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Une difficile stabilisation du réseau de partage des connaissances, de culture de la performance, de l’agilité et du changement

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6.2.2 Une difficile stabilisation du réseau de partage des connaissances, de culture de la performance, de l’agilité et du changement

Historicamente, as transformações sociais e da sexualidade têm reconfigurado os códigos que constituem as regras da normalidade e o que deve ser proibido. Das reflexões de Foucault à Elias, soa fundamental a ideia que o processo civilizatório foi comumente apresentado com base em modelos de proibições e diferenciações, uma vez que os veículos de controle sociais e as convenções moldaram “bons costumes” a partir de extratos ideológicos que reprimem e ajustam indivíduos.

Em cada tempo e lugar diferentes, sociedades constroem interdições a seu modo, geralmente, disseminadas pelas leis, pelo constrangimento social e, por vezes, pelo controle religioso. No caso ocidental, foram traçadas diversas disciplinas discursivas e ideológicas, que regulamentaram os comportamentos aceitáveis ou não dos indivíduos, principalmente em relação à seus corpos e sua sexualidade. Desse modo, as formas instituídas de organização ordenaram não só suas vidas, mas também e seus prazeres.

A respeito do controle da sexualidade, a partir do século XIX, a ciência assumiu a tarefa de vigia-la, classifica-la e controlá-la. Nesse sentido, em História da Sexualidade – A

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procedimentos para produzir uma “verdade do sexo”. Enquanto algumas culturas orientais produziram uma ars erótica, em que a verdade é extraída do próprio prazer - encarado como prática e recolhido como experiência -; as civilizações ocidentais, por força da moral cristã, esvaziaram o conteúdo sagrado do erotismo, dissociaram tal instância do caráter divino e da experiência, fazendo com que “os desejos do espírito se separassem dos desejos do corpo”, e criaram uma “scientia sexualis”, fundada na confissão, que ao longo dos séculos evoluiu para os discursos científicos que conjugam relações do saber e do prazer (ABREU, 2012: 37).

Desde a Idade Média, pelo menos, a confissão se destacou dentre os rituais mais importantes na produção de “verdades”. Sua consolidação como estratégia política permitiu que fossem desenvolvidos diversos métodos de interrogatórios e de inquéritos, os quais tornaram presença central na ordem dos poderes civis e religiosos, e, consequentemente, culminaram em uma sociedade “singularmente confessanda”. Para Foucault:

A confissão é um ritual de discurso onde o sujeito que fala coincide com o sujeito do enunciado; é, também, um ritual que se desenrola numa relação de poder, pois não se confessa sem a presença ao menor virtual de um parceiro, que não é simplesmente um interlocutor, mas a instância requer a confissão [...]. (FOUCAULT, 2012, p. 67).

O Ocidente, dessa forma, traçou um eixo especialmente comum entre a prática discursiva da confissão e o tema da sexualidade que, no decorrer da história, perdeu sua situação ritual34 e evoluiu para os aparatos discursivos da ciência. Com a consolidação da medicina e da psiquiatria no século XIX, o difícil saber sobre o sexo tomou contornos de uma hermenêutica do desejo, dedicada a explorar detalhadamente as supostas verdades científicas da sexualidade. Mais que a confissão do indivíduo, portanto, os diferentes discursos operaram - e ainda operam – de maneira que a sexualidade pôde ser definida e materializada na compreensão de tais fenômenos como leis naturais, os quais acabaram por classificar e ordenar os prazeres.

Mas se, na moral religiosa e social, o formato confessional da sexualidade teve função condenatória e reguladora, não necessariamente “a ciência da sexualidade” seria sinônimo de liberdade ou fruição (ABREU, 2012). Expor a sexualidade num discurso

34 Segundo Foucault (2012, p.65-66), na ars erotica a “verdade” é extraída do próprio prazer, compreendido

enquanto tática e experiência. Nela, o prazer é levado em consideração segundo sua validade, sua intensidade sua qualidade específica e suas reverberações no corpo e na alma.

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científico, que conjugam relações do saber e do poder a inseriu em um sistema de utilidades e padrões de funcionamento que deliberou tipos de controles das mais variadas ordens. Sendo assim, como relembra Foucault (2012, p. 42) “o que é próprio das sociedades modernas não é o fato de terem condenado a sexualidade a permanecer na obscuridade, mas sim a devoção de falar dela sempre -, valorizando-a como “o” segredo”.

De certo modo, o século XIX, legou à modernidade um aparato discursivo para dizer “a verdade sobre o sexo” e extrair “sua confissão”. Para além do discurso científico, esse período também assinalou o surgimento de novas tecnologias do visível coadjuvantes ao processo da “vontade de saber”, como no caso da fotografia e seus vários desdobramentos em técnicas de obtenção da imagem. Segundo Abreu (2012), o registro de movimentos em imagens é aquilo que a linguagem pornográfica esteve sempre à espera, e apartir desse aparato, a pornografia, assim como a ciência, também se construiu enquanto parte do repertório de verdades sobre o sexo, ligados à scientia sexualis. Mas, se a pornografia tanto quanto a ciência tem lugar comum na prática discursiva de falar da sexualidade, vale questionar onde residiria o pecado original do dispositivo pornográfico.

Com base nas reflexões de Linda Williams (1989), um dos caminhos para se responder à essa questão está no conteúdo do aparato pornô. Para a autora, o status confessional da pornografia, diferentemente dos outros saberes, rompe com a essência secreta da verdade, ao passo que sua encruzilhada se estabelece entre transgressão, supressão e condenação enquanto “lixo cultural”. Segundo Williams:

A particularidade da pornografia se realiza justamente via a assertiva de que sua confissão é transgressora – de que ela ousa dizer aquilo que se quer calar [...] e a verdade do poder pornográfico é vista ou como merecedor de ser dito, ou como indizível a ponto de querer supressão. (WILLIAMS, 1999, p. 15).

Outro ponto importante que se aproxima dessa “resposta pornográfica” jaz na análise que envolve os excessos da visibilidade do corpo pelas tecnologias visuais. Williams chama atenção ao fato que o saber-prazer produzido pela scientia sexualis teria em seu repertório uma manifestação de caráter visual, identificada pela autora como “frenesi da visibilidade” (1999, p. 7). Este frenesi seria nada mais que um “hard core”35 advindo de uma variedade de

discursos da sexualidade que convergem, e, por vezes, entrelaçam o saber-prazer e o campo da visibilidade. Sendo assim, se, por um lado, o frenesi que a pornografia moderna gera é

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um importante dispositivo produtor de discursos que apreendem a “verdade” do sexo, por outro, permite que esta rompa o silêncio confessional presente na lógica das scientias

sexualis. E é neste sentido que a pornografia constitui um repertório próprio de “verdades”,

tornando-se um saber-prazer excêntrico, explícito, ou potencialmente uma espécie de

scientia pornographica (DUARTE, L.F, 2014, p. 37).

Certamente, a invenção da fotografia e, posteriormente, do cinema foram decisivos na consolidação do dispositivo pornográfico moderno e do repertório da sugerida scientia

pornográfica. Com a novidade das lentes em câmeras, a captação direta de lugares,

acontecimentos e corpos, intensificaram o campo da visibilidade e ampliaram novas possibilidades de se investigar a sexualidade. Para Nuno de Abreu:

O dispositivos óticos encontraram um mundo efervescente, pleno de inovações tecnológicas, e nada melhor para conhecer o desconhecido do que penetrar o olhar estendendo os limites do campo do visível. A volúpia de recortar o mundo e o corpo através das lentes – captando/capturando o movimento -, embora viesse a evoluir como linguagem artística, parece ter tido, em seu começo, mais afinidade com a scientia sexualis. A máquina humana começa a ser desvendada pelos maquinismos da mecânica, dos processos óticos e físico-químicos, capazes de reproduzir suas imagens. (ABREU, 2012, p. 38)

Não é novidade que o sucesso da pornografia muito deve ao investimento na hipervisibilidade dos corpos femininos. Assim, se a conexão entre pornografia e scientia

sexualis buscou no corpo a produção de conhecimento sobre o sexo; a fotografia e o cinema

o consolidaram, em excessos visuais e recortes anatômicos, como um produto destinado principalmente ao olhar. É com isso em vista, que as próximas sessões se dedicam à análise de como e o corpo feminino foi um elemento central na construção moderna sobre a sexualidade e, como as tecnologias do visível, entrelaçadas aos discursos da scientia sexualis se preocuparam em desenvolver técnicas capazes de captar movimentos corporais, que, sem dúvidas, foram essenciais para o desenvolvimento do pornô.