• Aucun résultat trouvé

A presente pesquisa tem como quadro de referenciamento teórico a perspectiva Sócio- Histórico-Cultural de abordagem a fenômenos psicológicos, tal qual proposto pelo grupo soviético liderado por L. S. Vygotski (1991). Esse referencial nos serviu para o enquadre de objetos de pesquisa na Psicologia como um todo, bem como na Psicologia do Trabalho, notadamente através das contribuições de Vygotski (1991) e Leontiev (1979), no que diz respeito à proposta da atividade como unidade de análise da psicologia, e por extensão, da atividade laboral. Tal conceito de atividade é retomado por outra importante base teórica utilizada para interpretação de alguns fenômenos encontrados nos resultados desta pesquisa, qual seja, a Clínica da Atividade (Clot, 2010). Suas contribuições teóricas foram aqui especificamente utilizadas para efetuar recortes de análise sobre aspectos referentes a coletivo, gênero profissional e estilização das práticas na atividade laboral do vendedor ambulante e subsidiaram também a definição do percurso metodológico.

Ainda em termos de delimitação teórica e metodológica e articulando-se às supracitadas perspectivas, adotou-se como referencial para análise e interpretação das competências a abordagem francesa, representada aqui principalmente pelas contribuições de Phillipe Zarifian (2001) e complementarmente por Guy Le Boterf (2003) e Phillipe Perrenoud (1999). Essa linha de pensamento se situa em consonância com os pressupostos da abordagem histórico-cultural vigotskiana à medida que compreende a competência como fenômeno mobilizado diante de situações concretas de trabalho, que por sua vez está orientado por parâmetros socioculturais e históricos. Assim, admite um vínculo entre competência individual e contextos, espaços e tempos sócio-histórico-culturais, conferindo importância, de forma conjunta e sistêmica, às potencialidades do trabalhador, às demandas concretas da

atividade laboral e às competências coletivas, distanciando-se da visão estritamente cognitivista desse fenômeno.

Essas três bases teóricas, portanto, orientam conjuntamente as análises e caminhos metodológicos empreendidos e se articulam entre si pelo referencial comum da atividade como nível de análise. Tais operadores teóricos são aqui mobilizados para a abordagem da relação do homem com sua atividade laboral, no que diz respeito ao desenvolvimento de estratégias para consecução de objetivos e superação de obstáculos, recursos, habilidades, inteligências práticas do dia-a-dia em contexto de trabalho. Assim, entende-se que o desenvolvimento humano se dá através da atividade mediada oriunda do processo de

socialização, processo este que não é apenas um “pano de fundo” para tal desenvolvimento,

mas sim aspecto fundamental e determinante no tornar-se humano (Bernardes, 2010).

Consoante essa abordagem, parte-se da premissa fundamental de que as funções psicológicas superiores (sobre as quais se apoiam as competências) são construídas nas interações entre os sujeitos, sendo todas as suas dimensões – composição, estrutura genética e modo de funcionamento – de caráter fundamentalmente social (Vygotski,1991). Seguindo esse caminho teórico, compreende-se o desenvolvimento das competências no âmbito da atividade.

5.1. A atividade como nível de análise

Parte-se aqui de uma perspectiva de trabalho como atividade criativa, que pode se desenvolver fora das condições rígidas de assalariamento e da realização mecânica de tarefas. Foca-se nas situações de trabalho cotidianas, que demandam improvisos, formas de trabalhar que fogem ao habitual e requerem a utilização de uma inteligência prática para resolver problemas. Portanto, assume-se nesse estudo a atividade enquanto unidade de análise. Tal análise inclui tanto o que o indivíduo executa visivelmente em seu trabalho, o modo como faz,

por que faz daquela maneira e até mesmo o que ele não faz, mas gostaria de ter feito (Osório, 2007).

Ainda na perspectiva vigotskiana, assumimos que o trabalho é constituído por diversas dimensões, a saber (Diolina, 2011; Vygotski, 1991):

I) É pessoal, já que abarca o trabalhador por completo em seus diversos níveis – físico, mental, emocional...;

II) É mediado por instrumentos, sejam estes materiais (no caso do ambulante, pode ser o carrinho de mão, o isopor, o varal de pendurar os produtos) ou simbólicos (pensar sobre como organizar sua atividade, planejar seu dia de trabalho baseado nas dificuldades que pode encontrar ou na meteorologia);

III) É interacional, pois quando o trabalhador age sobre o ambiente servindo-se de seus recursos e instrumentos ele modifica esse meio e adapta os instrumentos à sua ação – o homem transforma o alvo de sua ação (o meio e os recursos) e é por estes transformado.

IV) É interpessoal, visto que supõe a interação com outros envolvidos na execução das atividades, de forma direta ou indireta;

V) É transpessoal, pois a ação do trabalhador está atravessada pelos modos de fazer específicos de uma categoria profissional, construídos ao longo de sua história; VI) É impessoal, porque baseado em prescrições e normas que passam a se aplicar

para um coletivo de trabalhadores, inseridos numa sociedade com sua cultura e história.

Considerando-se tais dimensões, conclui-se que o trabalho é realizado por pessoas, visando ou envolvendo outras pessoas, em distintos contextos históricos e ambientes, mediado por instrumentos e baseado em modos de ação construídos e reconhecidos por um gênero profissional. Assim é que, de acordo com Clot (2007), o trabalho configura-se como

uma “atividade triplamente dirigida”: “dirigida pelo sujeito, para o objeto e para a atividade dos outros, com a mediação do gênero” (p. 97).

Tal gênero profissional refere-se a um sistema de normas não formalizadas que delimitam o uso dos objetos e a relação entre os sujeitos, um código de práticas comum ou regras coletivas construídas entre trabalhadores que compartilham uma mesma categoria ocupacional, permitindo ao trabalhador conhecer os modos de agir dela (Clot, 2010). Tal gênero também comporta o estilo pessoal que cada trabalhador imprime, num movimento de sair do curso das regras e firmar sua marca pessoal, seus recursos para agir diante da atividade real, o que ao mesmo tempo contribui para o aperfeiçoamento daquele gênero (Clot, 2007).

A análise empreendida nesta pesquisa não se limita a identificar as competências através do mapeamento e descrição dos invariantes da ação contidos em esquemas mentais (como tradicionalmente se fazia na abordagem piagetiana), mas sim compreender os mecanismos de desenvolvimento da atividade dos vendedores frente às demandas, rotinas e obstáculos enfrentados no cotidiano. Presume-se que tal metodologia permite ao pesquisador reconhecer, através do acesso à atividade, as diversas competências mobilizadas. Desse modo, realiza-se aqui um movimento teórico-metodológico que contempla uma abordagem dialógica em psicologia das competências cognitivas humanas, tratando-se de “um movimento em

direção a uma abordagem psicológica fundada em processos de desenvolvimento” (Da Rocha