B) problemas na montagem da unidade, e
C) a unidade como foi concretizada.
A) A escolha do gênero documentários
O gênero documentários nos pareceu adequado por contemplar vários aspectos com os quais nos preocupávamos no módulo. Inicialmente, em relação ao aprimoramento da compreensão oral de nossos alunos, dentro do gênero documentários encontramos textos orais onde observamos clareza durante sua apresentação devido a algumas características específicas, como por exemplo, textos geralmente pausados, frases expressas em ritmo regular ou lento – acentuando a percepção das palavras que carregam significado –, além da presença de imagens ilustrando o texto.
O gênero documentários também nos pareceu relevante não só pelos motivos expostos acima, mas porque nosso aluno poderia aproveitar as idéias em seu próprio contexto de trabalho.
Assim, os documentários:
• são de fácil acesso, há grande disponibilidade de material pois são programas amplamente apresentados em TV ou encontrados em vídeo;
• apresentam em sua maioria temas educativos ou informativos;
• são apresentados em linguagem falada planejada, mais escrita do que oral, o que facilita para que a apresentação, em termos de linguagem, seja clara, pausada e geralmente compreensível;
• são áudio-visuais e, conseqüentemente, a presença da imagem aliada à linguagem oral facilita a compreensão.
Depois de definido o gênero, nos direcionamos para a escolha do assunto que pudesse ser tratado no documentário. Optamos por procurar um tema não polêmico, não sensível, que fosse informativo e que se caracterizasse como permanentemente atual. Nossa escolha se baseava na tentativa de tornar o conteúdo do curso agradável a pessoas de interesses diferentes, transmitir nova informação aproveitando o conhecimento prévio e evitar a desatualização do tema.
O documentário escolhido foi gravado da televisão, do canal Discovery, e trata dos macacos Barbary Apes que vivem em Gibraltar. O foco desse documentário é a vida em sociedade, dando relevância ao convívio solidário, a rituais e às formas de comunicação que estes macacos desenvolvem: aprendendo, ensinando e se protegendo mutuamente, convivendo como um grupo. Na forma como o documentário foi apresentado, ele possui um caráter alegórico que traz questões altamente pertinentes à vida social dos homens.
Esse assunto, tratado dessa forma, nos pareceu adequado para o curso, preenchendo as expectativas que esperávamos encontrar no documentário, tanto no sentido da linguagem como de conteúdo e de informação.
B) Problemas na montagem da unidade
A montagem da unidade Listening to a Documentary foi marcada, principalmente, pela preocupação com dois fatores que nos guiavam em relação a todo o plano e às escolhas durante o desenvolvimento do curso. São dois fatores que limitam,
direcionam e ajudam a definir e a caracterizar o curso: 1) o conflito entre ferramenta de autoria e concepção de design, e 2) falta de familiaridade com a ferramenta de autoria.
O primeiro fator traduz a defasagem entre aquilo que a equipe de pesquisadores do Edulang desejava fazer e as reais possibilidades oferecidas pela ferramenta de autoria.
De acordo com a definição do courseware dada por seus fabricantes, não há pré- requisitos para o usuário, pois acredita-se que tudo esteja explicado no tutorial online. Nesse sentido, desenhar um curso no WebCT seria quase semelhante a utilizar um processador de texto, sendo apenas necessário um editor de HTML para a criação do conteúdo do curso, visto que a ferramenta fornece a estrutura, a interatividade23 e as ferramentas educacionais já prontas (Ferreira, A. et alii, 2003).
Essa afirmação dada pelo desenvolvedor do courseware não é totalmente verdadeira, pois há certas incompatibilidades dependendo do editor de HTML que usamos. Nesse aspecto em especial as alterações apresentadas no WebCT nos foram limitadoras, pois não possuíamos conhecimento técnico de programação suficiente para resolvermos os problemas de incompatibilidade de forma que nos conviesse.
Nós, as designers da unidade, tínhamos feito um estudo preliminar da ferramenta preocupando-nos, principalmente, com o espaço onde iríamos apresentar o conteúdo (content pages) e com os ambientes interativos, especificamente o painel eletrônico (Bulletin Board) e o chat. A preferência por esses espaços interativos vinha, novamente, de nossa experiência com o curso Surfing & Learning, onde esses espaços eram prioritários e privilegiados, principalmente pela possibilidade de troca real entre os participantes, com estímulo à interação entre alunos/professores e conteúdos tratados.
Além das páginas de conteúdo, do Bulletin Board e do Chat, analisamos também o espaço dos quizzes. Apesar de termos feito testes de utilização e analisado as ferramentas, não nos foi possível até o momento da elaboração do curso conhecer detalhadamente como cada uma funcionava em todos os aspectos e, separadamente,
23 Entendemos aqui interatividade conforme definição de Belloni, M. L. (1999:58): “característica técnica
que significa a possibilidade de o usuário interagir com uma máquina”. Maiores referências podem ser encontradas em Lévy, P. (1999) e Silva, M. (2000).
para o designer (na montagem), para o professor (na atuação pedagógica) e para o aluno (na utilização).
Além dessa observação, seguimos ingenuamente as descrições oferecidas no tutorial online do courseware, no próprio site do WebCT (www.webct.com), o qual se assemelha a um manual de instruções sobre a ferramenta. Até o momento do planejamento da unidade, portanto, acreditávamos que essa informação sobre o courseware fosse suficiente para a fase de elaboração. Nesse momento ainda não conseguíamos prever no que nossas escolhas em relação aos espaços utilizados acarretariam durante a implementação do curso.
Nossa limitação em relação ao conhecimento do WebCT se apresenta relevante neste trabalho devido ao fato de ter se tornado um dos motivos para alterações nos planejamentos de design durante a montagem do módulo. Essas alterações também tiveram reflexos na prática para docente durante a implementação do curso piloto.
O segundo fator – a falta de familiaridade com a ferramenta de autoria – é marcado pelas dificuldades no manuseio do courseware, que podem ser categorizadas em três itens principais: 1) falta de conhecimento técnico específico das designers, 2) falta de conhecimento detalhado sobre os recursos do programa, e 3) limitações do programa em si, muitas vezes aliadas à falta de conhecimento técnico específico das designers24.
Em relação à falta de conhecimento técnico específico das designers, as dificuldades mais marcantes foram as seguintes:
• A orientação a respeito da não necessidade de conhecimento da linguagem HTML não é válida. Se não se conhece essa linguagem, fica-se restrito à formatação que é dada pelo courseware, que é limitada no que diz respeito a tipos de fontes (só existe o Times New Roman na programação), cores (o espectro disponível é pouco variado), inserção de arquivos de imagem e som apenas em páginas de conteúdo, além de outras limitações.
24 O levantamento destes dados conta com a especial colaboração de Roberta Lombardi Martins, também
• É difícil modificar arquivos que já estão dentro do courseware. Muitas vezes as alterações não correspondem exatamente ao que aparece na tela depois de salvo. Dependendo dos erros detectados, fica mais fácil apagar o que já se colocou no WebCT, consertar o arquivo fora do courseware, num editor de texto em HTML, e recolocá-lo na ferramenta posteriormente.
• Os links colocados dentro das páginas de conteúdos remetem o usuário para novas janelas ou novas páginas que se sobrepõem à página atual, o que, dependendo do que se pretende, atrapalha a navegação.
Em relação à falta de conhecimento detalhado sobre os recursos do próprio programa de autoria:
• Não há orientação adequada sobre a necessidade de atualizar os arquivos usando a função específica para salvar as alterações feitas (update student view). Essa função é de extrema importância tanto para a montagem das páginas de conteúdo quanto para a montagem dos quizzes. A localização do botão utilizado para o update student view é na homepage inicial, o que dificulta o trabalho, pois quando se quer garantir que algo não se perca, deve-se voltar até a homepage e lá pedir a atualização. Além disso, a extensão da página na tela é muito grande, o que dificulta o procedimento de fazer o update student view, uma vez que é necessário usar a barra de rolagem a todo momento. Isso leva tempo e acaba desestimulando o procedimento de salvar, causando grandes perdas.
• Não há orientação no tutorial a respeito de como importar arquivos de imagem e o banco de opções oferecido para o ambiente de fundo de tela (background) e banners é muito limitado, oferecendo apenas três opções para fundos e oito opções de banners com variações de cores, porém muito restritas. O banco de imagens para ícones, no entanto, é relativamente amplo.
• É muito difícil descobrir como eliminar dos ícones o texto que os acompanha, embora, quando se descubra, isso pareça óbvio.
• Acontecem erros (“bugs”) que muitas vezes não sabemos explicar.
• A inserção dos quizzes é tarefa bastante demorada. Geralmente levamos aproximadamente uma hora para cada exercício, porém em certos exercícios com várias alternativas, chegamos a demorar muito mais que isso. O que mais causa a demora é o caminho que se deve seguir não só para editar o quiz, mas também para inserí-lo no diretório correto e salvá-lo.
Em relação às limitações do programa:
• Não há uma proposta de combinações de cores que resultem em uma versão harmoniosa na página. As sugestões oferecidas são pouco visuais.
• O software não aceita sobreposição ou atualização de arquivos de imagens com o mesmo nome. É necessário sempre renomear as atualizações.
• É importante ter um bom editor de HTML, para que os arquivos já fiquem prontos fora do programa. Os recursos de edição dentro do WebCT são muito limitados.
• Os quizzes tendem a ser de cunho estruturalista, limitando as possibilidades de diferentes tipos de atividades.
• As respostas automáticas se mostraram problemáticas. Quando se trabalha com atividades de múltipla escolha, não há problemas devido ao fato de que nesse caso o aluno apenas deve clicar um dos ítens para escolher sua resposta; porém os procedimentos tornam-se complicados quando as atividades requerem respostas dissertativas, como short answer ou short paragraph. O programa é case sensitive, o que significa que só aceita como certa uma resposta idêntica à do gabarito, até mesmo no que diz respeito a letras maiúsculas, minúsculas, espaços ou acentuação.
Devido a essas dificuldades, tivemos obstáculos que impediram a elaboração de algumas tarefas tal como elas haviam sido planejadas inicialmente.
Nas páginas de conteúdo gostaríamos de colocar links no corpo do texto da instrução que remetessem o aluno diretamente para o espaço onde ele iria realizar a tarefa. Isso não foi possível e acarretou em textos de instrução mais longos e detalhados, além de ter impedido que o caminho do aluno para chegar a certas tarefas fosse mais curto. Para o aluno ter acesso aos quizzes, por exemplo, é necessário entrar em uma página onde estão armazenados todos os exercícios de quizzes do curso, que aparecem em forma de lista (figura 36). Nessa página com a lista de quizzes, o aluno encontra o quiz indicado (pelo nome dado na página de conteúdo) e depois de clicar no nome do quiz, ele vai para a página onde o exercício deve ser feito. Nesse caso, tínhamos a idéia de colocar na página de conteúdo – onde aparece a instrução para o aluno fazer a tarefa – um link que o remetesse diretamente para o exercício de quiz. Se isso fosse possível, o aluno iria direto para a tarefa, sem ter que passar pela página da lista de quizzes, o que diminuiria o tempo gasto pelo aluno até chegar no exercício e também reduziria a extensão do texto de instrução na página de conteúdo.
Um outro exemplo é que, inicialmente, gostaríamos de associar o arquivo de som ou vídeo na mesma página da tarefa que estava vinculada ao arquivo. Há várias tarefas que, para serem realizadas, implicam que o aluno precisa ouvir o som ou ver o vídeo correspondente simultaneamente. Muitas dessas tarefas são elaboradas na ferramenta de quizzes e, portanto, tínhamos a intenção de incluir um link (ou ícone clicável) dentro do próprio quiz remetendo ao CD, permitindo ao aluno acessar o arquivo de som a partir da própria página do exercício. Isso não foi possível, pois apenas conseguíamos vincular o arquivo de som a partir da página de conteúdo, o que acarretava um percurso menos simplificado para o aluno realizar a tarefa.
A figura 16 a seguir mostra exemplos de algumas instruções em páginas de quizzes.
No primeiro exemplo da figura 16, a página “Group A – Details” refere-se a uma página de conteúdo. Isso significa que o aluno, estando no quiz, deve voltar à página de conteúdo para poder encontrar o ícone referente ao arquivo de som ligado à tarefa.
No segundo exemplo da figura 16, a instrução click on the first CD icon refere- se ao um ícone de som que aparece na página de conteúdo. Novamente, o aluno deve sair do quiz e voltar à página de conteúdo para poder ter acesso ao arquivo de som.
No terceiro exemplo, a instrução First watch only Phillip Payton refere-se a um arquivo de vídeo, que pode ser acessado apenas na página de conteúdo.
Figura 16: Instruções em páginas de quiz
A figura 17 a seguir mostra exemplos do caminho inverso, isto é, de instruções na página de conteúdo.
No primeiro exemplo da figura 17, os itens page 7.1 (Group A) e 7.2 (Group B) referem-se a outras páginas de conteúdo e “QUIZ” icon refere-se a um ícone clicável que aparece no menu da página (não no corpo do texto dentro da página). Seguindo essa instrução, o aluno deve sair dessa página onde ele se encontra, ir a uma outra página de conteúdo e de lá ter acesso ao ícone que o remeterá à página com a lista dos quizzes. Somente então ele tem acesso ao exercício que deve ser feito.
O segundo exemplo da figura 17 mostra o ícone clicável que remete ao arquivo de som (isto é, ao CD que continha os arquivos de som e vídeo). O ícone de acesso ao arquivo de vídeo também só pode ser acessado a partir da página de conteúdo.
Figura 17: Instruções nas páginas de conteúdo
Com a possibilidade de incluirmos links, de associarmos ferramentas entre si e de inserirmos arquivos em ferramentas que não fossem apenas as páginas de conteúdo, muitos desses problemas poderiam ter sido evitados, tornando a navegação mais fácil para o aluno, as instruções mais simplificadas e mais claras e o tempo de elaboração do design menor. Devido às dificuldades, muitos aspectos do planejamento anterior ao design têm que ser readaptados. Além disso, antes de pensarmos em readaptá-los, perde- se muito tempo tentando montar as tarefas da forma como planejada, até que se perceba que não é possível fazê-lo.