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2.2 Squelettisations

2.2.3 Algorithmes de calculs

2.2.3.1 Diagramme de Voronoï et PowerShape

marílIa rosaDo CarrIlHo

Professora do ensino secundário. Licenciada (2002) e Doutora (2014) em Filosofia pela Universidade de Évora.

Um/a professor/a é alguém que toca a vida do outro. Um/a amigo/a também. Se te- mos a sorte de uma professara ser também uma amiga, então somos tocados dupla- mente e é em dobro que a nossa vida se enriquece.

A história do meu encontro com Fernanda Henriques é simples e, porém, bela, como é a simplicidade do querer bem e da admiração do outro pelo seu pensamento. Encontrei Fernanda Henriques quando ainda era jovem. Quando se tem vinte e poucos anos tudo está em aberto e o ensino da filosofia ainda era apenas uma possibilidade. Reconheci-me na sua paixão de ensinar e na forma aberta de trabalhar a filosofa e segui, já há mais de dez anos, com alegria e certeza, este caminho.

Para mim, Fernanda Henriques é a professora-amiga mas, sobretudo, a cuidadora. O seu desejo de conhecimento e a sua vontade de mudança do mundo cuidam da orienta- ção das consciências que com a dela discutem. Para ela, não há mudança sem discussão de ideias e fazê-lo é impregnar a consciência de inquietação, abanando a base das cer- tezas. Saíamos d a sua sala de aula pensando para nós mesmos: “caramba, nunca tinha pensado nisto e, de facto,…”. Sempre lhe interessou essas reticências, são elas a semen- te da problematização na mente do outro. Não é possível não partilhar com ela a inquie- tação de estar desperto para o mundo, sobretudo quando nesse mundo há diferenças silenciadas ou ignoradas. Neste mundo por ela pensado, as mulheres são livres, inde- pendentes e fortes, tão capazes como os homens porque, tão simplesmente, sempre o foram! No mundo por si idealizado, todas as vozes são ouvidas e há empoderamento de quem não consegue autodeterminar -se. Mas essa é uma tarefa que cabe a cada um/a, porque nada se faz sem responsabilidade e esforço.

A justiça e o cuidado têm sido condutores do seu pensamento. A sua investigação fá-la dialogar com quem pensou estes conceitos. Às alunas e aos alunos dava a conhecer apenas o suficiente para inquietar as suas mentes. Alguns tomaram esse pouco e trans- formaram-no em muito e essas primeiras inquietações resultaram em dignos trabalhos académicos. Nada a podia deixar mais feliz.

O que devo eu e o mundo a Fernanda Henriques? A sua dinâmica e dedicação, o pensamento que abarca o passado e perspetiva o futuro numa constante abertura e ju- ventude de espírito. Devem a educação, a ética, os movimentos das mulheres e a política do cuidado.

FIOS DE MEMÓRIA – Marília Rosado Carrilho

Tal como a Maria de Lourdes Pintasilgo, agrada-lhe a companhia e escuta dos mais jovens. As suas vozes prenunciam o por vir de um mundo que nunca deixa de querer conhecer. O seu interesse é permanente e a sua presença é sempre notada. Consciente disso, não recua se sabe que os seus motivos são válidos. Munida de razões, persiste no debate, sem receios ou hesitações porque, na sua convicção, há razão no que diz.

Na sua forma apressada e aparentemente desligada, cuida o outro, afeiçoando-se porque essa é a sua forma de ser. E é também afetivamente que defende as suas posi- ções, numa convicção que deseja mudar o mundo e se desgasta quando esse mundo não quer mudar. (É que nem todos têm a sua força).

Tive o privilégio de ter sido alvo do seu cuidado e a sua orientação ajudou-me a ser a mulher que hoje sou. Assim é a magia das partilhas que têm a bondade e a vontade de sa- ber como base, raízes de um trabalho académico, profissional mas, sobretudo, humano.

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FIOS DE MEMÓRIA – Paula Martinho da Silva

Sólida e Perene

Paula martInHo Da sIlVa

Advogada. Mestre em Bioética pela Faculdade de Medicina da Universidade Complutense de Madrid. Membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida entre 1991 e 2003 e sua presidente entre 2003 e 2009. Até 2016 foi membro do EGE – European Group on Ethics in Science and New Technologies da Comissão Europeia.

Conheci a Fernanda Henriques no dia 4 de Setembro de 2003 na tomada de posse do CNECV1.

Nada conheço da Fernanda antes desse momento. Poucos detalhes familiares, es- cassas referências pessoais. Na verdade, não me interessam nem nunca os procurei. Não sei onde vota, o que faz no dia a dia, qual o seu filme favorito.

São pormenores que podem ser conhecidos durante uma conversa, mas nunca pro- curados como sendo essenciais.

No entanto, posso dizer que o respeito distante daquele dia se transformou numa amizade singular e inequívoca. E foi precisamente esse respeito que permitiu que ela se desenvolvesse dessa forma: sólida e perene.

A Fernanda é certeira nas perguntas que faz e não permite respostas equívocas. Quer saber o que penso sobre determinado assunto e aceita a resposta que eu lhe der, mesmo quando começa a pergunta por “eu sei que você não pensa como eu”. Entrar no mundo da Fernanda é, por vezes difícil, porque é filósofa, femininista e porque pensa muito bem, tem um pensamento sólido e bem construído e que, por vezes, nos convida a partilhar as suas dúvidas e mostra-nos como sofre pela dureza do tema que quer explorar até às zonas mais sombrias.

Não me surpreendeu, por isso, a atenção genuína com que a Fernanda se dedicou ao CNECV2 e que construiu cumplicidades com pessoas que, aparentemente, nada lhe diziam, mas com quem partilhou emoções, discussões, num quase dia a dia ao longo de seis anos. Também não será difícil perceber que a honestidade intelectual da Fernanda, a sua frontalidade no debate e a capacidade de ouvir o outro e de aceitar consensos por vezes difíceis, que conheci desde então, não foi algo adquirido no momento, mas já fazia parte de si, como pessoa íntegra que é.

Por tudo isto ainda fico mais sensibilizada quando a Fernanda elogia. Por exemplo na declaração de voto que, em 2004 fez ao difícil parecer sobre Procriação Medicamente Assistida3 ao “saudar o ambiente de respeito e de atenção à diversidade de pontos de

1 CNECV – Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida

2 Em boa hora designada pela Comissão para a Igualdade e para os Direitos da Mulher (III mandato – 2003-2009).

3 Parecer 44/CNECV/2004 de Julho 2004 disponível em http://www.cnecv.pt/admin/files/data/docs/ 1273057172_P044_ParecerPMA.pdf

FIOS DE MEMÓRIA – Paula Martinho da Silva

vista e de posições éticas que acompanhou todo o trabalho do CNECV em torno da cons- trução do parecer sobre a PMA”.

A Fernanda não se escondeu na confortável sombra quando era preciso discutir e dar a sua opinião e envolveu-se a fundo na elaboração de pareceres sobre matérias de enorme complexidade técnica, como foi o caso do Parecer sobre o Regime Jurídico da Base de dados de Perfis de ADN 4 e o parecer Sobre Venda Directa de Testes Genéticos ao Público 5 em colaboração com Jorge Sequeiros. Complexo para uma filósofa? A dúvida foi sempre menor que o seu interesse e vontade em enfrentar o desafio. O tempo veio dar razão a ambos os pareceres.

Ainda hoje é com muito gosto que releio o capítulo dos “Aspectos Éticos” do primeiro parecer, sempre atualíssimo, onde a Fernanda aborda, entre outras, a questão da forma como a ética “entrelaça o fazer da ciência e das leis” e introduz nesta reflexão a perspetiva de Heidegger sobre técnica e civilização tecnológica, o imperativo categórico de Kant, a reflexão de Hans Jonas sobre as implicações da técnica na transformação da natureza da ação humana (o ideal utópico), culminando em Ricœur a defender que o lugar epistemo­ lógico da justiça é entre o legal e o bom e, nessa medida, devemos querer sempre procu­ rar encontrar o topos próprio daquilo que, em cada caso, é justo, sabendo que, inevitavel­ mente, o bem nos ultrapassa, mas que não nos devemos apenas conformar com o legal. Mas é sobretudo com Adela Cortina que nos encontramos, a Fernanda como discí- pula e amiga, eu como sua aluna, leitora e admiradora. Sou devedora à Fernanda dos encontros que me proporcionou e do prazer em ouvir Cortina sobre o aprofundar dos alicerces éticos de construção de uma sociedade cordialmente justa nas suas principais dimensões: ética cívica, cidadania, democracia comunicativa, direitos humanos. Com Cortina aprendi que importa averiguar se numa sociedade pluralista, que superou a eta- pa do código moral único, existem valores morais partilhados entre os cidadãos que lhe permitem trabalhar juntos e se esses valores têm algum fundamento base6. Com a Fer- nanda aprendi a pô-los em prática no debate bioético, agora fora do campo institucional, quando determinadamente tenta inverter, o que, num recente e acutilante trabalho so- bre “A Bioética em Portugal”7, diz ser “uma crise da bioética”: a situação de um certo ma- rasmo reflexivo, que leva a aplicar soluções mais do que discutir problemas, (…) e, a ser assim, o que faz falta é um pensar, em si mesmo, o papel de uma área do saber humano que pode ser um instrumento importante na defesa de um futuro humano ainda a haver.

4 Parecer 52/CNECV/07 de Junho de 2007 disponível em http://www.cnecv.pt/admin/files/data/ docs/1273054082_Parecer_052_CNECV_2007_BasesdadosADN.pdf

FIOS DE MEMÓRIA – LIBER AMICORUM PARA FERNANDA HENRIQUES