de Janeiro e em Porto Alegre, não se generalizando para outros locais naquele período. A partir do início da reconstituição histórica dos processos de preparação de pessoal implementados nas cidades do Rio de Janeiro, Porto Alegre, São Paulo, Salvador e Barbacena, verificou-se formas de experiências diversificadas em cada local e em distintos períodos históricos (KIRSCHBAUN, 1997).
O ano de 1970 foi marcado, na Enfermagem Psiquiátrica, pelo relacionamento terapêutico, pois surgiu nos Estados Unidos Joice Travelbee, seus métodos foram combinações de teorias existencial-humanistas, focalizando a relação do homem como ser existencial, que busca significado na sua vida e sofre com isso. Nessa época, no Brasil, destacou-se a enfermeira, Maria Aparecida Minzoni, que se preocupou com a humanização da assistência à pessoa em sofrimento mental, contribuiu para a Enfermagem Psiquiátrica com atuações nos vários campos da Enfermagem, como no ensino, na pesquisa e na assistência (VILLELA; SCATENA, 2004).
Com o surgimento dos movimentos da Reforma de Psiquiátrica, nas décadas de 1980 e 1990, os enfermeiros passaram a atuar nas instituições extra-hospitalares (NAPS/CAPS), nas quais a atenção do profissional de Enfermagem direcionou-se a novas formas de cuidar na saúde mental (DAMÁSIO; MELO; ESTEVES, 2008).
A proposta de trabalho dos serviços substitutivos ao hospital psiquiátrico exige dos profissionais da enfermagem um saber acumulado na profissão, além de flexibilização no fazer da enfermagem nesses centros. A inclusão de atividades como oferta de oficinas terapêuticas, as reuniões de equipe interdisciplinar, acolhimento requerem promoção de ações em conjunto da equipe interdisciplinar que possa favorecer uma assistência comprometida com a consolidação de uma prática em equipe, que busque a integralidade, afastando-se da assistência reducionista que desconsidera a subjetividade e/ou variáveis sociais (VASCONCELOS, 2010).
Por isso que a prática de enfermagem em saúde mental vem se desenvolvendo atualmente baseada na assistência integral ao paciente em sofrimento mental, a sua família e à comunidade em uma perspectiva contemporânea que traz necessidade de mudança do cuidado que era praticado no hospital psiquiátrico. Assim, ações com vistas à promoção de saúde mental, atuação interdisciplinar e transdisciplinar com oferta de atendimento qualificado, humanizado
e global, manutenção e gerenciamento do ambiente terapêutico e articulação de ações comunitárias em saúde mental fortalecem a assistência em enfermagem prestada nesses serviços substitutivos.
De acordo com Soares (2011), pela gama de singularidades que permeiam o trabalho do profissional de enfermagem nos CAPS, entende-se que este se insere em uma prática que vai além dos chamados "recursos tradicionais" da prática clínica de enfermagem. Dessa forma, a construção do papel da enfermagem no CAPS deve ser vista como responsável pelo cuidado ao ser humano nas suas individualidades e necessidades.
Para Milhomem (2007), é necessária uma cultura que aborde a igualdade de saberes e valores sociais com enfrentamento das diferenças no cotidiano do cuidar, dessa maneira o pensamento de equipe deverá ser o orientador do processo de construção do papel da enfermagem no âmbito da saúde mental como profissão. A enfermagem precisa desempenhar seu papel de modo a contemplar as expectativas do usuário do serviço e da sua família.
Por isso, torna-se necessário refletir, criticamente, sobre a prática assistencial da enfermagem no contexto psicossocial integrada ao movimento da reforma psiquiátrica. A assistência de enfermagem nesses espaços de (re)invenção da prática de saúde mental deve proporcionar ao usuário em sofrimento mental atenção biopsicossociocultural (GARCIA FILHO; SAMPAIO; GUIMARÃES, 2011).
3.3 A SOBRECARGA DE TRABALHO DOS PROFISSIONAIS DE ENFERMAGEM