Após escolher as avenidas, realizei incursões a campo para observação das imagens e mapeamento dos locais nos quais se encontravam as peças, seguido do registro por meio de fotografia. Nosso olhar se direcionou para o registro dos anúncios que apresentavam imagens femininas sozinhas ou acompanhadas, desde que a mulher compusesse os anúncios. O período de coleta correspondeu aos meses de abril, maio e junho do ano de 2018.
As primeiras incursões a campo ocorreram em abril, nos dias 12, 21 e 28. A incursão à Av. Prudente de Morais começou na Praça Cívica, no bairro de Petrópolis, até a Delegacia de
5 Disponível em: <http://www.portalintercom.org.br/>. Acesso em: 20 abr. 2017. 6 Disponível em: <http://www.compos.org.br/>. Acesso em: 19 abr. 2017.
7 Na data em que realizamos o levantamento dos artigos, somente a Compós tinha disponibilizado os artigos deste ano. Por isso, para esta pesquisa coletamos os dez anos da Compós até 2017 e Intercom até 2016.
Plantão Zona Sul, no bairro de Candelária. Percorri 6,8 km no intervalo de uma hora, e foram coletados nove anúncios em outdoors.
Figura 1 - Av. Prudente de Morais – Natal/RN
Fonte: Google (2018).
A segunda, ocorreu na Av. Salgado Filho, partindo da Praça das Flores, em Petrópolis, até o viaduto de Ponta Negra, nas proximidades do Supermercado Carrefour e Natal Shopping. Durante duas horas e quarenta e cinco minutos, percorri cerca de 7,3 Km e foram registrados 42 anúncios. O trajeto foi mais demorado porque havia muitos anúncios, além do fato de que as ruas são de mão dupla, exigindo mais paradas – e o percurso ser maior do que os outros. Iniciei pela Av. Hermes da Fonseca por anteceder a Av. Salgado Filho e porque percebi, na pesquisa exploratória (realizada em maio de 2017), que era necessário estender o percurso, aumentando a chance de uma amostragem maior.
Figura 2 - Av. Senador Salgado Filho, Natal/RN
Fonte: Google (2018).
A terceira incursão ocorreu na Av. Roberto Freire, iniciando no cruzamento com a Manoel Coringa (Via Mar Shopping) até o Viaduto de Ponta Negra. Com 4,8 Km, foi realizado em uma hora, porém identifiquei poucas placas de outdoors com anúncios – algumas estavam em branco ou desgastadas. Registrei 11 outdoors com mulheres.
Figura 3 - Av. Engenheiro Roberto Freire, Natal/RN
Fonte: Google (2018).
Em maio, realizei a coleta nos dias 12, 19 e 29. A primeira expedição ocorreu na Av. Prudente de Morais, seguindo o mesmo trajeto do mês anterior. Dessa vez, diferente da coleta de 2017, no sábado que antecedia o Dia das Mães, não se encontrou quase nenhum anúncio,
pois a maioria das placas estavam em branco ou com anúncios antigos – eram peças que veiculavam apenas produtos, não apresentavam personagens mulheres e nem homens. Identifiquei 55 outdoors na avenida supracitada: sete com imagens femininas, cinco com masculinas; 11 vazios; e 33 placas com produtos.
A segunda incursão ocorreu na Av. Hermes da Fonseca, da Praça das Flores, em Petrópolis, até o Natal Shopping, na Av. Salgado Filho. Dessa vez, decidi prolongar o percurso pois havia poucos outdoors com anúncios, e os que continham algo não apresentavam imagens femininas. Assim, me direcionei para a BR 101, até o Super Fácil Atacado, no bairro de Emaús, no município de Parnamirim. Registrei 56 outdoors, apenas 11 com imagens femininas; 15 placas estavam vazias; cinco traziam imagens de homens; e 30 continham imagens de produtos e marcas. Ao todo, percorri 11 km.
Figura 4 - Av. Hermes da Fonseca e BR 101, Natal/RN
Fonte: Google (2018).
A terceira expedição ocorreu na Av. Roberto Freire, percorrendo o trajeto anterior. Nesse dia, identificaram-se poucas placas com anúncios – a maioria com imagens de produtos –, e apenas seis anúncios com mulheres. Percebendo que, no mês de maio, não havia sido levantada uma amostra expressiva, decidi prolongar a coleta por mais um mês. Dessa forma, em junho, foi realizada uma nova incursão, no dia 09, na Av. Salgado Filho. Registrei 31 ou- tdoors com imagens de mulheres.
A última incursão ocorreu no dia 10, na Av. João Medeiros Filho, na Zona Norte da cidade. O trecho percorrido compreendeu a trajetória da loja Atacadão até a Ponte Newton Navarro, equivalente a 7,4 km, com duração de uma hora e 30 minutos. Registrei 12
outdoors com imagens de mulheres. Ao todo, considerando todas as incursões, foram percorridos, a pé, 48,8 km.
Figura 5 - Av. Dr. João Medeiros Filho, Natal/RN
Fonte: Google (2018).
Ilustro, a seguir, todo o trajeto percorrido ao longo de três meses de incursões pela cidade de Natal. As linhas coloridas mostram a localização de cada avenida mapeada: rosa, Av. Doutor João Medeiros Filho (Zona Norte); vermelha, Av. Hermes da Fonseca, Av. Salgado Filho e BR 101; azul, Av. Prudente de Morais; e, marrom, Av. Roberto Freire.
Figura 6 - Dimensão geral do percurso
Houve a preocupação de levar um roteiro para as observações durante as incursões. Visando atender aos objetivos iniciais da pesquisa, o olhar foi direcionado para as imagens femininas nos outdoors. Porém, com o andamento das incursões, percebeu-se que somente aquelas avenidas percorridas não forneceram anúncios suficientes para composição da amostra. Nesse sentido, a pesquisa exigiu uma metodologia simultaneamente aberta, um método construído durante o percurso da pesquisa, conforme defende Morin (1991). O autor afirma que a ciência precisa sair desse absoluto eterno para uma transformação, ou seja, um “discurso multidimensional não totalitário, teórico, mas não doutrinal (a doutrina é a teoria fechada, autossuficiente, logo suficiente) aberto a incerteza e a ultrapassagem, não ideal/idealista” (MORIN, 1991, p. 60). Para ele, o “objeto não deve estar somente adequado à ciência, a ciência deve igualmente estar adequada ao seu objeto” (MORIN, 1991, p. 64).
Assim, o método se constrói à medida que o pesquisador realiza a pesquisa (MORIN, 1991). Nesse sentido, percebeu-se com as incursões que o objeto se revelou de forma inesperada. Desejava levantar toda a amostra nos dois meses definidos, mas foi verificado que houve uma diminuição no número de anúncios – talvez devido ao cenário de crise econômica. Isso nos levou a estender por mais um mês a coleta, consequentemente o percurso abrangeu outras regiões, como a BR 101 e a Zona Norte da cidade. Dessa maneira, foi possível obter uma amostra considerável e identificar outras imagens que emergiram nessas avenidas, como os grafites e as pixações que se revelaram como manifestações de vozes discordantes das imagens hegemônicas.
O levantamento das imagens nos direcionou a uma outra questão que transcende a primeira. Levantei a hipótese de que as imagens que se referem às mulheres expressadas através dos grafites e pixações compõem a manifestação de um incomodo. Se a internet tem funcionado como espaço para a expressão de desaprovação de algumas campanhas publicitárias, os muros, as fachadas e as placas da cidade são suportes para a demonstração de que alguém não concorda com as imagens do feminino publicizadas no espaço institucional. A questão que sucede é: como se manifestam, na cena pública, as vozes que discordam da publicização de imagens hegemônicas de submissão e exploração da mulher e do corpo feminino?
Durante as expedições pelas avenidas foi possível registrar também murais grafitados com imagens de mulheres. Em um desses, a figura feminina surgiu nua, representando uma mãe sem o seio junto com o filho. Havia dois corpos femininos mostrando os órgãos genitais (a vagina), em um deles o sangue pintado que escorria, representava a menstruação. Esse mural estava localizado abaixo de alguns outdoors com imagens femininas, um deles trazia uma
mulher deitada sobre uma prancha no mar. Na semana posterior, verifiquei que esse mesmo anúncio havia sido rasgado, especificamente a imagem da mulher – restando apenas as imagens masculinas. Próximo a outros outdoors com imagens de mulheres, havia mais um grafite que representava uma mulher nua com o rosto coberto, junto com as expressões “#pelaeva”, “#pelasminas”, “#explodiglobo”, “#explodibolsonaro”, “#exploditemercoxinha”.
Figura 7 - Grafismo com corpos femininos em Natal/RN
a) b)
c) d)
Fonte: a autora (2018).
A pergunta que apareceu após o surgimento dessas imagens femininas em grafismo ficará para outro momento, em que seguirei com essa e outras questões em uma pesquisa mais específica e aprofundada – futuramente no Doutorado.
Para este momento, o foco será as imagens hegemônicas do feminino veiculadas nos outdoors das avenidas mapeadas em Natal.
3.4.1 Descrição dos procedimentos analíticos
Nesse cenário, foram registrados 119 anúncios em outdoors com personagens mulheres, que foram organizados pelas datas de coleta e por avenida. No tratamento dos dados, foi preciso retirar as imagens repetidas e classificá-las por produtos e serviços. Depois, foram agrupadas
por segmento de negócio com base nas classificações dadas pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas - Sebrae, chegando à seguinte divisão: educação, lazer, moda, beleza e saúde, imobiliário, telecomunicações, móveis e decoração, alimentos e bebidas, hotelaria e automóveis. Ao final, formou-se a amostragem de 64 anúncios em outdoors, cujo número de personagens femininas que aparecem é de 74.
Posteriormente, realizei um inventário com parâmetros orientadores do primeiro olhar, que seguiu os seguintes itens de observação: mensagem visual (aparência da personagem, faixa etária, cor de pele, cabelo, corpo, olhos, pessoa pública); atitude (expressão, contato visual, pose, vestuário); atividade (movimento corporal, gesto e posições); cenários (real ou artificial); plástica (enquadramento ou planos); elementos morfológicos (cores); mensagem linguística (texto). Penn (2002) esclarece que é importante que o inventário seja completo, “pois a abordagem sistemática ajuda a assegurar que a análise não seja seletivamente auto-afirmativa” (PENN, 2002, p. 326).
A estrutura norteadora do formulário baseia-se no esquema apresentado por Joly (1999) e aplicado por Mota-Ribeiro (2005) para análise de imagens publicitárias. Consideram-se os conjuntos sígnicos (icônicos, plásticos e linguísticos), adicionando contribuições e reflexões de autores como Berger (1972), sobre os modos de ver imagens femininas; Goffman (1979), que sugere observar na publicidade de gênero não apenas os estereótipos, mas também as posições e movimentos corporais; Dondis (2007), que ensina ver e ler imagens visuais; Barthes (2005), para quem o anúncio publicitário comporta três mensagem diferentes, que são a denotada (literal), a conotada (associada) e a referencial (declarada).