Sexe Année
IIX. DISCUSSION ET RECOMMANDATIONS
Unidades de conservação de uso integral tendem a oportunizar maior probabilidade de êxito, devido ao grau de complexidade que instituições estatais encontram para gerenciar áreas de RESEXs. Rylands e Brandon (2005) consideram que as áreas protegidas e/ou de uso integral são mais fáceis de gerenciar a que de uso sustentável, porque os obstáculos se tornam menores mesmo com a entrada, às vezes, de invasores em busca de caça, pesca, extração de madeireira e minérios.
A prioridade a conservação da biodiversidade faz com que RESEXs percam eficácia, diante da necessidade de subsistência de populações locais. Em RESEXs, a capacidade de conservar os ecossistemas precisa ser melhor compreendida, em face do aumento crescente de destruição de florestas (MOEGENBURG; LEVEY, 2002).
A decadência de recursos ambientais inviabiliza a continuidade de UCs em longo prazo. Françoso et al. (2015) assegura ineficiência de proteção à biodiversidade. Hogg et al. (2016) alerta para as crescentes pressões antropocêntricas. Já Carmo (2016) aponta os limites biofísicos e a incapacidade de resiliência. E Peña et al. (2016) garantem que se nada for feito haverá destruição do patrimônio natural, frente ao grande impacto da extração madeireira em habitats de rica biodiversidade, como afirma Edwards (2017).
Se a política as RESEXs não forem inovadas desde a concepção, a tendência é de redução e esgotamento dos recursos ambientais, porque a inexistência de prioridade social e/ou a ineficiência de comunicação entre moradores e gestores são responsáveis pelo desequilíbrio socioambiental.
Ademais, a demarcação de áreas com fins conservacionistas desvaloriza os habitantes de RESEXs, e ainda motiva efetivação de roças e criação de gado. É o que Drummond, Franco e Oliveira (2012) relatam, a expansão e distribuição de UCs no Brasil não são suficientes para suportar e manter o equilíbrio de ecossistemas, paisagens, comunidades humanas e espécies biológicas.
Desse modo, baixa presença e/ou distância institucional também cooperam para determinar a escassez de recursos naturais. Para Bentos et al. (2015), a preservação de recursos florísticos na região do Interflúvio Madeira-Purus está ameaçada pela extração ilegal e ocupação desordenada. De modo semelhante, a ictiofauna (rica em espécies de peixes) do interflúvio Madeira-Purus é carente de ações sustentáveis de manejo e diversidade de peixes (ZUANON; COUTO; BARROS, 2015).
Em termos turísticos, Kainer e Duryea (1992) enfatizam a contribuição de mulheres em manejo de plantas, diversificação e desempenho de economias vegetais. O turismo, para Ciommo e Schiavetti (2012) apresenta dimensões sociais e ambientais bastante completas, ora adicionando trabalho, ora renda e coadministração a mulheres de RESEXs. Porém, em contraponto a essas afirmações, Kawakami e Chagas (2015) argumentam que o turismo não deve ser considerado em UCs, porque o mercado é instável, suscetível, oscilante e não garante conservação.
Na dimensão internacional, planejamento com participação comunitária possibilita renda per capita de habitantes e manutenção de sistemas ecológicos em UCs. Bode et al. (2016) pontuam recentes avanços na concepção de planejamento em UCs, porque sustentam economias locais e fornecem alimentos efetivamente insubstituíveis. E Holt (2005) complementa que os moradores identificam padrões mercadológicos e julgam sustentáveis ou insustentáveis.
Em contrapartida, as águas doces e a escassez de recursos naturais se intensificam, cuja situação originam-se de ações institucionais e atitudes antropocêntricas. Os estudos de Chaudhary (2016) comprovam que houve diminuição de 94% de serviços de florestas, 36% de pântanos, 57% de rios e 54% de aumento de áreas para pastagens (Koshi Tappu Wildlife Reserve, Nepal), ao longo de 34 anos.
Nesse contexto, a diversidade biológica se torna vulnerável em virtude da pressão humana, a exemplo de desmatamentos, queimadas e perda ecossistêmica. Os dados evidenciam que a baixa cooperação do Estado por meio de políticas públicas gera novos custos de oportunidades oriundos das dinâmicas produtivas dos habitantes. Por exemplo, a redução de desmatamentos e queimadas na Amazônia dependerá de dois fatores fundamentais: aumento da produtividade por área e intensificação do uso de terras (REBELLO; HOMMA, 2005).
Estrategicamente, o aproveitamento planejado de áreas desflorestadas para fins agrícolas é uma alternativa que limita o desgaste primário. Homma (2016) sugere aproveitar 76 milhões de hectares (áreas secundárias) com atividades produtivas adequadas à promoção e recuperação de áreas desflorestadas, sendo que essa tendência ainda não ocorre em RESEXs da Amazônia. Pelo contrário, o desflorestamento da RESEX Alto Juruá vem crescendo consideravelmente, tanto em relação ao desmatamento marginal permanente quanto temporário, segundo Ruiz-Pérez et al. (2005).
Já Adeney, Christensen e Pimm (2009) explicam que RESEXs tiveram quatro vezes mais queimadas em áreas de alto impacto (próximas de estradas vicinais e BR) do que de baixo, as margens de rios e igarapés. Conforme dados de Vadjunec (2011), os moradores com mais tempo de residência nas RESEXs desmatam mais que os novos. Assim, a criação de RESEXs não assegura equilíbrio ambiental, porque a produção agrícola e criação de animais acumulam taxas de desmatamento anualmente.
Essas práticas ilegais também acontecem em algumas UCs internacionais. Áreas florestais do Parque Nacional Malinche (México) continuam afetadas por extração ilegal de madeira e queimada, devido ao aumento de terras agrícolas e formação de pastagens (PÉREZ, et al., 2016). Weisse e Naughton-Trevesweisse (2016) observam que atividades ilegais, financiamento baixo e inadequado limitam dinâmicas extrativistas e aumentam desmatamento em RESEXs da Amazônia peruana.
Outro motivo diz respeito à carência em atender necessidades básicas, o que conduz moradores à exploração de áreas primárias de UCs. A título de exemplo, na Reserva Biosfera de Maia (Guatemala), os agricultores são obrigados a desmatar e degradar em razão de ínfimas condições econômicas (SUNDBERG, 1998).
Nesses termos, cerca de 80% de Reservas de Desenvolvimento Tropicais aumentam suas taxas de desmatamento e ameaçam o habitat natural, em razão da diminuição de recursos ambientais, ineficaz planejamento, ingerenciamento, carente fiscalização e baixo investimento (LUI; GOOMES, 2016).
Sartre et al. (2016) mencionam que os desmatamentos são muito mais elevados em Unidades de Conservação de Uso Sustentável, do que em projetos clássicos de desenvolvimento (SARTRE et al., 2016). Essa denotação desqualifica a justificativa que criação de UCs equilibra relação do homem com a natureza.
Os dois sistemas produtivos que mais desflorestam nas RESEXs são a pecuária e a agricultura, de tal forma que as queimadas são muito comuns nestes territórios, sejam em áreas primárias ou secundárias. Na ausência de tecnologia, a exemplo de pequenas máquinas, o mais cômodo e menos trabalhoso é atear fogo. A explicação mais convincente a esta situação está ligada a ausência estatal, baixa atenção por meio de políticas sociais, produtivas e gestão centralizada.