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Chapitre IV : Evaluation de la prédictivité des modèles et

2. Validation du modèle BIM pour des frappes multiples sur lopins en acier et en

2.1 Définition du modèle et identification des paramètres

Como dissemos anteriormente, a crítica à cultura teórica e a exaltação do fenômeno dionisíaco em O Nascimento da tragédia não são apenas afirmados enquanto conteúdos, mas parecem buscar realização na forma mesma pela qual o livro se elabora.

Por mais que as obras posteriores de Nietzsche difiram de O Nascimento da

tragédia, seja quanto às concepções, seja quanto ao estilo, encontramos nesse seu livro e

em todos os outros uma forma de elaboração muito própria, que desdenha a citação de fontes, a contextualização histórica dos problemas tratados, a especificação da origem dos conceitos utilizados, priorizando uma interpretação cuja demonstração só se pode fazer por sua unidade e coerência internas.

O nascimento da tragédia não se apresenta como um trabalho pautado por regras

consensuais da comunidade acadêmica. Um dos aspectos da dessemelhança reside no estilo mesmo da escrita: arrebatada, passional, estendendo-se em arroubos, aqui permitindo-se longos rodeios e parênteses, ali fazendo afirmações peremptórias. A esse propósito, Nietzsche observará mais tarde, na Tentativa de auto-crítica acrescentada ao

livro:“Acho-o mal escrito, pesado, penoso, frenético e confuso nas imagens, sentimental, aqui e ali açucarado até o feminino.”

Um outro aspecto da composição do livro, ligado ao primeiro, é a forma pela qual aparecem, mas sobretudo se ocultam, no corpo do texto, as referências que marcam o autor tanto em sua relação com a antiguidade grega quanto com a produção filológica de sua época.

Nietzsche parece transitar com grande liberdade entre deuses, poetas e dramaturgos gregos42, sem explicitar o que é da ordem de suas próprias hipóteses e sobre o quê as

fundamenta, ou o que deve a outrem. Assim, são expressas as mais singulares hipóteses e idéias, sem praticamente qualquer referência à literatura relativa ao tema e aos ângulos pelos quais o explora.

No que diz respeito à inscrição filosófica do livro, Nietzsche aponta claramente sua filiação à linhagem filosófica de Kant e Schopenhauer, sem mencionar, todavia, qualquer referência ou comentários da época sobre a obra desses autores _ quando se sabe, para limitarmo-nos a um exemplo, da importância da leitura de Lange e Kuno Fisher em sua aproximação da filosofia kantiana.

A própria influência de Wagner aparece de forma curiosa. Nietzsche dedica-lhe reverentemente o livro em seu prefácio: “O autor...em tudo o que ideou...conversava convosco como se estivésseis presente e só devesse escrever coisas que correspondem a esta presença.” Essa forma um tanto maciça de “presença” de Wagner é destacada ainda pelo grandioso papel atribuído ao compositor no renascimento do mito trágico alemão. Contudo, a afirmação desse ideário não faz referências ao seu desenvolvimento pelo escritor Richard Wagner.43Autores mais recentes apenas ocasionalmente são

mencionados, em relação a um ou outro ponto específico, como Schiller e Schlegel a respeito da função do coro. Outras ideias importantes encontram referências em autores e obras que Nietzsche certamente leu, mas não menciona44

42 A viva relação de Nietzsche com a antiguidade grega é sublinhada por Colli (1987), que considera

como o “grande charme de sua inatualidade” a forma pela qual o filósofo ataca Sócrates, por exemplo, como se estivesse vivo e diante dele. Esta forma de “tratar o passado como se fosse presente” mostra-se na forma vívida pela qual trata não apenas os filósofos, como Sócrates, Platão e os pré-socráticos, mas também os mitos e a arte da antiguidade.

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A título de exemplo: Nietzsche, embora adotando, segundo Chaves (2006),, a hipótese wagneriana segundo a qual a tragédia teria tido seu apogeu num período arcaico, começando a declinar a partir de Eurípides, não cita Wagner a este respeito.

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A importância do êxtase e da saída de si no culto dionisíaco, relacionando-o à tragédia, encontra-se, relembra Chaves (2006), em Karl Ortfried Muller e Paul Yorck von Wanterburg.

A tradição clássica da criação de uma identidade alemã através do retorno aos gregos em geral, e particularmente do teatro, decisiva na formação de Nietzsche e na própria forma de relação com a experiência grega traduzida por seu texto, praticamente não é explicitada: encontra-se apenas uma única menção, embora de forma clara e destacada, da importância da luta de Goethe, Schiller e Winckelman no esforço do espírito alemão para aprender dos gregos.45

Nietzsche não faz referência explícita, ainda, aos debates científicos contemporâneos: o questionamento mesmo de uma “consideração teórica do mundo” não os menciona. Também não se refere em momento algum à questão, que lhe é tão próxima, da conjuntura contemporânea do ensino e da produção da filologia.

Se aliarmos a todos esses aspectos o tom exaltado do texto de O nascimento da

tragédia, não nos surpreende a violenta reação do jovem filólogo Willamovitz, segundo

o qual Nietzsche possuiria parcos conhecimentos sobre o assunto tratado, abordando-o sem rigor e sem critérios de cientificidade _ embora a resposta de Röhde tenha vindo mostrar que não era esse o caso.

Ao empreender uma tentativa de auto-crítica de O nascimento da tragédia, muitos anos depois, Nietzsche há de considerá-lo “confuso”, “sem vontade de limpeza lógica”, em seu desdém por qualquer forma de demonstração. Contudo, essa constatação não o leva a preferir uma forma de exposição mais clara e cuidadosa, e sim a desejar que houvesse radicalizado então o seu modo de expressar-se. “Quanto lamento agora que não tivesse então a coragem (ou a imodéstia?) de permitir-me em todos os sentidos, também uma linguagem própria para intuições e atrevimentos tão próprios _ que eu tentasse exprimir penosamente, com fórmulas schopenhauerianas e kantianas, estranhas e novas valorações que iam desde a base contra o espírito de Kant e Schopenhauer, assim como contra seu gosto!” Ou seja: muitos anos depois, ao avaliar seu “primogênito”, Nietzsche lamenta nele a falta não de uma maior clareza de

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Ao apresentar o dualismo entre o dionisíaco e o apolíneo, Nietzsche não se refere à presença de um antagonismo entre dois princípios na reflexão filosófica sobre a tragédia, lembrado por Machado (2006): em Schiller, Schelling e Hegel, cada qual à sua maneira, traduzindo a oposição e a conciliação do par necessidade x liberdade; em Hölderlin, como um antagonismo irredutível entre um princípio que une e um que divide: o formal e o informal, o limitado e o ilimitado, antecipando, pois, a própria oposição nietzscheana.

argumentação, que não obstante reconhece, mas problemas relativos a uma audácia insuficiente na linguagem utilizada.

Mesmo não tendo ousado então tal radicalização da linguagem, o fato é que Nietzsche preferiu arriscar-se ao tipo de crítica que sofreu do que seguir certas regras próprias a um trabalho acadêmico, que aliás não desconhecia. Denunciando os riscos da visão histórico-crítica da cultura socrática, que aniquila o mito ao buscar fundamentá-lo historicamente, é como se sua escrita, ao desvincular-se dos “fundamentos históricos” que poderiam ser apresentados para as ideias que nos traz, procurasse construir-se ela própria de maneira mítica, aos moldes de um mito filosófico.

Quanto aos pontos de vista sobre a cultura teórica e a cientificidade, ainda que Nietzsche reavalie suas formas de compreensão e valorização do conhecimento científico na evolução posterior de sua obra, reafirma algo de essencial que já percebera desde então: “O que consegui então apreender, algo terrível e perigoso...hoje eu diria que foi o problema da ciência mesma _ a ciência entendida pela primeira vez como problemática, como questionável” .

No mesmo texto, destaca-se esta observação: o livro foi “colocado sobre o terreno da arte _ pois o problema da ciência não pode ser reconhecido no terreno da ciência”. Faz parte integrante da filosofia de Nietzsche, a nosso ver, o desenvolvimento da idéia de que a questão do lugar e do valor da ciência na cultura não pode ser colocada na linguagem da própria ciência, nem no interior dela própria _ ainda que exija apreço e familiaridade com suas produções, e uma verdadeira paixão do conhecimento.