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CHAPTER 7 VAXBI REGISTERS

7.1 DEVICE REGISTER

1. Comunicação e incomunicação como fonte de existência

A história da existência humana está profundamente ligada à sua capacidade de se comunicar. Tal ação permitiu que todo o processo de evolução da humanidade fosse registrado. Desde os primórdios, sentimos a necessidade de demarcar nossa existência de forma que seja possível nos afirmarmos nos ambientes em que estamos inseridos, a fim de consolidarmos um elo com o mundo e com todas as formas animadas e inanimadas que encontramos à nossa frente.

Como seres sociáveis, percebemos o quanto poderíamos nos comunicar por meio dos sons, dos gestos, das pinturas e por outros mecanismos que favoreceram nossa construção como seres humanos. Nós nos tornamos capazes de interagir entre nós e com o mundo de forma ordenada, no qual o conhecimento fundamentado em nossa capacidade cognitiva garantiu que passássemos a construir, expressar e transmitir nossas impressões e sentimentos de tudo aquilo que considerávamos interessante e significativo à nossa existência. Somos capazes de interpretar os ambientes conforme a nossa realidade, ou seja, somos seres geradores de conhecimento.

O ser humano é um ser eminentemente social. Nos primórdios da humanidade os homens agregavam-se em pequenos grupos tribais e necessitavam de comunicar uns com os outros para garantir a sua sobrevivência. Quando o homem pintava as paredes das cavernas, evidenciava a necessidade de comunicar. [...] A escrita permitiu o registro. Por isso, a Pré-História corresponde ao tempo antes da escrita; a História é o tempo após a escrita (SOUSA, 2004, p. 62-63).

Diante da relação da comunicação com a capacidade humana de socializar, registrar e trocar conhecimentos, podemos perguntar: o que é comunicação? Como ela interfere na garantia da existência humana?

No nível de dicionário conceitual, como o produzido por Gustavo Barbosa e Carlos Alberto Rabaça (2001), há uma série de conceitos de comunicação apresentando a complexidade e a extensão social desse processo que está relacionado às diferentes áreas de conhecimento, bem como sua origem, significado e significação.

Palavra derivada do latim communicare, cujo significado seria ‘tornar comum, ‘partilhar’, ‘repartir’, ‘associar’, ‘trocar opiniões’, ‘conferenciar’. Implica participação, interação, troca de mensagens, emissão ou reconhecimento de informações novas (BARBOSA. RABAÇA, 2001, p. 155-156).

Tomando como base variados referenciais teóricos, os autores trazem definições com diferentes abordagens a partir do ponto de vista etimológico, biológico, pedagógico, histórico, sociológico, antropológico, psicológico e estrutural. Todos eles em sua abordagem trazem aspectos que relacionam a comunicação a estímulo, mensagem, processo, signos, significantes, significados, linguagem, recepção, participação, informação, troca e a perpetuação da espécie.

Observando essas definições trazidas por Barbosa e Rabaça (2001), percebemos que todas possuem ligação com a pesquisa que envolve a Comunidade Remanescente de Quilombo da Caçandoca, em Ubatuba. Nosso foco é aprofundar os aspectos relacionados aos impactos sociais da comunicação nos moradores daquele território, considerando a história, a memória, a cultura e a identidade dos quilombolas.

Os autores afirmam que “comunicação significa ‘estar em relação com’”, ou seja, trata-se de um processo de interação, de “trocas de experiências socialmente significativas. Eles (2001, p.157) ainda afirmam que o “existir do homem só é possível por meio da comunicação. Ela permeia toda a sua vida. Em qualquer lugar, onde existe vida, existe comunicação”.

Quando Barbosa e Rabaça (2001) buscam na etimologia o sentido de comunicação, nos inspira a relacionar ao sujeito de pesquisa. Eles dizem:

A origem da palavra Comunicação introduz a ideia de comunhão, comunidade. Como diz Wilbur Schramm, quando nos comunicamos, tratamos de estabelecer uma comunidade, isto é, tratamos de compartilhar informações, ideias, atitudes. Sérgio Luiz Veloso endossa ao afirmar que Comunicação é fazer participar, é trazer para a comunidade o que dela estava isolado. Comunicar significa, assim, estabelecer comunhão, participar da comunidade, através do intercâmbio de informações (BARBOSA; RABAÇA, 2001, p.157).

O sentido de comunicação, do ponto de vista da comunhão e da participação, conforme aponta os autores, converge com as teorias de Paulo Freire (1979, p.28), que identifica na comunicação um caminho para a transformação e a comunhão entre os indivíduos. “O homem não é uma ilha. É comunicação. Logo, há uma estreita relação entre comunhão e busca”. Do ponto de vista de Freire (1979), a comunicação é a base para a troca e busca de conhecimentos, pois tem o papel de intercambiar os atores sociais. Nesse sentido, o

autor relaciona a comunicação com o amor, a partir do momento em que o ato de comunicar também expressa a intercomunicação sem as barreiras da dominação e do controle, favorecendo uma troca gratuita e horizontal de informações entre os sujeitos. “ Ama-se na medida em que se busca comunicação, integração a partir da comunicação com os demais” (FREIRE, 1979, p. 29).

Barbosa e Rabaça (2001), trazem também o sentido de comunicação do ponto de vista histórico e sociológico. Eles dizem que a “comunicação funciona como instrumento de equilíbrio, permitindo o entendimento entre os homens, neutralizando o poderio de forças contraditórias”. Citando Virgílio Noya Pinto, revelam o quanto a comunicação foi responsável pelas mudanças dos rumos da história. “Efetivamente a Comunicação define-se como a única forma de sobrevivência social, como o próprio fundamento da existência humana, solidificada através da cooperação e da coexistência”. O olhar sociológico, a partir de Joffre Dumazedier, diz que o papel da “Comunicação é o da transmissão de significados entre as pessoas no processo de inserção e integração do indivíduo na organização social. [...] Comunicação funciona como instrumento das relações sociais [...] (BARBOSA; RABAÇA, 2001, p.158).

Já do ponto de vista psicológico, Barbosa e Rabaça (2001, p.159) apontam a comunicação como um “fenômeno capaz de modificar o comportamento do indivíduo”, pois aquele que comunica algo faz uso intencional de estímulos linguísticos para influenciar quem recebe a informação.

Em José Marques de Melo, os autores buscam o sentido antropológico para Comunicação como “veículo de transmissão de cultura ou como formador da bagagem cultural de cada indivíduo na sociedade”. E diz que a “Comunicação é o sopro que dá vida à cultura”. Nesse caso, o sentido de comunicação vem carregado da potencialidade transformadora e fortalecedora da cultura, ou seja, veículo que, além de proporcionar a transferência de cultura, também é vista como “instrumento formador de cultura” (BARBOSA; RABAÇA, 2001, p. 158).

Marques de Melo também é referência, assim como Juan Díaz Bordenave, quando Barbosa e Rabaça falam do conceito estrutural da comunicação para salientar, além de toda estrutura da transmissão de informações, que esse é um processo dinâmico, vivo, que permite a troca de experiências e diz que a comunicação se estabelece sempre entre “acontecimentos” instáveis por sua própria natureza. Ainda sobre a estrutura da comunicação, os pesquisadores buscam em Murilo Nunes de Azevedo argumentos para apresentar a relação da comunicação

com as experiências e a subjetividade do emissor. “A mensagem que sai de cada um leva um pouco do ser. O emissor pode colorir a mensagem de várias maneiras, dando o seu toque pessoal, a sua visão do fato [...]” (BARBOSA; RABAÇA, 2001, p.159).

De todas as definições apresentadas até o momento, podemos perceber que a comunicação é complexa e pode estar relacionada a diferentes situações que envolvem o ser humano. Jorge Pedro Sousa (2004) faz uma abordagem da comunicação como processo social que se mostra relevante para o desenvolvimento dessa pesquisa que envolve a comunicação na comunidade remanescente de quilombo da Caçandoca. O autor aponta a comunicação como a base para a manutenção e difusão da cultura e, consequentemente, da identidade.

É comunicando que os seres humanos constroem e reconstroem a sua identidade, aprendem e reformulam os seus papéis sociais (que encenam constantemente), posicionam-se na sociedade e nos grupos e organizações sociais (o que apela aos conceitos de estatuto, poder e ideologia), adquirem e mudam valores, aprendem normas, negociam compromissos que permitem a integração sócio-cultural. [...] A comunicação determina a forma como vemos o mundo, como nos reconhecemos, como nos revemos, num processo contínuo (SOUSA, 2004, p. 14).

Quando trata da questão da comunicação como processo, o pesquisador fala da importância de se conhecer a cultura de um determinado grupo e suas características, para entender a forma como a comunicação se desenvolve naquele espaço. No nosso caso, a compreensão da história e das características culturais da comunidade da Caçandoca está nos ajudando a construir uma base para que possamos analisar o grupo do ponto de vista da comunicação.

Para compreender esse processo, Jorge Pedro Sousa (2004, p. 15) chama a atenção para o fato de que nem sempre onde há comunicação também há informação. Segundo ele, “a informação depende da comunicação. Não há informação sem comunicação”. No entanto, a comunicação existe sem a informação, isto porque, na cultura, por exemplo, uma dança, uma música pode comunicar alguma emoção e provocar reações no grupo, mas não necessariamente informar.

Nesse sentido, o autor analisa a comunicação como um processo contínuo e dinâmico, pois não se limita à linguagem, mas ao contexto em que o indivíduo está inserido e como ele percebe os estímulos comunicacionais que recebe.

A comunicação é um processo precisamente porque se desenvolve num contínuo espaço-temporal em que coexistem e interagem permanentemente múltiplas variáveis. Os elementos do processo de comunicação podem entender-se como

variáveis porque variam, porque apresentam contínuas mudanças no tempo, enquanto interagem uns com os outros. Além disso, a comunicação não tem princípios e fim bem definidos porque a cadeia de causas e a cadeia de consequências de um ato comunicativo são parcialmente indetermináveis e, de algum modo, infinitas (SOUSA, 2004, p. 19).

Voltamos a Juan Díaz Bordenave para nos aprofundar um pouco mais no processo de comunicação. Assim como Jorge Pedro Souza, Bordenave (1982, p. 19) também entende que a comunicação é um processo contínuo e fundamental para a existência humana, e afirma: “A comunicação é uma necessidade básica da pessoa humana, do homem social”. Segundo Bordenave, o ato de comunicar sofre várias interferências, que vão desde o ambiente até a forma como algo é comunicado, processado e recebido pelos interlocutores.

Sem a comunicação cada pessoa seria um mundo fechado em si mesmo. Pela comunicação as pessoas compartilham experiências, ideias e sentimentos. Ao se relacionarem como seres interdependentes, influenciam-se mutuamente e, juntas, modificam a realidade onde estão inseridas (BORDENAVE, 1982, p. 36).

O pesquisador chama a atenção para o fato de a comunicação sempre acontecer num ambiente, “como parte de uma situação, como momento de uma história”. E isso somente acontece porque sempre terá alguém com a intenção de comunicar alguma coisa e, para isso, usa de diferentes recursos, podendo ser as palavras, as expressões corporais, entre outras formas de promover a comunicação.

Os aspectos relacionados ao processo de comunicação apresentados por Jorge Pedro Sousa e Juan Díaz Bordenave nos ajudam a ampliar a compreensão com relação à realidade da comunicação dos quilombolas da Caçandoca. O espaço e o tempo que envolvem os moradores daquela localidade são marcados por diversas situações que interferiram na forma como o grupo se relaciona e se comunica. No entanto, as mudanças que acompanham a comunidade não interromperam as transformações no processo de comunicação, pois o tempo ainda continua agindo naquele espaço, trazendo novas percepções sobre a realidade e interferindo na forma como a comunicação é percebida e sentida. Ou seja, na Caçandoca, o processo de comunicação está em constante mutação, pois seus moradores também estão se moldando e sendo moldados em decorrência das suas relações com o ambiente e com todas as demais realidades que os cercam.

Seguindo a mesma linha de análise, Jorge González (2007) traz importantes contribuições para que seja possível analisar as influências dos contextos históricos no

processo de comunicação de um povo. O pesquisador acredita que, para compreender a dinâmica do processo de comunicação, é necessário conhecer o passado de uma determinada sociedade ou grupo. Nesse sentido, deve-se levar em conta a história, bem como os aspectos culturais, políticos e econômicos que envolvem o ambiente pesquisado.

Na intencionalidade de explicitar a relação do homem com o seu ambiente e suas vivências, o pesquisador deixa claro, na obra “Cibercultur@ e iniciación en la investigación”, que toda realidade existe independentemente de nós e dos estudos científicos. Todo ser humano está diretamente ligado àquilo que assimila durante sua existência. Ele compreende e se adapta a objetos identificados a partir de conceitos assimilados através de mediadores linguísticos que são incorporados ao longo da vida.

González (2007) esclarece que o fato de os sentidos dos objetos estarem relacionados às experiências de vida de cada pessoa ou grupo favorece que um mesmo acontecimento possa ser entendido ou concebido de formas diferentes pelas pessoas de outras localidades ou grupos. Segundo ele, tudo depende da situação em que nos colocamos ou que nos é colocada na atividade de conhecer. Esse conhecer garante a manutenção e a existência evolutiva de homens e mulheres.

Somos a única espécie que para poder sobreviver necessita desenvolver uma segunda natureza, completamente significativa. Esta segunda natureza adquire sentido na vida cotidiana quando dizemos “não só de pão vive o homem”, mas também de experiências processadas em signos, de emaranhados de signos tecidos em textos, ligados em discursos (GONZÁLEZ, 2007, p. 36).

A partir dos estudos relacionados à sociologia da cultura, focados nas características da realidade de grupos ou locais pesquisados, González, assim como Bordenave, ressalta que a comunicação é fundamental para a existência humana, levando em conta a necessidade da convivência em grupo. Nesses ambientes, percebe-se os indivíduos como agentes atuantes de um processo de comunicação envoltos com as raízes que delineiam a identidade, seja ela coletiva ou individual.

Partindo do princípio de que a comunicação é fundamental para a manutenção da existência humana, pois, através dela, homens e mulheres criaram mecanismos simbólicos que promovem o entrosamento e o convívio em grupo, podemos entender que a evolução do processo da comunicação também permitiu aos seres humanos a possibilidade de ampliar o seu conhecimento a partir do compartilhamento de saberes.

A comunicação não se constitui apenas na produção e distribuição de informação, mas, sobretudo, no dever de ter abertura para o sensível, para as condições em que o receptor, num processo de troca recebe, aceita, recusa, remodela mensagens, informações, de acordo com suas convicções filosóficas, políticas e culturais. Afirma-se assim a natureza relacional da comunicação, a importância do “outro”, da alteridade na comunicação. Comunicação, então, constitui-se em razão do estabelecimento de laços sociais, de vínculos (MIKLOS, 2014, p. 12).

Miklos aborda a comunicação como um processo social, no qual o indivíduo é capaz de produzir suas impressões do meio em que está inserido a partir da relação com os demais membros do grupo que compartilham dos mesmos símbolos linguísticos. Já Bordenave (1982, p. 76), quando traz as questões relacionadas a signo, deixa claro que em uma vida em sociedade o mesmo signo pode ter diferentes significados, dependendo da pessoa ou do grupo. Mesmo com a diversidade de signos, “a maior parte da comunicação se realiza por meio da linguagem, falada ou escrita”.

Em meio a um emaranhado de signos, os indivíduos se moldam e passam a dar sentido a esses elementos da linguagem a partir da realidade em que estão inseridos. As representações sociais construídas ao longo da história assumem o papel de ajudar as pessoas a estabelecer relações com aquilo que é percebido e passado conforme os padrões de conduta impostos pela vida em sociedade. Homens e mulheres nascem em ambientes nos quais precisam se ajustar na tentativa de manter uma aceitação social. Na igreja, na família, na escola, nas comunidades existe a necessidade de entender, mesmo que de forma pouco intuitiva, como os signos assumem os seus significados, como eles passam a dar sentindo e serem integrados aos indivíduos nos seus espaços de convívio.

O tom das palavras faladas, os movimentos do corpo, a roupa que se veste, os olhares e a maneira de estreitar a mão do interlocutor, tudo tem algum significado, tudo comunica. Quer dizer que, praticamente, é impossível não comunicar (BORDENAVE, 1982, p. 50).

Complementando a importância social da comunicação, Dominique Wolton (2006, p. 14), afirma que a “comunicação é sempre a busca da relação e do compartilhamento com o outro”. Para ele, o domínio das técnicas de comunicação representa também a emancipação e igualdade entre os indivíduos, pois pode promover a integração. Wolton refere-se à comunicação como um “serviço público da vida”, pois é um direito de todos os indivíduos. No entanto, ele divide o ato de comunicar em duas dimensões, sendo a primeira o direito de expressar-se e o segundo saber se o outro aceita a sua fala e se você está pronto para ouvir. O

pesquisador salienta que, apesar de liberdade de expressão ser um direito, existe também a necessidade da construção da relação entre aquele que emite a mensagem e aquele que recebe e reverbera o que foi comunicado. Wolton apresenta essa relação entre as duas extremidades do processo de comunicação, emissor e receptor, para mostrar o dinamismo da comunicação e do comportamento dos receptores que, segundo ele, estão “mais diferentes e exigentes em suas identidades, estilos, vocabulários”.

Por isso a comunicação traz consigo um duplo desafio: aceitar o outro e defender

sua identidade própria. No fundo, a comunicação levanta a questão da relação entre eu e o outro, entre eu e o mundo, o que a torna indissociável da sociedade aberta, da modernidade e da democracia. Embora a economia e as técnicas prevaleçam hoje, nunca deve se perder de vista a perspectiva antropológica e ontológica da comunicação (WOLTON, 2006, p. 14-15).

Wolton (2006, p. 15) ainda enfatiza que comunicação é ser, fazer, agir, ou seja, é ir ao encontro da identidade e da autonomia, reconhecer o quanto o outro é importante e reconhecer o quanto existe uma dependência com relação ao outro para que a comunicação se concretize, mesmo diante da “incerteza de ser compreendido”. Segundo o pesquisador, aquele que comunica está alternando entre a vontade de ser ouvido, a de querer influenciar e de ser aceito em sua forma de expressão. “Comunicar, portanto, não é apenas produzir informação e distribuí-la, é também estar atento às condições em que o receptor a recebe, aceita, recusa, remodela, em função do seu horizonte cultural, político e filosófico, e como responde a ela” (WOLTON, 2006, p. 16).

Diante desse amplo ambiente que evolve a comunicação, Wolton (2006, p. 15) também aborda a complexidade desse processo que envolve a dimensão normativa que “remete ao ideal da comunicação: informar, dialogar, compartilhar e compreender-se” e a funcional, ou seja, aquela que justifica a relevância e a importância que algumas informações têm para a boa relação na sociedade e entre as pessoas.

Todos os aspectos referentes à comunicação apresentados até o momento, a partir de diferentes autores, nos revelam que, do ponto de vista social, o quanto a comunicação é fundamental no processo de interação entre os indivíduos, da mesma forma que estabelece vínculos e favorece a difusão da cultura. Sem comunicação o que seria da cultura? Sem a comunicação o que também seria da identidade? Como estabeleceríamos relações com outras pessoas e exerceríamos a nossa liberdade de expressão, se não nos colocarmos diante dos riscos que o processo de comunicação nos oferece? Sabemos que calar não é possível, pois

todos os indivíduos são estimulados a interagir com os demais o tempo todo, mesmo que essa interação ocorra independente da palavra, mas pelos gestos, danças e comportamentos.

Sim, quando comunicamos temos a intenção de influenciar ou interferir na realidade de alguém, como já nos disseram Gustavo Barbosa e Carlos Alberto Rabaça (2001). No entanto, de nada adianta essa intencionalidade se não sabemos quais mecanismos usamos para nos comunicar, ou quando não consideramos a importância de reconhecer o outro e sua participação no processo de comunicação, como nos mostra Dominique Wolton (2006). O autor também destaca a relação da comunicação com os fatores históricos, assim como Barbosa e Rabaça, para mostrar que o processo de comunicação não está relacionado apenas aos mecanismos comunicacionais, mas também à forma como cada indivíduo aprende a se comunicar e gerar informação a partir da realidade em que está inserido.

Bordenave e González falam da importância da comunicação para a existência humana e do quanto esse recurso garante a vida em sociedade. No entanto, o fato de usar a comunicação para favorecer a existência não garante a qualidade da interação entre os interlocutores. A falta de entrosamento entre aqueles que se comunicam pode provocar uma série de transtornos no processo de comunicação de um grupo, favorecendo a incomunicação.

Juan Díaz Bordenave (1984, p. 16), no livro “O que é comunicação”, aborda brevemente a incomunicação ao relacionar esse aspecto comunicativo com a influência dos meios de comunicação, em especial a TV na vida dos indivíduos. Segundo ele, “as pessoas se ‘incomunicam’ entre si para comunicar-se com a fantasia”. O pesquisador classifica os pequenos grupos envolvidos em torno de eventos de pequena proporção como microambientes de comunicação e cita como exemplos “o papo no escritório, a festinha de aniversário, o casamento, o velório e o piquenique, o mutirão e a missa”.

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