Chapitre I : Etat de l’art sur l’influence de la machine et des
3. Exploitation du modèle
3.1 Analyse de la robustesse du modèle et de l’identification des paramètres
Schopenhauer critica as éticas que dão um lugar central à razão: a razão, embora necessária para uma vida virtuosa, não é fonte da virtude, mas função subordinada a ela. A virtude e a santidade não se originam da reflexão, mas da profundeza íntima da vontade e de sua relação com o conhecimento. A ação racional e a ação virtuosa são duas coisas completamente distintas, podendo a razão unir-se tanto à grande bondade quanto à grande maldade (MRV, I, §16).
O filósofo discorda radicalmente, pois, da concepção kantiana da vontade como razão prática: “É uma contradição flagrante denominar a vontade livre e no entanto prescrever-lhe leis segundo as quais deve querer” (MRV, IV, §53). Em seu entender a vontade é livre, e nada tem a ver com leis. Parece-lhe inaceitável o imperativo categórico kantiano: não se pode agir por máximas abstratas, pois a universalidade do conceito nunca desce às nuances do particular, que exigem a escolha do que é justo a partir do caráter. Censura Kant, pois, por tornar condição do valor moral de uma ação o fato de que esta ocorra a partir de puras máximas abstratas e racionais (MRV, I, §13).
Ademais, Schopenhauer acredita encontrar no imperativo categórico, em última análise, o egoísmo como fonte do juízo ético: para descobrir a regra da minha conduta, levando em conta não apenas a mim, mas o conjunto de todos os indivíduos como meu fim, esse fim continua sendo o bem estar; todos só podem sentir-se bem se cada um fizer do egoísmo alheio o limite do próprio egoísmo (MRV, Apêndice, pp. 651-652).
Schopenhauer discorda também das éticas que identificam felicidade e virtude, na qual lhe parece recair a concepção kantiana ao reunir, na Crítica da razão prática, a felicidade e o bem: “A felicidade no soberano bem não deve ser propriamente o motivo para a virtude. No entanto, lá está ela como uma mercadoria contrabandeada, cuja presença torna todo o resto um mero contrato fictício” (MRV Apêndice, p.651). Enquanto a felicidade é um querer satisfeito, a virtude, pelo contrário, é plena renúncia de todo querer.
Também o desagrada a exigência kantiana de que o ato meritório deva ser praticado única e exclusivamente em respeito à lei: pretender que se deva agir segundo uma máxima conhecida pela razão in abstracto, não a partir da benevolência, da compaixão, dos sentimentos do coração, mas de mau grado e por auto-constrangimento, parece-lhe o mesmo que exigir a produção de uma obra de arte mediante o frio cumprimento de regras estéticas (MRV, Apêndice, pp.653-654). Opondo-se a tal racionalidade, Schopenhauer defende o supremo valor da compaixão, que conduz à auto-negação da vontade.
O filósofo concebe uma justiça eterna segundo a qual o mundo é como é por que a vontade, da qual é o fenômeno, assim o quer; a justificativa para o sofrimento é o fato de que a vontade se afirma a si mesma nesse fenômeno, e essa afirmação é justificada pelo fato de que a vontade porta sofrimento (MRV, IV, §60). Em tudo que acontece a
cada um, a justiça lhe é feita, pois esta é sua vontade; o mundo mesmo é o tribunal do mundo. Se colocarmos num prato a penúria, num outro a culpa, o fiel da balança permaneceria no meio (MRV, IV, §63).
A única saída, pois, reside na ascese, através da qual se pode chegar até a santidade. No homem, a vontade pode alcançar a plena consciência de si, pela apreensão das ideias. Portanto, apenas quando abandona todo o conhecimento das coisas isoladas enquanto tais, submetidas ao princípio de razão, e, por intermédio do conhecimento das
ideias, olha através do véu de Maia do principium individuationis, é possível uma entrada em cena da liberdade propriamente dita da vontade como coisa em si (MRV, IV, §55). O homem, então, movido pela compaixão, já não faz diferença egoística entre sua pessoa e a de um outro, compartilhando os sofrimentos de todos como se fossem seus, reconhecendo em todos os seres o seu verdadeiro si mesmo; a dor que daí resulta é de tal ordem que ele já não poderia querer afirmar esta vida por atos da vontade. Dessa forma, o conhecimento do todo e da essência das coisas torna-se um quietivo de qualquer volição: o homem atinge um estado de voluntária renúncia, resignação, enfim, de completa destituição da vontade. Isso se faz pela transição da virtude à ascese, da qual a completa castidade é o primeiro passo, requerendo também a pobreza, a auto- punição, o auto-flagelo, o jejum, como os santos entre os cristãos, e mais ainda, entre os hindus e os budistas (MRV, IV, §68).
Dessa forma, a liberdade, que jamais se mostra no fenômeno, pois pertence à coisa em si, pode entrar em cena no próprio fenômeno, ao suprimir a essência subjacente ao seu fundamento, embora ele mesmo perdure no tempo (MRV, IV, §55). O único caso em que a liberdade pode se tornar imediatamente visível no fenômeno é quando põe fim ao que aparece. Ora, como o fenômeno, na medida em que é um elo da cadeia das causas, continua a existir no tempo, a vontade que através dele se manifesta entra em contradição consigo mesma, pois nega o que o fenômeno expressa. A chave para a solução da contradição reside no fato de que o estado no qual o caráter se exime do poder dos motivos não procede imediatamente da vontade, mas de uma forma modificada do conhecimento _ o conhecimento das ideias _ que tem efeito quietivo, suprimindo a própria vontade (MRV, IV, §70). Essa contradição do fenômeno consigo mesmo expõe o estado de santidade e abnegação.
Recordemo-nos, todavia, de que a santidade, e a ascese que leva até ela, não é uma escolha que o homem possa fazer ao longo de sua vida, já estando determinada no plano do caráter inteligível. Aqui, o ateu Schopenhauer reconhece as verdades cristãs. O dogma da predestinação, como resultado da eleição ou não pela graça, tal como se encontra em São Paulo, parece-lhe manifestamente derivado da intelecção do homem como imutável, de tal maneira que sua vida, conduta e caráter empírico são apenas o desdobramento do caráter inteligível.35 Na doutrina do pecado original, que afirma a
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Essa intuição, considerada perfeitamente correta por Schopenhauer, dá origem a conclusões das quais discorda, quando unidas aos dogmas já encontrados na religião judaica antes do cristianismo.
vontade, e da redenção, que vem negar a vontade, reside a grande verdade do cerne do cristianismo. Mostra-se verdadeira, pois, a doutrina dos Evangelhos, defendida por Agostinho e purificada de erros por Lutero, segundo a qual a vontade não é livre, mas está originariamente propensa ao que é mau. As obras do homem não o podem salvar, só a fé, enquanto relação mais íntima entre o conhecimento e o querer no homem, que surge sem participação nossa. Portanto, somos maus e precisamos de uma redenção que só pode vir da fé, isto é, uma mudança do modo de conhecimento (MRV, §70)