B. Les personnages
4. Des commentateurs impliqués
Os valores δ13C mais enriquecidos da camada superficial dos perfis das regiões Sudeste e Nordeste podem estar associados ao uso do solo no período pós- colonização européia, ao longo dos últimos anos. Esses valores caracterizam a vegetação de cobertura atual, que varia, dependendo da área, de Floresta Tropical à Transição Floresta Tropical/Cerrado e Cerrado Sensu Stricto.
Os resultados da composição isotópica obtidos neste estudo indicaram, para a base do horizonte A húmico (120-150 cm), mistura de plantas C3 e C4 desde ~10.000 - 6.000 anos AP, na maioria dos perfis da região Sudeste. Esses valores indicam a presença de um clima mais seco que o atual, pois sugere aumento na contribuição de plantas C4 (Poaceae), passando para uma vegetação mais aberta, mais parecida com a vegetação de cerrado. O P3 apresentou essa condição de mistura de plantas, na base do horizonte húmico, a partir de ~10.000. Esses resultados são corroborados por estudos isotópicos realizados em Minas Gerais e São Paulo (MARTINELLI et al., 1996;
96
PESSENDA et al., 1996a, b, 1998a; GOUVEIA et al., 1999, 2002) que indicaram a presença de Poaceae desde ~11.000 até ~4.000 anos AP (PESSENDA et al., 1996a, b, 1998a; GOUVEIA et al., 1999, 2002), associada à ocorrência de um clima mais seco que atual (PESSENDA et al., 2005).
O P5 e P8 apresentaram resultados que sugerem uma vegetação composta, predominantemente, por plantas C3, indicando clima úmido a partir de ~6.000 anos AP.
O empobrecimento apresentado nas camadas mais superficiais, a partir de 50-30 cm, sugere o estabelecimento progressivo de uma formação mais florestada, provavelmente em decorrência de um clima mais úmido, semelhante à atual. As datações sugerem que essa condição pode ter se instalado a partir de ~3.000 anos AP - ~2.500 anos AP. De acordo com Pessenda et al. (2005) essa mudança foi observada no estado de São Paulo (região de Anhembi, Botucatu e Piracicaba) por volta de 3.000- 3.500 anos AP, sendo reconhecida também por outros autores que registraram a formação de florestas em outras áreas das regiões Centro-Oeste e Sudeste, entre 5.000 e 1.000 anos AP (LEDRU, 1993; PESSENDA et al., 1996.a, b, 1998; BEHLING; LICHTE, 1997; BEHLING, 2002; GOUVEIA et al., 2002).
Behling, Bauermann e Neves (2001) relatam que é provável que no Holoceno superior tenha ocorrido a expansão da Floresta de Araucária nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, sugerindo um período muito úmido e frio. A análise fitolítica realizada no perfil P3 (discutida nos próximos capítulos) identificou a presença de morfotipos produzidos por Araucariaceae (Araucária) entre 60-30 cm de profundidade, corroborando a possibilidade de clima mais frio na região entre Salitre (LEDRU, 1993) e Machado, Minas Gerais.
O P29 não apresentou variação isotópica significativa, e os valores apresentados sugere vegetação florestada ao longo de todo o perfil. Neste perfil não foram realizadas datações. Desta maneira, torna-se inviável qualquer tentativa de correlação temporal dos valores de δ13C. Os poucos estudos paleoambientais realizados na região Nordeste sugerem, de modo geral, uma fase de clima úmido entre 10.000 e 7.000 anos AP e a instalação de uma vegetação de cerrado entre 7.000 anos AP e o presente, atestando a instalação de um clima semelhante ao atual (De OLIVEIRA, et al., 1999; LEDRU, et al., 2001. PESSENDA et al., 2002c; 2004; 2005).
97 As áreas onde os Latossolos com horizonte A húmico são encontrados na região Sudeste poderiam então, ser consideradas “relictuais”. Essas áreas preservariam no horizonte húmico, característica climática pretérita mais seca e, por vezes, mais fria que a atual que teria favorecido o desenvolvimento de uma vegetação provavelmente mais aberta, com maior contribuição de plantas C4 que a atual com maior incorporação e menores taxas de mineralização da MOS.
Na região Sul, a análise dos valores δ13C apresentados indica que a base do horizonte húmico (110-100 cm) se formou sob vegetação formada predominantemente por plantas C4, sugerindo a existência de áreas de vegetação aberta dominada por Poaceae (campos) (PESSENDA et al., 1996b; 2004), associada a um clima mais seco que o atual, desde ~6.700 anos AP. Neste mesmo período, conforme discutido anteriormente, o clima na região Sul teria sido mais seco do que no Sudeste (BEHLING, 2002; BEHLING et al., 2001; GOUVEIA et al., 1999, 2002; GOUVEIA, 2001; PESSENDA et al., 1996b, 2004, 2005;).
O empobrecimento observado nos 50 cm superficiais caracteriza uma vegetação com maior contribuição de plantas C3, marcando a expansão de uma vegetação mais fechada. Os registros fitolíticos, discutidos no Capítulo 5, apresentaram forte presença de elementos arbóreos e arbustivos (Dicotiledoneae) e de Araucariaceae (Araucária) nos primeiros 50 cm do perfil. Desta forma a partir dos resultados isotópicos apresentados para o Sul do Brasil é possível inferir que nas áreas de estudo a expansão da Floresta Subtropical mista com Araucária. A expansão da floresta de Araucária esta associada a um período muito úmido a partir de 3.000 anos AP nas regiões Sul e Sudeste, sugerindo condições climáticas mais frias do que a do período anterior (BEHLING, 1997, 2007; PESSENDA et al., 2004).
Nos Lh constata-se forte atuação da fauna do solo na redistribuição dos materiais ao longo do perfil por meio da abundante ocorrência de pedotúbulos (MIKLÓS, 1993). As linhas e fragmentos de carvão encontrados entre 60-10 cm, muito comuns na maioria dos perfis, sugerem maior freqüência de incêndios (GOUVEIA, 2001; GOUVEIA et al., 1999, 2002) por volta de ~4.000 anos na região Sudeste. A maior concentração de fragmentos de carvões pode estar associada à elevada porosidade do solo, que favorece a queima de raízes em profundidade, e à estabilidade e a estrutura
98
forte do solo, sem ciclos de expansão e contração que poderiam fragmentar os carvões maiores (GOUVEIA; PESSENDA, 2000). Nos perfis da região Sudeste a atividade biológica é mais abundante e pode explicar o fracionamento e soterramento dos fragmentos de carvão por meio de remonte de material da base do perfil (BOULET et al., 1995; GOUVEIA; PESSENDA, 2000), formando as linhas de carvão encontradas, sobretudo naqueles perfis em que o horizonte húmico é muito espesso e mais antigo (P3, P5 e P30).
Não foram encontrados fragmentos de carvão nos perfis estudados na região Sul, diferindo, neste aspecto, das demais regiões. A ausência (ou baixa freqüência) de carvão pode estar associada à menor ocorrência de incêndios no passado e a menor quantidade de elementos arbóreos produtores de carvão.
Os resultados mostram claramente que o horizonte húmico, nas diferentes áreas estudas, apresenta sinal isotópico de uma MOS derivada de uma vegetação mais aberta associada a um clima mais seco que o atual, sobretudo na região Sul, onde se constatou predomínio de plantas C4, desde o Holoceno médio.
Martin et al. (1997) explicam que as mudanças climáticas sugeridas para o final do Pleistoceno (~10.000 anos AP) podem ser decorrentes do deslocamento para o norte da Zona de Convergência de Inter-Tropical (ITCZ), tornando as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil mais secas do que atualmente. Nesse período o planeta estaria mais próxima do Sol durante o inverno e mais distante no verão, resultando em verões mais frios, invernos mais quentes e reduzindo a sazonalidade no Hemisfério Sul.
3.3 Considerações Finais
Os valores δ13C mais enriquecidos registrados na base do horizonte A húmico sugerem vegetação mais aberta, com maior participação de plantas C4, associada a um clima mais seco e frio do que o atual, na maioria das áreas de estudo, durante o Holoceno médio e inferior, quando teria se iniciado a acumulação da matéria orgânica e espessamento desse horizonte.
Os fragmentos de carvão, praticamente ausentes na região Sul e muito comuns na maioria dos solos da região Sudeste, é uma indicação de que as áreas foram afetadas
99 por incêndios, provavelmente, relacionados aos períodos mais secos no Holoceno médio.
O arranjo dos carvões em linha pode ser reflexo da atividade biológica (remonte biológico), abundante nos perfis do sudeste, especialmente nos perfis em que o horizonte húmico é muito espesso e apresentam idades maiores.
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