Fonte: Pavani (2018).
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A Ilha da Pólvora, também é conhecida pelos conterrâneos como Ilha dos leprosos, Ilha do Medo e Ilha do Diabo, é uma das ilhas que compõem o arquipélago de Vitória. A Ilha abrigou o Hospital de Isolamento da Ilha da Pólvora, fundado em 1925 e, anos mais tarde renomeado como Hospital Oswaldo Monteiro, em homenagem a seu primeiro administrador. Foi construído para tratar portadores de lepra e tuberculose, doenças infectocontagiosas sem cura conhecidas até então. O hospital funcionou até a década de 1990 quando foi desativado pelo governador Albuíno Cunha de Azeredo. A localização geográfica da Ilha da Pólvora é apresentada no Mapa 8.
Mapa 8 – Localização da Ilha da Pólvora
Os leprosos, assim como os tuberculosos eram encaminhados para o Hospital de Isolamento da Ilha da Pólvora e permaneciam internados, sendo submetidos a diversos tipos de tratamento em busca da cura. Com a realização dos censos leprológicos a partir de 1927, quando foram fichados 22 leprosos no Espírito Santo, foi possível identificar os casos de lepra aberta (contagiante) e determinar com precisão onde residiam os doentes que precisavam, com maior urgência, ser isolados, seja pelo estágio avançado da doença, pela impossibilidade de tratamento, pela extrema pobreza em que viviam ou pelo risco de contagio de grande contingente populacional. Era premente a construção de um local específico para o atendimento de novos casos.
Na busca por um terreno para a construção do leprosário em solo capixaba, os médicos Heraclides César de Souza-Araújo e Pedro Fontes percorreram todo o Estado à procura de um local que tivesse os seguintes requisitos: “ter uma área mínima de 250 hectares, de boa qualidade, ter fácil e farto abastecimento d’água, uma pequena cachoeira para iluminação e energia elétrica, estar situado em bom clima e ter facilidade de comunicação” (SOUZA-ARAÚJO, 1942, p. 24). A primeira indicação foi um lugar denominado de Sapucaia, no município de Santa Isabel.
Mas, em carta endereçada pelo Dr. Antônio Aleixo ao Dr. Pedro Fontes, que havia lhe pedido uma opinião sobre a localização da colônia, o amigo orienta:
Em rigor, um leprosário poderia ficar a um quilometro de uma cidade, mas levando-se em conta, por um lado as facilidades de comercio entre doentes e sãos, bem como a superstição do público, e também a natural tendência de expansão dos grandes centros, pode-se fixar a distância de um leprosário de 15 a 25 quilômetros, ou mesmo 30, que sejam. Infelizmente a C. S. Isabel não está neste caso, mas não poderia ser de outra maneira (SOUZA-ARAÚJO, 1942, p. 25).
A mentalidade dos higienistas e médicos do Serviço de Profilaxia mudava com o passar dos tempos e pelas evidências que iam se apresentando, na medida em que cada experiência era vivenciada. Assim as grandes distancias dos centros urbanos dificultavam a comunicação e o atendimento por parte da equipe médica e ambulatorial para os internos das colônias. Sendo assim, a localidade de Sapucaia, em Santa Isabel, que fica a mais de 30 quilômetros da capital Vitória (46,6 Km pela BR 262) foi descartada e o Dr. Pedro Fontes juntamente com o senhor Carlos Rosas
(técnico da Secretaria de Agricultura) reiniciaram as buscas por um terreno propício, mais próximo à Capital. Depois de algumas análises, chegaram à conclusão de que o terreno denominado de Itanhenga, em Cariacica, seria a melhor opção por:
a) ser o terreno de fácil aquisição porque ainda é do domínio do Estado, embora invadido por posseiros;
b) ter uma área de 300 hectares, com possibilidade de ser aumentada; c) apresentar facilidade de isolamento;
d) ter fácil comunicação com a capital por estrada de rodagem ou por água; e) estar situado em lugar alto e saudável;
f) pode ser abastecido pelo abastecimento d’água da Capital, que passa a 2 quilômetros, a exemplo do que se fez com o Hospital do Isolamento;
g) idem quanto a energia elétrica e telefone;
h) apresentar a configuração do terreno disposição conveniente para separação das zonas limpas e de contagio, tendo ambas plateaux para construção (SOUZA-ARAÚJO, 1942, p. 26-27).
Tendo a referida área todas as vantagens elencadas pelos médicos, sua aquisição foi aprovada pelo Interventor João Punaro Bley que, por meio do Decreto N. 4.443 (publicado em Vitória, no dia 31 de janeiro de 1934), desapropriou os 350 hectares de “ITANHENGA” para a construção do Hospital Colônia de Itanhenga, com o parecer favorável do Conselho Consultivo do Estado (Parecer N. 194, de 20 de fevereiro de 1934). A criação da Colônia se deu em definitivo pelo Decreto N. 5.967 de 7 de março de 1935 e apresenta a disposição do terreno no Mapa 9.
Mapa 9 – Disposição dos terrenos da Colônia de Itanhenga – Espírito Santo
A Colônia de Itanhenga dista 14 quilômetros da capital Vitória e o acesso se dá por terra (cerca de 20 minutos de carro) ou de lancha até o porto no rio Cariacica. A sede da Colônia está situada a 80 metros de altitude sobre o nível do mar, numa verdadeira península entre os rios Cariacica e Santa Maria e o estuário de Vitória. A área ficou dividida entre a Colônia (665 hectares), o preventório (200 hectares) e a colônia agrícola para os futuros egressos do leprosário (335 hectares) (SOUZA- ARAÚJO, 1942). A área atual da colônia está apresentada na imagem de satélite (Mapa 10) a seguir:
Mapa 10 – Disposição dos terrenos da “Colônia de Itanhenga” em 2017
Fonte: Carreço (2018).
O Educandário e a Granja são prédios anexos e distam do “leprosário”, atual Hospital Pedro Fontes, de aproximadamente 3 quilômetros. No Mapa 9 a área reservada para “futura colônia dos egressos do leprosário” é o bairro Pica Pau, que teve sua origem com o loteamento das terras da colônia após o fim da internação compulsória, para aquelas famílias (menos sequeladas pela doença) que ainda tinham condições de se auto-sustentar e de residir junto com seus filhos egressos do Educandário. Atualmente, a margem esquerda da BR-101 está altamente povoada,
com os bairros Nova Rosa da Penha I e II, Nova Esperança, Porto de Cariacica, Flexal I e II.
O Mapa 11 apresenta a disposição e as áreas pertencentes à Colônia de Itanhenga (áreas 6 e 7) e ao Educandário Alzira Bley (área 9) segundo a situação fundiária regularizada (Anexo E) junto ao Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (Idaf) em fevereiro de 2016.
De acordo com o mapa do Idaf a área que pertence ao Educandário Alzira Bley já foi desmembrada da área da Colônia de Itanhenga e ocupa uma extensão de 55,23 hectares. As áreas 2, 3, 4, 5, 6 e 7 compõem a área atual da Colônia de Itanhenga, sendo na área de número 6 que se encontram as edificações do Hospital Pedro Fontes e demais estabelecimentos do complexo. A área 8 também já foi desmembrada para que a Cohab-ES faça a regularização do bairro Nova Rosa da Penha. As áreas 10 e 11 são de domínio do setor de transporte, Dnit e Vale respectivamente.
A Colônia de Itanhenga que recebeu os “leprosos” em terras capixabas foi construída pelo governo estadual em cooperação com o governo federal. O primeiro grupo de construções, com 13 prédios foi inaugurado em 22 de maio de 1935 e o segundo grupo, com 52 prédios, em 11 de abril de 1937, quando foi instalada a colônia. A primeira parte da Colônia foi construída pelo engenheiro Celestino Quintanilha e a segunda parte pelo engenheiro Manoel dos Passos Barros. As construções dos hospitais colônias de todo país seguem um mesmo modelo padrão e foram erigidas no mesmo período como aponta Curi (2010):
Das 40 instituições brasileiras de isolamento erigidas no século XX, 32 foram inauguradas na Era Vargas. Dos 36 preventórios brasileiros, trinta foram inaugurados no mesmo período. A Era Vargas responde por 80% das instituições de isolamento e 83% das instituições preventoriais (CURI, 2010, p. 258).
M a p a 1 1 – S i t u a ç ã o F u n d i á r i a d e I t a n h e n g a – C a r i a c i c a / E S e m 2 0 1 6
A Era Vargas, como colocado anteriormente, é o período da história do Brasil entre 1930 e 1945, quando Getúlio Vargas governou o país por 15 anos de forma contínua. Compreende a Segunda e a Terceira Repúblicas, período em que as medidas profiláticas foram fortalecidas, “conforme é possível verificar nos registros do Hospital Dr. Pedro Fontes, atual denominação do estabelecimento que abrigou o leprosário, entre os anos de 1937 e 1998, foram lá recolhidas e internadas 3.104 pessoas” (FRANCO; ARAÚJO, em fase de publicação, p. 7).
Como as internações obrigatórias foram suspensas em 1962, o quantitativo de leprosos ingressantes na Colônia de Itanhenga no período de internação compulsória, entre 1937 e 1962, foi de 1.592 pessoas (FRANCO; ARAÚJO, em fase de publicação, p. 7).
Com a intenção de apresentar a Colônia de Itanhenga no passado e no presente, foram reunidas descrições em publicações de 1937, 1942 e na obra literária de 2016 do autor Arlindo Vilaça, bem como fotos antigas cedidas pelos narradores de suas histórias de vida e fotos atuais registradas em 1º de maio de 201732 durante a
realização de uma caminhada pela paz no percurso entre o Educandário Alzira Bley e o Hospital Pedro Fontes.
As obras consultadas foram a publicação da imprensa oficial da administração de João Punaro Bley sobre a Inauguração do Hospital Colônia de Itanhenga com as reportagens do “Diário da Manhã” de 11 de Abril de 1937 (DM, 1937) e a obra de referência “A lepra no Espírito Santo” de 1942 do Leprologista Souza-Araújo (Imagem 7).
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Imagem 7 – Obras que descrevem a Colônia de Itanhenga, em A, Inauguração do Hospital Colônia de Itanhenga (Diário da Manhã, 1937) e em B, A Lepra no Espírito Santo e sua prophyxia
Fonte: Souza-Araújo (1942).
A área da Colônia era circundada por 20 quilômetros de cerca de arrame farpado delimitando as propriedades vizinhas. Vejamos como o Jornal Diário da Manhã (1937) descreve tal localidade:
O lugar denominado Itanhenga está situado no município de Cariacica, distante mais ou menos um quilometro da cidade referida. O seu acesso pode ser feito tanto por terra como por mar. A estrada para Itanhenga entronca-se à estrada que liga Vitória a Colatina, através de Cariacica, Santa Leopoldina e Santa Teresa. Dessa forma, Itanhenga, ao mesmo tempo que, perto desta capital, o que torna fácil o transporte de leprosos, é também um reduto facilmente isolável e completamente independente, pela sua posição geográfica. Itanhenga está situada em uma península, cercada pelos rios Cariacica e Santa Maria e pelo estuário de Vitória. Esses trechos de rios, oferecem grande facilidade, pela calma da sua correnteza, a descida ou subida de embarcações, constituindo uma barreira natural a qualquer tentativa de fuga da parte dos elementos isolados. A fuga pelo lado da terra é impedida por vigilante do posto policial situado na parte média da estrada que liga Itanhenga a rodovia que une Vitória a Cariacica.
Esse posto, a cargo de dois soldados, tem por fim, não só frustrar fugas, mas igualmente (será ligado por telefone a administração) prevenir qualquer tentativa de rebelião que se possa verificar. Ainda tem por fim proibir a entrada de quaisquer estranhos à Colônia, desde que não estejam munidos de uma ordem que, identificando-os, lhes permita a entrada na área reservada ao Leprosário. É este posto policial uma medida de prudência da parte dos dirigentes de Itanhenga, que se basearam, para a sua instituição, nos usos dos estabelecimentos congêneres de outros Estados do Brasil, tendo, no entanto, a preocupação de localizar o posto fora da Colônia ao contrário do que fazem alguns Estados, que colocam no próprio reduto (DM, 1937, p. 3-4).
O escritor Vilaça (2016), descreve a localidade da seguinte forma:
À primeira vista era lugar aprazível, com bastante vegetação natural. O terreno assumia a forma de uma pequena península delimitada pela vizinhança dos rios Cariacica e Santa Maria e o Estuário de Vitória. A onze de abril de 1937 a zona de segregação foi inaugurada, portanto no período ditatorial de Getúlio Vargas e na vigência do governo local designado ao Capitão João Punaro Bley. Em toda a área ponteavam sessenta e cinco edifícios novos (VILAÇA, 2016, p. 585).
Ambos versam sobre a boa localização geográfica da Colônia e suas vantagens sobre o acesso, a salubridade, fartura de água e de terras e a disposição das construções. A organização da Colônia de Itanhenga estava disposta em três zonas, conforme apresenta o Quadro 8:
Quadro 8 – Distribuição das construções pelas zonas na Colônia de Itanhenga – 1937
Colônia de Itanhenga Construções
Zona sadia
Casa do médico-diretor, casa do administrador, 10 casas para funcionários sadios, garagem, pavilhão da administração, casa do porteiro, na qual estão instalados os centros de luz e telefone. Zona intermediária Casa das Irmãs, pavilhão para suspeitos em observação, parlatório,
laboratório, farmácia, almoxarifado, cozinha e copa limpa.
Zona de contágio
Pavilhão para expurgo dos doentes que entram, escola, prefeitura, refeitório e copa dos doentes, pavilhão para doentes enfermos de outras doenças, policlínica, lavanderia, 6 casas para funcionários doentes, banheiros coletivos para as oficinas e o campo de futebol, manicômio-cadeia, forno de incineração de lixo, 3 pavilhões para oficinas, 10 pavilhões “Carville” tipo Pirapitinguy, 2 pavilhões “Carville” tipo Curupaity, pavilhões de diversão e biblioteca, igreja, 2 dormitórios para meninos e meninas, 20 casas para leprosos casados, necrotério e cemitério.
Fonte: Souza-Araújo (1942).
A Colônia de Itanhenga compreende, na sua vasta área, três zonas: a sadia, a intermediária e a dos leprosos. A primeira é onde habitavam os médicos, administradores, enfermeiros e outros funcionários, sujeitos a retiro forçado pelas
necessidades das profissões que exercem, residiam junto as suas famílias, atualmente residem egressos e ex-funcionários da Colônia. Entre a segunda e a terceira zonas, ao contrário da primeira, não pode ser feita uma separação perfeita. A zona intermediária prestava-se ao contato entre os suspeitos e aqueles que vinham visitá-los. Já a zona de contágio era a mais extensa, onde conviviam os portadores da lepra em suas atividades diárias. Os encarregados das obras da Colônia de Itanhenga consagraram o máximo de cuidado ao afastamento entre os contagiantes e os não doentes. A Tabela 4 apresenta o número de edifícios construídos na Colônia de Itanhenga.
TABELA 4 – EDIFÍCIOS DA COLÔNIA DE ITANHENGA – 1942
A Colônia de Itanhenga possuia 66 edificações que somavam 6.524,30 m2 de área
construída. As 10 enfermarias tipo “Carville” são as maiores construções e juntas somavam 1.900 m2. A estação de luz era a menor das construções com apenas 7
m2, mas com uma função muito importante, garantir o fornecimento de energia de
toda Colônia.
Atualmente o Hospital Pedro Fontes funciona em horário de segunda a sexta-feira com atendimento ambulatorial, com consultas nas áreas de dermatologia, ginecologia e clínica geral. Dos 10 pavilhões em modelo “Carville”, somente 4 encontram-se em funcionamento com os remanescentes do período do isolamento compulsório que não tem condições de viver sozinhos e nem parentes para retirá- los. Os demais pavilhões permanecem fechados. O pavilhão da policlínica foi reformado para receber os pacientes do antigo Hospital Adalto Botelho (pacientes com transtornos mentais) que foi transformado no Hospital Estadual de Atenção Clinica. Em termos de infraestrutura, a ex-Colônia de Itanhenga é uma das mais conservadas do país. Nas páginas a seguir descrevemos cada uma das edificações que compunham a Colônia de Itanhenga, atual bairro Pedro Fontes. Ressaltamos que a apresentação das mesmas foi feita a partir da descrição detalhada de todas as edificações publicadas no jornal Diário da Manhã (DM) de 11 de abril de 1937, nas obras de Souza-Araújo e Vilaça, e nas fotos do passado e do presente.
Residência de funcionários sãos
As residências dos funcionários sadios localizavam-se na zona sadia, estes podiam trazer suas famílias para residirem juntos. A descrição de tais residências, transcrita a seguir, é apresentada pelo Jornal Diário da Manhã:
Assim, temos na zona livre as residências do Diretor Geral do Leprosário, do administrador, prédios para enfermeiros, para os guardas, para o chauffeur e o técnico agrícola, construídos com acomodações suficientes para as suas respectivas famílias, dotados de fogão, instalações sanitárias completas, varandas, etc., facilitando aos dirigentes e funcionários da Colônia o conforto que lhes pode compensar, em parte, o sacrifício que só um pouco de idealismo torna razoável. As habitações, elegantes bangalôs, agradam à vista e oferecem alegre e distinto
aspecto à paisagem. Foram construídos, como dissemos antes, fora da zona intermediária e de contagio, marcada pelo pórtico de entrada, estando assim, livres do perigo de serem infectados, os seus moradores (DM, 1937, p. 4-6).
A Foto 8 apresenta a casa que um dia foi habitada pelo médico-diretor do Hospital Colônia Pedro Fontes e sua família. Atualmente ela é ocupada por um ex-funcionário do hospital.