Neste capítulo abordaremos primeiramente, o histórico da lepra no Espírito Santo e a instalação das instituições que compõem o tripé da profilaxia da lepra. São apresentadas a colônia e os dispensários deste tripé. A parte que se refere ao Educandário e a granja, o eixo central desta pesquisa, são retratados no capítulo seguinte.
A escolha do local para a instalação do Hospital Colônia, assim como as causas que nortearam esta decisão foram objeto de aprofundamento de estudos sobre a evolução histórica de Cariacica, e apontam para uma convergência de fatores naturais e antrópicos que contribuíram para a instalação, nesse município, de diversas instituições públicas e privadas que serviam ao isolamento e a segregação espacial de diferentes grupos sociais.
O isolamento dos leprosos e tuberculosos em asilos e hospitais tem início no Espírito Santo na década de 1920 com a construção do Hospital de Isolamento da Ilha da Pólvora em Vitória. Na década seguinte inicia-se a construção do Hospital Colônia de Itanhenga em Cariacica-ES. A partir de obras clássicas descrevemos cada uma das instalações que compõem a Colônia de Itanhenga na época de sua inauguração e atualmente. As fotografias ajudam a ilustrar essas edificações.
Por fim apresentamos a disposição espacial dos dispensários. O Educandário Alzira Bley e a Granja Eunice Weaver que são a questão central desta pesquisa serão tratados no capítulo seguinte.
O objetivo deste capítulo é demonstrar as estratégias políticas e espaciais para a segregação espacial da população leprosa e seus filhos indenes no Espírito Santo.
As metodologias empregadas neste capítulo foram a pesquisa bibliográfica e documental, o trabalho de campo e os registros fotográficos. Os dados coletados foram organizados em mapas, gráficos, quadros e tabelas.
5.1. HISTÓRICO DA LEPRA NO ESPÍRITO SANTO
A Capitania do Espírito Santo foi criada em 1 de junho de 1534, sendo a lepra uma moléstia praticamente ignorada nestas terras até 1880. Em 1881, o Provedor da Saúde Pública Dr. Manoel Goulart de Souza enviou um ofício ao Presidente da Província Dr. Marcelino de Assis Tostes informando que havia poucos casos de lepra na província do Espírito Santo, apenas duas ou três famílias (SOUZA- ARAÚJO, 1942).
No início do século XX, Dr. Belmiro Valverde, em seu livro “A Lepra no Brasil” classificou o Espírito Santo como um “Estado onde a lepra era rara”. Em 1927, foi publicado o primeiro censo dos leprosos no Brasil e nesse documento oficial o Espírito Santo aparece como quase indene, pois, 13 doentes para 400.000 habitantes representavam o baixo índice de 0,0325 por 1.000 ou 3,25 por 100.000 habitantes (SOUZA-ARAÚJO, 1942).
Ainda em 1927, Dr. Pedro Fontes foi destacado do Serviço de Saneamento Rural do Distrito Federal (RJ) para assumir a Diretoria de Higiene do Espírito Santo, cargo que antes era ocupado pelo Dr. Miguel Motta. Quando o Serviço de Profilaxia da lepra começou a produzir seus primeiros resultados, chegou um telegrama do Ministro da Educação e Saúde Pública mandando suspender os Serviços de Saneamento Rural e Profilaxia da Lepra e Doenças Venéreas no Estado, fechar os dispensários e arrolar o material para entregar à União. O Estado alegou que tinha saldo e recursos próprios, então, o Ministro da Educação Dr. Francisco Campos autorizou a continuidade dos serviços, mas sem nenhum ônus para União (SOUZA- ARAÚJO, 1942).
Souza-Araújo (1942), em sua obra: A lepra no Espírito Santo apresenta um resumo sobre a marcha do censo que foi realizado no estado a partir do ano de 1927, quando em 31 de agosto estavam fichados 22 leprosos. No ano seguinte o Dr. Pedro Fontes percorreu todo Estado fazendo um levantamento entre os médicos e autoridades e estimou um total de 150 leprosos. Em 1929 foi iniciado o recenseamento dos leprosos pelo fichamento por médicos itinerantes que apontou 133 fichados. Em 1930 os doentes fichados subiram para 225, em 1931 “quando foi
terminado o recenseamento” o Dr. Pedro Fontes contabilizava 290 leprosos fichados e 50 “suspeitos”.
Em 1932 foi feita a primeira revisão do censo e o total de leprosos não parava de subir, os fichados somavam 334 leprosos e os suspeitos 36. No ano seguinte foi realizada a segunda revisão do censo, resultando em 410 fichas, sendo 367 leprosos e 43 suspeitos. Em 1934 após a terceira revisão o número de fichados subiu para 505, sendo 445 leprosos e 60 suspeitos (SOUZA-ARAUJO, 1942).
Os censos prosseguiram, em 1935 as fichas já somavam 595 pessoas, sendo 529 leprosos e 66 suspeitos. No ano seguinte o número de leprosos elevou-se para 701 (611 leprosos e 90 suspeitos). Em 30 de Abril de 1937 foram enumerados no Estado 639 leprosos e 90 suspeitos (SOUZA-ARAUJO, 1942).
Os recenseamentos dos leprosos foram realizados entre os anos de 1927 e 1936. Dos 701 leprosos suspeitos e fichados em 1936, 238 casos foram fichados nos dispensários fixos de: Vitória (94 casos), Cachoeiro de Itapemirim (30), Alegre (40), Colatina (23), Mimoso do Sul (18), Muqui (15), São José do Calçado (10) e Afonso Claudio (8) e também por meio do trabalho dos médicos itinerantes que compunham as Comissões Médicas ambulantes. Os médicos itinerantes registraram o maior número de leprosos, foram 463 casos, com destaque para o Dr. Sylvio Avidos que atuou de 1928 a 1936 e registrou 292 casos de lepra. Outros seis médicos são mencionados por Souza-Araújo (1937): Dr. José Ferreira Junior (13 casos), Dr. Nilton Barros (17 casos), Theóphilo Batinga (30), Manoel Sette (17), Manoel R. Carvalho (8) e José Augusto Soares (86) (SOUZA-ARAÚJO, 1942, p. 20).
A obra do Dr. Souza-Araújo (1942) fornece informações sobre a distribuição espacial dos leprosos no Espírito Santo e sobre algumas características desse grupo, como sexo, idade, estado civil, cor da pele e nacionalidade. O mapa 5 apresenta um cartograma dos leprosos no Espírito Santo até 31 de dezembro de 1936.
Mapa 5 – Cartograma dos Leprosos no Espírito Santo até 31/12/1936
Fonte: Souza-Araújo (1942).
O mapa 5 mostra
que os maiores focos dessa doença são os municípios de Alegre, Colatina, João Pessoa (Mimoso do Sul), Afonso Claudio, Cachoeiro de Itapemirim, Siqueira Campos (Guaçuí) e Vitória. No mapa além da distribuição geográfica dos 611 leprosos confirmados se vê a distribuição pelos
respectivos municípios dos seus 2.777 comunicantes fichados (SOUZA- ARAÚJO, 1942, p. 11).
Conforme o Quadro 7 apresenta, nos casos recenseados até 1936, os leprosos concentravam-se ao sul do rio Doce e os municípios mais endêmicos eram Alegre e Colatina.
Quadro 7 – Processo do fichamento de leprosos, suspeitos e comunicantes – 1932/1937
Municípios 31-12- 1932 31-12- 1933 31-12- 1934 31-12- 1935 31-12- 1936 31-12- 1937 L eproso s S u speit o s Co n tac to s L eproso s Co n tac to s L eproso s S u speit o s Co n tac to s L eproso s S u speit o s Co n tac to s L eproso s Co n tac to s L ep ro sos S u speit o s Co n tac to s Afonso Claudio 28 139 28 - 39 213 43 4 298 51 387 52 7 395 Alegre 80 390 86 - 89 472 105 6 544 117 643 122 11 688 Alfredo Chaves - - - 1 - - 1 - 1 - - 1 Anchieta 2 9 2 - 2 9 2 - 14 2 14 2 -- 16 Baixo Guandu - - - 20 3 48 8 39 9 1 39 Cachoeiro Itapemirim 23 68 25 - 38 107 46 16 132 40 180 42 10 193 Calçado 8 25 6 - 6 17 8 - 27 9 51 10 5 52 Cariacica - - - - 3 13 4 - 13 3 7 3 - 7 Castello 11 26 8 - 9 27 13 1 35 17 36 17 - 44 Collatina 41 191 46 - 76 219 62 1 180 68 318 69 14 318 Domingos Martins 1 5 1 - - - - Fundão 1 17 1 - - - 1 - 1 - - Guarapary 1 8 1 - 1 8 1 - 8 1 3 1 - 4 Iconha 1 8 1 - 1 7 1 - 7 1 8 1 - 8 Itapemirim - Vila 2 12 2 - 3 12 3 1 12 2 6 2 - 6 Itaguassú 19 69 20 - 27 89 28 2 120 27 163 27 4 163 João Pessoa 36 104 39 - 45 145 60 4 195 64 244 72 5 273 Lauro Muller - - - - 6 - 5 - - - - Muniz Freire 8 33 6 - 8 34 8 - 30 10 43 10 - 49 Pau Gigante 6 33 6 - - 33 - - 32 7 38 7 - 38 Rio Pardo 8 19 9 - 11 22 18 1 26 16 26 20 1 53 Rio Novo 2 - 2 - 5 22 5 2 22 3 23 3 1 23 Santa Cruz - - - - 2 4 2 1 4 - - - 1 - Santa Thereza 16 94 17 - 21 109 22 1 114 23 154 23 6 154 Serra - - - 2 - - 3 - - - - - São João Muquy 4 17 7 - 13 25 22 16 53 23 77 23 2 82 São Matheus 1 - - - 1 - 1 - - 2 4 3 - 4 Siqueira Campos 22 73 25 - 26 74 31 3 65 38 93 40 2 102 Victória 26 126 27 - 32 106 35 4 114 33 167 33 2 167 Vila Velha - - - - 9 39 11 1 42 10 30 10 2 36 Em trânsito - - - - 32 - 3 1 - 35 22 37 6 22 Total 347 1 .4 3 5 367 1.57 6 505 1.80 9 529 66 2.14 5 611 2.77 7 639 80 2.93 7 Fonte: Souza-Araújo (1942).
O censo dos leprosos realizados anualmente no estado no período de 1932 a 1937 apontavam os suspeitos, os contatos e os leprosos, conforme o Quadro 7 apresentado por Souza-Araújo (1942). Segundo Dr. Pedro Fontes, o número de comunicantes ou pessoas que tinham contatos com leprosos (cônjuges, filhos, parentes próximos) até 31 de dezembro de 1937 somavam 2.937 pessoas.
O município de Alegre é sem dúvidas o mais endêmico deste período, sendo que o número de leprosos neste município é muito maior que o segundo colocado, em cada ano. Vale ressaltar que quase todos os municípios relacionados no Quadro 7 localizam-se ao sul do rio Doce, a região de povoamento maior e mais antigo do estado, o que não significa que ao norte, menos povoado, os capixabas também não fossem afligidos pela moléstia.
Em menor proporção foram registrados leprosos em São Mateus, Nova Venécia e na parte norte de Colatina. Alguns municípios não apresentam nenhum registro ou poucos leprosos como: Alfredo Chaves e Serra (0), Domingos Martins (1), Fundão (1), Guarapari (1), Santa Cruz (2), São Mateus (3) e Lauro Muller (5). Alguns dos municípios deste quadro mudaram de nome: Benevente – Anchieta, Calçado – São José do Calçado, João Pessoa – Mimoso do Sul, Pau Gigante – Ibiraçu, Rio Pardo – Iúna, Siqueira Campos – Guaçuí, Santa Cruz – Aracruz. Os mapas que apresentam a divisão em municípios do ES de 1872 até a divisão atual encontram-se no Anexo C.
Dentre as características demográficas dos doentes recenseados entre 1933 e 1935, os registros especificam o sexo: 72,4% homens e 27,6% mulheres; a cor da pele: 68,6% brancos, 24,7% pardos, 6,5% pretos e 0,2% de incertos; a nacionalidade: 92,3% brasileiros e 7,7% estrangeiros (88 Italianos, 8 Austríacos, 6 Alemães, 6 Portugueses, 4 Espanhóis, 2 Suíços, 3 Poloneses, 2 Sírios, 3 Chineses); o estado civil: 58,2% casados ou amasiados, 7,0% viúvos; 34,8% solteiros; e a idade: os infectados entre 0 e 10 anos somavam 2,52%, entre 11 e 20 anos 10,59% e os de mais de 20 anos representavam 75,46% do total (SOUZA-ARAÚJO, 1942).
O Dr. Pedro Fontes empreendeu esforços em três direções no combate à lepra no Espírito Santo: a fundação de dispensários; o recenseamento dos leprosos por
médicos itinerantes e a criação do leprosário e do preventório para os filhos dos leprosos. O Mapa 6 apresenta as organizações antileprosas existentes no Espírito Santo em 1937.
Mapa 6: Instituições da Profilaxia da Lepra no Espírito Santo em 1937
Fonte: Souza-Araújo (1937).
Nota: Organização antileprosa em 1937 – Dispensários, Postos de Vigilância, Leprosário e Preventório. Neste mapa há um engano: em Afonso Cláudio há Dispensário fixo e não Posto de Vigilância.
Observando a distribuição espacial dos postos de vigilância (Rio Pardo, Fazenda Santa Joana, Itaguaçu e Baixo Guandu) observa-se que eles formam uma espécie de cordão de isolamento do interior do estado do Espírito Santo na divisa com Minas Gerais, ao sul do rio Doce, possivelmente para acompanhar os casos de migrantes oriundos do estado limítrofe que poderiam ser portadores de lepra. Os dispensários
concentram-se espacialmente no sul do Estado, das 8 unidades existentes, 6 delas (Muqui, João Pessoa, Cachoeiro de Itapemirim, Castelo, Alegre e São José do Calçado) localizam-se próximas a divisa com o Rio de Janeiro. As instituições de controle, o leprosário e o preventório, localizam-se em Cariacica, próximos à capital Vitória (cerca de 14 Km), onde se encontrava o dispensário central. Analisamos a seguir os motivos da escolha do município de Cariacica para as instalações da colônia e do preventório.
5.2 POR QUE CARIACICA?
5.2.1 Breve evolução histórica do Município
O município de Cariacica está situado na Região Metropolitana da Grande Vitória – RMGV e dista 14 quilômetros da capital. Possui área de 279,975 Km2 e destas,
aproximadamente 85,58 km2, ou seja, 30,56% do território encontram-se ocupados
por remanescentes de Mata Atlântica e ecossistemas associados, no caso os manguezais. Ao considerar somente o território rural, esse percentual assume proporções maiores, chegando a aproximadamente 44,46% (BERGAMIM, 2012). Limita-se com Santa Leopoldina, Domingos Martins, Viana e, a leste, com Vila Velha, Serra e Vitória. Dada sua localização e o fato de ser cortado pelas rodovias BR-262 e BR-101, o município faz o elo entre o litoral e a região serrana do Espírito Santo (DIAGNÓSTICO CULTURAL DE CARIACICA, 2016).
Segundo alguns antigos habitantes, o nome do município de Cariacica surgiu da expressão “Cari-jaci-caá”, utilizada pelos índios para identificar o porto onde desembarcavam os imigrantes. Sua tradução é “chegada do homem branco”. Cariacica é propriamente o nome do rio que desce do Monte Mochuara e de uma serra adjacente (BEZERRA, 2009).
Além do rio Cariacica, que dá nome ao município, a rede hidrográfica é formada pelos rios Santa Maria da Vitória, Bubu, Formate, Duas Bocas e o braço do Mangaraí no limite de Santa Leopoldina. A abundância de água fez o município ser o
primeiro a fornecer água encanada a sua população. Sobre a represa de Duas Bocas, Bezerra relata que em 8 de dezembro de 1894, o então
Governador Presidente, Sr. Antônio Manoel Lopes Loureiro, construiu uma represa em Duas Bocas e nesse dia inaugurou a sua canalização para o chafariz na praça pública, próxima ao coreto atual, com quatro torneiras de bronze, quando não mais satisfazia o volume represado, pensou-se na sua devida ampliação [...] O trabalho pessoal de Loureiro foi um ato louvável que permitiu o fornecimento de água em domicílio. Esse abastecimento a particulares veio a ser regulamentado em 1905 sob a administração de Francisco Carlos Schwab Filho (BEZERRA, 2009, p. 75).
Assim, podemos entender que a população de Cariacica recebia água em domicílio quinze anos antes da população da capital Vitória, que só atenderia à generalidade de seus habitantes com água canalizada depois de 1909.
Na área ambiental, a Reserva de Duas Bocas é um reservatório de água cuja barragem foi construída em 1894 e seus serviços ampliados em 1909. Atualmente abastece vários bairros da Região Metropolitana da Grande Vitória. Para sua criação foram desapropriados mais de 2.200 hectares, fazendo desaparecer a povoação de Duas Bocas e as antigas sesmarias de Pau Amarelo, Itaquara-Assu, Samambaia e Naia-Assu. Pouco tempo depois a área do reservatório e todo seu entorno foi transformado em uma Reserva Florestal e posteriormente em Reserva Biológica, como explica Oliveira (2006).
Criada em 1965 como Reserva Florestal e transformada em Reserva Biológica pela Lei nº4.503 de 03/01/1991, a Reserva Biológica de Duas Bocas está localizada no município de Cariacica. Seu território estende-se por uma área de aproximadamente 3 mil hectares, com altitude que varia de 250 a 800 metros, onde se encontram os rios Panelas e Pau Amarelo. A reserva é administrada pelo Instituto de Terras, Cartografia e Floresta (OLIVEIRA, 2006, p. 92).
A Reserva Biológica de Duas Bocas representa um importante fragmento florestal de Mata Atlântica em bom estado de conservação e abriga fauna rica e diversificada, com espécies raras e ameaçadas de extinção. Com área aproximada de 2.910 hectares, localiza-se na área rural do município de Cariacica. A designação “Duas Bocas” consagrada na tradição local advém do encontro dos rios Panelas e Naiá- Açú (palmeira grande no idioma Tupi), cuja desembocadura deu origem ao
topônimo: Duas Bocas. Oficialmente trata-se da Reserva Biológica Paulo Fraga Rodrigues de acordo coma Lei Estadual N. 8.488 de 19 de abril de 2007.
Os Goitacazes foram os primeiros índios a ocupar a região que hoje forma o município de Cariacica. Os nativos viviam como caçadores e coletores, conforme pesquisa realizada pela Universidade Federal do Espírito Santo em sítios arqueológicos nos municípios vizinhos e nas imediações da Vila Cajueiro, em Cariacica (OLIVEIRA, 2006). Com o desenvolvimento do município, os indígenas, primeiros habitantes de sua história, tiveram seu último refúgio em Itanhenga, entre os rios Santa Maria e Cariacica, desaparecendo a seguir por completo (BEZERRA, 2009).
No final do século XVI e início do século XVII, com a chegada dos portugueses e da Companhia de Jesus, foram instaladas nas terras hoje pertencentes ao município engenhos e fazendas em Itapoca, Roças Velhas, Caçaroca, Maricará e Ibiapaba. Nos séculos seguintes os portugueses trouxeram a mão de obra escrava africana, atraídos pelas concessões de sesmarias. Mais tarde chegaram os alemães e italianos que se ocuparam principalmente do cultivo de café.
De acordo com Oliveira (2006), a construção de ferrovias promoveu um rápido crescimento populacional em Cariacica, tornando possível a emancipação do município em 30 de dezembro de 1890, assinada pelo governador do Espírito Santo, Constante Sodré. Com o voto indireto, Antônio Manoel Lopes Loureiro foi o primeiro Governador-Presidente da então Intendência Municipal, atualmente Prefeitura.
Segundo Bezerra (2009) a instalação do município em 30 de dezembro de 1890, com vida administrativa autônoma, produziu reflexo imediato pelos benefícios conferidos à coletividade no decorrer dos primeiros anos de exercício. O governador presidente da intendência municipal de Cariacica, senhor Antônio Manoel Lopes Loureiro foi abrindo as primeiras estradas, fazendo pontes, construindo as primeiras escolas, criando o serviço de Correios e Telégrafos, planejando o melhoramento urbanístico da vila, cuidando com mais carinho da higiene e da saúde do povo, traçando, enfim, novas diretrizes para o dinheiro público.
A Estação Areinha, que atualmente faz parte do patrimônio ferroviário, foi inaugurada em 1904 e permaneceu em funcionamento por quatro décadas. Em 19 de novembro de 1927 foi inaugurada a Estação Pedro Nolasco, localizada na Avenida Mario Gurgel em Jardim América. O mosaico de fotos da década de 1940 apresentado na Imagem 3 remonta traços da história desta ferrovia.
Imagem 3 – Mosaico de fotos da década de 1940 da Estrada de Ferro Vitória/Minas.
Fonte: Museu Vale (2018).
As fotografias apresentam um pouco da origem da Estrada de Ferro Vitória a Minas como a construção das estações e o desfile da Maria Fumaça sobre os trilhos. Pedro Nolasco foi um visionário e constituiu o projeto com base em seu verdadeiro objetivo: ligar o norte mineiro ao mar. O primeiro trecho foi inaugurado em 13 de maio de 1904, com 30 quilômetros, contando com três estações: Porto Velho, Cariacica e Alfredo Maia. O primeiro carregamento de minério no Porto de Vitória só ocorreu no ano de 1940 e os trilhos só chegaram em Itabira em 1942.
A Estrada de Ferro Vitória a Minas ganhou impulso após 1942 - ano de criação da Vale, então Companhia Vale do Rio Doce. As primeiras melhorias na ferrovia ocorreram na década de 1940, com a remodelação do trecho entre Vitória e Colatina/ES. Na década de 1950 houve a introdução das primeiras locomotivas a diesel e de novas melhorias ao longo da ferrovia. Na década seguinte, a substituição das locomotivas a vapor pelas locomotivas diesel-elétricas teve continuidade no progresso deste meio de transporte. A duplicação da linha aconteceu entre os anos
de 1971 e 1977 e foi um grande marco na evolução da ferrovia. Além do transporte de cargas, a Estrada de Ferro Vitória a Minas é a única ferrovia brasileira que realiza o transporte diário de passageiros, ligando Vitória a Belo Horizonte.
O século XX trouxe grandes avanços para a população cariaciquense, a iluminação por lampiões de querosene, que permaneceu até 1906, foi sendo eliminada e, em 12 de dezembro de 1914 foi inaugurada a iluminação elétrica. Em setembro de 1913 foi inaugurado o serviço telefônico (BEZERRA, 2009). Tais progressos trouxeram para Cariacica “o bem-estar social, a segurança e a tranquilidade, o conforto e o estímulo para o trabalho eficiente e produtivo. Esses são os reflexos do zelo público pela higiene e pela profilaxia geral, inspirando confiança” (BEZERRA, 2009, p. 80).
Com a emancipação vieram também algumas melhorias para o município, principalmente no que se refere ao abastecimento de água encanada, iluminação pública, telecomunicações e transporte. O que gerou na população os sentimentos apresentados por Bezerra (2009) de conforto, tranquilidade, segurança e bem-estar social. Mas as situações pelas quais passaria o município a partir do século XX não eram previsíveis pelos governantes nem pela população de Cariacica. A proximidade e facilidade de ligação (rodoviária, ferroviária e fluvial) com a capital do estado, a vasta área rural e os espaços ociosos atraíram para o município uma série de problemas sociais que se espalharam espacialmente sobre seu território.
O município de Cariacica recebeu, ao longo de sua história, uma série de movimentos migratórios que vieram contribuir para a miscigenação racial do município. No início do século XIX, existiam na província de Cariacica 5.318 habitantes, destes, 1.174 eram escravos de cor negra, o que representava 22,02% da população total. Na primeira edição do livro Cariacica – Resumo Histórico em 1951, Bezerra (2009) assinala que não se nota predominância de estrangeiros na população de Cariacica, a não ser nas colônias alemãs, e mesmo nestas o que hoje existe é a tradição. Destacamos que os hábitos e costumes, com as influências portuguesas, italianas e africanas espalham-se por todo território capixaba (BRASIL; CASTIGLIONI, 2012).
Dentre as décadas de 1950 a 1980, a população do município de Cariacica apresentou um intenso crescimento, decorrente da forte migração rural-urbana impulsionada pela conjugação de vários fatores: a crise agrícola tendo como vetor principal os problemas que atingiram a base da economia do Estado, a cafeicultura; o incremento elevado da população concentrada na região rural, provocado pela transição demográfica; a adoção de atividades que absorvem pouca mão-de-obra para substituir as plantações de café (criação de gado, culturas intensivas), a introdução de meios mecânicos na zona rural (CASTIGLIONI, 2009). Expulsa do campo e atraída pelas supostas oportunidades de trabalho decorrentes da instalação dos grandes projetos industriais da Grande Vitória, uma parcela dessa população encontrou em Cariacica mais alternativas para se fixarem como moradores (BERGAMIM, 2012). O Gráfico 1 apresenta a evolução da população de Cariacica no período de 1920 a 2010.
Gráfico 1 – Evolução da população de Cariacica para o período de 1920 a 2010
Fonte: Agenda Cariacica (2011).
A curva ascendente de crescimento da população cariaciquense representada no Gráfico 1, aponta para um incremento constante da população do município. É importante destacar, contudo, que, ainda nos dias atuais, mais da metade do território municipal é formada por áreas rurais ou de preservação, mas apenas 3%