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No decorrer da pesquisa entendemos a importância dos professores leigos para educação rural no contexto local e global. Esses atores construíram suas

histórias de vida por intermédio da educação e contribuíram no âmbito de suas possibilidades, com as escolas das comunidades rurais, ainda que se reconheça o descaso das mesmas, pelo poder público, no decorrer da história desse país. Muitos docentes possuem uma vida de lutas e vitórias por ter sido protagonista, com muito esforço e dedicação, em relação a educação rural.

Portanto é de extrema importância reconhecer a história desses sujeitos, que foram verdadeiros educadores, também foram pessoas que trabalharam sem muita preparação profissional, pois, à época, bastava saber ler e escrever. As professoras da comunidade de São Roque não possuíam acompanhamento pedagógico por parte da secretaria de educação e atuavam sem disponibilidade de material de apoio para que as aulas fossem ministradas com o mínimo de embasamento teórico.

Também atuavam enfrentando dificuldades em relação aos estudantes, pois, na maioria dos casos, os mesmos não possuíam cadernos nem lápis, e os deveres eram escritos em papelões e depois de decorado eram apagados para serem usados em outras aulas.

Essa era uma realidade na Comunidade São Roque, mas foi essa educação rural que deu suporte à população desse lugar e sua materialidade se deve, essencialmente, a persistência das professoras, por mais dificuldades que as mesmas tenham encontrado pelo caminho. Elas não baixaram a guarda em nenhum momento da historia, pois sempre havia quem ministrasse a aula para o alunado, não importava o espaço usado para esse fim.

No transcorrer da pesquisa descobrimos que muitos foram os professores e professoras que passaram e construíram a história da educação rural na comunidade São Roque, em sua grande maioria, mulheres que assimilaram a importância da educação rural, com todos os seus problemas e vícios, para a população moradora da comunidade. Buscamos mostrar, por meio das entrevistas feitas com 05 (cinco) docentes como se deu o processo de vida profissional e como enfrentaram as dificuldades e desafios da época.

Dentre os cincos professores inicialmente escolhidos, como parte da história da educação rural em São Roque, desde aqueles e aquelas que ensinavam em suas casas, até os mais atuais, destacamos duas professoras que entendemos de extrema relevância para a nossa compreensão acerca do que acontecia dentro das escolas rurais e como essas docentes se sobressaíram perante desordens impostas pela falta

de incentivos e políticas publicas que assegurassem uma educação de qualidade para os campesinos.

Nosso critério de escolha foi pela história de vida de cada uma, pela contribuição no processo de ensino aprendizagem de toda a população da comunidade e pela atuação em diferentes épocas. Uma cujo nome é Luzia Medeiros que atuou na escola a partir de 1964. A outra foi à última professora da escola, antes do seu fechamento. Seu nome é Josélia Medeiros.

Em relação às dificuldades enfrentadas por elas, mas também os sucessos que tiveram durante as práticas de docências na escola, de um modo geral, elas deixaram claro que foi predominantemente positiva as ações, com momentos de extremas dificuldades. As duas professoras, mesmo em períodos diferentes da história, se depararam com situações de extremo abandono e falta de interesse por parte das autoridades em relação à educação dos campesinos. Como podemos vê na fala da professora Luzia:

“Na época não havia quadro negro nem giz, os deveres eram todos feitos à mão e a sala era com alunos misturados, sem falar na falta de material”;

“Como também a falta de material para dar aula foi minha maior dificuldade, pois tudo que fazia era na mão e baseado no meu próprio planejamento”.

Essa época, a qual a professora Luzia se refere é o início da década de 1960, onde a mesma ensinava em uma pequena casa, sem nenhuma estrutura de trabalho e sem material pedagógico que desse suporte a essas aulas. Não há como não reconhecer que há um protagonismo nas ações da professora, uma vez que a mesma atuava com muitas dificuldades. A professora Luzia atentava para o planejamento das suas ações, caso contrário não teria como enfrentar as dificuldades.

Quanto a Profª Josélia que atuou precisamente nos anos se 1980 até meados dos anos dois mil (2000), período de muitas ameaças e marco da paralisação das escolas rurais da comunidade São Roque. Em relação ao acompanhamento e ajuda em relação as suas atividades, disse:

“Sim, sentia falta de um acompanhamento pedagógico ou outra pessoa para falar sobre as aulas (…), muita falta de material para realizações das aulas, salas multisseriadas que dificultava o aprendizado dos alunos”.

Observamos que apesar das épocas serem distintas e as histórias diferentes, e tendo havido avanços e melhorias na educação do campo, através das lutas dos movimentos sociais e da legislação que começa a ganhar corpo nos anos de 1990, as dificuldades da professora Josélia Medeiros não eram muito diferente..

Outro ponto importante que podemos ressalvar tem relação com a paralisação das escolas da comunidade São Roque, pois foi algo muito emblemático para nosso território. O fechamento das escolas culminou com o fim de uma era, onde as crianças e jovens da comunidade tinham suas aulas nos grupos escolares locais, um início de educação sem grandes impactos já que “estavam em casa”.

Como podemos conferir no primeiro capitulo, o fechamento das escolas rurais na comunidade São Roque se concretizou no ano 2003, quando o poder público municipal, decidiu por terminar com as atividades das escolas, e conduzir os alunos para a escola nucleada da zona urbana. Essa decisão se deu através de um decreto municipal, após uma reunião feita com os pais dos alunos. Nessa reunião foi explanado que seria o melhor para as crianças e que a mesmas teriam melhores resultados de aprendizagem na cidade. Sem um grupo que oferecesse suporte para as decisões a professora Josélia concordou:

“Concordei, porque não tinha o que fazer na época (…), hoje já penso diferente (…), se fosse para voltar tudo de novo, seria muito diferente”.

Quando a professora Josélia foi indagada se essa paralisação das escolas rurais e o encaminhamento das crianças para a cidade, havia sido proveitoso para as aprendizagens e era a garantia do sucesso escolar das mesmas, a própria professora fez uma avaliação a partir de aspectos positivos e negativos, mas atribuiu o que era positivo, a falta de condições de trabalho, assim falou:

“Bem! Tem uns pontos negativos e positivos (…), positivo porque [agora] tem o apoio mutuo de uma equipe, pois antes eu era tudo (…), e negativo foi que a comunidade ficou muito isolada”.

Como é possível enxergar, não há na fala da professora Josélia uma afirmação positiva baseada em fatos reais de melhoria de aprendizagem das crianças. Também de avanço para a comunidade, pelo contrário, esse foi o ponto negativo.

Quanto à professora Luzia, a mesma não acompanhou essa transição, haja vista que já se encontrava aposentada há muito tempo e não participava desse processo, conforme ela própria afirma:

“Não posso opinar muito, pois já não estava mais ensinando nessa época, por isso não sei o que falar”

O que se percebe na fala da professora é uma ausência de envolvimento, fato compreensivo, pois seu tempo de aposentada não permitia mais esse envolvimento. Também não opinou, e justificou justamente por esse caminho.

A professora Josélia, não conseguiu compreender, à época que o fechamento das escolas seria um dano para a comunidade, mas conseguiu demonstrar que hoje faria diferente. A decisão atual, certamente, é uma avaliação após esse tempo de fechamento.

Ela entendeu que na cidade e em escolas nucleadas os estudantes do campo são descriminados e isolados da sua comunidade e da população da própria cidade, ainda reconhecendo que os estudantes têm maior suporte no que se refere aos materiais pedagógicos e acompanhamentos de uma equipe gestora e uma melhor estrutura física melhorada.

Percebemos nitidamente, por meio das falas das professoras que para essas escolas voltarem a funcionar no campo precisaria mudar o sistema de ensino para poder segurar educação à demanda de alunos residentes na comunidade. Portanto diante de tudo o que foi dito em relação ao fechamento das escolas, não vislumbramos propósitos políticos de disposição de lutar para a mudança nos rumos dessa história, por parte dos moradores ou movimentos que tenham nascido na própria comunidade. As professoras não apontam esse caminho que é o percurso histórico da Educação do Campo no Brasil.

No que se refere aos desafios enfrentados pelas docentes, no decorrer das suas histórias, elas relatam que se superaram por diversas vezes, a cada embate vivenciado, desde o começo, porque as mulheres sofriam por preconceitos e travavam lutas diárias, em busca de qualidade de vida melhor para elas e suas famílias. Dentre os seus maiores desafios, em relação ao que foi feitos pelos alunos que necessitavam de ensino, foi a constante necessidade de conhecimentos das mesmas.

Nas escolas, como já foi dito anteriormente, havia falta de estrutura física e material, os salários eram baixos, o planejamento acontecia sem acompanhamento

pedagógico, as salas eram lotadas, as distancias percorridas pelos estudantes eram grandes e, em sua maioria, faziam o trajeto a pé ou a cavalo. Outros desafios foram objeto de preocupação da professora Josélia, conforme explanou:

“Eu mesma era quem fazia tudo… e tinha os trabalhos mimeografados e muita leitura (...), assim era que os alunos aprendiam a lê de verdade”;

“Sentia falta de um acompanhamento pedagógico ou outra pessoa para falar sobre as aulas (...), muita falta de material para realizações das aulas”

A professora Josélia ainda falou sobre o desafio que foi lecionar quando ainda estava cursando o antigo segundo grau, disse que essa situação se prorrogou por vários anos, até a mesma prestar o vestibular para a Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde foi aprovada e cursou Pedagogia. Josélia estudava pela manhã, morava na zona rural e fazia o trajeto para a escola urbana, todos os dias, desde quando foi atuar na cidade.

Quanto à professora Luzia, a mesma falou que o seu maior desafio foi superar a falta de orientação e ter que lecionar com falta de material pedagógico e humano e com as salas cheias de alunos de series diferentes. Para ela, as atividades e deveres eram feitos a mão, pois não existia quadro negro:

“Entre os maiores desafios encontrado por mim, foi a falta de acompanhamento e o fato de ensinar a diferentes turmas no mesmo horário e local, sem nenhum material que pudesse me ajudar”.

Deste modo, entendemos que os desafios das duas professoras não foram muitos diferentes, e nem superados ao longo da história da educação rural na comunidade de São Roque. Elas apresentam as mesmas causas, levando-nos a refletir que no decorrer do tempo pouca coisa foi mudada, apesar dos avanços e vitórias em relação aos movimentos sociais do campo e a legislação sobre a Educação do Campo. Esses fatos nos fazem também perceber que a realidade local permaneceu sem grandes alterações, exceto pelo fechamento das escolas, que na cidade continua sob o descaso e a falta de suporte do poder público.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao finalizar esse trabalho, podemos considerar que a educação rural no Brasil foi extremamente negligenciada pelos poderes público nacional e local. Em seu percurso histórico, desde o período monarca, passando pela república, atravessando o regime militar que assolou o Brasil, principalmente no campo da educação, diversos decretos e leis marcaram uma concepção tradicional de educação rural. Essa concepção, já muito estudada, não favorece pensar uma formação dos sujeitos campesinos que alie saberes, culturas e valores territoriais e o reconhecimento e garantias que assegurem os direitos dos campesinos.

Foi na década de 1980, por meio da constituinte promulgada em 1988, em seu texto de garantias de ensino de qualidade para todos os cidadãos brasileiros, que a Educação rural passa a ter um pouco de respaldo do setor público. Sendo que esse texto é insuficiente para ser generalizado no sentido de atender a necessidade da educação do campo. O texto da constituição, em geral, não assegura os direitos dos moradores do campo que, em sua maioria, eram estereotipados, vistos como atrasados e sem importância para o crescimento do Estado nacional. Este Estado tem em mira a sociedade urbana e seus interesses.

No âmbito local esse modelo de educação não foi diferente do restante do país, pois pouco se podia fazer sem o financiamento público nacional e local. O que aconteceu na localidade foi que a população rural sofreu pelo esquecimento e falta de comprometimento dos governos municipais, em relação ao crescimento da educação no meio rural. Os propósitos dessa concepção de educação rural foram impulsionar os moradores do campo a não migrarem para as cidades, no entanto, não havia preocupações com uma educação que respeitasse os saberes comunitários e culturas campesinas em sua diversidade.

As melhorias na educação do campo só apareceram após a organização e luta dos movimentos sociais do campo e intelectuais que pensavam a educação dos moradores do campo. A luta travada desde o fim dos anos de 1970, apesar do regime vigente no país, conseguiu mobilizar os governos subsequentes para que fosse desencadeada uma serie de decretos e leis que asseguram os direitos dos campesinos a uma educação que respeitasse suas comunidades e histórias.

O avanço mais significativo foi a 1ª Conferência Nacional de Educação Básica do Campo, em 1998. Essa conferência corrobora com uma concepção de Educação

do Campo, cuja qualidade seja social e tinha em vista a vida dos campesinos. O campo pode ser favorecido em suas particularidades, especialmente através da pedagogia da alternância que busca fazer essa interligação da escola com os demais setores da sociedade, harmonizando os conhecimentos da sala de aula com os conhecimentos de vida de cada um e as questões da comunidade.

Com relação às escolas da comunidade São Roque, atribuímos uma vanguarda pelo nascimento na década de 1930, mas um atraso quando do seu fechamento, no início da década de 2000. Entendemos que a paralisação das escolas, ainda que tenha havido legalidade, foi arbitrária e os argumentos apresentados pelo poder público, claramente, estão embasados em compreensões ultrapassadas de que a educação urbana seria favorecedora da aprendizagem de qualidade.

Quanto à importância dos professores leigos, observamos por meio de leituras documentais e depoimentos que esses sujeitos foram os responsáveis pela construção da educação rural na comunidade São Roque. Tendo por base as entrevistas com alguns atores que fizeram parte dessa construção, ficou entendido que as lutas travadas foram merecedoras de aplausos.

A persistência dos professores em trabalhar nas escolas rurais, proporcionou um ensino mais comunitário, fato que contribuiu para a população campesina continuar em suas terras. Esse comprometimento com a educação permaneceu por todo o decorrer da história do século XX, até o fechamento das escolas da comunidade.

Dessa forma, consideramos que a educação rural que passou por diversas negações até que a luta dos movimentos sociais do campo e da intelectualidade brasileira construísse uma nova concepção, a educação do campo. O que se espera é que os campesinos sejam reconhecidos como sujeitos capazes, pensantes e atuantes na sociedade, deixando de lado os estereótipos nos quais os mesmos foram associados no decorrer da história brasileira.

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APÊNDICE I: QUESTÕES DA ENTREVISTA COM OS PROFESSORES E PROFESSORAS DA COMUNIDADE SÃO ROQUE

1. Seu nome, sua idade, sua formação;

2. Com qual idade começou a ser professora da escola rural ...?

3. Como foi a decisão de ser professora? (Chamado, oferecimento, tradição familiar)

4. Lembra do que sentiu ao saber que ia assumir a docência da escola, o que fez? 5. Exerceu outra função além de professora? Isso contribuiu? (Pode oferecer

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