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3.5. CONSTRUCTION DE LA BASE DE DONNEES

3.5.1. DEFINITION DU « VECTEUR DE COHERENCE »

Intensificada a partir da década de 1970, a publicação das cartas psicografadas pelo médium era feita por editores, mediante a auto- rização das famílias enlutadas. As cartas, reunidas em coletâneas, eram acompanhadas de informações provenientes de questionários que os editores aplicavam aos familiares dos “remetentes-falecidos”. Além de serem utilizadas para confirmar e especificar referências contidas nas cartas, tais informações também possibilitavam aos edi- tores delinear o perfil biográfico de cada “autor espiritual” (figura 4), bem como elaborar notas explicativas e comentários estendidos que permitissem ao leitor uma maior compreensão dos textos.

Figura 4 – Breve biografia do “autor espiritual” (comentário estendido). Foto: Grupo Espírita Emmanuel (Geem).

As mais importantes coletâneas epistolares de Xavier são Jovens

no além (1975) e Somos seis (1976) – best-sellers que atingiram tira-

gens de 173 mil e 124 mil exemplares, respectivamente, no ano de 2010 – organizados e comentados por Caio Ramacciotti, editor do

Grupo Espírita Emmanuel – Geem (Apêndice A). Entre os princi- pais editores das cartas de Chico Xavier estão, além de Ramacciotti, Elias Barbosa e Hércio Marcos Cintra Arantes, aos quais se deve, em grande parte, a conservação da obra epistolar do médium.

Como num exercício de “preencher lacunas”, os editores dedicavam-se à busca por restituir às cartas a sua situação de produção, completando e/ou complementando, por vezes, seu sentido. Desde o trabalho de seleção das cartas que comporiam as coletâneas até as inserções feitas por meio de notas explicativas (figuras 5 e 6) e comentários estendidos (figura 7) – textos mais longos, que pontuam “capítulos” nos livros de cartas – é possível acompanhar o fazer do editor cuja presença é perceptível ao longo de toda a obra.

Figura 5 – Notas explicativas.

Figura 6 – Notas explicativas.

Foto: Grupo Espírita Emmanuel (Geem).

Figura 7 – Comentário estendido. Foto: Grupo Espírita Emmanuel (Geem).

Assumindo o lugar de um “terceiro sujeito”, instaurado fora do texto, o editor narra o “universo paralelo” em que se situam as cartas, convertendo-as em um objeto mais amplo cujos regimes de sentido passa a coordenar e gerenciar (Schwartzmann, 2009, p.106). No caso das cartas psicográficas, sua conversão de objeto “particular” em um objeto de interesse “coletivo”, realizada pelo editor, passa por esse fazer pragmático-cognitivo, que envolve todas as etapas do fazer editorial.

Os critérios adotados pelos editores para a seleção e ordenação das cartas psicográficas eram, mais frequentemente, os de data- ção (seleção de cartas de um determinado ano/período), temática (seleção de cartas de jovens falecidos em acidentes, por exemplo) ou localização (seleção de cartas de autores de uma mesma cidade).

As coletâneas organizadas incluem, em sua maioria, elemen- tos de forte efeito veridictório, tais como fotografias dos falecidos (figura 8), fac-símiles de seus documentos pessoais e assinaturas, recortes de jornais (figura 9), entre outros, compondo objetos sincréticos. Esse sincretismo se dá tanto pelo encontro do texto- -enunciado (texto psicográfico epistolar) com o objeto-suporte (livro) quanto pela articulação de duas práticas distintas: a prática da psicografia epistolar e a prática de edição.

Figura 8 – Fotografia do “autor espiritual”. Foto: Grupo Espírita Emmanuel (Geem).

Figura 9 – Documentos e comentários pontuais. Foto: Grupo Espírita Emmanuel (Geem).

A respeito do sincretismo que ocorre no encontro entre uma produção textual e um suporte de inscrição, Portela (2008a, p.77) comenta que

De um lado, tem-se um texto que, tendo sido feito, especialmente ou não, para ser veiculado por um determinado suporte, tem, em si, uma significação autônoma. De outro, tem-se um suporte, que, produzido por uma prática histórica e corporal de leitura, ao acolher a produção textual, ao conferir-lhe uma espessura física, objetal, impõe-lhe coerções que não são, de forma alguma, desprezíveis. Ao ser submetido às coerções advindas tanto das práticas com as quais se articula quanto dos objetos em que se inscreve, o texto psicográfico assume outras significações, deixando de limitar-se ao âmbito de sua prática de base ou geradora – ocorrida no espaço do centro espírita e restrita aos familiares a quem inicialmente se destina – para integrar a prática editorial espírita.

Assim, o texto epistolar psicográfico, enquanto registro escrito, é reaproveitado na prática de edição, que o acolhe e o ressignifica,

incorporando-o a um suporte de inscrição de ampla circulação: o livro. O percurso da carta psicográfica, do centro espírita às edito- ras e destas ao público leitor, permite-nos compreender como uma alteração ocorrida no objeto-suporte do texto-enunciado reflete-se diretamente na modificação do tipo de experiência e, portanto, do nível de pertinência semiótica.

O livro, enquanto suporte, é composto de acordo com uma topografia que inclui os seguintes elementos: a capa, a contracapa, as orelhas e o miolo. Este último, mesmo sob as coerções de um índice ou de uma página de identificação, revela-se como “o espaço da liberdade por excelência da produção textual”, uma vez que impõe menos limitações ao texto como semiótica verbal (ibidem, p.78).

Vale ressaltar que os espaços de inscrição do discurso editorial, nas coletâneas de cartas psicográficas, não se restringem à capa, contracapa e orelhas dos livros, mas tomam lugar junto aos textos- -enunciados, em seu miolo, ao longo de toda a obra, em uma espécie de texto paralelo, sem o qual as cartas pareceriam demasiadamente vagas para o público leitor. Ora comentando o sentido de deter- minados trechos, ora complementando-os/completando-os com informações e materiais que seriam inacessíveis, de outra maneira, ao leitor, o editor constitui-se como um terceiro actante, um sujeito observador e julgador que imprime seu olhar ao texto, direcionando, por consequência, o olhar do leitor sobre a obra.

No caso das cartas psicográficas, é interessante notar como sua transposição da folha de papel manuscrita ao livro impresso permitiu uma ampliação de suas significações e possibilidades. Agregando ao texto outros elementos, ausentes no objeto carta psicográfica – fotos dos autores “falecidos”, fac-símiles de documentos pessoais, recor- tes de jornal, cheques, bilhetes, desenhos, entre outros – o objeto livro possibilitou ao editor a implementação de um variado repertó- rio de intervenções textuais (recursos de edição) que, inegavelmente, concorrem para a eficiência de seu fazer persuasivo e interpretativo.

Em relação à prática de edição das cartas psicografadas, podemos destacar o papel do editor no estabelecimento de isotopias domi- nantes de leitura, validando e destacando determinados aspectos da

narrativa em detrimento de outros (Schwartzmann, 2009, p.263-4). Esse fazer interpretativo por parte do editor, embora seja impreg- nado por uma orientação discursiva espírita, não pode ser visto como arbitrário, uma vez que as isotopias estabelecidas assemelham-se e/ou coincidem com aquelas que podem ser apreendidas por meio das leituras e análises das cartas psicográficas.

É justamente sobre o reflexo desse fazer interpretativo sobre o nível do texto enunciado (nas relações entre enunciador e enuncia- tário) que nos deteremos na seção a seguir.

O olhar do editor sobre as cartas de Chico Xavier: