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ANALYSE ET POSITIONNEMENT DES METHODOLOGIES D'ÉCO-CONCEPTION

Sobre o autor espiritual

Lauro Basile Filho, “Laurinho”, é descrito como um rapaz de “gênio especial, muito brincalhão [...] com uma capacidade de invenção fora de série, de grande inteligência, sempre notado por todos” (BASILE, 1993, p. 15). As palavras generosas são de sua mãe, que se tornou editora das cartas atribuídas ao filho, ao coletá-las, organizá-las e comentá-las por sua própria iniciativa, como forma de lidar com a dor da perda.

Laurinho nasceu em 17 de março de 1958, em Casa Branca (SP) e faleceu em 12 de dezembro de 1976, aos dezoito anos, num acidente automobilístico, quando voltava, com amigos, de uma festa na cidade de São João da Boa Vista (SP). À época, o jovem era estudante de Serviço Social.

As cartas atribuídas a Laurinho, escritas por Chico Xavier seis meses depois de sua morte, são marcadas por uma linguagem afetuosa, predominantemente coloquial, que oscila entre o tom grave e o brincalhão com que narra suas descobertas, saudades, reminiscências e a experiência de se adaptar a uma “nova vida”. Passaremos, então, à análise de suas cartas, datadas de 16 de julho de 1977, e 08 e 18 de abril de 1978.

Análise das cartas de Laurinho Basile

Carta de 16 de julho de 1977

A primeira carta (ANEXO C, carta I) atribuída a Laurinho Basile apresenta uma narrativa bastante concisa, em relação à maioria das cartas. Nela, entrevemos o simulacro de um sujeito-remetente fragilizado e incipiente na escrita mediúnica, na mesma proporção de sua adaptação à realidade espiritual:

Estou ainda como quem se vê debaixo de uma névoa de lágrimas e ainda não consigo raciocinar com segurança.

Meu avô João Basile me trouxe aqui a meu pedido para dizer- lhes que vou melhorar mais depressa se me auxiliarem com a fé em Deus.

[...] Agradeço as orações e votos que me dirigem, mas preciso ficar forte. Não posso escrever mais [...]

O seu percurso é marcado por um programa narrativo de consolação, pressuposto pelo programa de uso de comunicação; é preciso que ele consiga se comunicar (ainda que por meio de um adjuvante, o “avô”), para consolar o seu sujeito-destinatário, a mãe:

Mãezinha, eu não vim para cá fora das Leis de Deus. Ninguém teve culpa no carro de encontro à arvore.

A morte, que não depende de nós, não é de nossa culpa.

Os pedidos de preces e resignação à mãe e aos familiares se constituem, discursivamente, enquanto valores próprios do universo doutrinário espírita:

Tive permissão para vir até aqui pedir à senhora para que não chore tanto. Peço à senhora e à mãe Lourdes me ajudarem a ficar mais calmo.

À Selma rogo pedir às nossas queridas Rachel, Yolanda Lucila a mesma coisa.

O texto apresenta um repertório restrito de estratégias de veridicção, de forma a obter a adesão do enunciatário ao contrato fiduciário. Entre os recursos observados, estão o uso de antropônimos e um número reduzido de informações compartilhadas entre enunciador e enunciatário, de baixo teor persuasivo.

Carta de 08 de abril de 1978

A carta de 08 de abril de 1978 (ANEXO C, carta II) nos mostra um sujeito cujo programa narrativo de base é o de comunicar-se com os familiares. Seus programas de uso consistem em agradecer (à mãe, à família), identificar- se (afirmação da identidade) e transmitir recados a outras mães. O simulacro

de remetente se dirige à mãe (“Querida Mãezinha Priscilla”), enquanto destinatária.

O programa narrativo de “identificação” tem uma dupla implicação: ao identificar-se, o sujeito-destinador exerce um fazer persuasivo (fazer-crer) sobre o sujeito-destinatário; é necessário que ele se identifique para que seu destinatário creia na existência da vida após a morte: “É preciso mostrar que a morte já era. Estamos vivos e aprendendo a dominar-nos como é preciso”.

Sob o simulacro de Laurinho, o sujeito-remetente é movido pela gratidão; é por ela que suas emoções emergem:

Queira dizer tanto. Mas as emoções são longas. E as frases parecem tintas para decoração limitada. Não sei o que dizer. Que estou feliz? Isso é verdade, mas não estou apenas feliz. Estou reconhecido. Grato ao seu amor, à dedicação do meu

pai, ao carinho da turma toda [...] Deus recompense seu

carinho. Carinho, sobretudo, na adesão a todos os empreendimentos de seu filho [...] Agradeço todo o amor que a sua dedicação situou em derredor de notícias.

A partir das emoções, o sujeito-remetente (destinador) passa a resgatar sua memória (“Tudo está revivendo em mim”). As recordações da morte trazem, junto de si, referências de teor veridictório e explicações que visam a confortar o seu destinatário.

É verdade. Deixei o corpo, num choque entre dois gigantes, um Maverick e um eucalipto de força notável. Mas nem um nem outro me impuseram a demissão do carro físico. O

velocímetro é que estava numa temperatura de febre. Mas o motorista igualmente não teve culpa [...] Tudo está bem. Não há motivos para lágrimas, porque estamos todos trabalhando

pela melhora total.

O caráter consolador veiculado pelas “explicações” acerca do acidente encontra-se, aliás, atrelado à orientação discursiva espírita. Contribuem para uma adesão efetiva/afetiva do destinatário ao discurso: “As notícias da

imortalidade são realmente importantes. Muitos pais e mães de agora não

estão compreendendo os filhos quando trazidos para cá. É preciso mostrar que

A memória, enquanto procedimento discursivo, é um recurso recorrente na narrativa de “Laurinho”, mostrando-se como um artifício bastante eficiente, uma vez que propicia o estabelecimento do contrato fiduciário entre enunciador e enunciatário. A utilização intensiva da ancoragem discursiva, por meio de referências a pessoas (antropônimos), espaço (topônimos) e tempo (cronônimos) atua na geração de efeitos de sentido de verdade, ao possibilitar que enunciador e enunciatário passem a compartilhar um mesmo horizonte de valores e saberes.

A nomeação de outros “companheiros” e a transmissão de recados prestam-se, simultaneamente, ao reforço do caráter veridictório do discurso. Por permitir a instauração de um actante coletivo (destinatários além da “mãe”, a quem o remetente-espírito se dirige), amplia-se a dimensão do fazer- persuasivo:

Estamos aqui, Evaldo, José Tadeu e eu mesmo, moços que se estragaram ou se refizeram com atritos de máquinas [...] Aqui temos muitos companheiros, mas não posso nomear a todos. Preciso porém satisfazer ao desejo de um rapaz de

nome Nelson que pede seja comunicado à sua Mamãe Sebastiana de Mello Oliveira aqui presente que ele se acha

em companhia do pai Olavo. Um notável menino e moço de

nome Maurício pede para que se responda ao coração

materno que chama insistentemente por ele, que a mensagem dele nesta noite se chama: - Um beijo para você Mamãe. Ele se refere ao nome da progenitora que é D. Alexandrina Xavier

Vieira [...] Muita gente deseja falar [...]

O tempo, entretanto, constitui-se como oponente em relação a esse programa de uso: “Muita gente deseja falar, mas precisamos inventar um

relógio novo. O problema é que podemos inventar um novo conta-vida, mas o tempo é de Deus e o que é de Deus ninguém muda”.

Podemos observar a adoção de um registro predominantemente informal da língua, marcado pela coloquialidade, com a utilização de expressões cristalizadas (“a morte já era”; “vamos tocando o barco”) e a quase inexistência de gírias (“Querida Barata, a senhora é o mais precioso Barato do mundo” – “barato”, por sinal, é utilizado como trocadilho).

Sob o simulacro de Laurinho, o sujeito apresenta-se como um ser “adaptado” ou, ao menos, resignado (“Tudo está bem”), em franca adaptação a

um novo tipo de vida (post-mortem) e feliz (ou, ainda, satisfeito pela oportunidade de se comunicar, de entrar em conjunção com a família). É possível entrever um sujeito motivado pela gratidão e, ao que parece, realizado em seu programa de base.

Carta de 18 de abril de 1978

Na carta de 18 de abril de 1978 (ANEXO C, carta III), o simulacro de Laurinho como remetente se dirige ao destinatário “pai” (“Meu Querido Kid, peço a sua bênção. Hoje o assunto será propriamente conosco”).

Vemos um sujeito cujo percurso compreende comunicar-se (com os familiares) e consolar (“Não é muito tarde para o nosso rango [...] mas hoje sou eu quem se encarrega da merenda. Um lanche espiritual em que peço a Deus me auxilie a servir-lhe muito amor”), como programas de base. A gratidão, como motivo, permanece presente desde a narrativa (carta) anterior, gerando um efeito de coerência em nível discursivo:

Agradeço ao senhor e a Mamãe e a todos os nossos, as

lembranças da religião em nosso auxílio. As preces que fiz em criança a Nossa Senhora das Dores não foram vãs. Soubesse eu o valor da prece e teria cultivado com mais calor os meus contatos com a fé [...] Agradeço aos amigos que acompanham o senhor e a mamãe, com a nossa Lucila até aqui.

***

[...] meus sentimentos, respeito e gratidão para com o seu amparo mais me parecem uma cachoeira de amor represada no espírito.

À gratidão, entretanto, une-se à saudade como motivo paralelo:

Saudade, papai, está em minha nova onda. Saudade iluminada de esperança e carinho, mas saudade real que parece uma dor alugando-me indefinidamente o coração. E

creia. Nessa carência de sua ternura e de sua palavra estão as reminiscências.

Estabelece-se, assim, novamente a isotopia temática da saudade. Disforicamente, a saudade é equiparada à “dor”. Já em seu polo eufórico, é “luz”, “esperança” e “carinho”. Resultante da disjunção espaço-temporal entre dois seres, constitui-se como elemento de conjunção afetiva: “Nessa carência de sua ternura e de sua palavra estão as reminiscências”.

É, portanto, no plano da memória que o sujeito-remetente pode resgatar o seu destinatário, reconstruí-lo de fragmentos de sentido, que recolhe e reintegra, instaurando um campo de presença em que podem, finalmente, coexistir.

Despertadas pela saudade, as lembranças emergem num ritmo contínuo, resultando em um efeito de sentido que remete ao fluxo do pensamento:

Lembro-me de todas as suas manifestações de vigilância e

bondade. Os conselhos para estar com prudência nos estudos em Mococa. As referências a Santa Cruz das Palmeiras que um dia o Senhor nos disse chamar-se igualmente Santa Cruz dos Valérios. As histórias das aulas no Grupo Dr. Carlos Guimarães. As anotações que o senhor enfileirava para nós em casa em relação aos exemplos de amor ao próximo do respeitado Dr. João Batista do Amaral [...] E tudo se desenrola de tal modo na memória do seu Laurinho, que em verdade meus sentimentos, respeito e gratidão para com o seu amparo mais me parecem uma cachoeira de amor represada no espírito.

Enquanto estratégia de veridicção, a memória é explorada exaustivamente. Em nível discursivo, a narrativa recobre-se de abundantes referências e índices, essenciais ao fazer-persuasivo do sujeito-destinador. Por meio do compartilhamento de valores e saberes, o enunciador propõe o contrato fiduciário ao enunciatário. No entanto, a adesão deste último depende diretamente da sua “identificação” com o horizonte axiológico do primeiro. A mobilização da afetividade, promovida por essa estratégia, contribui significativamente para a adesão do enunciatário ao discurso do enunciador.

Na narrativa, comunicar-se e consolar, enquanto programas de base, configuram-se como faces de um mesmo fazer – o fazer-crer. Todavia, ambos pressupõem outro programa, essencial para a sua concretização: um programa de uso de “identificação”. Sem que o sujeito-remetente se faça reconhecer (por

meio das estratégias já comentadas) pelo destinatário, o contrato de comunicação não pode ser estabelecido ou, mesmo, mantido.

O registro adotado oscila entre o formal e o informal. Há, naturalmente, a predominância da coloquialidade, muito embora possamos definir a linguagem utilizada como “polida”. Há poucas expressões cristalizadas, de uso informal (“é isso aí”; “na onda”) e a quase inexistência de gírias (“rango”).

É interessante notar que, após a execução dos programas narrativos, o sujeito-remetente permanece resignado, ainda que a disjunção com o objeto de valor (família) o torne um ser modalizado pela saudade (“Saudade iluminada de esperança e carinho”).

Caracterizado pela alegria, o sujeito atribui à comunicação mediúnica um valor eufórico (momento de “festa”), que não admite a tristeza (disforia): “Peço- lhe abolir a tristeza e aceitar a nova era que se inicia para nós. Estamos nesta noite numa festa maior. A festa dos irmãos de Jesus reunidos uns aos outros”.