“A dor é inevitável, o sofrimento é opcional”30 . Buda
O meu terceiro encontro com a dor veio na disciplina de Atuação III do Curso de Licenciatura em Teatro (2015), que tinha como proposta trabalhar a partir de um teatro- laboratorial, e que me permitiu descobrir o surgimento de um novo ser. Este ser foi gerado durante seis meses de treinamento e teve como referência as quatro imagens que menciono no início deste capítulo. O trabalho desenvolvido na disciplina tinha uma forte relação com a poética dos elementos31 e com os processos do Arkhétypos.
Alguns laboratórios foram mais excitantes e consegui criar laços e histórias, outros, foram despretensiosos e não conseguia criar nada. Tudo varia, pois o tempo para a criação de uma história em vida é despretensioso e desordenado; alternando entre rápido e lento.
Após entrar nos laboratórios referentes a cada elemento (terra, água, fofo e ar), uma das imagens deveria ser escolhida como a imagem guia para se trabalhar durante todos os outros laboratórios. Escolhi para trabalhar o elemento que mais foi intenso no meu corpo que foi a terra. Deste laboratório saiu a figura arquetípica de um velho resmungão, chato, sofrido e eu queria pesquisar mais sobre este velho. Saber se este velho tinha algo a ver com minha própria mitologia pessoal ou não.
30 Disponível em: <https://amenteemaravilhosa.com.br/nobre-caminho-octuplo/>. Acesso em: 25/01/2019. 31
A poética dos elementos é uma metodologia de criação desenvolvida pelo Prof. Robson Haderchpek junto ao Grupo Arkhétypos, tal metodologia é utilizada nas aulas ministradas pelo citado professor e nos processos de criação do Grupo. Uma das referências utilizadas pelo professor para conceituar a poética dos
elementos é o trabalho do filósofo francês Gaston Bachelard (2013) que escreve sobre a imaginação material
associando-a aos quatro elementos da natureza: terra, água, fogo e ar. Outra referência é o trabalho dos pesquisadores argentinos Patricia Bélières e Alejandro Cancela: El cantante popular y la interpretación: Una
Com o decorrer dos laboratórios descobri que aquele velho não era realmente um velho, e sim um homem com um corpo velho por causa dos sofrimentos da vida. Estava trabalhando com o mito Jó32.
A todo instante os mitos renascem e você se torna parte dele. Após rever minhas histórias de vida e dentro dos laboratórios me encontrei: estava acessando um arquétipo que tinha como mote de afecção a dor e o sofrimento.
Em meu trabalho de conclusão de curso falo um pouco sobre essa dor e sua ligação com Jó.
Sempre sofri muito em minha vida, e continuo sofrendo! Dia após dia sem interrupções e folgas. E diante das excitações coletivas dos laboratórios, foi ativado em mim este sofrer reprimido que estava em mim desde minha origem. Não é fácil expor parte da minha história em meio a estes turbulentos ensinamentos, mas não tem como não falar de mim: já que Jó é Allan e Allan é Jó. Sempre fui uma pessoa sem muitos amigos, sem ter carinho demonstrativo profundo por parte da minha família. Os meus sonhos nunca foram aceitos [...] Vivia falando para mim mesmo, assim como Jó falou ‘por que não me sepultaram como uma criança abortada, como um bebê que nunca viu a luz do dia’, por que eu estou aqui neste mundo para sofrer? Observação: esta frase é de jó e de Allan. Por quê? Por quê? Por que tantos porquês? [...] Pesquisando tive resposta: quando sofremos, é natural perguntar ‘por quê?’. (ARAÚJO, 2015, p. 41, 42)
O livro de Jó trata de um dos assuntos mais difíceis da experiência humana: como lidar com o sofrimento. Ao entrar nos laboratórios e ativar minhas memórias referentes às minhas dores tive uma surpresa de uma dor mais intensa. Aquela dor não era a mesma dor que ativei na disciplina de Elementos Pré-Expressivos, a dor no espetáculo Revoada e sim uma junção de todas as dores que já tinha passado.
32 “Jó foi um homem integro e muito rico que viveu na antiguidade. Ele passou por um tempo de grande
sofrimento e foi acusado de muitos pecados, mas ele não abandonou a Deus. No fim, o próprio Deus defendeu a causa de Jó e o restaurou.” Disponível em:< https://www.respostas.com.br/quem-foi-jo/>. Acesso em: 26/11/2018.
Figura IV (Cena do espetáculo A Descida de Jó ao Submundo 2015 – Foto: Camila Duarte)
É um efeito bola de neve, quanto mais tempo mais memória eu tenho. Quanto mais memória referente às dores, mais forte ela será, com isso mais excitado meu corpo estará para a troca com o outro. (BERGSON, 2006, p. 02).
Bergson, em seu livro Ensaio Sobre os Dados Imediatos da Consciência (1927),
menciona e cita dois autores importantes para este estudo: Richet e Darwin. Um complementando o outro sobre as questões sobre a dor. Ao falar sobre a dor, Bergson faz uma junção da dor com o que Richet fala sobre o desgosto, afirmando que quanto maior for a excitação maior será a dor:
Se a excitação é fraca, pode não haver nem náusea nem vômitos... Se a excitação for mais forte, em vez de se limitar ao pneumogástrico espalha-se e atinge quase todo o sistema da vida orgânica. O rosto torna-se pálido, os músculos lisos da pele contraem-se, a pele cobre-se de um suor frio, o coração suspende as pulsações: numa palavra, há uma perturbação orgânica geral consecutiva à excitação da medula alongada, e esta perturbação é a expressão suprema do desgosto. (RICHET
apud BERGSON, 1927, p. 32-33)
Bergson também cita Darwin ao falar sobre seu estudo sobre a dor intensa dos animais. Como podemos perceber a dor que modifica as expressões do corpo:
Leva o animal a executar esforços cada vez mais violentos e variados para escapar à causa que a produz... No sofrimento intenso, a boca contrai-se fortemente, os lábios crispam-se, os dentes apertam-se. Ora os olhos se abrem enormes, ora os sobrolhos se contraem fortemente; o corpo fica banhado em suor; a circulação e a respiração modificam-se33. (DARWIN apud BERGSON, 1927, p. 33)
Darwin fala que para o animal escapar de uma dor ele produz uma dor ainda maior. Se tivermos duas coisas que nos dão prazer, vamos escolher a que nos dá mais prazer, assim acontece com a dor também.
Então, além de ter um efeito acumulativo de dor memorial no meu corpo, ainda tinha que fazer um esforço maior para não deixar que aquela dor (como por exemplo, minhas brigas com minha mãe) fosse algo ruim para mim. Tinha que usar a dor como um afeto, algo que me tocasse e fizesse meu corpo trocar com os outros participantes. Isso de certo modo me trazia algo positivo, eu usada a dor como potência de criação e isso me gerava prazer, pois a dor era redimensionada em poesia corporal. Meu corpo na disciplina de Atuação III estava excitado, meu corpo estava sensível!
A seguir temos uma imagem do meu corpo no trabalho de finalização da disciplina, intitulado A Descida de Jó ao Submundo:
Figura V (Uma dor em um corpo – A Descida de Jó ao Submundo – Foto: Camila Duarte)
Por fim, acredito que estamos em um mundo regrado, presos em conceitos e normais sociais que não nos permitem sentir, sentir é quase impossível, mas podemos encontrar brechas e caminhos para lutar e conseguir descobrir/ser quem realmente somos. O corpo sensível que acredito é aquele que vem do “particípio passado do verbo sentir” que é “indicativo de tudo o que foi apreendido pelo nosso corpo de modo direto, sensível, sem passar pelos meandros do pensamento e da reflexão” (DUARTE JUNIOR, 2001, p. 11) e para despertá-lo, precisamos descobrir o que nos afeta, seja uma alegria, uma tristeza ou uma dor. Quando descobrimos nossas afecções e permitimos que elas nos afetem, ativamos em nossas memórias outros EU’s mitológicos, de tempos que nem sabíamos que existiam. Outra forma de sermos afetados é fazer da nossa história um diálogo com outras pessoas: eu sinto e eu faço sentir.
Sou um corpo que luta para que as pessoas refloresçam e para que se permitam ser, sem medo da dor e da delícia de ser quem se é!