Para compreendermos a atual agricultura familiar no município de Cândido Godói, localizado no noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, necessita-se fazer um breve resgate histórico da evolução da agricultura familiar no município.
Gubert et al (2005), em seu estudo, apresenta vários fatos históricos do desenvolvimento agrário do município de Cândido Godói. Até o ano de 1940, a paisagem do município caracterizava-se por mata nativa, era colonizada por russos, poloneses e alemães, oriundos de Sobradinho, Santa Cruz, com ajuda do governo para alimentação. Começaram a surgir algumas igrejas, e moinho em Guarani das Missões. Nesta época houve troca de mercadorias com comércio de Santo Ângelo, principalmente de moinhos e banha de porco. Predominavam neste período as culturas de subsistência (feijão, mandioca, milho, fumo) e porco banha.
Entre os anos de 1940 até 1958, Gubert et al (2005) apresenta que se inicia o desmatamento para formação de pequenas lavouras para estabelecer a produção de subsistência, com o início do cultivo de milho para alimentação do suíno tipo carne. Neste período também se fabricou a primeira trilhadeira, em meados dos anos 60, a tração animal. Começaram a surgir algumas escolas, comércios, igrejas, construção de benfeitorias, abertura de estradas. Como fatos socioeconômicos deste período destacam-se a instalação de moinhos, cooperativa São José, venda de banha e nata para laticínios Meyer em Santa Rosa e Cerro Largo, e a troca de serviços entre vizinhos.
Já no período de 1959 até 1970, o desmatamento se intensifica e aumenta a erosão diminuindo a fertilidade do solo, e a reposição da fertilidade do solo é realizada através do sistema de pousio (descanso ou repouso proporcionado a terras cultiváveis, até recompor sua fertilidade naturalmente). Introduziram-se as culturas de soja e milho. Os fatos socioeconômicos do período são: compra de terra financiada (juros baixos e longo prazo de pagamento), comercialização em bolichos e cooperativas. Houve a emancipação em 1963, e a criação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais em 1966.
Entre os anos de 1971 a 1988, destaca-se o início da mecanização e aumento das lavouras com soja, trigo para comercialização do grão. O sistema em curso foi substituído por um sistema mecânico baseado no uso de máquinas, equipamentos e insumos de origem industrial, que permitiu aumentar a área
cultivada no município. Porém, esse processo se deu de forma desigual, pois o agricultor que tinha melhores condições (áreas maiores de terras), de garantir o pagamento das máquinas e equipamentos financiados, conseguindo acumular capital.
Já agricultores com pequenas áreas, não obtiveram acesso às linhas de crédito para aquisição de máquinas, uma vez que suas explorações não garantiam condições de pagamento. Inicia neste período a produção de leite no município. Neste novo sistema, iniciam-se também a assistência técnica aos agricultores, feita pelas cooperativas locais, prefeitura e EMATER, a qual melhora a utilização das áreas em termos técnicos e econômicos.
A fundação da Cotrirosa em 1973, o subsídio para fertilizantes e disponibilidade de recursos são alguns fatos socioeconômicos do período. Neste período apresenta-se um enfraquecimento do comércio local.
Mais recentemente, entre os anos de 1989 a 2004, surge o plantio direto nas lavouras de grão. São realizados investimentos na atividade leiteira com melhoramento genético e inseminação artificial. Neste período, a intensificação do êxodo rural em função da mecanização e do monocultivo, é um fato socioeconômico da agricultura que cresceu nos anos seguintes. Ainda neste período, a atividade leiteira passou a ter intensa importância econômica da unidade de produção familiar (GUBERT et al, 2005, p. 23).
Ainda para o autor, “as transformações ocorridas ao longo do processo da evolução da agricultura do município de Cândido Godói, promoveram certa diferenciação entre os agricultores que originou um aumento significativo na diversidade de sistemas de produção”. (GUBERT et al, 2005, p. 26).
Dados obtidos do censo do ano de 2010 do IBGE (2012) do total de 6.535 habitantes, 4.689 residem na zona rural e 1.846 na zona urbana. Percebe-se, portanto que 71,75% da população do município é rural, sendo somente 28,25% a população urbana, o que caracteriza a predominância do meio rural na economia do município.
Outros dados do IBGE (2012) complementam a importância da agricultura familiar para o município, pois no ano de 2010, o Produto Interno Bruto (PIB) do município, que consiste em uma medida do valor dos bens e serviços que o município produz num período nos setores de agropecuária, indústria e serviços, constituía-se em 11,55% para a indústria, 38,95% para a agropecuária e 49,50%
para serviços. Neste mesmo período, para o Estado do Rio Grande do Sul, o PIB era composto por 7,01% da atividade agropecuária, 30,25% da indústria e 62,67% de serviços.
Confrontando os dados pertinentes a atividade agropecuária no município e Estado, percebe-se a importância desta atividade para o município, que tem na agropecuária a segunda maior geração de valor, sendo que no Estado essa atividade é a que menos produz valor adicionado.
Dados de 2013, obtidos da Fundação de Economia e Estatística (FEE), registram um crescimento do PIB gaúcho de 5,8% no último ano. A expansão, maior que a nacional (2,3%), foi principalmente impulsionada pelo desempenho satisfatório da agropecuária em 2013, que cresceu 39,7% em relação a 2012. De acordo com os dados, no acumulado de 2013, comparado com 2012, a agropecuária foi a atividade que mais cresceu, expandindo 39,7% no período.
A atividade agropecuária equivale a uma atividade econômica, onde o produtor planta, cria, produz e até em alguns casos industrializa, tendo como objetivo final escoar a produção, agregando valor ao produto e obtendo lucros. Tendo em consideração esse processo produtivo, administrativo e comercial que precisa ser bem feito e organizado, entra em ação a atuação das cooperativas, que são representativas no município. Seguem abaixo três cooperativas criadas e administradas por agricultores rurais do município de Cândido Godói:
- Cooperativa Godoiense de Energia Renovável – COOPERGER, fundada em 2005; - Cooperativa Agroecológica de Cândido Godói – COOPERAE, fundada em 1999; - Cooperativa Godoiense Empreendimento, Exploração Agrícola e Organização Social Ltda. – COOGÊMEOS, fundada em 2002.
A participação dos agricultores nas cooperativas do município é ativa, tanto nas cooperativas acima citadas, como também nas demais cooperativas existentes no município, como por exemplo, a Cotrirosa e Coopermil. Essa participação ativa dos agricultores também é em função de a maioria das cooperativas oferecerem benefícios que vão além da parte comercial, como por exemplo, equipe de técnicos (veterinários e agrônomos) que dão suporte aos agricultores, o que garante maiores e melhores produções, o que é interessante tanto para o cooperado como para a cooperativa.
Segundo o Rural News (2014), associar-se em cooperativa pode trazer outros benefícios indiretos aos agricultores, como por exemplo, relacionar-se com outros
produtores e adquirir informações vitais para o empreendimento. É um lugar de referência, de confiança.
Os estudos no setor da agricultura familiar destacam-se atualmente, pois mundialmente há uma preocupação efetiva contra a fome e pobreza, bem como a busca de um desenvolvimento rural baseado no respeito ao meio ambiente e à biodiversidade. Nesta perspectiva, o ano de 2014 foi declarado pela ONU (Organizações das Nações Unidas) como o Ano Internacional da Agricultura Familiar (AIAF), que visa destacar o perfil da agricultura familiar e dos pequenos agricultores, focalizando a atenção mundial em seu papel no alívio da fome e da pobreza, provisão de segurança alimentar e nutrição, melhora dos meios de subsistência, gestão dos recursos naturais, proteção do meio ambiente e obtenção de desenvolvimento sustentável, particularmente nas áreas rurais.
Os objetivos-chaves para o Ano Internacional da Agricultura Familiar, segundo a ONU (2014), são:
1. Apoiar a formulação de políticas agrícolas, ambientais e sociais que promovem a agricultura familiar sustentável;
2. Aumentar o conhecimento, a comunicação e a conscientização pública;
3. Obter um melhor entendimento de necessidades, potencial e restrições da agricultura familiar e assegurar o apoio técnico;
4. Criar sinergias para a sustentabilidade.
Através de todos os dados colocados, pode-se perceber que a agricultura familiar, tanto no município, como em âmbito nacional e mundial, teve um histórico inicial de muitas lutas, desde a colonização até os dias atuais, onde se busca ainda demonstrar a importância das empresas rurais no desenvolvimento econômico e também social.
Para tanto, cada vez mais se prospecta construir alternativas inovadoras na busca incessante pela permanência dos agricultores familiares na atividade rural, e para isso é essencial conhecer o perfil dos empreendedores rurais existentes no local de estudo, para então identificar as potencialidades destes no desenvolvimento local.