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4.1. INTRODUCTION AU PROCESSUS DE CONCEPTION

4.1.4. DEMARCHE INDUCTIVE

Como vimos anteriormente, o fazer do editor o constitui como um sujeito (um terceiro actante) observador e julgador, que imprime seu olhar ao texto, de modo a direcionar o olhar do leitor sobre a obra. Na instância do texto-enunciado, o fazer interpretativo do editor (ora enunciador) está diretamente ligado a seu fazer persuasivo em relação ao leitor (então enunciatário), em nível enunciativo.

Os processos de interpretação, persuasão e manipulação, sobre os quais já comentamos (Seção “Enunciação e contrato no texto epistolar psicográfico”), encontram-se atrelados ao estabelecimento do contrato fiduciário ou de veridicção que envolve os fazeres

veridictório (pela inscrição de marcas que permitem ao enunciado

ser lido como verdadeiro/falso ou mentiroso/secreto), epistêmico (que envolve a interpretação do teor veridictório do enunciado, pelo enunciatário) e fiduciário (que leva à adesão afetiva do enunciatário) (Sobral, 2005).

Sabe-se que o contrato fiduciário só pode ser estabelecido a par- tir do cumprimento dessas três etapas, por meio de um fazer-crer (e, posteriormente, de um fazer-fazer, de caráter manipulatório) exercido pelo enunciador em relação a seu enunciatário. Como con- sequência desses fazeres, temos a geração de efeitos de sentido de “verdade”, “autenticidade” e “realidade”.

Na busca por compreender essas relações é que abordaremos os reflexos da prática editorial no nível do texto-enunciado, conside- rando o fazer do editor nas cartas psicografadas por Chico Xavier.

Tomamos por objeto de análise uma carta (Anexo DI) publicada no livro Somos seis (Xavier, 1976, p.150-65), atribuída ao espírito Jair Presente e acompanhada de dois comentários estendidos, que o editor denomina de o “caso Irineu”. Pelos recursos e intervenções editoriais a ela aplicados, essa carta pode ser considerada um exem- plo bastante produtivo para a análise do fazer editorial, sob o ponto de vista semiótico.

Sem destoar da configuração “típica” do gênero psicográfico epistolar, a carta traz as mesmas configurações das outras que ana- lisamos no capítulo 3 deste livro, motivo pelo qual não nos ateremos integralmente a ela, que será tomada apenas como referência para os comentários do editor. O que nos interessa, de fato, é o texto edito- rial, ao qual ela se integra, produzindo novos sentidos.

O comentário estendido intitulado “A presença do Jair” situa o leitor sobre a carta de 19 de julho de 1975, em que o autor espiritual, entre os diversos pedidos de recados consoladores aos familiares, que recebia frequentemente de outros “desencarnados”, deveria transmitir o de um rapaz chamado Irineu Leite da Silva. Segundo Jair, ele havia presenciado o sepultamento de Irineu no ano anterior:

Aqui está conosco o Joãozinho Alves e pede aos pais aquela con- fiança em Deus que não desanima; ele está melhor e mais forte. E outro amigo aqui ao lado de seu adoidado irmão é o amigo Irineu Leite da Silva, um moço do fino que vestiu o paletó de madeira em sete de junho passado. Estava eu entre aqueles que trabalhavam no Parque dos Flamboyants quando ele foi considerado de sono eterno. Mas acordou junto de nós e está bem; pede para que os pais Sérgio e Rita se consolem.

O pedido é comentado pelo editor como curioso, porque nem a família do presumido autor-falecido, nem o médium ou o público presente à reunião de 19 de julho de 1975 conheciam ou ouviram

falar de Irineu. Com a identificação do cemitério, localizado na cidade de Campinas, SP, e dos nomes dos pais de Irineu, a irmã de Jair, Sueli, decidiu investigar a informação recebida, procedendo a uma série de averiguações, até a solução do caso:

[...] após o recebimento da mensagem, a irmã de Jair Presente, Sueli, procurou localizar a família do jovem Irineu, já que nenhum dos presentes à reunião de Uberaba o conhecia.

Voltando a Campinas, telefonou ao Administrador do Parque Flamboyant, Renato Manjaterra, pedindo-lhe que verificasse se no dia 7 de junho ou no dia seguinte havia o registro do sepultamento de Irineu Leite da Silva. Consultando os apontamentos, o Sr. Renato disse que não havia nada a respeito de Irineu.

Como, pensou Sueli, Jair teria se enganado? Será que o Irineu não existia? Para dirimir dúvidas começou a investigar pelos jornais da época e eis que o Correio Popular, em sua edição de 8 de junho de

1975, notifica o falecimento de Irineu Leite da Silva, citando o nome

de seus pais, Sérgio e Rita e falando do sepultamento no Parque Flamboyant.

De posse do recorte do jornal, que reproduzimos adiante, Sueli procurou o administrador do cemitério e mostrou-lhe a notícia. Surpreso, Sr. Renato voltou aos apontamentos e pôde constatar que nada encontrara a respeito de Irineu, porque o seu primeiro nome havia sido escrito errado. No diário de sepultamento constava

a 8 de junho o nome de Pirineu Leite da Silva e não Irineu. Engano

perfeitamente compreensível, pois no diário, segundo nos explicou o Sr. Manjaterra, os nomes são anotados inicialmente por informa- ção telefônica, para posteriormente, de posse da certidão de óbito, transcrever-se no Livro de Registro todos os dados referentes ao sepultamento.4

Configurado o engano ocorrido do cemitério, com o nome do morto (que figurava corretamente na carta psicografada) e tendo

dado o caso por resolvido, o editor desempenha um papel de des- tinador-manipulador, imprimindo seus valores ao discurso. Assim define ele o caso:

Aparentemente incompreensível, se não o entendermos à luz do

conhecimento espírita, é o fato de Jair ter falado no nome correto de

Irineu, quando no próprio cemitério seu nome estava escrito errado. Condicionando a possibilidade de entendimento do fato narrado à crença no “conhecimento espírita”, o editor desempenha, ainda, um fazer interpretativo e persuasivo, a partir da mobilização de recursos de edição que conferem os efeitos de “verdade”, “realidade” e “autenticidade” ao texto. Com a agregação de elementos de forte caráter veridictório, o editor-enunciador leva o leitor-enunciatário a aderir ao contrato fiduciário, por meio de um crer:

A seguir reproduziremos cópias de documentos que exemplificam

o exposto. Assim, o leitor poderá analisar a publicação do Correio Popular, de 8 de junho do ano passado, que serviu de ponto de refe-

rência, para Sueli desvendar o equívoco, criado com a informação do administrador do Parque Flamboyant. Adiante reproduzimos também a página do livro de anotações diárias do cemitério, com o

nome Irineu rasurado, podendo-se observar claramente a correção feita a posteriore [sic].

Para complementação do estudo do “caso Irineu” apresentamos ainda a página do Livro de Registro Geral de sepultamentos, com o nome correto, baseado na certidão de óbito, e um fac-símile da certidão de óbito, para que se confrontem os dados referidos pelo Jair na mensagem, ou seja, o nome completo do Irineu, o nome dos seus pais, o dia do óbito e o local do sepultamento.5

O fazer persuasivo dá-se, assim, pela comprovação documental (Anexo D – 2), que estabeleceria um efeito de “autenticidade” da

narrativa. Discursivamente, tal estratégia resulta na afirmação do caráter de “autenticidade” e “verdade” da teoria espírita, como única perspectiva para se compreender o fato apresentado. A mesma orientação discursiva (doutrinária) pode ser vista nas cartas psico- grafadas, a despeito da intervenção do editor que, no entanto, reforça e ressignifica o texto, pela prática de edição, transpondo-o (em um movimento de integração descendente) para o nível de pertinência do objeto (o livro) e inserindo-o, assim, no âmbito editorial.

Retomemos, pois, no capítulo a seguir, o nível de pertinência do texto-enunciado, nosso ponto de partida para a compreensão da carta psicografada como objeto semiótico.